
A Bíblia descreve mães comendo os próprios filhos?
Lamentações 2:20 fala de canibalismo durante o cerco de Jerusalém?
Olha, SENHOR, e considera a quem fizeste de tal modo; por acaso as mulheres comerão do seu próprio fruto, as criancinhas que carregam nos braços? Por acaso serão o sacerdote e o profeta mortos no santuário do Senhor?
Resposta curta
Em , o poeta faz a Deus uma pergunta que ainda choca: mulheres comeriam do próprio fruto, as criancinhas que carregavam nos braços? A pergunta surge no cerco babilônico a Jerusalém, por volta de 586 a.C., quando a fome na cidade sitiada chegou ao extremo. O texto não descreve um costume nem aprova o ato: é um grito de protesto, pedindo que o SENHOR olhe e veja a que ponto a cidade chegou.
Essa fome catastrófica já tinha sido anunciada como maldição extrema para quem rompesse a aliança (), e algo parecido é narrado décadas antes, no cerco de Samaria (). A pergunta retórica não busca chocar por chocar: ela mede, em termos humanos, a profundidade da tragédia, e lembra que, mesmo diante do pior, a resposta certa é levar a dor a Deus, não escondê-la.
Contexto histórico
Lamentações é uma coleção de cinco poemas fúnebres escritos para lamentar a queda de Jerusalém para os babilônios, em 586 a.C., quando Nabucodonosor destruiu a cidade e o templo (; ). A tradição judaica antiga e a Septuaginta atribuem o livro a Jeremias, embora o texto hebraico não nomeie um autor. Os quatro primeiros capítulos são poemas acrósticos: cada estrofe começa com uma letra sucessiva do alfabeto hebraico, recurso que dá ordem e contenção a um conteúdo de dor extrema, como se a forma disciplinada ajudasse a suportar o caos do conteúdo. O capítulo 2 descreve o SENHOR agindo como inimigo de Sião, derrubando muralhas, palácio e santuário por causa da infidelidade persistente do povo, denunciada também nos capítulos 1 e 4, com menção a idolatria, injustiça e falsos profetas.
O versículo 20 vem logo depois de um apelo, no versículo 19, para que a cidade, personificada como filha de Sião, clame a Deus de noite pela vida das crianças que desfalecem de fome nas ruas. A voz do poema então se volta diretamente para Deus com duas perguntas retóricas: mulheres comeriam seus próprios filhos, as criancinhas que carregavam com carinho nos braços? Sacerdote e profeta seriam mortos dentro do santuário? As duas perguntas descrevem o avesso completo da ordem esperada, mães que geram e cuidam da vida, e um templo que deveria ser lugar de proteção, para expor o tamanho da catástrofe.
Historicamente, a fome durante cercos prolongados era uma realidade conhecida no mundo antigo, e o próprio Pentateuco já havia previsto esse cenário como maldição extrema para quem abandonasse a aliança (; ). Um episódio semelhante, envolvendo duas mulheres, é narrado em , durante o cerco de Samaria pelos arameus, décadas antes da queda de Jerusalém. O cerco babilônico registrado em e durou cerca de um ano e meio, e o texto bíblico afirma que a fome prevaleceu na cidade antes de suas muralhas serem rompidas.
Aprofundamento
pertence a um gênero bíblico específico: o lamento de protesto, presente também em vários salmos, como 44, 74, 79 e 88, e no livro de Jó. Nesse gênero, o sofredor não apenas descreve a dor, mas confronta Deus com ela, usando perguntas diretas e, às vezes, acusatórias. A Bíblia reserva espaço generoso para esse tipo de oração, o que já diz algo importante: expressar horror, raiva e confusão diante de Deus não é falta de fé, é uma forma de fé que continua falando com ele mesmo no limite da dor.
A pergunta sobre mulheres comendo os próprios filhos funciona como o ápice retórico do lamento: é a imagem mais chocante que o poeta consegue imaginar, justamente porque inverte o que há de mais natural, o cuidado materno, transformando-o em desespero extremo. Comentaristas como Adele Berlin observam que esse tipo de imagem hiperbólica de horror também aparece em lamentos de cidades do antigo Oriente Próximo fora da Bíblia, como recurso poético para comunicar a magnitude total de uma destruição. Isso não significa que o evento seja pura invenção literária: o paralelo de mostra que esse tipo de desespero por fome durante cercos realmente ocorria, e episódios semelhantes voltam a ser registrados por Flávio Josefo durante o cerco romano de Jerusalém, em 70 d.C., mais de seiscentos anos depois.
Um ponto que merece atenção é que o texto não apresenta essa fome como um acidente aleatório: Lamentações, especialmente nos capítulos 1, 4 e 5, associa repetidamente a queda de Jerusalém aos pecados da própria cidade e de seus líderes, incluindo profetas que enganaram o povo e sacerdotes que derramaram sangue inocente. Ainda assim, o poema não usa essa ligação para silenciar a dor ou justificar friamente o sofrimento; ele mantém as duas coisas juntas, reconhecimento de culpa coletiva e lamento honesto pela dor sofrida, inclusive por crianças inocentes que pagaram o preço mais alto.
Do ponto de vista teológico, o versículo também revela algo sobre a natureza da oração bíblica: Deus é o endereço do clamor, não apenas o autor distante do julgamento. Pedir a Deus que olhe e considere pressupõe que ele continua sendo Aquele a quem se recorre mesmo quando parece ser, à primeira vista, o responsável pelo desastre. Essa tensão, entre reconhecer a justiça do juízo e ainda assim implorar compaixão, atravessa todo o livro e chega ao seu ponto de virada em , onde o mesmo poeta lembra que as misericórdias do SENHOR se renovam a cada manhã.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Esse versículo mostra que a Bíblia recomenda ou normaliza o canibalismo.
É uma pergunta retórica de lamento dirigida a Deus, denunciando o horror da fome do cerco, não uma instrução, aprovação ou narrativa neutra de um costume; é protesto contra o sofrimento, não prescrição de comportamento.
Dizem que:É apenas uma figura de linguagem exagerada, que nunca aconteceu de verdade.
Fontes bíblicas, como durante o cerco de Samaria, e fontes extrabíblicas, como os relatos de Flávio Josefo sobre o cerco romano de Jerusalém em 70 d.C., registram episódios reais desse tipo em cercos prolongados, o que indica que o texto provavelmente reflete fatos ocorridos, não apenas uma metáfora vazia.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Enfatiza a soberania de Deus sobre o julgamento: o desastre é consequência direta e justa da aliança quebrada (), e o lamento reconhece a mão de Deus por trás dos eventos sem negar o peso real do sofrimento humano.
Católica
Lê Lamentações dentro da tradição litúrgica (o livro é usado no Ofício de Trevas da Semana Santa), destacando o mistério do sofrimento dentro do plano providencial de Deus e a voz de lamento como preparação para contemplar o sofrimento de Cristo.
Pentecostal/Arminiana
Enfatiza que o sofrimento resulta primariamente das escolhas de infidelidade do povo e de seus líderes; Deus permite as consequências dessas escolhas, mas continua sendo Aquele a quem se pode clamar em meio à dor, com a esperança de restauração explicitada em .
No original2 termos
פְּרִיperiH6529
fruto; aqui usado como idioma hebraico para descendência, o fruto do ventre, referindo-se aos próprios filhos.
עוֹלֵלolelH5768
criança pequena, infante de colo; reforça o contraste entre a fragilidade da criança e o horror descrito na pergunta.
O que fazer com isso
Esse versículo autoriza algo que muita gente evita: levar a Deus a dor mais bruta, sem suavizar. Diante de guerra, fome ou perda extrema, hoje como há 2.600 anos, a fé bíblica não pede que se finja tranquilidade. Ela ensina a nomear o horror em voz alta, na oração, em vez de guardá-lo em silêncio ou de moralizar rápido demais o sofrimento alheio. Lamentar com honestidade, pedindo a Deus que olhe, continua sendo um jeito legítimo de orar em meio ao que não tem explicação fácil.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas4 obras
- Adele Berlin. Lamentations: A Commentary (Old Testament Library), 2002.
- Iain Provan. Lamentations (New Century Bible Commentary), 1991.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament, vol. Jeremiah, Lamentations (reimpressão Hendrickson), 1996.
- Peter C. Craigie. The Book of Deuteronomy (NICOT), 1976.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Isso realmente aconteceu, ou é só uma forma exagerada de falar?
É uma pergunta retórica de lamento, mas o cenário que ela descreve tinha base real: registra um caso parecido no cerco de Samaria, e Flávio Josefo descreve episódios semelhantes no cerco romano de Jerusalém em 70 d.C. Fome extrema durante cercos prolongados era uma realidade conhecida no mundo antigo.
Por que Deus permitiria algo tão horrível?
O próprio livro liga o desastre à infidelidade persistente de Jerusalém e de seus líderes, algo já anunciado como consequência extrema em . Ainda assim, o texto não comemora o sofrimento: ele lamenta e clama a Deus em meio a ele, sem transformar a dor em explicação fácil.
Lamentações foi escrito por Jeremias?
A tradição antiga, refletida na Septuaginta, atribui o livro a Jeremias, mas o texto hebraico em si não nomeia nenhum autor. Por isso, comentaristas tratam a autoria jeremiana como tradição respeitável, não como certeza textual.
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