
O que é a abominação desoladora de Daniel 11:31?
O que é a abominação da desolação que Jesus citou?
E tropas virão da parte dele, e profanarão o santuário e a fortaleza; tirarão o contínuo sacrifício, e porão uma abominação assoladora.
Resposta curta
descreve um rei estrangeiro que enviaria tropas para profanar o santuário de Jerusalém, suspender o sacrifício contínuo e instalar ali uma "abominação assoladora". Os comentaristas identificam esse rei com Antíoco IV Epifânio, governante selêucida que, por volta de 167 a.C., invadiu o templo, interrompeu o culto judaico e ergueu sobre o altar dos sacrifícios um altar pagão, episódio registrado também fora da Bíblia e que provocou a revolta dos macabeus.
Séculos depois, Jesus usa a mesma expressão em ao descrever um sinal que anteciparia uma nova crise sobre Jerusalém. Isso leva muitos leitores a misturar cumprimento passado e futuro, como se falasse de um único acontecimento. O texto de Daniel tem âncora histórica bem reconhecida, e a citação de Jesus é uma segunda aplicação do mesmo padrão, não uma correção da primeira leitura.
Contexto histórico
é a profecia mais detalhada do livro, narrando, em linguagem velada, a sucessão de reinos que dominariam o Oriente Médio após a Pérsia: primeiro a Grécia de Alexandre, depois a divisão do seu império entre generais, cujos descendentes formaram as dinastias rivais do "rei do norte" (selêucidas, sediados na Síria) e do "rei do sul" (ptolomeus, no Egito). A partir do versículo 21, o texto concentra-se num governante "desprezível" que toma o poder por meio de intrigas — identificado pela quase totalidade dos comentaristas históricos e críticos com Antíoco IV Epifânio, rei selêucida que reinou entre 175 e 164 a.C.
O versículo 31 corresponde a um episódio bem documentado fora da Bíblia: em 167 a.C., depois de fracassar numa campanha contra o Egito, Antíoco enviou tropas a Jerusalém, profanou o templo, proibiu o culto judaico e a circuncisão, e mandou erguer sobre o altar dos holocaustos um altar dedicado a uma divindade pagã, quase certamente Zeus Olímpio, onde chegaram a ser oferecidos sacrifícios impuros. O relato de 1 Macabeus 1:54-59 e o historiador Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas, descrevem esse episódio com detalhes que confirmam o quadro histórico pressuposto por Daniel. A expressão hebraica traduzida como "abominação assoladora" (shiqqutz meshomem) combina o termo usado no Antigo Testamento para ídolos e objetos de culto pagão com um particípio que indica desolação, ruína — um jogo de palavras que também soa como paródia do nome da divindade que Antíoco quis instalar no lugar santo.
Comentaristas como Keil e Delitzsch e, mais recentemente, John Goldingay, observam que e 9 já haviam antecipado esse mesmo episódio com outras palavras, o que reforça a leitura de que o capítulo 11 descreve, com precisão incomum para uma profecia bíblica, a sequência de reis helenísticos até Antíoco IV. É esse pano de fundo histórico, e não uma leitura futurista, que dá sentido literal ao versículo 31 dentro do próprio livro de Daniel.
Aprofundamento
A dificuldade deste versículo não está em entender o que ele significava originalmente — isso os historiadores documentam bem — mas em explicar por que Jesus repete a mesma expressão, "abominação da desolação", em e , falando de algo ainda por vir no seu tempo. Se já tinha sido cumprido havia quase dois séculos quando Jesus falou, por que ele usa a frase como sinal futuro?
A resposta mais aceita entre os comentaristas é que a profecia bíblica pode ter mais de uma aplicação: um cumprimento histórico próximo, que estabelece o padrão, e uma repetição posterior desse padrão em outra crise. O episódio de Antíoco IV — profanação do templo, interrupção do culto, imposição de um poder hostil a Deus — se tornou, dentro da tradição judaica e depois cristã, o modelo reconhecível de um tipo de crise que voltaria a acontecer. Jesus não está corrigindo Daniel nem negando que a profecia já se cumprira; ele está dizendo aos seus discípulos: "quando vocês virem esse mesmo tipo de sinal, saberão que uma nova fase da história de julgamento está começando."
O ponto de maior divergência entre tradições cristãs é a que evento exatamente Jesus se referia. Uma leitura amplamente aceita, inclusive em setores reformados e católicos, liga a fala de Jesus à destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., quando os exércitos de Tito cercaram e arrasaram a cidade e o templo — , no relato paralelo, substitui a expressão de Daniel por "Jerusalém cercada por exércitos", sugerindo que os evangelistas já entendiam esse cumprimento em termos históricos concretos. Outra leitura, comum em setores dispensacionalistas, reserva o cumprimento para um período futuro de tribulação final, ligado à figura do anticristo de .
O que evita o erro de misturar as duas camadas é manter a distinção clara: , no seu contexto original, fala de Antíoco IV Epifânio, um fato histórico fechado e bem atestado por fontes fora da Bíblia; a citação de Jesus é uma segunda aplicação, deliberadamente aberta, do mesmo padrão de profanação e apostasia. Tratar as duas coisas como um único evento contínuo — ou insistir que tudo em até o fim do capítulo é ainda futuro — ignora tanto a precisão histórica do texto quanto o modo como o próprio Novo Testamento costuma lidar com profecias já cumpridas: reaproveitando sua linguagem para descrever um novo momento de crise, sem por isso desfazer o cumprimento original. Entender essa lógica ajuda o leitor a não tratar Daniel como um quebra-cabeça codificado sobre o futuro, nem a esvaziar o peso histórico do que aconteceu no templo de Jerusalém no século II a.C.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A 'abominação desoladora' de Daniel é uma referência codificada a um evento moderno específico, como uma tecnologia, uma organização internacional ou um governante atual.
acompanha com notável precisão a história documentada dos reinos persa, grego e selêucida até Antíoco IV Epifânio, conforme reconhecem comentaristas históricos e críticos. Projetar o versículo sobre acontecimentos contemporâneos ignora essa âncora histórica bem estabelecida e depende de identificações especulativas, não do método histórico-gramatical usado pela erudição padrão.
Dizem que:Como Jesus cita a mesma expressão em Mateus 24, Daniel 11:31 e a fala de Jesus descrevem exatamente o mesmo evento único, ainda por acontecer.
O episódio de Antíoco IV profanando o templo em 167 a.C. está documentado em 1 Macabeus e em Flávio Josefo como fato histórico já ocorrido. Jesus reaproveita a linguagem de Daniel para apontar um padrão que se repete numa crise futura ao seu próprio tempo, o que é uma segunda aplicação, não a mesma ocorrência remetida ao futuro.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórico-preterista (comum em setores reformados e católicos)
Entende que a fala de Jesus em se cumpriu na destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., quando os exércitos de Tito cercaram e arrasaram a cidade e o templo, encerrando definitivamente o padrão de profanação iniciado com Antíoco IV.
Leitura dispensacionalista (comum em setores pentecostais e evangélicos conservadores)
Vê em uma referência a um cumprimento ainda futuro, distinto tanto de Antíoco IV quanto da queda de Jerusalém em 70 d.C., ligado a um período final de tribulação e à figura do anticristo descrita em .
Leitura católica e ortodoxa tradicional
Entende como plenamente cumprido em Antíoco IV Epifânio, e a citação de Jesus como aplicação tipológica de um padrão recorrente de profanação e apostasia, sem necessidade de fixar um único evento futuro exclusivo.
No original3 termos
שִׁקּוּץshiqqutzH8251
coisa detestável, abominável; usado no Antigo Testamento para ídolos e objetos de culto pagão
מְשֹׁמֵםmeshomemH8074
que causa desolação, que assola; particípio do verbo que expressa ficar arrasado ou pasmado de horror
תָּמִידtamidH8548
contínuo, regular; usado aqui para o sacrifício diário oferecido no templo
O que fazer com isso
Esse duplo horizonte lembra que crises que atacam o que é sagrado — sejam elas religiosas, institucionais ou pessoais — não são novidade, e Deus não foi surpreendido nem por Antíoco IV nem pela destruição de Jerusalém. Diante de notícias que parecem confirmar o fim dos tempos, vale menos tentar encaixar cada manchete num versículo e mais reconhecer o padrão: poder que se volta contra o que é santo aparece repetidas vezes na história, e a fé se mede por continuar firme dentro dela, não por acertar datas.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas (Antiquitates Judaicae), Livro XII, 94.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Daniel, 1877.
- John Goldingay. Daniel (Word Biblical Commentary), 1989.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (comentário sobre Daniel), 1712.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A abominação da desolação já aconteceu ou ainda vai acontecer?
Historicamente, já se cumpriu em 167 a.C., quando Antíoco IV Epifânio profanou o templo de Jerusalém. Quando Jesus usa a mesma expressão em , ele aponta para uma crise futura em relação ao seu próprio tempo, e as tradições cristãs divergem sobre se essa segunda aplicação já se cumpriu em 70 d.C. ou aponta para um evento ainda por vir.
O que exatamente foi colocado no templo?
O relato mais detalhado, preservado em 1 Macabeus, descreve que Antíoco IV mandou erguer um altar pagão sobre o altar de sacrifícios do templo, provavelmente dedicado a Zeus Olímpio, onde chegaram a ser oferecidos sacrifícios impuros, interrompendo o culto diário israelita.
Por que Jesus cita um evento que já tinha acontecido séculos antes?
Porque, no pensamento bíblico, um padrão profético pode se repetir: uma profanação do lugar santo que já ocorreu se torna o modelo para reconhecer uma crise semelhante no futuro. Jesus usa a mesma imagem para alertar seus ouvintes sobre um sinal identificável, sem negar que a profecia de Daniel já tinha se cumprido antes.
Daniel 11 fala mesmo do fim dos tempos, do começo ao fim?
Não integralmente. A grande maioria dos comentaristas reconhece que boa parte do capítulo, até o episódio de Antíoco IV, descreve com precisão histórias já documentadas dos reinos helenísticos. A discussão sobre um horizonte ainda futuro concentra-se nos versículos finais e na forma como o Novo Testamento reaproveita a linguagem do capítulo.
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