Baasa
Quem foi Baasa na Bíblia e como ele se tornou rei de Israel
Ficha do personagem
reino de Israel, séc. IX a.C.
Aparece em
Relações
- usurpou o trono de Nadabe
- exterminou a dinastia de Jeroboão
- rival de Asa
- pai de Elá
- condenado pelo profeta Jeú, filho de Hanani
Resposta curta
Baasa, da tribo de Issacar, toma o trono de Israel numa conspiração sangrenta. Durante o cerco à cidade filisteia de Gibetom, assassina o rei Nadabe, filho de Jeroboão, e assume o poder. Em seguida extermina toda a casa de Jeroboão, sem deixar sobrevivente — cumprindo, segundo o texto, a palavra que o profeta Aías havia pronunciado contra aquela dinastia.
Mas o relato não trata Baasa como herói de justiça divina. Ele reina vinte e quatro anos repetindo os pecados de Jeroboão e guerreia sem trégua contra Asa, rei de Judá, chegando a fortificar Ramá para bloquear o acesso a Jerusalém. O profeta Jeú anuncia contra ele quase as mesmas palavras usadas contra Jeroboão: sua casa também será varrida. Poucos anos depois, seu filho Elá é assassinado por Zimri, extinguindo a dinastia tão depressa quanto ela havia começado.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO reinado de Baasa nasce da violência e se sustenta pela violência: ele mata para subir ao trono e sua casa é apagada do mesmo modo. Mesmo quando serve, sem saber, a um propósito de julgamento divino, o texto bíblico não o absolve — porque o meio usado, o assassinato ambicioso, permanece moralmente condenável, independentemente do resultado que produz. Esse ciclo de reis que se instalam pela espada e caem pela espada é marca constante da monarquia do Norte, e contrasta com a figura de um rei que estabelece seu reinado não pela força contra outros, mas pela entrega da própria vida, e que julga com justiça perfeita, sem ambição pessoal misturada ao veredito.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Baasa era um oficial do exército de Israel que matou o rei Nadabe durante um cerco militar e tomou o trono à força. Ele também mandou matar toda a família do rei anterior, Jeroboão. Isso, segundo a Bíblia, cumpriu uma profecia contra aquela família — mas Baasa acabou repetindo os mesmos erros religiosos e políticos, e um profeta anunciou que a família dele teria o mesmo fim. Poucos anos depois de sua morte, foi exatamente o que aconteceu: seu filho foi assassinado e toda a sua linhagem, exterminada.
O mundo dele
Baasa aparece em , no início do período mais instável da história do reino do Norte, Israel, separado de Judá desde a morte de Salomão. O primeiro rei de Israel, Jeroboão, havia instituído um culto rival ao de Jerusalém, com santuários e bezerros de ouro em Betel e Dã () — um pecado que o texto bíblico repete como refrão ao longo de toda a narrativa dos reis do Norte. Por causa disso, o profeta Aías anunciou que a dinastia de Jeroboão seria completamente eliminada ().
Essa sentença se cumpre poucos anos depois. Nadabe, filho de Jeroboão, sucede o pai mas reina apenas dois anos. Enquanto seu exército sitiava Gibetom, cidade filisteia na fronteira ocidental, um de seus próprios oficiais — Baasa, da tribo de Issacar — o assassina e assume o trono (). Baasa então mata toda a família de Jeroboão, sem deixar nenhum descendente vivo, conforme registra explicitamente como cumprimento da palavra do Senhor por meio de Aías.
Esse padrão de golpe militar torna-se característico do reino do Norte: ao contrário de Judá, onde a dinastia davídica se mantém por séculos, Israel troca de dinastia repetidas vezes por conspiração e assassinato interno. Baasa reina cerca de vinte e quatro anos, por volta do século IX a.C., conforme cronologias tradicionais — embora a sincronização exata dos reinados no livro de Reis seja discutida entre historiadores e cronólogos bíblicos. Durante esse período mantém conflito armado praticamente permanente com Asa, rei de Judá, e chega a fortificar Ramá, poucos quilômetros ao norte de Jerusalém, numa tentativa de controlar o comércio e o movimento de pessoas em direção ao reino vizinho (; ). Asa responde subornando o rei arameu Ben-Hadade para atacar o território de Baasa pelo norte, forçando-o a abandonar a obra de fortificação antes de concluí-la.
A história
A ironia central da história de Baasa é estrutural: ele é o instrumento que cumpre o julgamento anunciado contra a casa de Jeroboão, mas o próprio texto bíblico recusa-se a absolvê-lo por isso. Em , o profeta Jeú, filho de Hanani, dirige a Baasa uma acusação que espelha quase palavra por palavra a que Aías fizera contra Jeroboão: "Eu te levantei do pó e te constituí príncipe sobre o meu povo Israel; contudo andaste no caminho de Jeroboão e fizeste pecar o meu povo Israel [...] eis que varrerei totalmente a Baasa e a sua casa". O texto trata os dois reis pela mesma régua moral, apesar de um ter sido o executor do castigo do outro.
Essa estrutura repete um princípio que aparece em outros pontos da Escritura: ser usado para cumprir um propósito divino não equivale a agir com justiça. O paralelo mais próximo é Jeú, que décadas depois extermina a casa de Acabe em cumprimento de outra palavra profética (), e ainda assim o profeta Oséias condena o "sangue de Jezreel" derramado por aquela mesma casa de Jeú (Oséias 1:4). Comentaristas como Keil e Delitzsch observam que o padrão sublinha uma distinção bíblica constante entre o resultado de um ato — que pode servir aos propósitos de Deus — e o caráter moral de quem o pratica, movido por ambição pessoal e não por obediência.
Baasa reina vinte e quatro anos (), tempo suficiente para consolidar Israel como potência regional e travar guerra praticamente ininterrupta com Judá "todos os seus dias" (). A fortificação de Ramá, a cerca de oito quilômetros de Jerusalém, é lida por comentaristas como Matthew Henry como tentativa deliberada de sufocar economicamente o reino do Sul, impedindo peregrinos e comerciantes de atravessar a fronteira. A manobra fracassa quando Asa recorre a uma aliança externa com a Síria — decisão que o cronista de também critica, por revelar falta de confiança em Deus da parte de Asa.
Baasa morre e é sepultado em Tirza, capital do reino nesse período (). Seu filho Elá sucede-o, mas reina apenas dois anos antes de ser assassinado, embriagado, por um de seus oficiais, Zimri — que então extermina toda a casa de Baasa "sem deixar-lhe até mesmo um cão", em linguagem quase idêntica à usada sobre a casa de Jeroboão (). A dinastia que nasceu de um assassinato termina do mesmo modo, num ciclo de violência que o livro de Reis não celebra em nenhum momento — apenas registra.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Como Baasa cumpriu a profecia contra Jeroboão, o texto bíblico o apresenta como um instrumento justo e aprovado por Deus.
O próprio livro de Reis nega isso explicitamente: em o profeta Jeú acusa Baasa dos mesmos pecados de Jeroboão e anuncia contra ele a mesma sentença de extermínio, tratando-o como igualmente culpado.
Dizem que:Baasa fundou uma dinastia duradoura em Israel.
Sua linhagem durou apenas uma geração — seu único sucessor registrado, o filho Elá, reinou cerca de dois anos antes de ser assassinado por Zimri, que exterminou toda a família ().
Como diferentes tradições cristãs leem4
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/calvinista
Enfatiza a soberania de Deus sobre eventos históricos violentos sem torná-lo autor do mal: Deus usa a ambição de Baasa para cumprir seu decreto contra Jeroboão, mas a responsabilidade moral pelo assassinato permanece inteiramente de Baasa, num paralelo ao uso dos caldeus descrito em .
Católica/patrística
Distingue entre causalidade providencial e causalidade moral — Deus permite e ordena o resultado da ação para seus próprios fins, mas não aprova nem participa da intenção pecaminosa do agente humano, seguindo a lógica agostiniana sobre o mal moral.
Wesleyana/arminiana
Destaca o livre-arbítrio de Baasa como plenamente responsável por sua escolha; a profecia cumprida descreve o que aconteceria, sem que Deus tenha determinado ou necessitado da violência específica de Baasa para que se cumprisse.
Ortodoxa
Lê o episódio como exemplo de como Deus tece até as ações de agentes livres e pecaminosos dentro do seu governo da história, sem que isso implique aprovação divina dos meios usados — um mistério associado à paciência de Deus com o livre-arbítrio humano.
O que fazer com isso
A história de Baasa desafia a ideia de que "o fim justifica os meios" quando um resultado parece cumprir um propósito divino. O texto bíblico distingue claramente entre o que Deus permite acontecer e o caráter de quem age por ambição própria. Ler esse relato com atenção convida a avaliar as próprias ações não pelo resultado que produzem, mas pela motivação e pelo modo como são realizadas.
Passagens relacionadas7
Fontes consultadas4
- Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament (I & II Kings), 1878.
- Henry, Matthew. Commentary on the Whole Bible, 1706.
- Gray, John. I & II Kings: A Commentary (Old Testament Library), 1970.
- Cogan, Mordechai. 1 Kings: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible), 2001.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Baasa na Bíblia?
Baasa foi o terceiro rei do reino do Norte, Israel, que chegou ao poder assassinando o rei Nadabe e exterminando toda a família de Jeroboão. Reinou cerca de vinte e quatro anos, no início do século IX a.C.
Como Baasa se tornou rei de Israel?
Ele era oficial do exército e aproveitou um cerco militar à cidade filisteia de Gibetom para conspirar contra o rei Nadabe, matando-o e tomando o trono para si ().
Por que Deus permitiu que Baasa exterminasse a casa de Jeroboão?
O texto liga essa matança ao cumprimento de uma profecia anterior do profeta Aías contra a dinastia de Jeroboão (). Ainda assim, a Bíblia condena o próprio Baasa pelos mesmos pecados, mostrando que cumprir um julgamento não tornou seus atos justos.
O que aconteceu com a família de Baasa?
Seu filho Elá sucedeu-o, mas reinou apenas dois anos antes de ser assassinado por Zimri, que exterminou toda a casa de Baasa, repetindo o mesmo padrão de violência que havia marcado sua própria ascensão.
Baasa é mencionado em outro livro além de 1 Reis?
Sim, sua guerra contra o rei Asa de Judá também é registrada em , que acrescenta detalhes sobre a aliança de Asa com a Síria para conter o avanço de Baasa.