Ismael
Quem foi Ismael na Bíblia e o que aconteceu com ele
Ficha do personagem
patriarcas, por volta do séc. XIX-XVIII a.C.
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Resposta curta
Ismael nasceu quando Abrão tinha oitenta e seis anos, filho da escrava egípcia Agar. Depois de dez anos em Canaã sem filhos, Sarai deu sua serva ao marido para gerar um herdeiro por meio dela (). Grávida, Agar desprezou Sarai; maltratada em resposta, fugiu ao deserto, onde um anjo a encontrou junto a uma fonte e prometeu que seu filho seria pai de uma multidão, mandando chamá-lo Ismael, "Deus ouve".
Aos treze anos foi circuncidado com Abraão (). Quando Isaque nasceu e foi desmamado, Sara exigiu que Ismael fosse expulso; Abraão cedeu, angustiado, depois que Deus prometeu cuidar do menino. Agar e Ismael quase morreram de sede no deserto, até Deus abrir os olhos dela para um poço. Ismael cresceu em Parã, tornou-se arqueiro, casou com uma egípcia e gerou doze príncipes; morreu aos 137 anos.
Onde ele aparece
O nome
Ismael — Deus ouve (do hebraico shama, "ouvir", e El, "Deus"); também lido como "Deus ouvirá", pelo duplo alcance temporal do verbo hebraico.
Significado, origem e variantes →Como isso aponta para Jesus
TipologiaEm , Paulo retoma Agar e Ismael como figura alegórica: o filho "nascido segundo a carne" (gerado por esforço humano, à margem da promessa) representa a aliança da lei, enquanto Isaque, "nascido segundo a promessa", representa a aliança da liberdade que se cumpre em Cristo. A leitura não trata Ismael como pessoa má nem nega a bênção genuína que Deus lhe concede em Gênesis — o próprio texto de Gênesis já garante isso —, mas usa o contraste entre os dois nascimentos para ilustrar a diferença entre o que a iniciativa humana produz e o que somente a promessa de Deus, cumprida em Cristo, realiza.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Ismael foi o primeiro filho de Abraão, nascido da escrava Agar porque Sara ainda não tinha conseguido ter filhos. Quando o irmão mais novo, Isaque, nasceu, Sara pediu que Agar e Ismael fossem mandados embora, e Abraão concordou depois que Deus prometeu cuidar dos dois. No deserto, mãe e filho quase morreram de sede, mas Deus os socorreu e repetiu a promessa de que Ismael teria uma grande descendência. Ele cresceu, formou sua própria família e é lembrado como ancestral de diversos povos árabes.
O mundo dele
A história de Ismael começa em um contexto social bem documentado no antigo Oriente Próximo: contratos de casamento encontrados em Nuzi e outros sítios da Mesopotâmia mostram que era comum uma esposa estéril entregar sua serva ao marido para gerar um herdeiro em seu nome, e a criança resultante era juridicamente reconhecida como filho legítimo do casal. É esse costume que explica a atitude de Sarai em , não um desvio moral inventado pelo casal — ainda que o texto bíblico, adiante, deixe claro que essa não era a via da promessa de Deus.
Agar, serva egípcia de Sarai, provavelmente entrou na casa de Abraão durante a passagem do casal pelo Egito narrada em . Grávida de Ismael, ela recebeu de um anjo do Senhor, junto a uma fonte no deserto, a primeira revelação bíblica do nome "El-Roi" ("o Deus que vê", ) — um dos poucos episódios do Antigo Testamento em que uma mulher recebe diretamente uma promessa divina sobre sua descendência.
O nome Ismael (hebraico Yishma'el) significa "Deus ouve" ou "Deus escuta", formado pelo verbo shama ("ouvir") associado a El ("Deus") — um nome dado antes do nascimento, conforme instrução do anjo. Ele nasceu quando Abrão tinha 86 anos () e foi circuncidado aos 13, junto com o pai, quando este tinha 99 anos e recebeu a promessa de que o filho da aliança viria por Sara ().
A expulsão de Agar e Ismael ocorreu no desmame de Isaque, quando Ismael já teria uns 16 ou 17 anos — não era um bebê, como às vezes se imagina. Depois de crescer no deserto de Parã (região ao sul de Canaã, na península do Sinai), casou-se com uma mulher egípcia arranjada por sua mãe e teve doze filhos, listados em como chefes de doze tribos, um paralelo estruturado às doze tribos que viriam de Jacó. Ele morreu aos 137 anos () e é mencionado ainda na genealogia de .
A história
O texto bíblico não resolve a tensão entre Ismael e Isaque simplificando um dos dois lados. Deus promete duas vezes, com linguagem quase idêntica à usada para Abraão, que fará de Ismael uma grande nação: "eu o abençoarei, e o farei frutificar, e multiplicarei sobremaneira; ele gerará doze príncipes, e dele farei uma grande nação" (), e repete a promessa a Agar no deserto (). Ao mesmo tempo, o texto é igualmente claro em de que a aliança específica — aquela que carrega a promessa messiânica e a posse da terra — segue por Isaque, "o filho que Sara te dará". As duas afirmações não competem entre si no relato: uma é sobre bênção e descendência numerosa; a outra, sobre o portador de uma aliança particular.
O que a narrativa não esconde é o custo humano dessa distinção. registra sem rodeios que Sarai "afligiu" Agar, usando o mesmo verbo hebraico (anah) empregado depois para descrever a opressão dos egípcios sobre Israel no Êxodo — uma escolha de vocabulário que convida o leitor a sentir o peso do que Agar sofreu, mesmo estando ela em posição social inferior. Em , a cena da expulsão é dura: Abraão entrega a Agar apenas pão e um odre de água, ela vaga pelo deserto de Berseba, e quando a água acaba, senta o filho debaixo de um arbusto e se afasta "para não ver a morte do menino", chorando alto. É nesse ponto, não antes, que "Deus ouviu a voz do menino" () — o nome Ismael, "Deus ouve", se cumpre literalmente no momento de maior desamparo da família, e não no momento da bênção anunciada.
Comentaristas como Keil e Delitzsch notam que o texto trata Abraão com genuína angústia ("a coisa pareceu muito má aos olhos de Abraão por causa de seu filho", ) e não como alguém indiferente ao destino de Ismael; é Deus quem instrui a expulsão, prometendo simultaneamente que cuidará do menino rejeitado. Fora do texto bíblico, Ismael passou a ser lembrado por tradições posteriores, inclusive fora do cristianismo, como ancestral de povos árabes — um detalhe histórico-cultural amplo, mas que não é o foco da narrativa de Gênesis, cujo interesse está em mostrar que a bênção sobre Ismael é real, generosa e cumprida, sem que isso desvie a linha da promessa que a Escritura acompanha até Isaque, Jacó e, mais adiante, até Cristo.
O que costumam dizer errado3
Dizem que:Ismael era um bebê de colo quando foi expulso do acampamento de Abraão
Pela cronologia do próprio texto (Abraão tinha 86 anos quando Ismael nasceu, , e 100 anos quando Isaque nasceu, ), Ismael já tinha por volta de 14 anos no nascimento do irmão, e a expulsão só ocorreu no desmame de Isaque, quando Ismael teria uns 16 ou 17 anos — um adolescente, não um bebê.
Dizem que:A Bíblia apresenta Ismael como uma figura má ou amaldiçoada
O texto registra o contrário: Deus abençoa Ismael explicitamente, promete fazer dele uma grande nação e cumpre essa promessa (; 21:13,18; 25:12-16). A distinção que Gênesis faz é sobre qual filho carrega a aliança específica, não um julgamento moral sobre o caráter de Ismael.
Dizem que:Deus abandonou Agar e Ismael no deserto
narra o oposto: Deus ouve o choro do menino, abre os olhos de Agar para um poço de água e permanece com Ismael enquanto ele cresce — o próprio nome Ismael ("Deus ouve") é apresentado como cumprido nesse episódio.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Lê o episódio à luz de e : Ismael representa o que nasce "segundo a carne", por iniciativa humana, em contraste com Isaque, nascido "segundo a promessa". A bênção sobre Ismael é real, mas distinta da bênção da aliança, que segue soberanamente pela linha que Deus escolheu desde antes do nascimento dos dois filhos.
Católica
Acompanhando leituras patrísticas (como a de Agostinho), vê em Agar e Ismael uma figura da condição humana sob a lei, superada pela liberdade da graça representada por Isaque, sem que isso diminua o reconhecimento de que a providência de Deus cuida ativamente de Ismael e de sua descendência, como sinal do alcance universal da misericórdia divina.
Ortodoxa
Dá peso especial ao encontro de Agar com Deus no deserto e à revelação do nome El-Roi ("o Deus que vê", ), lendo o episódio sobretudo como testemunho da compaixão divina que alcança pessoas fora da linha da aliança visível, sem transformar isso em doutrina sobre eleição.
Wesleyana/Arminiana
Enfatiza que a promessa de Deus a Ismael () mostra o amor de Deus se estendendo genuinamente a quem está fora do arranjo específico da aliança, como expressão da graça que alcança todas as nações, e não apenas um grupo previamente determinado.
O que fazer com isso
A história de Ismael mostra que, no relato bíblico, ficar fora da linha principal de uma promessa não significa ficar fora do cuidado de Deus: o texto registra bênção, provisão e atenção genuína também para quem não carrega a aliança específica. É um convite a ler as narrativas bíblicas de família com atenção a todos os personagens envolvidos, inclusive os que sofrem as consequências de decisões humanas alheias.
Passagens relacionadas7
Fontes consultadas4
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: The Pentateuch, 1866.
- Gordon J. Wenham. Genesis 1-15 / Genesis 16-50 (Word Biblical Commentary), 1994.
- Victor P. Hamilton. The Book of Genesis, Chapters 1-17 e 18-50 (NICOT), 1995.
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (BDB), 1906.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Ismael é filho de quem na Bíblia
Ismael é filho de Abraão com Agar, serva egípcia de Sara. Ele nasceu quando Abrão tinha 86 anos, antes de Isaque, o filho que Sara teria mais tarde por promessa de Deus.
Por que Ismael foi expulso de casa
Depois que Isaque nasceu e foi desmamado, Sara pediu que Agar e Ismael fossem mandados embora, temendo que Ismael dividisse a herança com Isaque. Abraão só concordou depois que Deus prometeu cuidar de Ismael e fazer dele também uma grande nação.
Deus abençoou Ismael mesmo ele não sendo o filho da promessa
Sim. e 21:13 registram uma bênção explícita de Deus sobre Ismael, prometendo multiplicá-lo e fazer dele uma grande nação, mesmo com a aliança específica seguindo por Isaque.
Ismael é considerado ancestral de que povos
lista doze filhos de Ismael como chefes de doze tribos, e tradições posteriores, dentro e fora do cristianismo, o associam à origem de diversos povos árabes.