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O Shemá no Papiro de Nash e em Deuteronômio 6:4-5

O Papiro de Nash prova que o Shemá é antigo?

Resposta curta

O Papiro de Nash é um fragmento de papiro egípcio adquirido em 1898 por Walter L. Nash, hoje na Universidade de Cambridge. Formado por quatro pedaços unidos, reúne uma versão dos Dez Mandamentos seguida, sem interrupção, pelo Shemá de . Datado entre o século II e o início do I a.C., foi por décadas o manuscrito hebraico bíblico mais antigo conhecido, até os rolos do mar Morto revelarem textos mais antigos, a partir de 1947.

O texto do Shemá no papiro chega muito próximo ao que se fixou no texto massorético: "Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é" aparece quase palavra por palavra, com pequenas variações de ordem próximas da Septuaginta grega. Essa proximidade mostra que a confissão central da fé judaica já circulava de forma estável bem antes das cópias completas da Torá hoje conhecidas.

O que diz Papiro de Nash

Papiro de Nash, texto do Shemá

O Papiro de Nash veio do Egito e foi comprado no mercado de antiguidades em 1898 pelo egiptólogo e colecionador britânico Walter Llewellyn Nash, que o doou à Universidade de Cambridge, onde permanece. O estudioso Stanley A. Cook publicou a primeira análise do texto em 1903, identificando-o como um fragmento hebraico pré-massorético. Décadas depois, em 1937, o arqueólogo William F. Albright refinou a datação usando comparação paleográfica de formas de letras, propondo uma origem no período macabeu, por volta de 150-100 a.C. Outros estudiosos preferem uma faixa mais ampla, do século II ao início do I a.C. Antes de 1947, quando os primeiros rolos de Qumrã vieram à luz, o Papiro de Nash era tratado como o manuscrito hebraico bíblico mais antigo já identificado.

Fisicamente, trata-se de quatro fragmentos de papiro que, juntos, somam cerca de 24 linhas escritas em escrita quadrada hebraica, a mesma família de caligrafia usada nos rolos do mar Morto e que deu origem ao hebraico impresso atual. O conteúdo começa com uma versão dos Dez Mandamentos que mistura formulações de e , e emenda diretamente com o Shemá de , sem os versículos de transição (6:1-3) que no texto bíblico separam as duas passagens.

Essa combinação incomum não corresponde a nenhum rolo de Torá conhecido — nenhuma sinagoga lia o Decálogo colado ao Shemá como Escritura corrida. Mas ela reproduz, quase à risca, uma prática litúrgica descrita na Mishná (Tamid 5:1): no Templo de Jerusalém, os sacerdotes recitavam diariamente os Dez Mandamentos junto com o Shemá. Fontes rabínicas posteriores (o Talmude de Jerusalém, Berakhot 1:5) registram que essa combinação foi depois abandonada na liturgia das sinagogas, para evitar que grupos dissidentes afirmassem que só o Decálogo, e não toda a Torá, tinha sido dado no Sinai. Por isso, a maioria dos especialistas entende o Papiro de Nash não como um trecho de rolo bíblico comum, mas como um texto devocional ou litúrgico avulso, talvez usado em oração pessoal ou coletiva.

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O que diz a Bíblia

Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é: E Amarás ao SENHOR teu Deus de todo teu coração, e de toda tua alma, e com todo tua poder.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • O papiro traz "Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é" quase palavra por palavra igual ao texto massorético de Deuteronômio 6:4
  • Preserva o mandamento de amar a Deus "de todo teu coração, e de toda tua alma" de Deuteronômio 6:5 no mesmo conteúdo essencial
  • Usa a mesma expressão de abertura שמע ישראל (Shemá Israel, "Ouve, Israel") que abre o versículo bíblico

Onde divergem

  • A ordem interna das palavras do versículo 4 no papiro se aproxima mais da ordem da Septuaginta grega do que da ordem do texto massorético padronizado
  • O papiro emenda o fim do Decálogo diretamente ao Shemá, omitindo os versículos de transição de Deuteronômio 6:1-3 presentes no texto bíblico

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A justaposição litúrgica do Decálogo com o Shemá, prática de recitação sacerdotal atestada na Mishná Tamid 5:1 mas ausente de qualquer rolo de Torá bíblico conhecido
  • Registro rabínico posterior (Talmude de Jerusalém, Berakhot 1:5) explicando por que essa combinação foi retirada da liturgia sinagogal
Em palavras simples

O Papiro de Nash é um pedaço antigo de papiro do Egito, com cerca de dois mil e duzentos anos, que traz os Dez Mandamentos seguidos do Shemá, a frase "Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR um é" (). Antes da descoberta dos rolos do mar Morto, era o manuscrito hebraico da Bíblia mais antigo já encontrado. O texto dele é quase igual ao que lemos hoje, com diferenças mínimas, mostrando que essa oração judaica já era recitada da mesma forma há mais de dois mil anos.

Aprofundamento

A comparação entre o Papiro de Nash e o texto que conhecemos de revela ao mesmo tempo uma fidelidade notável e diferenças pequenas, mas reais. No essencial, a frase que abre o Shemá aparece no papiro com o mesmo vocabulário hebraico do texto massorético: "Ouve, Israel: o SENHOR nosso Deus, o SENHOR [é] um." A ordem interna das palavras, porém, varia ligeiramente entre as testemunhas antigas, e a forma preservada no papiro se aproxima mais da ordem refletida na tradução grega da Septuaginta do que da ordem que se fixaria no texto massorético padronizado séculos depois. Isso não indica um "erro" em nenhum dos lados: mostra que, no período do Segundo Templo, mais de uma forma de organizar essas mesmas palavras convivia entre comunidades judaicas, antes que um texto consonantal único se tornasse dominante.

A diferença mais chamativa, no entanto, não está dentro do versículo 4, mas em torno dele. No texto bíblico, o Shemá vem depois de uma introdução () que fala em ensinar os mandamentos para que o povo prospere na terra prometida. O papiro pula direto do fim do Decálogo para "Ouve, Israel", sem esses versículos de ligação. Esse recorte específico — Decálogo mais Shemá, sem o material entre eles — só faz sentido como um resumo devocional deliberado, não como uma cópia corrida de um rolo da Torá. E ele bate com uma prática que a Mishná Tamid 5:1 atribui à liturgia matinal do Templo: a recitação conjunta dos Dez Mandamentos e do Shemá pelos sacerdotes antes do sacrifício diário. Isso sugere que o Papiro de Nash é um testemunho físico de uma prática de oração do judaísmo do Segundo Templo, e não apenas mais uma cópia de um trecho bíblico.

A datação do papiro também ilustra como a erudição se corrige com o tempo: a proposta original de Cook (1903), mais cautelosa, foi refinada por Albright (1937) com base em comparações de caligrafia então recém-disponíveis, chegando a uma faixa mais estreita dentro do século II a.C. Achados posteriores em Qumrã, a partir de 1947, deram aos estudiosos uma base de comparação paleográfica muito maior, confirmando de modo geral a proposta de Albright e tirando do Papiro de Nash o título de manuscrito hebraico bíblico mais antigo — sem, no entanto, diminuir seu valor: ele continua sendo uma das evidências mais antigas e mais completas de como o Shemá era lido e recitado num período muito próximo ao dos últimos livros do Antigo Testamento.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Papiro de Nash é o manuscrito bíblico hebraico mais antigo que existe.

    Ele ocupou esse posto apenas até 1947, quando os primeiros rolos do mar Morto vieram a público em Qumrã, trazendo fragmentos bíblicos hebraicos significativamente mais antigos que o papiro.

  • Dizem que:O Papiro de Nash é um trecho de um rolo de Torá usado em sinagogas, como os que existem hoje.

    Sua combinação incomum de Decálogo seguido direto pelo Shemá, sem os versículos de transição, não corresponde a nenhuma cópia corrida da Torá conhecida; a maioria dos especialistas o entende como um texto devocional ou litúrgico avulso, ligado à prática de recitação descrita na Mishná Tamid 5:1.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Cristianismo tradicional (católico, ortodoxo e protestante histórico)

    Lê o 'um' do Shemá, confirmado por Jesus em , como compatível com a doutrina trinitária: um só Deus em essência, cuja identidade única o Novo Testamento revela como Pai, Filho e Espírito Santo, sem que isso rompa a unicidade divina afirmada em .

  • Judaísmo messiânico

    Recita o Shemá como confissão judaica plena e, ao mesmo tempo, lê como uma expansão legítima dela — o 'um só Senhor, Jesus Cristo' incluído dentro da identidade do Deus único de Israel, não como um segundo deus.

  • Unitarianismo cristão (tradição biblicista minoritária)

    Enfatiza o sentido numérico estrito de 'um' no Shemá para sustentar que o Pai é o único Deus em pessoa, e lê a submissão de Cristo ao Pai nos evangelhos como reforço dessa unicidade pessoal, e não como identidade compartilhada de essência.

O que fazer com isso

Diante de um achado como o Papiro de Nash, o mais honesto é resistir a dois exageros: tratá-lo como "prova definitiva" de que nada mudou no texto bíblico, ou como sinal de que o texto é instável demais para confiar. O que ele mostra, com precisão, é um retrato datado de como uma comunidade judaica lia e recitava o Shemá séculos antes das cópias completas mais antigas que temos — um dado histórico valioso, não um veredito final.

Fontes consultadas3 obras
  • Stanley A. Cook. A Pre-Massoretic Biblical Papyrus, 1903.
  • William F. Albright. A Biblical Fragment from the Maccabaean Age: The Nash Papyrus, 1937.
  • Emanuel Tov. Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2012.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que é exatamente o Papiro de Nash?

É um fragmento de papiro egípcio, formado por quatro pedaços unidos, com cerca de 24 linhas em hebraico que trazem uma versão dos Dez Mandamentos seguida diretamente pelo Shemá de . Foi comprado em 1898 por Walter L. Nash e hoje está na Universidade de Cambridge.

De quando é o Papiro de Nash?

Estudiosos o datam entre o século II e o início do século I a.C., com William F. Albright propondo, em 1937, uma origem mais precisa no período macabeu, por volta de 150-100 a.C.

O texto do Shemá no papiro é igual ao da Bíblia atual?

É muito próximo, quase palavra por palavra, mas com pequenas variações de ordem interna que se aproximam mais da tradução grega da Septuaginta do que da ordem fixada depois no texto massorético.

Por que o papiro junta o Decálogo com o Shemá?

Essa combinação corresponde a uma prática litúrgica do Templo de Jerusalém descrita na Mishná Tamid 5:1, em que sacerdotes recitavam diariamente os Dez Mandamentos junto com o Shemá — prática depois abandonada na liturgia das sinagogas.

O Papiro de Nash ainda é o manuscrito bíblico hebraico mais antigo?

Não. Esse título passou para fragmentos encontrados entre os rolos do mar Morto a partir de 1947, que são significativamente mais antigos que o Papiro de Nash.

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Temas

Publicado em 02/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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