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Os Dez Mandamentos no Papiro de Nash

O Papiro de Nash muda a ordem dos Dez Mandamentos da Bíblia?

Resposta curta

O Papiro de Nash é um fragmento de papiro hebraico, hoje na Biblioteca da Universidade de Cambridge, com um texto dos Dez Mandamentos seguido do Shemá (). Comprado no Egito em 1898 e publicado em 1903 por Stanley A. Cook, foi datado por William F. Albright, em 1937, entre os séculos II e I a.C. Até 1947, quando surgiram os Manuscritos do Mar Morto, era o mais antigo fragmento hebraico conhecido de um texto depois incorporado à Bíblia.

Seu texto dos mandamentos não copia à risca nem : mistura elementos dos dois, inverte a ordem entre "não adulterarás" e "não matarás" — como também faz a Septuaginta em alguns manuscritos — e emenda o Shemá logo depois, arranjo que sugere uso litúrgico judaico do Segundo Templo, não uma cópia comum de rolo bíblico.

O que diz Papiro de Nash

Papiro de Nash, texto dos Dez Mandamentos

O papiro foi comprado no Egito em 1898 pelo egiptólogo inglês Walter Llewellyn Nash, que depois o doou à Universidade de Cambridge; por isso o nome. É formado por quatro fragmentos colados, com 24 linhas de escrita hebraica em caracteres quadrados, e traz o texto dos Dez Mandamentos seguido, sem interrupção, pelo Shemá Israel ("Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus, o SENHOR é um", de ). O erudito britânico Stanley A. Cook publicou a primeira edição em 1903, já reconhecendo tratar-se de um texto muito anterior à Idade Média, época dos manuscritos massoréticos completos mais antigos então conhecidos.

A datação foi refinada em 1937 pelo arqueólogo americano William F. Albright, que comparou o desenho das letras com inscrições e moedas de data conhecida e propôs uma janela entre cerca de 150 e 100 a.C., no período em que a Judeia era governada pelos hasmoneus. Essa datação continua amplamente aceita. Entre sua publicação e a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em Qumran, a partir de 1947, o Papiro de Nash foi o mais antigo fragmento hebraico conhecido de um texto que compõe hoje a Bíblia — um recorde depois superado por fragmentos de Qumran de idade semelhante ou um pouco maior.

O papiro não é um rolo de sinagoga nem parte de um livro de Êxodo ou Deuteronômio: seu conteúdo — Decálogo mais Shemá, sem mais nada — combina com a prática, descrita mais tarde na Mishná (Tamid 5:1), de sacerdotes no Templo de Jerusalém recitarem diariamente os Dez Mandamentos junto com o Shemá. Por isso a maioria dos estudiosos o entende como um texto devocional ou litúrgico avulso, não uma cópia de um rolo bíblico corrido. Hoje ele está preservado na Biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, catalogado como Cambridge University Library, Or.233, e segue sendo estudado por especialistas em crítica textual do Antigo Testamento como uma das poucas janelas materiais diretas para o texto hebraico pré-massorético em circulação fora da Judeia, entre comunidades judaicas do Egito helenístico e romano.

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O que diz a Bíblia

E falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos. Não terás deuses alheios diante de mim.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • O papiro contém essencialmente o mesmo conteúdo dos Dez Mandamentos de Êxodo 20, incluindo a proibição de outros deuses diante do SENHOR (Êxodo 20:3).
  • A fórmula de motivação do mandamento do sábado no papiro é mais próxima da versão de Êxodo 20:11 ("porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra") do que da versão de Deuteronômio 5:15.
  • A ordem invertida entre 'não adulterarás' e 'não matarás' que aparece no papiro também está presente em manuscritos importantes da Septuaginta e é citada por Jesus em Marcos 10:19.

Onde divergem

  • O papiro inverte a ordem entre os mandamentos 'não matarás' e 'não adulterarás' em relação ao texto massorético padrão de Êxodo 20:13-14.
  • O texto do papiro mistura elementos de Êxodo 20 e Deuteronômio 5 numa única versão conflada, em vez de reproduzir apenas a redação de Êxodo.
  • O papiro não apresenta o preâmbulo histórico de Êxodo 20:2 ("que te tirei da terra do Egito") isolado como no texto massorético; ele está integrado a uma unidade textual maior voltada ao uso devocional.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A justaposição direta do Decálogo com o Shemá de Deuteronômio 6:4-5, sem qualquer marca de transição, formando uma unidade de leitura própria que não existe como tal em nenhum livro bíblico.
  • O papiro é, por si, um testemunho material do uso litúrgico do Decálogo mais Shemá na devoção diária do Segundo Templo, prática mencionada depois na Mishná (Tamid 5:1) mas não descrita em nenhum texto bíblico.
Em palavras simples

O Papiro de Nash é um pedaço antigo de papiro egípcio com uma cópia dos Dez Mandamentos, escrita em hebraico há mais de dois mil anos. Ele muda um pouco a ordem de dois mandamentos e junta, logo depois, uma oração judaica chamada Shemá. Isso não quer dizer que a Bíblia foi alterada: mostra como esse texto era usado em orações no judaísmo antigo, com pequenas variações de cópia para cópia, algo comum antes de o texto bíblico se fixar num padrão único.

Aprofundamento

O valor do Papiro de Nash para o estudo do Antigo Testamento está menos no que ele prova e mais no que ele revela sobre como o texto bíblico circulava antes de sua fixação. O Decálogo do papiro não segue nem nem à risca: usa a fórmula de motivação do sábado mais próxima de Êxodo ("porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra"), mas incorpora outras expressões mais características de Deuteronômio, num texto que os especialistas chamam de "conflado" — misturado a partir das duas versões que a própria Bíblia hebraica preserva lado a lado.

A diferença mais discutida é a ordem interna: o papiro traz "não adulterarás, não matarás, não furtarás", invertendo a sequência "não matarás, não adulterarás" do texto massorético padrão de . Essa mesma ordem invertida aparece em manuscritos importantes da Septuaginta, a tradução grega pré-cristã do Antigo Testamento, e é citada por Filo de Alexandria e por Jesus no Evangelho de , na mesma sequência do papiro. Isso mostra que, no judaísmo do fim do período do Segundo Templo, mais de uma ordem para os mandamentos circulava com naturalidade, sem que isso fosse percebido como erro ou corrupção do texto.

Outro traço notável é o que vem depois do Decálogo: o Shemá de , colado ao texto sem qualquer marca de transição, como se as duas passagens formassem uma só unidade de leitura. A Mishná (Tamid 5:1) registra que os sacerdotes do Templo recitavam justamente essa combinação — Dez Mandamentos seguidos do Shemá — na liturgia matinal diária, prática que teria sido depois abandonada pelos rabinos por temor de que os "minim" (dissidentes, possivelmente incluindo os primeiros cristãos) usassem essa ênfase nos Dez Mandamentos para relativizar o resto da Lei. O Papiro de Nash é o testemunho material mais antigo dessa combinação litúrgica.

A datação por paleografia — o formato das letras hebraicas — segue sendo o método usado, já que o papiro não veio de uma escavação estratigrafada: foi comprado de um antiquário egípcio, sem contexto arqueológico registrado, o que sempre deixa uma margem de incerteza sobre sua procedência exata dentro do Egito. Ainda assim, a comparação com a escrita de moedas hasmoneias e com os primeiros manuscritos de Qumran, encontrados décadas depois, confirmou a proposta de Albright dentro de margem razoável. O papiro segue sendo citado em toda edição crítica séria do texto hebraico do Decálogo, como o aparato da Biblia Hebraica Stuttgartensia, exatamente como uma testemunha textual entre outras — nem mais autoritativa, nem menos relevante que o texto massorético que se tornou padrão.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Papiro de Nash prova que o texto da Bíblia foi corrompido ou alterado com o tempo.

    O papiro registra uma variação normal de ordem e de combinação litúrgica de textos, do tipo que existe em qualquer tradição de cópia manual antiga; ele não contradiz o conteúdo essencial dos Dez Mandamentos nem mostra inserção de doutrina estranha ao texto — mostra apenas que, antes da fixação de um texto-padrão, versões e usos litúrgicos ligeiramente diferentes coexistiam.

  • Dizem que:O Papiro de Nash continua sendo o manuscrito hebraico mais antigo de um texto bíblico.

    Esse título valeu apenas até 1947: a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto em Qumran trouxe fragmentos hebraicos de idade igual ou maior, incluindo cópias do próprio Decálogo e de Deuteronômio, hoje reconhecidos como testemunhas ainda mais antigas do texto bíblico hebraico.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Vê variantes textuais como o Papiro de Nash como parte natural da história de transmissão do texto sagrado, que não ameaça a doutrina da inspiração: o conteúdo essencial dos mandamentos permanece estável mesmo quando a ordem ou o entorno litúrgico de uma cópia específica varia.

  • Ortodoxa

    Como a Septuaginta grega tem peso litúrgico e teológico central na tradição ortodoxa, destaca-se que a ordem invertida entre 'não adulterarás' e 'não matarás' do papiro coincide com manuscritos da Septuaginta, reforçando o valor dessa linha de transmissão textual antiga e não apenas do texto massorético.

  • Protestante/Evangélica

    Mantém o texto massorético como base para tradução do Antigo Testamento, mas acolhe achados como o Papiro de Nash como ferramentas legítimas de crítica textual que iluminam a história da transmissão, sem que isso afete a confiança na integridade do conteúdo transmitido até os autógrafos.

  • Reformada confessional

    Entende variações como esta à luz da doutrina da preservação providencial da Escritura: Deus preservou fielmente a substância de sua Lei ao longo da transmissão, o que é compatível com pequenas diferenças de ordem e de uso litúrgico entre cópias antigas, sem exigir identidade verbatim entre todos os testemunhos.

O que fazer com isso

Diante de um documento como o Papiro de Nash, o mais honesto é resistir a dois exageros: tratá-lo como prova de que a Bíblia "mudou" ao longo do tempo, ou ignorá-lo como curiosidade irrelevante. Pequenas variações de ordem e texto em cópias antigas são normais em qualquer obra copiada à mão por séculos, e conhecê-las ajuda a entender melhor como comunidades judaicas antigas liam, recitavam e viviam os Dez Mandamentos — sem que isso abale o conteúdo essencial que chegou até nós.

Fontes consultadas3 obras
  • Stanley A. Cook. A Pre-Massoretic Biblical Papyrus, 1903.
  • William F. Albright. A Biblical Fragment from the Maccabaean Age: The Nash Papyrus, 1937.
  • Emanuel Tov. Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2012.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O que é exatamente o Papiro de Nash?

É um fragmento de papiro hebraico do século II ou I a.C., com 24 linhas, que traz um texto dos Dez Mandamentos seguido do Shemá de . Foi comprado no Egito em 1898 e hoje está na Biblioteca da Universidade de Cambridge.

Por que a ordem dos mandamentos é diferente no papiro?

O papiro inverte 'não matarás' e 'não adulterarás' em relação ao texto massorético de . Essa mesma ordem aparece em manuscritos da Septuaginta e é citada por Jesus em , mostrando que mais de uma ordem circulava no judaísmo do período do Segundo Templo.

Por que o texto dos mandamentos vem seguido do Shemá?

Porque, segundo a Mishná (Tamid 5:1), os sacerdotes do Templo de Jerusalém recitavam diariamente os Dez Mandamentos junto com o Shemá. O papiro parece ser um texto devocional ligado a essa prática litúrgica, não uma cópia de um rolo bíblico completo.

Isso muda algo no que a Bíblia ensina em Êxodo 20?

Não. O conteúdo essencial dos mandamentos é o mesmo; o que muda é a ordem entre dois deles e o fato de aparecerem junto a outro texto num uso litúrgico. É uma janela para como o texto era lido e recitado, não uma alteração de seu conteúdo.

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Publicado em 02/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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