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Significado Bíblico
Costumes da épocaintermediária
Ilustração da categoria Costumes da época

Homens usavam brincos na Bíblia?

Homens usavam brincos na Bíblia?

E disse-lhes Gideão: Desejo fazer-vos uma petição, que cada um me dê os pendentes de seu despojo. (Porque traziam pendentes de ouro, que eram ismaelitas.) E eles responderam: De boa vontade os daremos. E segurando uma roupa de vestir, lançou ali cada um os pendentes de seu despojo. E foi o peso dos pendentes de ouro que ele pediu mil e setecentos siclos de ouro; sem contar os ornamentos, e as joias, e vestidos de púrpura, que traziam os reis de Midiã, e sem os colares que traziam seus camelos ao pescoço.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Depois de vencer os midianitas, Gideão recusa a oferta do povo para se tornar rei, mas faz um único pedido: que cada guerreiro lhe dê os brincos de ouro tomados como despojo dos inimigos. O texto explica que os midianitas usavam esses adornos porque eram ismaelitas, povo nômade do deserto, aparentado a Israel pela linhagem de Abraão, entre quem o uso de brincos era comum tanto para homens quanto para mulheres.

O resultado impressiona: mil e setecentos siclos de ouro, sem contar outros ornamentos, as vestes de púrpura dos reis midianitas e os colares dos camelos. O detalhe expõe um costume real da Antiguidade: o brinco, na cultura do Oriente Próximo, não era marca exclusiva de um gênero, mas sinal de riqueza, status social ou pertencimento tribal entre os povos do deserto.

Em palavras simples

Depois de vencer os midianitas, Gideão pede que cada soldado lhe dê os brincos de ouro tirados dos inimigos, em vez de aceitar ser rei. O texto diz que os midianitas usavam brincos porque eram parentes dos ismaelitas, um povo do deserto. Isso mostra algo que soa estranho hoje: na Antiguidade, homens também usavam esse tipo de joia, não só mulheres. Não era sinal de feminilidade nem quebra de alguma regra — era um costume comum de adorno e riqueza entre os povos daquela região, como outros textos da Bíblia também mostram.

Contexto histórico

relata o clímax da vitória de Gideão sobre os midianitas, um dos ciclos de opressão e libertação que estruturam o livro de Juízes. Depois de derrotar o exército inimigo com apenas trezentos homens (), Gideão persegue e captura os reis midianitas Zeba e Zalmuna (). Em seguida, os israelitas, gratos, oferecem a Gideão e a seus descendentes o governo hereditário sobre o povo (). Gideão recusa, afirmando que só o Senhor deveria reinar sobre Israel (), resposta que muitos comentaristas consideram um dos pontos altos morais do livro.

É nesse momento que vem o pedido dos versículos 24 a 26: em vez da coroa, Gideão pede o ouro do despojo, especificamente os "pendentes" — brincos ou pingentes usados nas orelhas ou no nariz. O texto explica que os midianitas os usavam "porque eram ismaelitas": Midiã e Ismael eram, segundo Gênesis, ambos descendentes de Abraão, um pela linha de Quetura e outro pela linha de Hagar, e os dois nomes eram usados de forma praticamente intercambiável para designar tribos nômades do deserto arábico que viviam do comércio de caravanas (compare , onde mercadores ismaelitas e midianitas aparecem lado a lado comprando José).

Entre esses povos nômades, joias de ouro, inclusive brincos usados por homens, eram sinal comum de riqueza fácil de transportar em viagens, além de marcarem status tribal. A Bíblia registra costume parecido entre os próprios israelitas: em , Jacó recolhe brincos ligados a deuses estrangeiros; em , Arão pede aos homens, mulheres e filhos de Israel que tirem os brincos de ouro que usavam, para fundir o bezerro de ouro. O costume, portanto, não era exclusividade midianita nem definia identidade de gênero como se popularizou depois; era um traço cultural amplo do Oriente Próximo antigo, o que torna compreensível o pedido de Gideão e a generosidade da resposta do povo.

Aprofundamento

O termo hebraico traduzido aqui por "pendentes" é נֶזֶם (nezem), palavra que designa tanto brincos usados na orelha quanto argolas usadas no nariz — o contexto de cada passagem determina qual peça está em vista. Em , por exemplo, o mesmo termo descreve o pingente de ouro que o servo de Abraão entrega a Rebeca; em , aparece ao lado de um anel para o nariz. A palavra em si não distingue gênero: nezem podia adornar homens ou mulheres, e o livro de Juízes menciona esse costume midianita sem qualquer comentário moral, como quem descreve um detalhe de vestuário, não uma transgressão.

O peso final, mil e setecentos siclos de ouro, é significativo mesmo sem uma conversão exata para gramas, já que o siclo variava um pouco conforme a época e a região, e o texto não permite maior precisão. Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que a soma reunida ali, somada às vestes de púrpura, aos colares dos camelos e aos demais ornamentos do versículo 26, descreve um despojo de guerra excepcionalmente rico, coerente com o papel histórico de Midiã como potência comercial do deserto, e não apenas como uma horda de invasores pobres.

A erudição bíblica costuma destacar a ironia que se desenrola logo depois: o ouro que Gideão recolhe como recompensa não fica guardado como simples troféu nem financia algo neutro. No versículo seguinte, 8:27, ele o transforma num éfode, peça associada à vestimenta sacerdotal, que, colocada em Ofra, torna-se objeto de veneração popular e, nas palavras do texto, um laço, um tropeço, para a casa de Gideão. O homem que recusara a coroa porque só o Senhor deveria reinar termina, com as próprias mãos, criando um novo foco de idolatria. É um padrão que se repete em outros juízes: um libertador genuíno, mas incapaz de sustentar até o fim a fidelidade que sua própria vitória exigia.

Vale notar que o texto não condena o costume dos brincos em si, nem em midianitas nem, por extensão, em israelitas. O problema teológico do capítulo não é o adorno pessoal, mas o destino que o ouro reunido recebe depois. Ler os versículos 24 a 26 isoladamente, como prova de moda masculina antiga, é historicamente correto; lidos dentro do capítulo inteiro, eles funcionam como advertência sobre como riquezas conquistadas em nome de Deus podem, mal direcionadas, tornar-se armadilha espiritual, tema que atravessa boa parte da narrativa dos juízes de Israel.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:Brincos eram exclusivamente um adorno feminino na Bíblia e usá-los era proibido para homens.

    descreve homens midianitas usando brincos de ouro sem qualquer condenação, e mostra Arão pedindo brincos aos próprios homens israelitas. O costume de adorno com brincos no Oriente Próximo antigo não seguia a divisão de gênero que se popularizou em culturas posteriores.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • reformada

    Vê no pedido dos brincos e no éfode que Gideão fabrica em seguida (8:27) o começo de um declínio moral do juiz, um alerta sobre como até um libertador escolhido por Deus pode ceder à tentação do poder e da riqueza logo após sua maior vitória.

  • católica

    Lê Gideão como uma figura providencial genuína, mas humanamente limitada; o episódio do ouro ilustra como Deus usa pessoas imperfeitas na história da salvação, sem que isso apague nem o valor real da libertação que ele trouxe a Israel.

  • pentecostal

    Destaca o contraste entre a resposta correta de Gideão ao poder (recusar o trono) e sua resposta equivocada à riqueza (o uso do ouro), como lição sobre a necessidade de dependência contínua de Deus mesmo depois de uma vitória conquistada por fé.

  • ortodoxa

    Situa o episódio dentro do ciclo repetido de libertação e queda que estrutura todo o livro de Juízes, entendendo a falha de Gideão menos como culpa individual isolada e mais como sintoma da condição espiritual coletiva de Israel naquele período.

No original2 termos
  • נֶזֶםnezemH5141

    brinco, pingente ou argola de ouro, usado na orelha ou no nariz; termo que não distingue gênero de quem o usa.

  • שֶׁקֶלsheqelH8255

    siclo, unidade de peso usada para medir metais preciosos como ouro e prata na Antiguidade; base da moeda israelita posterior.

O que fazer com isso

O texto lembra que costumes de adorno mudam, mas o coração humano enfrenta sempre o mesmo teste: o que fazer com aquilo que se conquista. Gideão não errou ao pedir os brincos; errou no uso que deu ao ouro reunido depois. Antes de julgar hábitos antigos por padrões de hoje, vale perguntar o que fazemos com nossas próprias vitórias e recursos — se eles seguem servindo para lembrar a quem devemos gratidão, ou se, sem perceber, viram objeto de apego e orgulho pessoal.

Passagens relacionadas7

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas3 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (comentário sobre Juízes), 1706.
  • C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Judges, Ruth, 1866.
  • John H. Walton, Victor H. Matthews e Mark W. Chavalas. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament, 2000.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Homens usavam brincos na Bíblia?

Sim. Em os midianitas derrotados usavam brincos de ouro, e o mesmo costume aparece entre os próprios israelitas em , quando Arão pede aos homens que entreguem os brincos que usavam. Era um adorno comum entre povos do Oriente Próximo antigo, sem a marcação de gênero que a cultura ocidental atribuiu a ele depois.

Por que Gideão pediu os brincos em vez de aceitar ser rei?

O povo havia oferecido a Gideão e a seus filhos o governo hereditário de Israel, mas ele recusou, dizendo que só o Senhor deveria reinar (). Em vez do trono, pediu apenas uma parte do despojo de guerra: os brincos de ouro tomados dos midianitas.

O que aconteceu com o ouro que Gideão recolheu?

Segundo , logo depois desse episódio Gideão usou o ouro para fazer um éfode, uma peça ligada à vestimenta sacerdotal, que colocou na cidade de Ofra. O texto diz que o povo passou a venerar esse objeto, o que se tornou motivo de tropeço espiritual para Gideão e sua casa.

Por que o texto chama os midianitas de ismaelitas?

Midiã e Ismael eram, segundo Gênesis, ambos descendentes de Abraão por esposas diferentes, e seus nomes eram usados de forma praticamente intercambiável para designar as tribos nômades do deserto arábico dedicadas ao comércio de caravanas, como mostra também .

Temas

  • Guerra
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  • #antigo-testamento
  • #costumes-biblicos
  • #gideao
  • #midianitas
  • #joias-na-biblia

Publicado em 27/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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