Penina
Quem foi Penina na Bíblia, a rival de Ana?
Ficha do personagem
Período dos juízes, Siló e Ramataim
Aparece em
Relações
- esposa de Elcana
- rival de Ana
Resposta curta
Penina foi a segunda esposa de Elcana, o homem de Efraim que se tornaria pai do profeta Samuel. O texto diz apenas que ela tinha filhos e filhas, enquanto Ana, a outra esposa, não tinha nenhum. Em Siló, nas viagens anuais para o sacrifício, Penina provocava Ana duramente por causa da esterilidade, e Ana chorava e deixava de comer. O relato descreve o ato e a dor que ele causava, sem registrar uma única fala de Penina nem explicar o que ela pensava. Depois dessa cena, ela desaparece da narrativa. Seu papel é servir de contraste: a esposa fecunda diante da esposa estéril, num contexto doméstico de poligamia em que a rivalidade era quase previsível. O verbete se mantém dentro do que o texto afirma e não completa as lacunas.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaPenina não é figura de Cristo, e o texto não a trata como tal. A ligação com o Novo Testamento é indireta e vem do contexto: a humilhação de Ana, a quem Deus ouve e exalta, ecoa no cântico de Maria, que celebra o Deus que olha para os humildes e derruba os poderosos de seus tronos. Penina ocupa o lugar de quem, naquela cena, parece ter a vantagem social, e é a reversão da situação, e não ela como personagem, que tem eco no tema do Magnificat.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Penina era uma das duas esposas de Elcana, o pai de Samuel. Ela tinha filhos e filhas, e Ana, a outra esposa, não tinha nenhum. Todo ano, quando a família ia a Siló para adorar a Deus, Penina provocava Ana por causa disso, e Ana chorava e não comia. A Bíblia não conta o que Penina sentia, nem o que aconteceu com ela depois. Sua história mostra como a rivalidade dentro de uma casa com duas esposas podia causar muita dor.
O mundo dele
Penina aparece no período dos juízes, em uma família de Ramataim-Zofim, na região montanhosa de Efraim, que subia todos os anos ao santuário de Siló. O texto a apresenta de passagem, quase como um dado de fundo: "Elcana tinha duas mulheres; o nome de uma era Ana, e o nome da outra, Penina. Penina tinha filhos, mas Ana não tinha" (). A ordem é significativa. O leitor conhece primeiro a esposa de que a história se ocupará, e só depois a outra, mencionada pela função que desempenha na cena.
O sentido do nome é incerto. Algumas obras o ligam a "pérola" ou "coral", mas a etimologia é debatida e o texto não faz nenhum jogo de palavras com ele. Também não há informação sobre sua origem familiar, sua idade ou a ordem em que as duas se casaram. A tradição de leitura costuma tratá-la como a segunda esposa, e o relato permite essa leitura, mas não declara quem veio primeiro.
A poligamia era reconhecida na sociedade israelita da época. Os relatos dos patriarcas mostram a mesma tensão entre esposas, como entre Sara e Hagar, em , ou entre Lia e Raquel, em , em que a fecundidade de uma e a esterilidade da outra produzem rivalidade e dor. prevê conflitos de herança em casas com duas esposas, mas regula o problema sem apresentar essa organização familiar como ideal. Num mundo em que a descendência garantia sustento, herança e lembrança do nome, a esterilidade era vista como grave desventura, e o texto diz que "o Senhor lhe tinha fechado o ventre" (), a explicação teológica dada na própria narrativa. É nesse cenário, e não no de uma vilã de contos, que Penina deve ser lida. Vale notar ainda que o texto a identifica apenas pelo nome e pela condição de mãe, sem pai, cidade de origem ou qualquer título, o que reforça que ela existe na narrativa em função da cena familiar e não por interesse biográfico do autor.
A história
O texto traz duas referências a Penina na cena anual do sacrifício. Na primeira, Elcana dá porções a Penina, a seus filhos e a suas filhas, e a Ana uma porção especial (). A divisão da carne, pública e visível, torna evidentes tanto a fecundidade de uma esposa quanto a esterilidade da outra, o que ajuda a entender por que o momento se transformava em ocasião de ferida.
A segunda referência é a mais citada: "Sua rival a provocava duramente, para a irritar, porque o Senhor lhe tinha fechado o ventre. Assim sucedia ano após ano; cada vez que subiam à casa do Senhor, ela a provocava, e Ana chorava e não comia" (). A palavra traduzida por "rival" vem de um termo hebraico que significa literalmente "a que causa angústia" e aparece também com o sentido de "inimigo" ou "adversário". O texto indica o comportamento, a repetição anual e o efeito sobre Ana. Não informa o que Penina dizia, nem se ela agia por inveja, por temor de perder o favor do marido, ou por outro motivo.
Essa reserva importa. A tradição popular costuma preencher o quadro com detalhes que o texto não oferece, como as palavras exatas das provocações ou o caráter da personagem. O autor bíblico, ao contrário, nomeia o efeito dos atos e liga o sofrimento de Ana ao silêncio do ventre atribuído a Deus, e não à maldade de Penina. A cena não faz de Penina a causa da esterilidade de Ana, e sim a agravante de uma dor que já existia. Por isso alguns comentaristas observam que a rivalidade deve ser entendida dentro da estrutura da casa poligâmica, e não apenas como falha individual.
Há também leituras que ampliam o quadro. Em algumas tradições rabínicas, sugere-se que as provocações teriam, ao menos em parte, o efeito de levar Ana à oração, o que teria resultado no voto e no nascimento de Samuel. Essa leitura nasce de interpretação posterior e não está no texto. Outras leituras, cristãs e judaicas, preferem manter o foco na dor de Ana e na resposta de Deus à sua oração. Penina nunca mais é mencionada depois de , e o texto não diz se seus filhos tiveram alguma participação futura na história de Israel. A narrativa avança para o santuário, para a oração de Ana e para o nascimento do profeta, e deixa Penina na posição incômoda de personagem que só é vista a partir da dor que causou.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:A Bíblia diz que Penina era maldosa e invejava Ana por amor ao marido.
O texto afirma que Penina provocava Ana duramente por causa da esterilidade (), mas não declara os motivos dela. Inveja, medo ou rivalidade doméstica são hipóteses de leitores, e não afirmações do relato.
Dizem que:Penina foi castigada por Deus com a perda dos filhos.
Nada no texto indica isso. Penina some da narrativa depois de , e não há registro de castigo, de morte de seus filhos ou de qualquer outro desfecho para ela.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Algumas fontes rabínicas, como certos midrashim e passagens do Talmude, leem as provocações de Penina como tendo o efeito de levar Ana a orar com mais intensidade. Há debate sobre se isso é elogio ou apenas explicação do resultado; o texto bíblico em si não faz essa afirmação.
Protestante
Muitos comentaristas protestantes veem em Penina o exemplo do que a poligamia podia gerar, a rivalidade entre esposas, e usam o relato como ilustração do alerta implícito em narrativas semelhantes do Gênesis, sem atribuir a ela um julgamento além do que o texto diz.
Católica
A leitura católica costuma deslocar o foco de Penina para Ana e seu cântico, lendo a humildade de Ana e a reversão que Deus opera como antecipação do Magnificat, enquanto Penina serve de contraste que ressalta a situação inicial da protagonista.
O que fazer com isso
O relato de Penina convida a ler com cuidado conflitos domésticos, sem inventar motivos que o texto não dá. Ele mostra como uma desigualdade visível, no caso a fecundidade diante da esterilidade, pode ser usada para ferir, e como a repetição anual transforma uma cena de culto em ocasião de angústia. Também lembra que quem aparece apenas como obstáculo na história de outro costuma ter uma história que o texto não conta.
Passagens relacionadas6
Fontes consultadas3
- Robert Alter. The David Story: A Translation with Commentary of 1 and 2 Samuel, 1999.
- P. Kyle McCarter Jr.. I Samuel: A New Translation with Introduction, Notes and Commentary (Anchor Bible), 1980.
- Walter Brueggemann. First and Second Samuel (Interpretation), 1990.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Penina era a primeira ou a segunda esposa de Elcana?
O texto não diz. Ela é mencionada depois de Ana, e a tradição costuma tratá-la como segunda esposa, mas apenas registra que Elcana tinha duas mulheres, sem informar a ordem dos casamentos.
O que Penina fazia contra Ana?
O texto diz que ela a provocava duramente, para a irritar, por causa da esterilidade, e que isso se repetia a cada ano na subida a Siló (). Não registra as palavras que usava.
Penina teve quantos filhos?
A Bíblia diz que ela tinha filhos e filhas (), sem dar o número nem os nomes.
O que aconteceu com Penina depois?
A Bíblia não registra. Penina deixa de ser mencionada depois do capítulo 1 de 1 Samuel, e o texto se concentra em Ana, no santuário e no nascimento de Samuel.