Matias
Quem foi Matias, o apóstolo escolhido por sorteio?
Ficha do personagem
Igreja primitiva, logo após a ascensão de Jesus, cerca de 33 d.C.
Aparece em
Relações
- sucessor de Judas Iscariotes
- concorrente no sorteio com José Barsabás (Justo)
- escolhido sob liderança de Pedro
- contado entre os onze apóstolos
Resposta curta
Matias entra na história bíblica em um único episódio, , num momento decisivo para a igreja recém-formada: escolher quem ocuparia o lugar de Judas Iscariotes entre os doze apóstolos. Diante de cerca de cento e vinte discípulos reunidos em Jerusalém, Pedro estabelece um critério para o substituto: ter acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ascensão, sendo testemunha ocular de toda a vida pública dele e, principalmente, da ressurreição. Apenas dois homens atendiam a essa exigência, José chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias.
Depois de orar pedindo que o Senhor revelasse sua escolha, a comunidade lançou sortes, e a sorte recaiu sobre Matias, contado desde então com os onze apóstolos. É o último caso registrado desse método de decisão antes de Pentecostes. Sobre o restante da vida de Matias, o texto bíblico permanece em silêncio.
Onde ele aparece
O nome
Matias — dom do Senhor (de mattath, "dom", e Yah, forma de Yahweh)
Significado, origem e variantes →Em palavras simples
Matias foi escolhido para completar o grupo dos doze apóstolos depois que Judas Iscariotes morreu. Os primeiros cristãos definiram uma regra simples: só podia ser alguém que tinha acompanhado Jesus desde o começo até a subida ao céu. Dois homens se encaixavam nessa regra, e o grupo decidiu entre eles por sorteio, depois de orar. A sorte caiu sobre Matias, que passou a fazer parte dos doze. A Bíblia não conta mais nada sobre ele depois disso.
O mundo dele
A cena de se passa entre a ascensão de Jesus e Pentecostes, num intervalo curto, tradicionalmente contado em dez dias, em que o grupo de discípulos permanece reunido em Jerusalém, num cenáculo, em oração. Lucas registra que ali estavam reunidas cerca de cento e vinte pessoas, incluindo os onze apóstolos, mulheres, Maria mãe de Jesus e os irmãos dele. É nesse ambiente de espera que Pedro se levanta para tratar de um problema concreto: o grupo dos doze, formado pelo próprio Jesus como um número simbólico ligado às doze tribos de Israel, ficara incompleto com a morte de Judas Iscariotes, que traiu Jesus e depois morreu, conforme descreve com detalhes macabros que complementam o relato de sobre seu enforcamento.
Pedro cita o Salmo 69:25 e o Salmo 109:8 como respaldo para a necessidade de substituição, um uso de textos do Antigo Testamento comum na pregação apostólica primitiva, que lia os salmos de lamento à luz dos acontecimentos recentes. O critério que ele propõe não é arbitrário: exige continuidade de testemunho, alguém que tivesse acompanhado todo o ministério público de Jesus, do batismo por João até a ascensão, para poder testemunhar pessoalmente a ressurreição, tema central da pregação apostólica que se seguiria em . Essa exigência reduz o campo de candidatos a dois nomes, José chamado Barsabás, também chamado Justo, e Matias, ambos discípulos que aparentemente seguiam Jesus de perto sem pertencer ao círculo dos doze escolhidos por ele durante o ministério.
O episódio situa-se, portanto, num momento de transição institucional: a comunidade cristã ainda não recebera o Espírito Santo prometido por Jesus em , mas já precisava tomar uma decisão de liderança. A prática de lançar sortes para decisões importantes tinha longa tradição israelita, presente na divisão da terra em e no funcionamento do Urim e Tumim usado pelos sacerdotes. É dentro dessa tradição que a escolha de Matias deve ser lida.
A história
O detalhe que mais chama atenção no relato de Matias é o método usado para escolhê-lo: lançamento de sortes, depois de oração. Para o leitor moderno, decidir uma questão de liderança espiritual por sorte pode soar como jogo de azar. Mas o texto de Atos não descreve um ato de acaso desligado de critério. Antes de lançar as sortes, a comunidade já havia reduzido o campo a dois nomes por meio de uma exigência objetiva e verificável, ter acompanhado Jesus desde o início do seu ministério público. A sorte não substituiu o discernimento, ela decidiu entre duas opções já igualmente qualificadas, depois de um pedido explícito de oração para que o próprio Senhor revelasse sua vontade, conforme .
Comentaristas como Matthew Henry observam que essa prática recorre à tradição do Antigo Testamento, em que lançar sortes era entendido como um meio legítimo de conhecer a vontade divina em situações que exigiam decisão comunitária, como afirma ao dizer que a sorte é lançada no colo, mas do Senhor vem toda a decisão. Nesse sentido, os apóstolos não estavam agindo por conta própria, mas seguindo um padrão bíblico reconhecido.
Ao mesmo tempo, esse episódio marca um limite histórico: depois de , a Bíblia não registra nenhum outro caso de decisão eclesiástica tomada por sorteio. Poucos capítulos adiante, no Pentecostes de , o Espírito Santo é derramado sobre a igreja, e a partir daí as decisões da comunidade cristã passam a ser descritas de outra forma, por meio de discernimento coletivo, oração e orientação direta atribuída ao Espírito, como em , quando o Espírito Santo fala durante um culto de jejum, ou em , no chamado concílio de Jerusalém, resolvido por debate e consenso apostólico, não por sorte. Comentaristas notam esse contraste sem que o texto bíblico o explique de forma direta; trata-se de uma observação sobre a sequência narrativa, não de uma doutrina explícita do livro de Atos.
Matias, portanto, ocupa um lugar curioso na história bíblica: é o último nome escolhido por um método que estava prestes a sair de uso, bem no limiar da era descrita como a do Espírito Santo agindo na igreja. A Escritura não guarda rancor nem elogio especial por essa escolha; simplesmente registra que ele foi contado com os onze e, depois disso, seu nome não volta a aparecer no restante do Novo Testamento. Tradições posteriores, fora do texto bíblico, tentaram preencher essa lacuna atribuindo a Matias trabalho missionário e martírio em diferentes regiões, mas nenhuma dessas informações tem respaldo nas Escrituras canônicas.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Matias e Mateus, o apóstolo publicano, são a mesma pessoa.
São dois nomes parecidos em português, mas referem-se a apóstolos diferentes. Mateus foi um dos doze escolhidos pelo próprio Jesus durante o ministério, ex-cobrador de impostos, autor tradicional do primeiro evangelho. Matias só aparece depois, em , escolhido pela comunidade para substituir Judas Iscariotes.
Dizem que:Matias foi escolhido por puro acaso, como quem tira um nome de um chapéu, sem nenhum critério.
O texto de mostra que Pedro estabeleceu antes um critério específico e restritivo, que reduziu os candidatos a apenas dois nomes. O sorteio decidiu entre esses dois já igualmente qualificados, não entre qualquer pessoa do grupo.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo e Ortodoxia
Matias é reconhecido como apóstolo pleno, legitimamente contado entre os doze desde então. A tradição associa seu ministério posterior a regiões como a Capadócia, a Judeia ou a Etiópia, e sua escolha por sorte, precedida de oração, é lida como um ato válido de discernimento comunitário guiado por Deus.
Protestantismo histórico (reformado e luterano)
Aceita a narrativa de como registro de um ato legítimo de fé da igreja primitiva, sem questionar a apostolicidade de Matias, ainda que reconheça que o Novo Testamento não relate mais nada sobre seu ministério posterior.
Leitura de alguns comentaristas evangélicos e dispensacionalistas
Alguns intérpretes veem no episódio um passo dado pelos apóstolos antes do tempo, sem esperar a orientação direta do Espírito Santo, que só seria derramado em Pentecostes. Nessa leitura, o verdadeiro apóstolo que Deus reservava para completar o grupo teria sido Paulo, chamado diretamente por Cristo ressuscitado, e o episódio de Matias seria comparado à iniciativa precipitada de Abraão em relação a Hagar.
O que fazer com isso
A história de Matias mostra que buscar critérios claros antes de decidir, e ainda assim reconhecer os limites do próprio discernimento, fazem parte da vida de fé desde o início da igreja. A comunidade reunida em Jerusalém não dispensou a responsabilidade de avaliar com cuidado quem estava qualificado para a função, mas também não confundiu esse cuidado com controle total sobre o resultado final da escolha.
Passagens relacionadas13
Fontes consultadas4
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1706.
- F. F. Bruce. The Book of the Acts (New International Commentary on the New Testament), 1954.
- William Barclay. The Acts of the Apostles (Daily Study Bible), 1955.
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Matias e Mateus são o mesmo apóstolo?
Não. São dois apóstolos diferentes, apenas com nomes parecidos em português. Mateus foi escolhido por Jesus durante o ministério; Matias foi escolhido pela comunidade depois da ascensão, para substituir Judas Iscariotes.
Como Matias foi escolhido apóstolo?
Pedro estabeleceu um critério diante da comunidade reunida em Jerusalém: o substituto de Judas precisava ter acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ascensão. Apenas Matias e José Barsabás atendiam a essa exigência, e depois de orar, a comunidade decidiu entre os dois por meio de sorteio.
O que aconteceu com Matias depois de Atos 1?
A Bíblia não relata mais nada sobre ele depois de sua escolha. Tradições posteriores, fora do texto bíblico, falam de missões em regiões como Capadócia ou Etiópia e de seu martírio, mas essas informações não têm confirmação nas Escrituras.
Lançar sortes era uma prática normal entre os primeiros cristãos?
Era uma herança da tradição israelita, usada por exemplo na divisão de terras e associada ao funcionamento do Urim e Tumim. O caso de Matias, em , é o último exemplo desse método de decisão registrado na Bíblia, pouco antes de Pentecostes.