O final longo de Marcos preservado no Codex Alexandrinus
O Codex Alexandrinus tem o final longo de Marcos 16:9-20, que falta em outros manuscritos antigos?
Resposta curta
O Codex Alexandrinus, um dos quatro grandes manuscritos unciais da Bíblia grega, copiado no século V, contém o texto completo do chamado 'final longo' de Marcos, com as aparições de Jesus ressurreto a diferentes discípulos e a grande comissão final. Os unciais mais antigos que sobreviveram, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, ambos do século IV, terminam o evangelho de forma abrupta em 16:8, sem esse material adicional. Alexandrinus representa, portanto, o lado da tradição manuscrita que preserva e transmite o final longo como parte legítima do texto recebido, oferecendo evidência material concreta e datável para o debate de crítica textual sobre até onde realmente ia o evangelho de Marcos em sua forma mais antiga conhecida.
O que diz Codex Alexandrinus
Codex Alexandrinus, folhas correspondentes ao evangelho de Marcos, capítulo 16
O final do evangelho de Marcos é um dos casos mais discutidos de toda a crítica textual do Novo Testamento. Os dois manuscritos unciais gregos mais antigos e mais completos que sobreviveram até hoje, o Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, ambos datados do século IV, terminam o texto de Marcos abruptamente em 16:8, com as mulheres fugindo do túmulo vazio, atônitas e com medo, sem qualquer relato de aparição do Jesus ressuscitado. Esse final abrupto intrigou copistas e leitores desde a Antiguidade, e diferentes tradições manuscritas posteriores acrescentaram finais alternativos para completar o que pareciam considerar uma conclusão incompleta ou insatisfatória para o evangelho. O chamado 'final longo', hoje numerado como , narra aparições de Jesus a Maria Madalena, a dois discípulos no caminho e aos onze apóstolos reunidos, culminando na grande comissão de pregar o evangelho a toda criação e na ascensão de Jesus ao céu. O Codex Alexandrinus, copiado no Egito ou possivelmente em outra região do Mediterrâneo oriental por volta do século V, é um dos primeiros grandes manuscritos completos a preservar esse final longo como parte integral e ininterrupta do texto de Marcos, sem qualquer marca editorial de dúvida sobre sua autenticidade. O manuscrito, hoje preservado na Biblioteca Britânica em Londres, chegou à Inglaterra como presente do patriarca Cirilo Lucaris de Constantinopla ao rei Carlos I em 1627, e desde então tem sido um dos testemunhos mais estudados e mais citados da tradição textual bizantina e alexandrina combinadas do Novo Testamento grego. O manuscrito recebeu seu nome por sua associação histórica com a cidade de Alexandria, no Egito, embora os detalhes exatos de sua origem e de seu local preciso de produção permaneçam incertos, sendo objeto de discussão contínua entre paleógrafos que estudam a caligrafia e o estilo de produção de códices bíblicos gregos do período tardo-antigo.
O que diz a Bíblia
E havendo ressuscitado pela manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios. Ela se foi, e anunciou aos que estiveram com ele, que estavam tristes e chorando. Quando ouviram que ele estava vivo, e que havia sido visto por ela, eles não creram. E depois ele apareceu em outra forma a dois deles, que estavam indo pelo caminho ao campo. E estes foram anunciar aos outros; mas também não creram neles. Finalmente ele apareceu aos onze, estando eles sentados juntos; e repreendeu pela incredulidade e dureza de coração deles, por não terem crido nos que já o haviam visto ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão serpentes com as mãos; e se beberem algo mortífero, não lhes fará dano algum; porão as mãos sobre os enfermos, e sararão. Então o Senhor, depois de haver lhes falado, foi recebido acima no céu, e sentou-se à direita de Deus. E eles saíram e pregaram por todas as partes, com o Senhor operando com eles, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiam. Amém.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Ambos os lados da tradição manuscrita preservam Marcos 16:1-8 de forma idêntica
- Alexandrinus concorda com a maioria dos manuscritos bizantinos posteriores na inclusão do final longo
- O conteúdo do final longo (aparições e comissão) é coerente tematicamente com os relatos de ressurreição dos outros evangelhos
Onde divergem
- Sinaiticus e Vaticanus, mais antigos, terminam Marcos em 16:8; Alexandrinus inclui os versículos 9-20 sem interrupção
- Edições críticas modernas do Novo Testamento grego marcam o final longo entre colchetes ou com nota de incerteza; Alexandrinus não apresenta esse tipo de ressalva
- Testemunhos patrísticos antigos, como Eusébio, mencionam a ausência do final longo na maioria dos manuscritos que conheciam, contrastando com sua presença plena em Alexandrinus
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- Nenhum elemento aparece fora do texto bíblico neste caso — a questão é inteiramente interna à crítica textual do próprio evangelho de Marcos
- A menção específica, no final longo, a sinais como falar em novas línguas e manusear serpentes sem dano, ausente do restante do evangelho
- A história de transmissão específica do próprio Codex Alexandrinus, doado à coroa inglesa em 1627 pelo patriarca Cirilo Lucaris
Em palavras simples
O evangelho de Marcos tem um final que intriga os especialistas: as cópias mais antigas que sobraram, do século IV, terminam de forma brusca no versículo 8, com as mulheres assustadas saindo do túmulo vazio. Mas o Codex Alexandrinus, uma cópia completa da Bíblia grega do século V, já traz um final mais longo, com Jesus aparecendo aos discípulos depois de ressuscitar. Isso mostra que, desde muito cedo, existiam duas formas diferentes de terminar o evangelho de Marcos, e os estudiosos ainda discutem qual delas o próprio Marcos escreveu originalmente.
Aprofundamento
A comparação entre o testemunho do Codex Alexandrinus e o dos manuscritos mais antigos, Sinaiticus e Vaticanus, sobre o final de Marcos ilustra bem a complexidade da crítica textual quando aplicada a uma passagem tão significativa teologicamente quanto o relato da ressurreição. Bruce M. Metzger, em seu comentário textual de referência sobre o Novo Testamento grego, observa que a ausência do final longo nos dois unciais mais antigos, somada a evidências patrísticas anteriores — Eusébio de Cesareia e Jerônimo mencionam que a maioria dos manuscritos gregos que conheciam terminava em 16:8 — constitui um argumento textual forte contra a autenticidade do final longo como parte da composição original de Marcos. Ao mesmo tempo, o final longo já era amplamente conhecido e citado por autores cristãos ainda mais antigos, como Irineu de Lyon no século II, o que mostra que essa adição, se de fato for uma adição, já circulava numa data muito próxima da própria composição do evangelho, tornando a questão de sua autoria original ou secundária extremamente delicada de resolver com certeza absoluta. O Codex Alexandrinus, junto com a vasta maioria dos manuscritos bizantinos produzidos nos séculos seguintes, preserva o final longo sem qualquer marca de incerteza editorial, o que sugere que, para a tradição manuscrita que ele representa, esse material já havia se tornado parte inquestionável do texto recebido de Marcos muito antes do século V em que o próprio Alexandrinus foi copiado. T. C. Skeat, curador da Biblioteca Britânica e importante estudioso da história material dos grandes códices bíblicos, destaca a qualidade caligráfica e a organização cuidadosa do Codex Alexandrinus como testemunho da importância que essa cópia específica tinha para a comunidade que a produziu, provavelmente uma igreja ou biblioteca eclesiástica de recursos consideráveis, capaz de encomendar uma cópia tão completa e bem executada de toda a Bíblia grega, incluindo o Novo Testamento com o final longo de Marcos integrado sem qualquer ressalva. Philip Comfort, especialista em manuscritos neotestamentários antigos, acrescenta que a comparação entre Alexandrinus e os papiros ainda mais antigos, como os fragmentos de Marcos preservados em coleções menores, continua incompleta justamente por faltarem testemunhos papiráceos suficientemente extensos que cubram o capítulo 16 inteiro numa data anterior aos dois grandes unciais do século IV, o que mantém esse debate específico da crítica textual sem uma solução documental plenamente definitiva e consensual entre todos os especialistas dedicados a esse assunto específico até os dias atuais mais recentes.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A dúvida sobre o final de Marcos significa que a ressurreição de Jesus é incerta.
A ressurreição de Jesus está atestada de forma independente e robusta em Mateus, Lucas, João e ; a incerteza afeta apenas a redação específica do final do evangelho de Marcos, não o evento histórico em si.
Dizem que:O Codex Alexandrinus é o manuscrito mais antigo que existe do Novo Testamento.
Existem papiros bem mais antigos, como P75, do início do século III; Alexandrinus é importante por sua completude, não por ser o testemunho cronologicamente mais antigo disponível.
Como diferentes tradições leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Crítica textual moderna (maioria dos especialistas)
Considera provável que seja um acréscimo posterior ao evangelho original, dada a ausência nos unciais mais antigos, Sinaiticus e Vaticanus.
Tradição manuscrita bizantina e eclesiástica (representada por Alexandrinus)
Preserva e transmite o final longo como parte integral e inquestionável do texto recebido de Marcos, sem qualquer marca de dúvida editorial.
O que fazer com isso
Esse caso ajuda o leitor a entender que a crítica textual do Novo Testamento não é uma ameaça à confiabilidade da Bíblia, mas uma ferramenta cuidadosa para identificar, através da comparação de manuscritos antigos como o Codex Alexandrinus, quais partes do texto têm atestação mais segura desde o início, permitindo que edições modernas sinalizem, com transparência acadêmica, os poucos casos como este em que a tradição manuscrita antiga realmente diverge de forma significativa.
Fontes consultadas2 obras
- Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
- T. C. Skeat. The Codex Sinaiticus, the Codex Vaticanus and Constantine (artigo acadêmico), 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Codex Alexandrinus tem o final longo de Marcos?
Sim, contém integralmente, sem qualquer marca de dúvida editorial sobre sua autenticidade.
Por que alguns manuscritos antigos não têm esse final?
O Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus, do século IV, terminam Marcos abruptamente em 16:8, levando muitos críticos textuais a considerar o final longo um acréscimo posterior.
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