
Deus retira o perdão de quem não perdoa?
O que significa a parábola do servo incompassivo?
Todavia, depois daquele servo sair, achou um companheiro de serviço seu, que lhe devia cem denários; então o agarrou e o sufocou, dizendo: “Paga-me o que me deves!” Então o seu colega se prostrou diante dos seus pés, e lhe suplicou, dizendo: “Tem paciência comigo, e tudo te pagarei”. Mas ele não quis. Em vez disso foi lançá-lo na prisão até que pagasse a dívida.
Resposta curta
A parábola termina numa frase que assusta com razão: o senhor entrega o servo aos torturadores, e Jesus acrescenta que assim fará o Pai celestial com quem não perdoar de coração.
Antes de discutir o que isso significa, vale medir as duas dívidas, porque a história inteira está construída sobre a distância entre elas.
O servo devia dez mil talentos. O colega devia cem denários. Um talento equivalia a cerca de seis mil denários, o que põe a primeira dívida em torno de sessenta milhões de denários — sessenta mil dias de trabalho para cada dia devido pelo segundo.
A proporção é de aproximadamente seiscentos mil para um. Não é exagero retórico do intérprete: é aritmética do texto.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO senhor da parábola cancela uma dívida impagável sem receber nada — é a figura do perdão que o Novo Testamento atribui a Deus em Cristo, e usa a mesma imagem contábil ao falar da cédula que era contra nós, cravada na cruz. O contraste está no servo: recebeu o cancelamento e cobrou o troco. fecha a lógica com a ordem invertida — perdoai como também Deus vos perdoou.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Essa história termina numa cena que assusta com razão: um homem recém-perdoado de uma dívida gigantesca se recusa a perdoar um colega que devia bem menos, e o dono acaba cancelando o perdão dado.
Vale entender o tamanho das dívidas. A primeira era enorme — algo como sessenta milhões de dias de trabalho, impossível de pagar mesmo vendendo tudo o que a pessoa tinha. A segunda era real, mas bem menor — cerca de cem dias de trabalho. A diferença é de mais ou menos seiscentas mil vezes.
O homem perdoado só pedira mais prazo — promessa que a conta já desmentia. E recebeu não prazo, mas o cancelamento total. Minutos depois, agarrou o colega pelo pescoço cobrando o pouco que lhe era devido.
Essa história liga diretamente o perdão recebido ao perdão que se deve passar adiante. As tradições cristãs divergem sobre até onde isso vai, mas o vínculo está claramente ali.
Contexto histórico
A parábola responde a uma pergunta de Pedro. Ele pergunta quantas vezes deve perdoar o irmão que peca contra ele e propõe sete, número já generoso diante do costume corrente.
Jesus responde com setenta vezes sete — expressão que ecoa a vingança de Lameque em e a inverte — e então conta a história.
O cenário é de administração provincial. Servos aqui não são escravos domésticos, e sim funcionários de alto nível responsáveis por receitas, o que torna plausível uma dívida enorme.
Sobre a escala, há um ponto de comparação registrado: Josefo informa que o tributo anual de regiões inteiras da Palestina se contava em algumas centenas de talentos. Dez mil talentos é, portanto, uma quantia que ultrapassa a arrecadação de províncias.
O número escolhido combina o maior algarismo do grego, miríade, com a maior unidade monetária, o talento. A soma é deliberadamente a maior expressável — o equivalente antigo de dizer uma quantia infinita.
Aprofundamento
A pergunta pesada é se a parábola ensina que o perdão divino pode ser revogado. Ela merece ser respondida pela estrutura do texto, e não por preferência doutrinária.
Três observações delimitam o problema.
A primeira é que a dívida do servo era, por construção, impagável. O texto diz que "ele não tinha com que pagar", e a venda dele, da família e dos bens não cobriria uma fração do montante. A sentença final — pagar tudo o que devia — é, portanto, uma condição que nunca se cumprirá. Comentaristas divergem sobre o alcance disso: para uns, indica pena sem termo; para outros, indica que a imagem foi levada ao limite e não deve ser espremida.
A segunda é o que o servo pede e o que recebe. Ele pede prazo — "tem paciência comigo, e tudo te pagarei" —, uma promessa que a aritmética já desmentiu. O senhor não concede prazo: perdoa a dívida. O texto marca a diferença entre o que foi pedido e o que foi dado.
A terceira é o objeto da revogação. O que a parábola descreve não é um perdão que expira sozinho por prazo vencido, e sim um perdão retirado diante de uma recusa concreta e imediata — o servo sai da audiência e agarra o colega pelo pescoço. A sequência é imediata no texto.
O Novo Testamento traz a mesma ligação fora da parábola. , logo depois do Pai Nosso, diz que se não perdoardes aos homens, também vosso Pai não vos perdoará. formula que o juízo será sem misericórdia sobre quem não usou de misericórdia. A parábola não é um caso isolado, e ler apenas ela como se fosse uma exceção difícil não resolve nada.
As tradições cristãs divergem sobre como conciliar isso com a segurança da salvação, e é honesto dizer que a divergência é real e antiga. O que o texto estabelece sem ambiguidade é a ligação: quem recebeu e não repassa é descrito como tendo perdido o que recebeu.
Um detalhe frequentemente esquecido: a dívida de cem denários não é ridícula. São cerca de cem dias de trabalho, quantia significativa para um trabalhador. A parábola não diz que ofensas entre pessoas são irrelevantes — diz que são de outra ordem de grandeza.
Sobre a palavra traduzida por torturadores, ela designa carcereiros encarregados de extrair pagamento, prática documentada no mundo antigo. A imagem é de prisão por dívida, não de tormento eterno como categoria teológica, embora Mateus certamente pretenda que ela aponte para além do enredo.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A dívida do servo era grande, mas pagável com esforço.
Dez mil talentos equivalem a cerca de sessenta milhões de denários, quantia que ultrapassa a arrecadação anual de províncias inteiras segundo Josefo. O texto declara que ele não tinha com que pagar, e a promessa de quitar é parte do absurdo da cena.
Dizem que:A parábola ensina que ofensas entre pessoas não têm importância.
Cem denários eram cerca de cem dias de trabalho, quantia relevante para um trabalhador. A parábola não minimiza a segunda dívida — coloca-a ao lado de uma seiscentas mil vezes maior.
Dizem que:Perdoar significa dizer que não houve dano.
Nos dois casos da parábola a dívida é real e reconhecida como tal. O senhor não declara inexistente o que era devido; ele cancela o que existia, que é operação diferente.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
O perdão recebido obriga ao perdão concedido
Leitura majoritária, apoiada na pergunta do senhor no versículo 33 e no paralelo direto de . A ordem é sempre receber primeiro, repassar depois.
Advertência sobre a revogação do perdão
Enfatiza o desfecho e a frase final sobre o Pai celestial. As tradições cristãs divergem sobre como conciliá-la com a segurança da salvação, e a divergência é antiga.
No original3 termos
μυρίων ταλάντωνmyrion talanton
"Dez mil talentos". Combina o maior algarismo do grego com a maior unidade monetária — a maior quantia expressável na língua.
βασανισταῖςbasanistais
"Torturadores", no sentido de carcereiros encarregados de extrair pagamento. Descreve prisão por dívida, prática documentada no mundo antigo.
ἔπνιγενepnigen
"Sufocava", no imperfeito. O verbo é físico e violento, e o tempo indica ação em curso: a cena não é de cobrança formal.
O que fazer com isso
A parábola é usada com frequência para pressionar quem foi ferido a perdoar rápido, e o efeito costuma ser o contrário do pretendido — porque acrescenta culpa a quem já está machucado.
O texto não trabalha assim. A ordem que ele estabelece é sempre a mesma: primeiro o servo é perdoado, depois ele deveria perdoar. A capacidade de repassar é apresentada como decorrência de ter recebido.
Há uma frase do senhor que dá o critério, e ela é uma pergunta: "não tinhas tu a obrigação de ter tido misericórdia... assim como eu tive misericórdia de ti?". O padrão não é a gravidade da ofensa sofrida; é o que já foi cancelado a favor de quem julga.
Isso não obriga ninguém a chamar de pequeno o que doeu. Cem denários eram cem dias de trabalho, e a parábola não os chama de nada. Ela apenas os coloca ao lado de sessenta milhões.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Richard Chenevix Trench. Notes on the Parables of Our Lord, 1841.
- Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. Commentary Critical and Explanatory, 1871.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quanto valia um talento?
Cerca de seis mil denários, e um denário era o salário de um dia. Dez mil talentos equivalem, portanto, a aproximadamente sessenta milhões de dias de trabalho.
A parábola significa que posso perder a salvação?
As tradições cristãs divergem, e a divergência é antiga e séria. O que o texto estabelece sem ambiguidade é a ligação entre o perdão recebido e o concedido — a mesma que afirma fora de qualquer parábola.
Setenta vezes sete é um número literal?
É expressão de quantidade sem conta, e ecoa , onde Lameque promete vingança setenta vezes sete. Jesus inverte a fórmula da vingança para descrever o perdão.
Temas
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