Sambalá
Quem foi Sambalá, o horonita, inimigo de Neemias?
Ficha do personagem
Retorno do exílio, Jerusalém, séc. V a.C.
Aparece em
Relações
- adversário de Neemias
- aliado de Tobias, o amonita
- aliado de Geséu, o árabe
- sogro de filho de Joiada
Resposta curta
Sambalá, o horonita, foi o principal adversário de Neemias durante a reconstrução dos muros de Jerusalém, no século V a.C. O livro de Neemias o apresenta primeiro desgostoso com a chegada de alguém que buscava o bem dos israelitas, depois zombando dos trabalhadores diante dos "seus irmãos e do exército de Samaria", em seguida conspirando para atacar a cidade e, por fim, tentando atrair Neemias a um encontro na planície de Ono e acusando-o de planejar rebelião. Sambalá agia ao lado de Tobias, o amonita, e de Geséu, o árabe. Papiros de Elefantina, no Egito, mencionam um Sambalá como governador de Samaria, o que ajuda a situá-lo, embora o livro bíblico nunca lhe dê esse título.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaSambalá não é citado no Novo Testamento, e o texto de Neemias não o apresenta como figura de Cristo ou do Anticristo. A relação é apenas temática: a reconstrução de Jerusalém ocorre em meio a deboche e oposição, e o Novo Testamento também descreve a missão de Jesus como alvo de zombaria e hostilidade política. Mas essa semelhança é geral e não constitui tipologia, e este verbete não a apresenta como tal.
Em palavras simples
Sambalá foi um governante da região de Samaria que se opôs a Neemias quando ele veio reconstruir os muros de Jerusalém. Primeiro ficou aborrecido, depois zombou dos trabalhadores, planejou um ataque e tentou atrair Neemias para um encontro armado. Também espalhou a acusação de que Neemias queria ser rei. Neemias respondeu orando, colocando vigias e continuando a obra. Papiros achados no Egito falam de um Sambalá governador de Samaria, o que ajuda a entender quem ele foi. O livro bíblico só conta a versão de Neemias.
O mundo dele
Sambalá aparece no livro de Neemias, ambientado em Jerusalém no século V a.C., depois do retorno de parte dos judeus do exílio babilônico. Neemias, copeiro do rei persa Artaxerxes, recebe autorização para ir reconstruir os muros da cidade (), por volta de 445 a.C., segundo a datação mais comum. Jerusalém fazia parte de uma província persa, Yehud, vizinha de outras províncias cujos governantes viam com desconfiança o fortalecimento da cidade.
O texto o chama "o horonita" (). A origem do termo é debatida: pode referir-se a Bete-Horom, ao norte de Jerusalém, ou a Horonaim, em Moabe, e o livro não resolve a questão. O nome Sambalá costuma ser relacionado ao babilônico Sin-uballit, "Sin deu vida", mas a forma e o significado exatos são hipótese de estudiosos. Importa notar que os filhos de Sambalá, conhecidos por outro documento, têm nomes que incluem elemento do nome divino de Israel, o que sugere alguma ligação com a fé javista, embora isso não diga muito sobre a própria religião dele.
As fontes extrabíblicas são decisivas. Entre os papiros aramaicos de Elefantina, uma comunidade judaica no sul do Egito, há uma carta de 407 a.C. endereçada ao governador de Judá e aos filhos de Sambalá, governador de Samaria, pedindo apoio para reconstruir o templo de Elefantina. Isso confirma que havia um Sambalá com autoridade em Samaria no final do século V, mas a data do papiro é posterior ao tempo de Neemias, de modo que ele pode ser o mesmo homem já idoso, com filhos adultos, ou um homem de nome igual. Mais tarde, o historiador Flávio Josefo (Antiguidades 11) fala de um Sambalá do tempo de Dario III, e aí a cronologia se mostra confusa. Por isso, tudo o que se afirma além do texto de Neemias deve ser dito com cautela.
A história
O primeiro registro está em : Sambalá e Tobias, "o servo amonita", ficaram muito desgostosos porque chegara alguém "para procurar o bem dos filhos de Israel". O desgosto parece mais político do que religioso: um Jerusalém fortificada alteraria o equilíbrio de poder na região. Quando a obra começa, a oposição se intensifica. Em 2:19 ele, Tobias e Geséu, o árabe, zombam e perguntam se os judeus se rebelam contra o rei. Neemias responde que o Deus dos céus fará prosperar a obra e que os adversários não têm "parte, nem direito, nem memória" em Jerusalém.
Em , a zombaria se torna ameaça. Sambalá, irado, pergunta diante dos seus "irmãos e do exército de Samaria" o que fazem "estes fracos judeus", e Tobias diz que uma raposa derrubaria o muro de pedra. Neemias responde com oração (4:4-5), mas também com ação: organiza vigias, armas e turnos de trabalho (4:9-23). Quando os adversários, juntos com árabes, amonitas e asdoditas, decidem atacar, a cidade já está preparada (4:7-9).
O capítulo 6 mostra a tática mudando para intriga. Sambalá e Geséu convidam Neemias a se encontrar "em uma das aldeias da planície de Ono" (6:2), e Neemias percebe que pretendiam fazer-lhe mal. Ele responde quatro vezes que está fazendo uma grande obra e não pode descer (6:3-4). Na quinta vez, Sambalá envia uma carta aberta, dizendo que corre o boato de que Neemias e os judeus planejam rebelar-se e que ele pretende ser rei (6:5-7). Neemias nega e ora pedindo força. Depois, descobre que Semaías fora contratado para induzi-lo a se refugiar no templo por medo, o que o faria pecar e dar motivo a descrédito (6:10-14). O texto diz que Tobias e Sambalá estavam por trás da trama, mas não que o próprio Sambalá o tenha contratado diretamente.
Sambalá reaparece em , quando Neemias expulsa um dos filhos de Joiada, filho do sumo sacerdote Eliasibe, porque era genro de Sambalá, o horonita. Esse dado mostra que o conflito também tinha laços familiares com a elite sacerdotal de Jerusalém, e não era apenas uma oposição externa. O que se pode afirmar é que Sambalá tinha alianças amplas, entre elas Tobias, que também mantinha vínculos com a classe dirigente de Jerusalém (6:17-19). O que o texto não diz é o que Sambalá pensava ou queria além do que Neemias lhe atribui, de modo que o retrato do adversário vem de um único lado e deve ser lido com essa ressalva.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:O livro de Neemias diz que Sambalá era governador de Samaria.
Neemias nunca lhe dá título oficial. Ele é "o horonita", ligado ao "exército de Samaria" (4:2). A informação de que um Sambalá foi governador de Samaria vem dos papiros de Elefantina, em carta de 407 a.C.
Dizem que:Sambalá era um pagão que adorava outros deuses.
O texto bíblico não descreve a religião de Sambalá. Os nomes de seus filhos nos papiros de Elefantina contêm elemento ligado ao nome do Deus de Israel, o que indica algum vínculo com o javismo, e o liga à família do sumo sacerdote por casamento.
Dizem que:Sambalá é o mesmo Sambalá mencionado por Josefo, que fundou o templo samaritano no monte Gerizim.
Josefo (Antiguidades 11) situa um Sambalá no tempo de Alexandre, o Grande, cerca de um século depois de Neemias. Os estudiosos discutem se há confusão cronológica, se existiram vários Sambalás ou se Josefo reorganizou os fatos, e a questão continua aberta.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Josefo e a tradição judaica posterior associam Sambalá e seus descendentes à origem da rivalidade com os samaritanos, de modo que a oposição a Neemias é lida como parte do conflito entre Jerusalém e Samaria. Essa leitura relaciona o relato bíblico a uma história posterior mais ampla.
Protestante evangélica
Costuma ler Neemias como modelo de liderança diante de oposição e enfatiza as orações curtas e a perseverança na obra (; 6:9), vendo em Sambalá o exemplo de resistência que cresce em intensidade à medida que a obra avança.
Católica
Leitores católicos tratam Neemias como parte da restauração do povo após o exílio e, na tradição espiritual, podem ver na reconstrução dos muros uma imagem da edificação da Igreja, enquanto a oposição de Sambalá ilustra as dificuldades que acompanham toda restauração. Essa leitura é espiritual e posterior, e não aparece no texto de Neemias.
Crítica histórica
Estudiosos como H. G. M. Williamson e Joseph Blenkinsopp usam os papiros de Elefantina para situar Sambalá como governante de Samaria, interpretando a oposição como disputa política entre províncias persas vizinhas, além da dimensão religiosa.
O que fazer com isso
Sambalá mostra que a oposição a uma obra raramente aparece de uma só forma: começa com desgosto, passa para o deboche, depois para a ameaça e por fim para a intriga e a difamação. Neemias respondeu orando, mantendo guarda e não largando a tarefa. O texto também convida a lembrar que só conhecemos Sambalá pelo relato do adversário, e isso pede cautela ao julgar opositores com base apenas em uma versão dos fatos.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas4
- H. G. M. Williamson. Ezra, Nehemiah (Word Biblical Commentary), 1985.
- Joseph Blenkinsopp. Ezra-Nehemiah: A Commentary (Old Testament Library), 1988.
- Bezalel Porten. Archives from Elephantine: The Life of an Ancient Jewish Military Colony, 1968.
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que significa Sambalá ser chamado de horonita?
Pode indicar origem em Bete-Horom, ao norte de Jerusalém, ou em Horonaim, em Moabe. O texto não esclarece, e os estudiosos não chegaram a consenso.
Por que Sambalá se opôs à reconstrução dos muros?
O texto diz que ele ficou muito desgostoso porque alguém veio buscar o bem dos israelitas (). Explicações históricas apontam para rivalidade política entre as províncias persas vizinhas, mas o livro de Neemias é a única fonte do motivo.
Sambalá aparece fora da Bíblia?
Sim. Um Sambalá, governador de Samaria, é citado em papiros aramaicos de Elefantina, numa carta de 407 a.C. Se é o mesmo homem de Neemias é provável, mas não certo.
Quem eram Tobias e Geséu, aliados de Sambalá?
Tobias é chamado de servo amonita () e tinha vínculos familiares em Jerusalém (6:17-19). Geséu é chamado de árabe (2:19). Os três aparecem juntos como adversários de Neemias.