
Um rei pagão é chamado de "ungido" (messias) de Deus?
Por que um rei pagão é chamado de ungido de Deus em Isaías 45:1?
Assim diz o SENHOR a seu ungido, Ciro, ao qual tomou pela sua mão direita, para abater as nações diante dele, e tirar a proteção dos lombos dos reis; para abrir diante de sua presença as portas, e as portas não se fecharão:
Resposta curta
chama Ciro, rei da Pérsia, de "seu ungido" — a mesma palavra hebraica, mashiach, que deu origem a "messias". Isso surpreende porque Ciro nunca serviu ao Deus de Israel; era um monarca de religião persa, estranho ao povo judeu. Mesmo assim, o texto diz que o Senhor o tomou "pela sua mão direita" para derrubar nações e abrir portões que não se fechariam.
A chave está no significado da palavra. "Ungido" não indica salvação pessoal nem conversão religiosa, mas alguém separado e capacitado por Deus para uma tarefa concreta. Reis, sacerdotes e, neste caso, até um governante estrangeiro podiam carregar esse título quando serviam a um propósito divino. A missão de Ciro, segundo o próprio Isaías e depois confirmada em Esdras, foi conquistar a Babilônia e libertar os judeus exilados, permitindo o retorno a Jerusalém.
Contexto histórico
No século VIII a.C., quando o livro de Isaías situa boa parte de suas profecias, Judá ainda existia como reino, mas o texto já antecipa um futuro de exílio babilônico e restauração. se dirige a Ciro, fundador do Império Persa Aquemênida, que em 539 a.C. conquistou a Babilônia e, segundo o Cilindro de Ciro — um registro em acádio descoberto no século XIX e hoje no Museu Britânico — adotou uma política de permitir que povos deportados voltassem às suas terras e reconstruíssem seus templos. O livro de Esdras (1:1-4) atribui a Ciro um decreto que libertou os judeus e autorizou a reconstrução do templo de Jerusalém, em harmonia com o que já havia anunciado sobre ele.
A palavra traduzida "ungido" é mashiach, o mesmo termo hebraico por trás de "messias". Na cultura de Israel, a unção com óleo consagrava reis, sacerdotes e, ocasionalmente, profetas para uma função específica — não era, em si, garantia de fé pessoal ou de pertencimento ao povo da aliança. Saul, por exemplo, é chamado de "ungido do Senhor" mesmo depois de sua rejeição divina (). Aplicar esse mesmo termo a Ciro, um rei gentio que nunca conheceu Yahweh (como o próprio versículo 4 reconhece: "eu te chamei... ainda que tu não me conhecesses"), amplia o uso da palavra: ela descreve a função de instrumento escolhido, não a identidade religiosa de quem a exerce.
Comentaristas como John Oswalt e Alec Motyer observam que a passagem serve a um argumento maior do capítulo 45: o Senhor é o único Deus verdadeiro, capaz de nomear pelo nome um rei estrangeiro e de dirigir os rumos de impérios inteiros para cumprir seus propósitos com Israel. O texto não elogia a religião de Ciro nem sugere que ele tenha se tornado adorador de Yahweh — o Cilindro de Ciro, aliás, atribui suas vitórias ao deus babilônico Marduk, mostrando que sua política era de tolerância religiosa geral, não de conversão pessoal.
Aprofundamento
O que choca o leitor moderno — um título "messiânico" recaindo sobre um rei pagão — fazia sentido dentro da lógica do hebraico bíblico, onde mashiach é um termo funcional, não confessional. Ungir com óleo era o rito de posse para uma missão delegada por Deus. O texto nunca afirma que Ciro creu no Deus de Israel ou que passou a segui-lo; afirma que Deus o "chamou pelo nome" e o "revestiu" para uma tarefa, "ainda que" ele não o conhecesse (). A soberania de Deus sobre a história, portanto, não depende da piedade pessoal dos agentes que ele escolhe usar.
Essa ideia já aparecia antes no próprio Isaías: o "vencedor do oriente" mencionado em 41:2-4, e o pastor nomeado "Ciro" que cumprirá o propósito de Deus para Jerusalém e o templo em 44:28. O capítulo 45 apenas explicita o nome e amplia a linguagem para "ungido", reforçando o argumento central dos capítulos 40 a 48: o Deus de Israel, e nenhum outro, é quem determina de fato o curso das nações — algo que os babilônios atribuíam a Marduk e os persas, a Ahura Mazda.
Vale registrar, com honestidade, que existe debate acadêmico sobre a datação dessa seção de Isaías. Parte da erudição — inclusive setores de tradições cristãs mais alinhadas ao método histórico-crítico — sugere que os capítulos 40 a 55 foram compostos ou finalizados perto do fim do exílio babilônico, já próximos da ascensão de Ciro ao poder, por um profeta anônimo na linha teológica de Isaías. Outra parte da erudição, mais próxima da leitura tradicional judaica e de tradições cristãs mais conservadoras, sustenta autoria única de Isaías no século VIII a.C., o que tornaria a menção nominal a Ciro uma predição de longuíssimo alcance, cerca de 150 anos antes de seu nascimento. As duas leituras concordam, porém, no ponto central do texto: a soberania de Deus sobre impérios estrangeiros para cumprir promessas feitas ao seu próprio povo.
Nenhuma das duas leituras exige que se veja Ciro como convertido ao Deus de Israel. O Cilindro de Ciro, artefato babilônico que registra sua tomada da cidade, atribui a vitória ao deus Marduk — evidência externa de que sua política de libertar povos exilados nascia de pragmatismo administrativo persa, e não de fé pessoal em Yahweh. A Bíblia usa esse mesmo rei, sem disfarçar sua origem pagã, como prova de que o controle de Deus sobre a história não se limita aos que o reconhecem ou creem nele.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Ciro se tornou monoteísta e passou a adorar o Deus de Israel depois de ser chamado de "ungido".
O próprio Cilindro de Ciro, registro babilônico da época, credita as vitórias do rei ao deus Marduk, não a Yahweh. A prática de libertar povos exilados e permitir a reconstrução de templos locais era uma política geral do Império Persa para com vários povos conquistados, não um gesto de fé pessoal em Israel.
Dizem que:Chamar Ciro de "ungido" (mashiach) o coloca no mesmo patamar messiânico que os textos que apontam para Jesus.
No hebraico bíblico, mashiach é um termo funcional usado para reis, sacerdotes e, aqui, um instrumento estrangeiro escolhido para uma tarefa específica — não é, por si só, uma reivindicação de identidade salvífica ou messiânica no sentido pleno que o termo ganha depois, aplicado a Jesus no Novo Testamento.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura evangélica conservadora, reformada e adventista
Isaías escreveu todo o livro no século VIII a.C. sob inspiração direta, incluindo o nome de Ciro cerca de 150 anos antes de seu nascimento. O versículo é lido como prova da onisciência de Deus sobre a história e da confiabilidade literal da profecia bíblica.
Setores acadêmicos de tradições católica e luterana ligados ao método histórico-crítico
Os capítulos 40-55 de Isaías (chamados por parte da erudição de "Dêutero-Isaías") teriam sido compostos ou finalizados perto do fim do exílio babilônico, por um profeta anônimo na linha teológica de Isaías. Isso não diminuiria o caráter inspirado do texto, apenas mudaria a estimativa de quando ele foi escrito.
No original1 termo
מָשִׁיחַmashiachH4899
ungido; aquele que recebeu unção com óleo para ser separado e capacitado para uma função específica designada por Deus — usado para reis, sacerdotes e, nesta passagem, para um governante estrangeiro escolhido como instrumento divino.
O que fazer com isso
O texto lembra que Deus não precisa da cooperação consciente de alguém para usá-lo em seus propósitos — algo que tira peso de decisões que parecem fora do nosso controle, como mudanças de governo ou eventos que não escolhemos. Isso não é motivo para passividade, mas para deixar de medir o valor de uma situação só pela fé de quem está envolvido nela. Muitas vezes o bem que chega a quem confia em Deus vem por meio de gente que não tem essa fé.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- John N. Oswalt. The Book of Isaiah, Chapters 40-66 (New International Commentary on the Old Testament), 1998.
- J. Alec Motyer. The Prophecy of Isaiah: An Introduction and Commentary, 1993.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Isaiah, 1875.
- Edwin M. Yamauchi. Persia and the Bible, 1990.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Ciro se converteu ao Deus de Israel depois disso?
Não há evidência bíblica ou histórica disso. O próprio Cilindro de Ciro atribui suas conquistas ao deus babilônico Marduk, e a Bíblia reconhece explicitamente que Ciro não conhecia o Senhor (). Ele foi usado como instrumento sem que isso implicasse fé pessoal.
Isso significa que qualquer líder político pode ser chamado de "ungido de Deus" hoje?
O texto descreve um caso específico, no contexto profético de Israel, em que Deus designou um governante estrangeiro para uma tarefa concreta e anunciada previamente. Não é uma fórmula geral para classificar líderes atuais como ungidos.
Por que Isaías chamaria Ciro pelo nome antes de ele nascer?
Essa é justamente a questão que gera debate acadêmico sobre a datação de : se o texto é profecia de longo alcance escrita no século VIII a.C. ou se foi composto mais perto do próprio período de Ciro. As duas posições concordam que o texto afirma a soberania de Deus sobre a ascensão de Ciro.
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