Eglom
Quem foi Eglom, o rei de Moabe morto por Eúde?
Ficha do personagem
Período dos juízes, cerca do séc. XII a.C.; Moabe e Jericó
Aparece em
Relações
- morto por Eúde
- aliado de Amonitas e amalequitas
- rei de Moabe
Resposta curta
Eglom foi o rei de Moabe que, segundo o livro de Juízes, dominou parte de Israel por dezoito anos. O texto afirma que o Senhor o fortaleceu contra os israelitas por causa do mal que praticavam, e que ele reuniu amonitas e amalequitas, atacou e ocupou a “cidade das palmeiras”, geralmente identificada com Jericó. Israel passou a lhe pagar tributo, até que o benjamita Eúde foi enviado com a oferta. Escondendo uma espada de dois gumes, Eúde matou o rei no aposento superior do palácio, num dos relatos mais vívidos e de humor mais ácido do livro. Em seguida Israel venceu os moabitas nos vaus do Jordão, e a terra teve descanso por oitenta anos.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO texto chama Eúde de “libertador” (), alguém que Deus levanta para livrar o povo que clama. A narrativa não é tipologia de Cristo e não deve ser forçada como tal; a ligação, se houver, é apenas temática. A libertação como resposta ao clamor do povo é um tema que o Novo Testamento retoma quando fala de Jesus como aquele que visita e redime os que viviam sob domínio de inimigos.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Eglom foi um rei de Moabe, povo vizinho de Israel, que dominou parte do território israelita por dezoito anos. Os israelitas precisavam pagar tributo a ele. Quando o povo clamou a Deus, surgiu um libertador chamado Eúde, que levou o tributo e matou Eglom num aposento superior do palácio. Depois disso, os israelitas venceram os moabitas e tiveram paz por oitenta anos. A história está em e mostra como o livro explica a opressão e a libertação do povo.
O mundo dele
O episódio pertence ao período dos juízes, geralmente situado entre os séculos XII e XI a.C., embora a datação exata seja incerta e dependa de como se leem as cronologias do livro. Moabe ficava a leste do mar Morto, do outro lado do Jordão, e seus habitantes eram vistos pelos israelitas como parentes distantes, descendentes de Ló (). A relação entre os dois povos oscilou entre convivência e conflito: a Torá restringe a entrada de moabitas na assembleia do Senhor (), mas o livro de Rute mostra uma moabita incorporada ao povo de Deus.
Juízes organiza suas narrativas num ciclo repetido: Israel faz o que é mau aos olhos do Senhor, é entregue a um opressor, clama por socorro e recebe um libertador. Em , Eglom entra nesse esquema como instrumento, pois o texto diz que o Senhor o “fortaleceu” contra Israel. O rei reúne os amonitas e os amalequitas, povos vizinhos que aparecem em outros momentos como adversários de Israel, fere o povo e toma “a cidade das palmeiras”. A expressão designa Jericó em , mas o relato não diz que Eglom tenha reconstruído a cidade, sobre a qual pronunciara uma maldição. Os estudiosos discutem se o termo indica a própria Jericó ou uma localidade próxima, entre as palmeiras do vale do Jordão.
O nome Eglom é frequentemente relacionado à palavra hebraica para “bezerro” (egel), mas o texto não explora essa ligação e a etimologia permanece incerta. Também não se conhece inscrição moabita que o mencione, nem o nome da sua capital; tudo o que se sabe dele vem deste único capítulo bíblico. Isso pede cautela: o relato é uma narrativa israelita, contada do ponto de vista de quem sofreu a opressão, e preserva pouco do que Moabe diria de si mesmo. Por isso, o leitor deve distinguir entre o que o texto afirma e o que a tradição acrescentou.
A história
O tributo é o eixo do relato. Depois de dezoito anos de sujeição, Israel clama ao Senhor, que levanta Eúde, filho de Gera, benjamita, descrito como “canhoto” (literalmente, de mão direita impedida, ). Foi esse homem que os israelitas encarregaram de levar a oferta a Eglom. O texto observa que Eúde fez para si uma espada de dois gumes, de um côvado de comprimento, e a prendeu à coxa direita, sob as roupas, lado que guardas habituados a esperar a arma à esquerda tenderiam a ignorar. Muitos intérpretes veem aí uma vantagem tática, embora o texto não a formule; e a palavra traduzida como “côvado” (gomed) aparece só neste lugar, de modo que o comprimento exato é incerto.
Entregue o tributo, Eúde despediu os carregadores e voltou das pedreiras junto a Gilgal (a palavra hebraica também pode significar “imagens”, e as traduções variam), anunciando que tinha “uma palavra secreta” para o rei. Eglom, descrito como homem muito gordo, esvaziou o aposento e recebeu Eúde sozinho no cômodo superior, fresco. A frase seguinte, “tenho uma palavra de Deus para ti” (3:20), é ambígua: pode ser lida como pretexto, como mensagem verdadeira de juízo ou como as duas coisas. O rei se levantou do trono, Eúde sacou a espada com a mão esquerda e a cravou no ventre, e a gordura se fechou sobre a lâmina. O narrador não poupa detalhes físicos, e o conjunto tem tom de sátira: o poderoso se mostra vulnerável e ridículo, enquanto os servos, vendo as portas trancadas, supõem que ele esteja “cobrindo os pés” (expressão geralmente entendida como necessidade fisiológica) e esperam até se envergonharem.
A resposta israelita vem em seguida. Eúde escapa por Seirá, toca a trombeta na região montanhosa de Efraim, reúne o povo e ocupa os vaus do Jordão, impedindo que os moabitas atravessem. O texto fala de cerca de dez mil moabitas mortos, todos robustos e valentes, e conclui que Moabe foi subjugado e que a terra descansou oitenta anos (3:29-30). Note-se a ênfase teológica: o povo avança porque o Senhor entregou os inimigos (3:28). Quanto à moralidade do ato de Eúde, o texto simplesmente narra, sem aprová-lo nem condená-lo de forma explícita, e leitores de tradições diversas discutem como julgá-lo.
Vale observar ainda o papel do tributo como símbolo: carregado por uma comitiva de homens de Israel, ele representava a sujeição cotidiana do povo, e é justamente nesse momento de humilhação, sob o pretexto de uma entrega rotineira, que a libertação começa. O narrador explora a ironia de a oferta ao opressor ser o meio de aproximação do libertador, sem comentar a moralidade da estratégia.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Eúde matou Eglom porque Deus lhe deu uma ordem direta de assassinar o rei.
O texto diz que o Senhor levantou Eúde como libertador () e que entregou os moabitas nas mãos de Israel (3:28), mas não registra nenhuma ordem específica para matar Eglom. A motivação apresentada é a opressão de dezoito anos; a moralidade do método fica sem comentário explícito.
Dizem que:Eglom era o rei de Jericó e foi quem destruiu as muralhas da cidade.
Eglom era rei de Moabe. A destruição das muralhas de Jericó é narrada em , muito antes, e atribuída a Josué. Eglom aparece apenas ocupando “a cidade das palmeiras”, expressão que costuma ser lida como referência a Jericó ou à sua vizinhança.
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Textos rabínicos antigos, como o Talmude (Sanhedrin 105b), associam Eglom à casa de Balaque e a Rute, fazendo dele, segundo essa tradição, um antepassado da moabita que entrou em Israel. A leitura dá ao relato uma ressonância com o livro de Rute: da mesma linhagem do opressor viria quem se uniu ao povo de Deus.
Católica
A tradição patrística, da qual Orígenes é exemplo em suas Homilias sobre Juízes, costuma ler os juízes de modo alegórico, vendo nos libertadores figuras do livramento que Cristo traz e na opressão uma imagem da servidão do pecado, sem retirar o valor do sentido histórico do texto.
Reformada
Tende a enfatizar o ciclo de pecado, juízo e livramento governado pela soberania de Deus, e a tratar o ato de Eúde como narrativa descritiva. Muitos comentaristas desse campo advertem que o fato de o texto relatar o gesto não faz dele modelo de conduta para o leitor.
Histórico-crítica
Muitos estudiosos leem o capítulo como um relato com traços de sátira nacional, preservado e moldado para reforçar a identidade de Israel diante de Moabe, e discutem o quanto da narrativa reflete uma memória histórica e o quanto é composição literária posterior.
O que fazer com isso
O relato de Eglom lembra que o poder aparentemente sólido de um opressor não tem a última palavra no livro de Juízes, que o atribui à iniciativa de Deus e ao clamor do povo. Ele também convida a ler narrativas violentas com honestidade: o texto descreve sem comentar a moralidade de cada gesto. A aplicação mais segura é notar que, ali, a libertação nasce do clamor de quem sofre, e não da força de quem oprime nem da esperteza de quem reage.
Passagens relacionadas8
Fontes consultadas3
- Daniel I. Block. Judges, Ruth (The New American Commentary), 1999.
- Robert G. Boling. Judges (Anchor Bible), 1975.
- K. Lawson Younger Jr.. Judges and Ruth (NIV Application Commentary), 2002.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quanto tempo durou o domínio de Moabe sobre Israel?
Segundo , Israel serviu a Eglom por dezoito anos. Depois da vitória sobre os moabitas, o texto afirma que a terra teve descanso durante oitenta anos ().
Qual era a cidade das palmeiras que Eglom tomou?
usa essa expressão para Jericó. Em ela é geralmente lida da mesma forma, mas há quem entenda que o texto se refere a uma localidade próxima, no vale do Jordão.
Por que se destaca que Eúde era canhoto?
Porque a espada, presa à coxa direita, era um lugar pouco esperado para uma arma. O texto diz literalmente que ele tinha a mão direita impedida. Alguns leitores notam ainda a ironia de ele ser benjamita, nome que costuma ser relacionado à ideia de “filho da direita”.
Há registros fora da Bíblia sobre Eglom?
Não se conhece nenhuma inscrição que mencione Eglom. Todas as informações sobre ele vêm de , o que impede confirmar ou detalhar a história por fontes independentes.