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O Decálogo do Papiro de Nash: nem Êxodo, nem Deuteronômio

O Papiro de Nash segue a versão dos Dez Mandamentos de Êxodo ou a de Deuteronômio 5?

Resposta curta

O Papiro de Nash traz uma versão dos Dez Mandamentos que não copia à letra nem nem : mistura elementos dos dois textos, algo que os especialistas chamam de versão "conflada". No mandamento do sábado, o papiro abre com a fórmula de ("como o SENHOR teu Deus te mandou"), ausente em Êxodo, mas fecha com a justificativa da criação que só existe em , não com o motivo da libertação do Egito de .

Essa mistura não é erro de cópia, mas sinal de como o texto podia circular em forma resumida e memorizável para devoção diária, diferente da cópia exata de um rolo de sinagoga. O papiro também inverte "não adulterarás" e "não matarás" em relação a , e emenda o Shemá logo em seguida, reforçando seu uso litúrgico.

O que diz Papiro de Nash

Papiro de Nash, versão combinada dos Dez Mandamentos

Comprado no Egito em 1898 pelo egiptólogo britânico Walter Llewellyn Nash e doado à Universidade de Cambridge em 1903, o Papiro de Nash reúne, em quatro fragmentos de uma mesma folha, um texto dos Dez Mandamentos seguido do Shemá Israel (). A caligrafia foi datada pelo arqueólogo William F. Albright, em 1937, entre os séculos II e I a.C., no período em que a Judeia era governada pelos hasmoneus. Até a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947, era o manuscrito hebraico bíblico mais antigo então conhecido.

A Bíblia hebraica preserva duas versões dos Dez Mandamentos, com pequenas diferenças de redação entre si: uma em , dada no Sinai, e outra em , repetida por Moisés décadas depois, já às portas da Terra Prometida. As duas contam a mesma história e os mesmos dez mandamentos, mas variam, por exemplo, na justificativa dada para guardar o sábado — Êxodo remete à semana da criação, Deuteronômio à libertação da escravidão no Egito — e em pequenos detalhes de vocabulário e conectivos.

O texto do Papiro de Nash não corresponde exatamente a nenhuma das duas: ele reúne trechos característicos de cada uma, formando uma terceira redação, "conflada", que nenhum livro bíblico hoje preserva sozinho. Esse tipo de mistura é bem documentado pela crítica textual do Antigo Testamento como algo comum em textos usados para memorização e liturgia, onde reproduzir com exatidão uma única fonte escrita importava menos do que preservar o conteúdo essencial de cor.

A junção do Decálogo com o Shemá, sem qualquer marca de transição entre os dois textos, aponta na mesma direção: a Mishná (Tamid 5:1) registra que os sacerdotes do Templo de Jerusalém recitavam diariamente essa combinação, prática depois abandonada na liturgia da sinagoga. Isso sugere que o papiro nunca pretendeu ser um fragmento de rolo bíblico de leitura pública, mas um resumo devocional pessoal, e explica por que sua redação podia se permitir combinar livremente elementos de Êxodo e Deuteronômio.

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O que diz a Bíblia

Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos. Não terás deuses estranhos diante de mim. Não farás para ti escultura, nem imagem alguma de coisa que está acima nos céus, ou abaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra: Não te inclinarás a elas nem lhes servirás: porque eu sou o SENHOR teu Deus, forte, zeloso, que visito a iniquidade dos pais sobre os filhos, e sobre a terceira geração, e sobre a quarta, aos que me aborrecem, E que faço misericórdia a milhares aos que me amam, e guardam meus mandamentos. Não tomarás em vão o nome do SENHOR teu Deus; porque o SENHOR não dará por inocente ao que tomar em vão seu nome. Guardarás o dia do repouso para santificá-lo, como o SENHOR teu Deus te mandou. Seis dias trabalharás e farás toda tua obra: Mas no sétimo é repouso ao SENHOR teu Deus: nenhuma obra farás tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem tua boi, nem tua asno, nem nenhum animal teu, nem tua peregrino que está dentro de tuas portas: para que descanse teu servo e tua serva como E lembra-te que foste servo em terra do Egito, e que o SENHOR teu Deus te tirou dali com mão forte e braço estendido: pelo qual o SENHOR teu Deus te mandou que guardes no dia do repouso. Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR teu Deus te mandou, para que sejam prolongados teus dias, e para que te vá bem sobre a terra que o SENHOR teu Deus te dá. Não cometerás homicídio. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra teu próximo. Não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem desejarás a casa de teu próximo, nem sua terra, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu asno, nem nenhuma coisa que seja de teu próximo.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • A fórmula de abertura do papiro, "Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos", reproduz sem alteração o texto de Deuteronômio 5:6 (idêntico também a Êxodo 20:2).
  • O mandamento do sábado no papiro abre com a fórmula introdutória característica de Deuteronômio 5:12 ("como o SENHOR teu Deus te mandou"), ausente na versão de Êxodo 20:8.
  • O conjunto dos dez mandamentos éticos e cultuais listados no papiro corresponde, em conteúdo, ao mesmo Decálogo apresentado em Deuteronômio 5:6-21.

Onde divergem

  • A justificativa final do mandamento do sábado no papiro segue a fórmula da criação de Êxodo 20:11 ("porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra"), e não o motivo da libertação da escravidão no Egito que Deuteronômio 5:15 desenvolve.
  • O papiro inverte a ordem entre "não adulterarás" e "não matarás" em relação à sequência de Deuteronômio 5:17-18, que traz o mandamento contra o homicídio antes do mandamento contra o adultério.
  • O texto do papiro combina elementos de Deuteronômio 5 e de Êxodo 20 numa única redação conflada, em vez de reproduzir isoladamente a forma de Deuteronômio 5:6-21.

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • A justaposição direta do Decálogo com o Shemá de Deuteronômio 6:4-5, sem qualquer marca de transição entre os dois textos, formando uma unidade de leitura devocional que não existe como tal em nenhum livro bíblico.
  • O papiro é, por si, testemunho material do uso litúrgico do Decálogo somado ao Shemá na devoção diária do fim do Segundo Templo, prática só descrita depois, de forma indireta, na Mishná (Tamid 5:1), e não em nenhum texto bíblico.
Em palavras simples

O Papiro de Nash é um pedaço antigo de papiro hebraico com uma cópia dos Dez Mandamentos. Só que essa cópia não é igual à de Êxodo nem à de Deuteronômio: ela junta pedacinhos dos dois textos, como alguém que decora um mandamento usando palavras de uma versão e o final de outra. Isso não significa que a Bíblia foi alterada. Mostra que, antes de existir um texto padrão fixo, era comum circular versões resumidas e misturadas dos Dez Mandamentos, feitas para serem recitadas de cor em orações diárias, e não para substituir o rolo sagrado lido na sinagoga.

Aprofundamento

A comparação mais discutida entre o Papiro de Nash e está no mandamento do sábado. abre com uma fórmula própria, ausente em Êxodo: "guarda o dia do repouso para santificá-lo, como o SENHOR teu Deus te mandou" — uma referência a uma ordem anterior que só a versão de Deuteronômio menciona explicitamente. O Papiro de Nash reproduz justamente essa abertura deuteronômica. Mas, ao chegar à justificativa final do mandamento, o papiro não segue , que ancora o descanso semanal na lembrança da escravidão no Egito ("lembra-te que foste servo... o SENHOR teu Deus te tirou dali"); em vez disso, fecha com a fórmula de , que liga o sábado ao descanso de Deus no sétimo dia da criação. O resultado é um mandamento com introdução de Deuteronômio e conclusão de Êxodo, dentro da mesma frase — o exemplo mais claro do texto "conflado" que os estudiosos identificam no papiro desde a análise pioneira de Stanley A. Cook, em 1903, e a datação paleográfica de Albright, em 1937.

A ordem interna dos mandamentos éticos é outro ponto de comparação direta com , que traz "não matarás" antes de "não adulterarás" — a mesma sequência de . O Papiro de Nash inverte essa ordem, colocando "não adulterarás" antes de "não matarás". Essa sequência invertida não é uma invenção isolada do escriba: aparece também em manuscritos importantes da Septuaginta grega e é citada por Filo de Alexandria, mostrando que, no judaísmo de língua grega e nas comunidades da diáspora egípcia, uma ordem alternativa dos mandamentos circulava ao lado da ordem hebraica padrão preservada em Deuteronômio e Êxodo.

Vale notar o que o papiro preserva com exatidão de : a fórmula de abertura "Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos" é reproduzida sem alteração — mas essa frase também é idêntica em , então não distingue as duas fontes; mostra apenas que o núcleo mais antigo e estável do Decálogo permanecia fixo mesmo quando o restante do texto variava.

Por fim, a continuação direta do Decálogo pelo Shemá de é algo que nenhuma das duas versões bíblicas do Decálogo apresenta: nem nem trazem o Shemá colado ao texto dos mandamentos. Essa junção é uma característica exclusiva do uso que o papiro documenta, testemunho material de uma prática devocional judaica do fim do Segundo Templo mencionada apenas mais tarde, de forma indireta, pela Mishná.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Papiro de Nash prova que existia uma terceira versão "original" dos Dez Mandamentos, diferente de Êxodo e Deuteronômio.

    O papiro não apresenta uma versão original alternativa; ele combina elementos das duas versões já existentes na Bíblia hebraica para formar um texto devocional resumido, prática documentada em outros materiais litúrgicos judaicos do mesmo período, como certos tefilim de Qumran.

  • Dizem que:A mistura de elementos de Êxodo e Deuteronômio no papiro mostra que os copistas antigos não se importavam com a exatidão do texto bíblico.

    A distinção entre rolos bíblicos de uso litúrgico público, copiados com grande rigor, e textos devocionais resumidos como o Papiro de Nash já era reconhecida pelos próprios judeus do período; misturar elementos num resumo de memorização não indica descuido com os rolos bíblicos completos, que seguiam padrões de cópia mais rígidos.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Entende variações de harmonização como o Papiro de Nash como parte normal da história da transmissão textual, compatível com a inspiração divina do conteúdo, que permanece estável mesmo quando testemunhos litúrgicos avulsos combinam redações diferentes.

  • Ortodoxa

    Dá peso especial à tradição da Septuaginta grega; destaca que a ordem invertida entre "não adulterarás" e "não matarás" no papiro coincide com manuscritos gregos importantes, reforçando o valor dessa linha de transmissão ao lado do texto hebraico que se tornaria padrão.

  • Protestante/Evangélica

    Mantém o texto massorético de Êxodo e Deuteronômio como base da tradução bíblica, mas recebe achados como o Papiro de Nash como material legítimo de crítica textual, que ilumina o uso devocional do Decálogo sem alterar a confiança no conteúdo transmitido nos manuscritos bíblicos completos.

  • Reformada confessional

    Lê a coexistência de pequenas variações de redação e ordem, ao lado de um núcleo estável de conteúdo, como compatível com a doutrina da preservação providencial da Escritura, que não exige identidade verbatim entre todo testemunho textual e o texto bíblico padronizado.

O que fazer com isso

Comparar o Papiro de Nash com ensina uma lição sobre como ler fontes extrabíblicas antigas: nem toda variação de redação é erro de cópia, nem toda semelhança é prova de dependência direta de um único texto. Um documento devocional podia legitimamente combinar elementos de duas tradições bíblicas paralelas para fins de memorização e oração diária, sem que isso ameaçasse a integridade de nenhuma das duas versões que a própria Bíblia preserva.

Fontes consultadas4 obras
  • Stanley A. Cook. A Pre-Massoretic Biblical Papyrus, 1903.
  • William F. Albright. A Biblical Fragment from the Maccabaean Age: The Nash Papyrus, 1937.
  • Solomon A. Birnbaum. The Nash Papyrus: A Palaeographical Study, 1949.
  • Emanuel Tov. Textual Criticism of the Hebrew Bible, 2012.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

O Papiro de Nash copia a versão dos mandamentos de Deuteronômio 5?

Não exatamente. Ele reproduz a fórmula de abertura do mandamento do sábado que só existe em , mas encerra esse mesmo mandamento com a justificativa da criação, que é exclusiva de , não com o motivo da libertação do Egito que traz.

Isso significa que o texto de Deuteronômio 5 foi alterado?

Não. O papiro é um documento devocional à parte, provavelmente usado para memorização e oração diária, e não uma cópia de um rolo bíblico de Deuteronômio. Sua mistura de elementos mostra como o conteúdo do Decálogo podia ser resumido na prática, sem que isso mude o texto bíblico transmitido nos manuscritos de Deuteronômio.

Por que os mandamentos aparecem em ordem diferente no papiro?

O Papiro de Nash traz "não adulterarás" antes de "não matarás", invertendo a ordem de e de . Essa mesma ordem invertida aparece em manuscritos da Septuaginta grega e em Filo de Alexandria, mostrando que uma sequência alternativa circulava no judaísmo do período.

Por que o texto junta o Decálogo ao Shemá?

Porque, segundo a Mishná (Tamid 5:1), os sacerdotes do Templo de Jerusalém recitavam diariamente essa combinação. O papiro parece ser um resumo devocional ligado a essa prática, e não um trecho de rolo bíblico de leitura pública.

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Temas

Publicado em 08/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

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