Sete, filho de Adão
Quem foi Sete, o terceiro filho de Adão e Eva?
Ficha do personagem
Início da humanidade, segundo Gênesis
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Resposta curta
Sete foi o terceiro filho de Adão e Eva mencionado pelo nome em Gênesis, nascido depois da morte de Abel e do afastamento de Caim. Eva o recebe como um novo começo: Deus lhe “concedeu outro filho” no lugar de Abel (). O texto o apresenta como pai de Enos e ancestral da linhagem que chega a Noé, descrita em , e o inclui na genealogia de Jesus. A única frase sobre a vida religiosa dessa família é enigmática: no tempo de Enos, “começou-se a invocar o nome do Senhor” (). Fora isso, a Bíblia não conta feitos, falas ou episódios de Sete, e tudo o que a tradição acrescentou vem de outros textos e leituras posteriores.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoSete aparece em , na genealogia que sobe de Jesus até Adão, “filho de Deus”. A ligação é genealógica: a linhagem iniciada por Sete faz parte do caminho humano que, segundo Lucas, chega a Cristo. O texto não apresenta Sete como figura de Cristo, nem o Novo Testamento faz essa associação, e o verbete não propõe uma.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Sete foi filho de Adão e Eva, nascido depois que Abel foi morto por Caim. Eva disse que Deus lhe deu outro filho no lugar de Abel. Sete teve um filho chamado Enos, e a Bíblia diz que, nesse tempo, as pessoas começaram a invocar o nome do Senhor. De Sete vem a linhagem que chega a Noé, e seu nome aparece na genealogia de Jesus em Lucas. A Bíblia não conta mais nada sobre a vida dele.
O mundo dele
Sete aparece em duas passagens principais de Gênesis. Em , Eva dá à luz um filho e lhe põe o nome de Sete (Shet, em hebraico), explicando: “Deus me concedeu outro filho em lugar de Abel, que Caim matou”. O texto relaciona o nome ao verbo hebraico shat, “pôr, designar”, uma explicação feita pelo próprio narrador, como é comum em Gênesis, onde nomes e episódios costumam ser ligados por jogos de palavras.
O contexto imediato é de perda. Abel foi assassinado, Caim foi afastado da família, e Adão e Eva ficaram sem o filho que parecia herdeiro. Em , o texto acompanha a linhagem de Caim, que inclui a primeira cidade, o pai dos criadores de gado, o pai dos músicos e Lameque, autor de um canto de vingança. Em a 5:32, a narrativa volta a Adão e acompanha a linhagem de Sete. Os dois ramos têm nomes parecidos, como Enoque e Lameque, que aparecem em ambos. Muitos estudiosos veem aí genealogias paralelas de uma mesma tradição, mas a Bíblia não explica a semelhança.
diz que Adão, aos 130 anos, gerou um filho “à sua semelhança, conforme a sua imagem”, e lhe pôs o nome de Sete. A expressão ecoa , em que Deus cria o ser humano à sua imagem, e sugere que a linha de Sete preserva essa herança. acrescenta que Adão teve “outros filhos e filhas”, portanto Sete não é o único filho do casal além de Caim e Abel, nem necessariamente o terceiro em ordem de nascimento.
As idades da genealogia de variam entre as tradições textuais: o texto hebraico, a Septuaginta e o Pentateuco Samaritano trazem números diferentes em vários nomes. Para Sete, o texto hebraico dá 105 anos quando nasce Enos e 912 anos de vida total. A Bíblia não oferece uma data absoluta para esses eventos, e as tentativas de fixá-la dependem de como se somam as idades de e 11.
A história
A passagem central sobre Sete como personagem está em . Eva diz que Deus lhe concedeu “outra semente” no lugar de Abel; a palavra hebraica zera‘, “semente” ou “descendência”, é a mesma de , e alguns comentaristas veem aí um fio narrativo que liga a promessa feita a Eva à linhagem de Sete. O texto, porém, não afirma que Sete seja o cumprimento de nada; apenas registra que Eva o recebeu como substituto do filho perdido.
O versículo seguinte é o mais discutido: “A Sete também nasceu um filho, e lhe pôs o nome de Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor” (). O verbo hebraico traduzido por “começou-se” (huhal) permite mais de uma leitura. Uma leitura comum entende que surgiu o culto público ao Senhor, com o uso do nome divino. Outros notam que Abel já havia oferecido sacrifício () e que Caim já havia falado com o Senhor (), de modo que a frase talvez descreva um culto comunitário mais formal, não a primeira vez em que alguém se dirigiu a Deus. Uma tradição rabínica antiga, mais tarde defendida por Maimônides, lê o mesmo verbo como “profanar” e entende que, na época de Enos, a humanidade começou a dar o nome divino a ídolos. O texto é breve demais para decidir entre as leituras.
Em , Sete vive 105 anos até gerar Enos, depois mais 807 anos, “e gerou filhos e filhas”, e morre aos 912 anos. Essa linguagem repetitiva é típica da genealogia, e não há outro dado biográfico. Flávio Josefo, no século I, escreveu que os descendentes de Sete foram homens virtuosos e estudiosos dos astros (Antiguidades 1.2.3), mas essa informação não está em Gênesis.
Outra questão é a identidade dos “filhos de Deus” de . Autores cristãos antigos, como Júlio Africano e, mais tarde, Agostinho, os identificaram com os setitas, a linhagem piedosa que teria se misturado às “filhas dos homens”, descendentes de Caim. Outras tradições, como o Livro de Enoque, entendem esses seres como anjos, e há leituras que veem governantes ou juízes. O texto de não menciona Sete; ligá-lo a esse episódio é interpretação, não afirmação bíblica.
Por fim, é preciso distinguir o Sete bíblico do Sete que aparece em textos gnósticos de séculos posteriores, como figura reverenciada em obras encontradas em Nag Hammadi. Esses escritos não pertencem ao cânon de nenhuma tradição cristã ou judaica, e o que dizem sobre Sete não tem base em Gênesis.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Adão e Eva tiveram apenas três filhos: Caim, Abel e Sete.
afirma que Adão, depois do nascimento de Sete, viveu 800 anos e gerou “filhos e filhas”. O texto só dá nome aos filhos que importam à narrativa, de modo que Sete não é nem o único outro filho nem, necessariamente, o terceiro a nascer.
Dizem que:Gênesis 4:26 mostra que foi no tempo de Sete que alguém orou a Deus pela primeira vez.
O próprio Gênesis mostra Abel oferecendo sacrifício () e Caim falando com o Senhor () antes disso. A frase sobre invocar o nome do Senhor é lida como início de um culto público ou do uso do nome divino, e uma tradição judaica antiga a entende até como início de uma forma de idolatria; nenhuma leitura a transforma na primeira oração.
Dizem que:A Bíblia ensina que os descendentes de Sete eram todos piedosos e os de Caim todos ímpios.
Essa divisão vem de leituras posteriores, como a de Agostinho sobre as duas cidades e a identificação dos setitas com os “filhos de Deus” de . O texto apenas apresenta duas genealogias e não classifica moralmente cada pessoa. Ela também ignora que e 6:5 tratam de violência e maldade sem restringi-las a uma linhagem.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica rabínica
O Gênesis Rabá e, séculos depois, Maimônides leem o verbo de como “profanar”: no tempo de Enos, o nome do Senhor teria passado a ser atribuído a ídolos e a astros, e Enos marcaria o começo da idolatria. Outros textos judaicos antigos, como o Targum, também entendem o trecho de forma negativa, em contraste com leituras que veem um avanço no culto.
Patrística
Agostinho, em A Cidade de Deus (livros 15 e 16), faz da linhagem de Sete a figura da “cidade de Deus” e da de Caim a da “cidade dos homens”. Para ele, a frase sobre invocar o nome do Senhor indica a esperança desse grupo. É uma leitura teológica e simbólica da narrativa, não um dado do texto.
Protestante e evangélica
Costuma entender como o início de um culto público ao Senhor, ligado ao uso do nome divino, e ver na linhagem de Sete a continuidade da promessa de . Comentaristas como Gordon Wenham destacam, porém, que o texto é lacônico e que a oposição entre “linhagem piedosa” e “linhagem ímpia” é mais interpretativa do que explícita.
O que fazer com isso
A discrição do texto sobre Sete tem algo a ensinar. A Bíblia dedica a ele poucas linhas e, mesmo assim, o coloca em um ponto de passagem: depois de uma perda grande, a vida da família continua, e a linhagem segue adiante por gente cujos feitos não foram registrados. Nem toda contribuição aparece em histórias de destaque. Reconhecer isso ajuda a ler genealogias com mais respeito e a resistir ao impulso de preencher com invenção o que o texto preferiu calar.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas5
- Gordon J. Wenham. Genesis 1–15 (Word Biblical Commentary), 1987.
- Claus Westermann. Genesis 1–11: A Commentary, 1984.
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus (livros 15 e 16).
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas (livro 1).
- James L. Kugel. Traditions of the Bible, 1998.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Sete foi mesmo o terceiro filho de Adão e Eva?
Foi o terceiro a receber nome na narrativa, depois de Caim e Abel. Mas diz que Adão teve outros filhos e filhas, de modo que a ordem exata de nascimento não é informada.
O que significa o nome Sete?
O próprio texto dá a explicação em , ligando o nome ao verbo hebraico shat, “pôr” ou “designar”: Deus “pôs” outro filho no lugar de Abel. A Bíblia não oferece outra etimologia, e interpretações posteriores são mais incertas.
Quantos anos Sete viveu?
No texto hebraico de anos. A Septuaginta e o Pentateuco Samaritano trazem outros números para algumas idades da genealogia, como a de Sete ao gerar Enos, mas concordam em geral com o total de 912 anos.
O que quer dizer “começou-se a invocar o nome do Senhor”?
O texto não explica. Muitos leitores entendem que surgiu o culto público ao Senhor; uma tradição judaica antiga lê o verbo como “profanar”, ligando o trecho ao início da idolatria. O versículo é breve demais para uma conclusão segura.