
“As más companhias corrompem os bons costumes”: Paulo citou um poeta pagão?
A frase das más companhias é da Bíblia ou de um poeta grego? Paulo realmente citou um autor pagão?
Não erreis. As más companhias corrompem os bons costumes.
Resposta curta
Muita gente pensa que “as más companhias corrompem os bons costumes” é um provérbio de Salomão, mas a frase está em e é uma citação de um verso proverbial do teatro grego, atribuído ao comediógrafo Menandro. Paulo o usa num capítulo sobre a ressurreição, em que alguns coríntios diziam que não há ressurreição dos mortos. A companhia que ele tem em mente não é qualquer pessoa de fora da igreja, mas quem espalha, dentro da própria comunidade, ideias que tornam a vida irresponsável. O caso é um bom exemplo de que o apóstolo podia servir-se de um dito comum da cultura helenística para reforçar um argumento teológico.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA frase em si é um ditado ético sem relação direta com Cristo. O vínculo é do contexto: o capítulo todo defende a ressurreição de Cristo como fundamento da esperança, e a advertência protege a comunidade de ideias que destruiriam essa esperança e o modo de viver que decorre dela.
Em palavras simples
Muita gente acha que essa frase está em Provérbios, mas ela vem de um verso do teatro grego, atribuído a Menandro, e Paulo a cita em . Ele a usa para alertar os coríntios contra quem dizia que não existe ressurreição e, com isso, estimulava uma vida sem compromisso. É um exemplo de que Paulo conhecia a cultura da época e aproveitava um ditado popular para reforçar o que ensinava.
Contexto histórico
O capítulo 15 de 1 Coríntios é o mais longo tratado sobre a ressurreição no Novo Testamento. Paulo começa lembrando o evangelho que anunciou: Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia e apareceu a muitos. Em 15:12 ele levanta o problema que motiva o capítulo: como alguns entre vocês dizem que não há ressurreição de mortos? A negação provavelmente não era a de um materialista que rejeitasse toda vida após a morte, mas a de pessoas de mentalidade grega que aceitavam a sobrevivência da alma e rejeitavam um corpo ressuscitado. Paulo responde mostrando que, se não há ressurreição, Cristo não ressuscitou, a pregação é vã e a fé é inútil. No versículo 32, ele cita : “Comamos e bebamos, que amanhã morreremos.” Se a morte for o fim, a conclusão lógica seria um viver sem freios. É nesse ponto que aparece a frase do versículo 33, introduzida por uma advertência: “Não vos enganeis.” O provérbio diz que as más conversas ou más companhias corrompem os bons costumes. Em grego, a sentença tem a forma de um verso de poesia dramática, um trímetro iâmbico, e a tradição antiga a atribuiu ao comediógrafo ateniense Menandro, que viveu entre os séculos IV e III a.C., em uma comédia chamada Thais. Autores cristãos antigos, como Jerônimo, reconheceram a origem do verso, e é provável que a frase já circulasse como máxima popular, independentemente da peça, repetida em escolas e conversas comuns do mundo grego. O versículo 34 completa o raciocínio: despertai para a justiça, não pequeis, pois alguns não têm conhecimento de Deus, e Paulo fala isso para envergonhá-los. A frase, portanto, não é um conselho geral sobre amizades, mas uma advertência pontual sobre o efeito de certas ideias e de quem as espalha entre os fiéis. Essa ligação com o tema central do capítulo é o que dá sentido ao provérbio: o que está em jogo é a esperança que sustenta a conduta cristã.
Aprofundamento
O primeiro ponto é o fato em si. Paulo cita um poeta pagão, e fá-lo sem pedir desculpas. O Novo Testamento oferece outros casos semelhantes: em Paulo cita, diante dos atenienses, versos de poetas gregos, entre eles provavelmente Arato, e em cita o poeta cretense Epimênides. A prática não significa que o apóstolo considerasse esses autores inspirados, nem que a frase passe a ter o mesmo estatuto das Escrituras. Significa que ele reconhecia, em um dito comum, uma verdade moral útil para a ocasião. Isso desfaz um mal-entendido recorrente, o de que toda citação no texto bíblico tem origem bíblica. O segundo ponto é o uso. Comentaristas como Anthony Thiselton, Gordon Fee e Hans Conzelmann entendem que a frase serve para reforçar o aviso do versículo 32. A palavra homiliai pode significar companhias, mas também conversas e trato frequente, de modo que o alvo pode ser tanto as pessoas quanto o que elas dizem. O sentido é que a convivência com certas ideias e pessoas molda o caráter. Vale notar também o verbo de abertura, me planasthe, “não vos enganeis”, que Paulo usa em outros lugares para alertar contra o autoengano moral, como em e em . O terceiro ponto é um perigo de leitura. A frase foi muitas vezes usada para justificar o isolamento de pessoas de fora da igreja. Paulo desmente essa conclusão em , quando explica que, ao escrever que não se associassem com imorais, não queria dizer que saíssem do mundo. O próprio Paulo conversa com filósofos, cita poetas e circula em contextos pagãos. A advertência, no capítulo 15, se refere aos que dentro da comunidade negavam a ressurreição e levavam outros a viver como se nada tivesse consequências. O quarto ponto é a ética que decorre da esperança. Para Paulo, a ressurreição não é apenas uma doutrina, mas fundamento do modo de viver. Se os mortos ressuscitam, o corpo importa, a justiça importa e o sofrimento tem sentido, de modo que conviver com quem diz o contrário pode corroer a firmeza. Convém, por fim, admitir os limites do que sabemos. Não temos a peça de Menandro inteira, e a atribuição repousa em testemunhos antigos de que o verso era dele; a sua origem exata é uma questão de crítica histórica, e não de fé. O ponto teológico independe disso: Paulo usa um dito conhecido, adequado ao caso, como faz um mestre que conhece a cultura dos seus ouvintes e não teme se valer dela.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A frase “as más companhias corrompem os bons costumes” está no livro de Provérbios.
A expressão aparece em como citação de um verso proverbial grego, atribuído a Menandro. Provérbios trata de companhias em outros termos, mas não contém essa frase.
Dizem que:O versículo proíbe os cristãos de ter amigos ou convívio com não cristãos.
Paulo rejeita essa leitura em , ao dizer que não pedia que saíssem do mundo. No capítulo 15, a preocupação é com os que, dentro da igreja, negavam a ressurreição e encorajavam um viver irresponsável.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura contextual dos comentaristas
O provérbio reforça a advertência do versículo 32 contra o ensino de que não há ressurreição. A ênfase está nas más conversas e ideias dentro da comunidade, e não em qualquer relação com não cristãos.
Leitura ética geral
A tradição cristã em geral usou a frase como princípio de discernimento sobre amizades e ambientes, aplicando-a de forma mais ampla do que o contexto original. Convém fazê-lo sem perder de vista o sentido de Paulo.
Discussão sobre a autoria do verso
A tradição antiga atribui a frase a Menandro, na comédia Thais. Alguns estudiosos acreditam que ela circulava como máxima popular, o que explica por que Paulo a cita sem nomear o autor.
No original3 termos
φθείρουσινphtheirousinG5351
Corrompem, estragam, arruínam. Descreve o efeito moral que más influências produzem sobre o caráter.
ἤθη χρηστάethe chresta
Bons costumes, caráter honesto. Ethos é o hábito ou modo de ser, e chrestos indica o que é útil e bom.
ὁμιλίαι κακαίhomiliai kakai
Más companhias, más conversas, mau convívio. A palavra homilia indica trato frequente, e dela vem “homilia”, discurso.
O que fazer com isso
A frase não manda romper com todos os que pensam diferente, e sim prestar atenção cuidadosa em quais vozes formam nosso modo de pensar e viver. Vale perguntar de quem estamos absorvendo ideias, hábitos e ironias. E vale lembrar, com humildade, que verdades úteis podem vir de fora da igreja, como Paulo mostra ao citar um poeta, sem trocar o evangelho por elas.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Anthony C. Thiselton. The First Epistle to the Corinthians (NIGTC), 2000.
- Gordon D. Fee. The First Epistle to the Corinthians (NICNT), 1987.
- Hans Conzelmann. 1 Corinthians (Hermeneia), 1975.
- Richard B. Hays. First Corinthians (Interpretation), 1997.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Paulo realmente citou Menandro?
A frase é atribuída pela tradição antiga a Menandro, na comédia Thais. Paulo não o nomeia, e é provável que ela já fosse um dito popular, mas a atribuição é amplamente aceita.
Citar um poeta pagão significa que ele é inspirado?
Não. Paulo aproveita uma verdade moral útil, mas isso não dá ao autor a autoridade das Escrituras. O mesmo ocorre em e .
O versículo proíbe amizade com quem não é cristão?
Não. Em Paulo deixa claro que não pedia a ninguém que saísse do mundo. A advertência aqui é contra ideias e conversas que corroem a esperança na ressurreição.
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