
Por que Paulo não condenou a escravidão?
Efésios 6:5 aprova a escravidão?
Servos, obedecei aos vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, em sinceridade do vosso coração, assim como a Cristo;
Resposta curta
A pergunta é legítima e a resposta honesta é que o Novo Testamento regula a relação sem abolir a instituição, e isso é desconfortável.
O que o texto faz, e que era inédito, está no versículo 9: "e vós, senhores, fazei o mesmo a eles, deixando as ameaças; sabendo também que o Senhor deles e vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas".
A frase "fazei o mesmo" dirige ao senhor a obrigação que acabou de ser dada ao escravo, e a afirmação de que os dois têm o mesmo Senhor destrói a base da distinção.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoPaulo lembra aos senhores que têm o mesmo Senhor que os escravos, e apresenta esse Senhor "tomando a forma de servo" — *doulos*, exatamente a palavra usada aqui para escravo. O modelo invocado é o de alguém que assumiu voluntariamente a condição que o trecho descreve, e declara o resultado.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A pergunta é justa, e a resposta honesta é desconfortável: esse texto regula a relação entre escravos e donos sem proibir a escravidão em si. Isso não significa aprovação — outro texto do mesmo autor chama quem trafica pessoas de criminoso contra a fé.
O que era inédito para a época está logo depois: a mesma obrigação de respeito é dirigida ao dono, lembrando que ele tem o mesmo Senhor que o escravo, sem tratamento privilegiado. Numa carta pessoal sobre um escravo fugitivo, esse autor pede que ele seja recebido não mais como escravo, mas como irmão amado — sem ordenar a alforria, mas deixando isso quase inevitável. O texto não aboliu a escravidão, mas plantou ideias que abolicionistas cristãos usaram depois.
Contexto histórico
A escravidão greco-romana era diferente da escravidão racial das Américas. Não era hereditária por raça, incluía pessoas de todas as origens, permitia alfabetização e exercício de profissões, e a manumissão era comum.
Isso não a torna aceitável, e o próprio Novo Testamento a critica: lista *andrapodistes* — traficante de pessoas — entre os que agem contra a sã doutrina.
Estima-se que um terço da população do império fosse escrava. Uma pregação abolicionista teria sido lida como sedição, e comunidades cristãs eram minúsculas e sem poder político.
O código doméstico de Efésios instrui os três pares da casa, e este é o terceiro. O padrão se repete: o lado subordinado é instruído, e o lado superior também.
O detalhe que impressiona é que os escravos são endereçados diretamente. Nos códigos greco-romanos, escravos não eram interlocutores morais — eram propriedade a ser administrada.
Aprofundamento
A carta a Filemom é o texto que mais ilumina a questão. Onésimo, escravo fugido, se converte e Paulo o envia de volta com uma carta.
O que Paulo escreve é notável pelo que não ordena e pelo que pede. Ele diz que poderia mandar, mas prefere rogar. Pede que Filemom receba Onésimo "não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado". Diz "recebe-o como a mim mesmo". E acrescenta: "se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta".
E termina com uma frase que muitos consideram deliberada: "confiado na tua obediência, sabendo que ainda farás mais do que digo".
A carta não ordena a alforria. Coloca Filemom numa posição em que manter Onésimo como escravo depois daquilo seria muito difícil.
Sobre o argumento de que o Novo Testamento deveria ter condenado a instituição diretamente, ele é sério e vale reconhecê-lo. Cristãos usaram esses textos, por séculos, para justificar a escravidão nas Américas — e é um uso que o próprio contradiz, já que o tráfico de pessoas está listado ali.
O argumento do outro lado é que o Novo Testamento planta princípios que corroem a instituição: mesmo Senhor, sem acepção de pessoas, irmão amado, não há servo nem livre.
Historicamente, foram esses princípios que abolicionistas cristãos usaram — de Wilberforce a Frederick Douglass —, e foram eles que prevaleceram.
A resposta honesta reconhece as duas coisas: o texto não aboliu, e forneceu o que aboliu.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Bíblia aprova a escravidão.
lista traficantes de pessoas entre os que agem contra a sã doutrina, e Filemom pede que um escravo seja recebido "como irmão amado". A regulação de uma prática existente não é aprovação dela.
Dizem que:O Novo Testamento não fez nada a respeito.
dirige ao senhor a mesma obrigação dada ao escravo e afirma que os dois têm o mesmo Senhor. Escravos são endereçados como interlocutores morais, o que os códigos greco-romanos não faziam.
Dizem que:A escravidão romana era igual à das Américas.
Não era hereditária por raça, incluía todas as origens, permitia profissões e alfabetização, e a alforria era comum. Isso não a torna aceitável — e a diferença importa para ler os textos.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Estratégia de subversão pelos princípios
O Novo Testamento planta o que corrói a instituição — mesmo Senhor, sem acepção, irmão amado — sem confronto direto, inviável para comunidades minúsculas. É a leitura mais difundida.
Acomodação a uma estrutura da época
Os textos refletem o mundo em que foram escritos, e a crítica de que não abolem é procedente. Reconhece o problema sem resolvê-lo, e é honesta quanto ao uso histórico dos textos.
No original3 termos
δοῦλοςdoulos
"Escravo, servo". A mesma palavra aplicada a Cristo em , "tomando a forma de servo".
ἀνδραποδιστήςandrapodistes
"Traficante de pessoas, sequestrador para escravizar". Listado em entre os que agem contra a sã doutrina.
προσωπολημψίαprosopolempsia
"Acepção de pessoas". Literalmente "receber a face" — julgar pela aparência ou posição. Negada de Deus em .
O que fazer com isso
O critério que Paulo aplica no versículo 9 é o mais transferível do trecho: "o Senhor deles e vosso está no céu, e para com ele não há acepção de pessoas".
Qualquer relação de autoridade descrita na Bíblia vem com essa moldura. Quem manda também responde, e responde ao mesmo juiz de quem obedece.
A instrução aos escravos, por sua vez, é para trabalhar "como a Cristo", e não como quem serve a olho de quem observa — "não servindo à vista, como para agradar aos homens".
Quem lê isso hoje numa relação de trabalho encontra ali algo aplicável, desde que não confunda uma coisa com a outra: a analogia é sobre o modo de servir, e a instituição descrita não tem equivalente legítimo hoje.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que Paulo pediu a Filemom?
Que recebesse Onésimo "não já como servo, antes, mais do que servo, como irmão amado", e "como a mim mesmo". Ele não ordena a alforria, e termina dizendo que sabe que Filemom fará mais do que foi pedido.
E 1 Coríntios 7:21?
Paulo escreve: "foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; mas, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião". A tradução é discutida, e a maioria das versões entende que ele recomenda buscar a liberdade quando possível.
Os textos foram usados para defender a escravidão?
Foram, extensamente, nas Américas. E foram outros textos bíblicos — , , Filemom — que abolicionistas cristãos usaram. A disputa aconteceu dentro da própria Bíblia, e um dos lados venceu.
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