A confissão do centurião: Marcos e o Evangelho de Pedro
O centurião que disse "verdadeiramente este era o Filho de Deus" aparece em outros textos antigos sobre Jesus?
Resposta curta
Em , um centurião romano observa Jesus expirar na cruz e reage com uma frase curta e definitiva: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus." A cena é sóbria — nenhum detalhe visual extraordinário sustenta a afirmação, apenas o modo como Jesus morre.
O Evangelho de Pedro, texto do fim do século II preservado apenas num fragmento achado no Egito, retoma quase as mesmas palavras — mas em outro momento e outro tom. Ali, o centurião Petrônio, nomeado ao contrário dos evangelhos canônicos, e os soldados que guardam o túmulo testemunham a própria ressurreição: dois anjos gigantescos sustentam um Jesus ainda maior, seguido por uma cruz que anda e fala. Diante dessa visão espetacular, eles repetem, em coro com os anciãos, a confissão que Marcos atribuiu a um único homem diante da morte.
O que diz Evangelho de Pedro
Evangelho de Pedro 8-11
O Evangelho de Marcos é geralmente datado entre 65 e 75 d.C., poucas décadas após a morte de Jesus, e chega até nós sem lacunas de transmissão relevantes para este episódio. A cena da crucificação, em 15:33-39, segue uma sequência contida: trevas ao meio-dia, o grito de Jesus, o véu do templo rasgado e, por fim, a fala do centurião — um oficial romano anônimo, presumivelmente pagão, que serve de testemunha externa e inesperada da identidade de Jesus. repete quase a mesma cena e frase, acrescentando um terremoto; dá ao centurião outra formulação, "este homem era justo". Já o Evangelho de Pedro é um texto que se apresenta como escrito na primeira pessoa por Pedro, mas que a erudição situa entre c. 150 e 190 d.C., fora do círculo apostólico. Ele só chegou até nós por um fragmento em grego copiado bem mais tarde, entre os séculos VII e IX, encontrado em 1886-1887 num túmulo em Akhmim, no Alto Egito, e publicado em 1892. Antes dessa descoberta, o texto só era conhecido por menção de Serápio, bispo de Antioquia por volta de 190 d.C., que soube de seu uso na igreja de Rossos, na Síria, e depois de lê-lo recomendou que deixasse de ser lido publicamente, por notar nele traços que pareciam negar a realidade plena do sofrimento humano de Jesus, tendência chamada docetismo. O fragmento de Akhmim narra a paixão e a ressurreição com liberdade literária considerável: atribui a Herodes, e não a Pilatos, boa parte da responsabilidade pela condenação; nomeia o centurião responsável pelo túmulo como Petrônio; e descreve, com riqueza visual que nenhum evangelho canônico ousa, o instante da própria ressurreição. É nesse ponto, não na crucificação, mas na saída do túmulo, que aparece a confissão que ecoa . O cotejo entre os dois textos interessa porque mostra, lado a lado, dois estágios de uma mesma tradição: um relato mais antigo e comedido, e uma reelaboração posterior que dramatiza o que antes bastava contar em poucas palavras.
O que diz a Bíblia
E o centurião que estava ali diante dele, vendo que havia expirado bradando assim, disse: Verdadeiramente este homem era Filho de Deus.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- As duas fontes atribuem a mesma fórmula de confissão a uma testemunha romana: "verdadeiramente este era o Filho de Deus" (Mc 15:39) ecoa quase palavra por palavra a frase final da cena da ressurreição no Evangelho de Pedro.
- Em ambos os textos, quem reconhece Jesus como Filho de Deus é uma autoridade militar romana pagã, não um discípulo ou líder religioso judeu — detalhe que o Evangelho de Pedro preserva da tradição sinótica.
- As duas cenas estão ligadas a um sinal cósmico no momento decisivo: em Marcos, o véu do templo se rasga; no Evangelho de Pedro, os céus se abrem e uma grande voz ressoa.
Onde divergem
- Em Marcos, a confissão ocorre no instante da morte de Jesus na cruz; no Evangelho de Pedro, uma confissão quase idêntica ocorre depois, no instante da ressurreição, testemunhada junto ao túmulo vazio.
- Em Marcos, apenas um centurião fala, sozinho, ao ver Jesus morrer; no Evangelho de Pedro, a confissão é coletiva — o centurião, os soldados e os anciãos judeus concordam juntos diante da visão do túmulo.
- Marcos não descreve nenhum elemento visual sobrenatural diretamente diante do centurião; o Evangelho de Pedro faz a confissão depender da visão de um Jesus de estatura descomunal e de uma cruz que fala.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- O nome do centurião, Petrônio — ausente dos quatro evangelhos canônicos.
- A descrição visual do próprio instante da ressurreição, que nenhum evangelho canônico narra diretamente.
- A cruz que sai do sepulcro andando sozinha e responde em voz alta a uma pergunta vinda do céu.
- A estatura sobre-humana de Jesus e dos dois anjos que o acompanham, com as cabeças ultrapassando os céus.
Em palavras simples
No evangelho de Marcos, um soldado romano vê Jesus morrer na cruz e diz: "este era realmente o Filho de Deus." É uma frase simples, dita por alguém que só viu Jesus morrer. Um texto mais tardio, o Evangelho de Pedro, que nunca entrou na Bíblia, conta quase a mesma frase, só que na boca de um grupo de soldados e líderes religiosos, e não diante da morte, mas diante de uma cena de ressurreição cheia de efeitos impressionantes: um Jesus gigante e uma cruz que fala. A comparação mostra como histórias sobre Jesus foram ganhando detalhes com o tempo.
Aprofundamento
O texto grego do Evangelho de Pedro que interessa aqui ocupa as seções por vezes numeradas de 8 a 11. Nelas, sacerdotes e anciãos, temendo que os discípulos roubassem o corpo de Jesus, pedem a Pilatos uma guarda para o túmulo; Pilatos designa o centurião Petrônio com um destacamento de soldados, que selam a pedra e armam uma tenda para vigiar. Ao amanhecer do domingo, os soldados veem os céus se abrirem, dois homens descerem em grande claridade e a pedra rolar sozinha. Em seguida, e é aqui que a narrativa se torna singular entre os textos antigos sobre Jesus, três figuras saem do sepulcro: duas delas, de estatura tão alta que suas cabeças alcançam o céu, sustentam uma terceira, cuja cabeça ultrapassa os próprios céus; atrás delas, uma cruz sai andando sozinha. Uma voz vinda do céu pergunta se ele pregou aos que dormem, e a cruz responde que sim. Diante dessa cena, o centurião, os soldados e os anciãos judeus que também vigiavam, tomados de medo, concordam entre si dizendo que aquele era, verdadeiramente, o Filho de Deus, e correm para relatar tudo a Pilatos.
A semelhança verbal com não é casual: a fórmula "verdadeiramente este era o Filho de Deus" é praticamente a mesma nos dois textos gregos, o que sugere que o autor do Evangelho de Pedro conhecia a tradição sinótica, Marcos e/ou Mateus, e a realocou para outro momento da história. Essa realocação é o cerne do cotejo. Em Marcos, a confissão nasce da observação de um fato desconcertante mas natural, a maneira como um homem morre; não há visão sobrenatural diante do centurião, apenas as trevas e o rasgar do véu, relatados de forma narrativa, sem espetáculo visual direto a ele. No Evangelho de Pedro, ao contrário, a confissão só é possível porque a testemunha vê algo objetivamente impossível: um homem de estatura cósmica e uma cruz falante. A erudição sobre literatura cristã antiga, com nomes como Paul Foster e J.K. Elliott, costuma citar essa cena como exemplo típico de como textos apócrifos posteriores tendem a preencher lacunas narrativas dos evangelhos canônicos, já que nenhum deles descreve o momento da ressurreição em si, com elementos crescentemente maravilhosos, num movimento de amplificação apologética: quanto mais tarde o texto, maior a tendência a tornar visível e espetacular o que a tradição mais antiga preferia deixar como mistério ou como simples afirmação de fé diante de um fato sóbrio.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O Evangelho de Pedro foi um livro "proibido" que a Igreja escondeu para esconder a verdade sobre Jesus.
O texto nunca foi amplamente aceito como Escritura; a única evidência de uso litúrgico é numa única igreja da Síria no século II, e o próprio bispo local, Serápio, recomendou seu abandono depois de lê-lo, por notar nele traços de docetismo — não houve confisco de um cânone já fechado, pois o cânone do Novo Testamento ainda estava em formação.
Dizem que:O centurião do Evangelho de Pedro se chama Longinos.
O nome "Longinos" para o centurião é uma tradição posterior, ligada à lenda medieval da lança que perfurou o costado de Jesus (); o Evangelho de Pedro chama o centurião de Petrônio, um nome diferente que não aparece em nenhum evangelho canônico.
Dizem que:O Evangelho de Pedro é uma fonte independente e mais antiga que os evangelhos canônicos sobre a paixão de Jesus.
A maioria dos especialistas data o texto de meados a fim do século II, décadas depois dos evangelhos canônicos, e observa nele sinais de dependência da tradição sinótica combinada com elaboração narrativa posterior, não uma fonte anterior e independente delas.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
A Igreja Católica nunca reconheceu o Evangelho de Pedro como Escritura; seguindo o próprio testemunho antigo de Serápio de Antioquia, situa o texto entre os apócrifos rejeitados por conter elementos que pareciam docéticos, incompatíveis com a fé na encarnação plena de Cristo, ainda que reconheça seu valor como testemunho histórico do cristianismo do século II.
Ortodoxia Oriental
As igrejas ortodoxas também excluem o Evangelho de Pedro do cânone, mas tratam com cuidado a memória de textos como esse dentro da história da recepção da fé, distinguindo entre o valor devocional e litúrgico, ausente aqui, e o valor de registro histórico sobre como certas comunidades cristãs primitivas imaginavam a ressurreição.
Protestantismo evangélico
Setores evangélicos costumam usar esse tipo de comparação para argumentar que a sobriedade narrativa dos evangelhos canônicos é, ela mesma, um sinal de proximidade histórica dos eventos, contrastando com o acréscimo de detalhes maravilhosos em textos comprovadamente mais tardios como o Evangelho de Pedro.
Cristianismo pré-niceno (testemunho de Serápio de Antioquia)
O próprio processo histórico de discernimento, registrado por Eusébio de Cesareia, mostra que a rejeição do Evangelho de Pedro não foi automática: uma igreja o usou por algum tempo até que seu bispo, ao examiná-lo com mais cuidado, identificasse nele um problema doutrinário e recomendasse que fosse abandonado — um exemplo antigo de discernimento comunitário sobre textos que circulavam em nome apostólico.
O que fazer com isso
Encontrar a mesma frase em dois textos tão diferentes não é motivo para desconfiar da Bíblia nem para tratar o texto apócrifo como farsa: é um convite a notar como cada autor conta a história. Ler fontes extrabíblicas com equilíbrio significa perguntar quando, por quem e com que propósito um texto foi escrito, sem transformar toda semelhança em prova de fraude nem toda diferença em prova de falsidade, apenas em pista sobre a distância entre o relato e o acontecimento.
Fontes consultadas4 obras
- Bart D. Ehrman. Lost Scriptures: Books that Did Not Make It into the New Testament, 2003.
- Paul Foster. The Gospel of Peter: Introduction, Critical Edition and Commentary, 2010.
- J.K. Elliott. The Apocryphal New Testament, 1993.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica (Livro VI, cap. 12), 325.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Evangelho de Pedro é o mesmo evangelho usado pelos primeiros cristãos?
Não do jeito que a pergunta sugere. Ele circulou entre algumas comunidades cristãs do século II, inclusive por um tempo numa igreja da Síria, mas nunca foi aceito de forma ampla nem incluído em nenhuma lista antiga de livros canônicos. É um testemunho da diversidade de textos cristãos daquele período, não um evangelho "perdido" que teria sido a base oficial da fé.
Por que o centurião tem nome no Evangelho de Pedro mas não em Marcos?
É comum que textos posteriores acrescentem nomes e detalhes a personagens anônimos dos relatos mais antigos, um padrão observado em vários textos apócrifos. Isso não significa que o nome Petrônio venha de uma informação histórica adicional; é mais provável que reflita o gosto narrativo do autor do século II por preencher lacunas da tradição.
A cruz que fala prova que o Evangelho de Pedro é pura fantasia, sem valor histórico?
O texto tem valor histórico real, só que como testemunho de como certos cristãos do século II imaginavam e narravam a ressurreição, não como registro factual do evento em si. Elementos como a cruz falante são amplamente reconhecidos pelos especialistas como recursos literários apologéticos, não como reportagem.
Marcos 15:39 e o Evangelho de Pedro descrevem a mesma cena?
Não. Marcos situa a confissão no momento da morte de Jesus na cruz; o Evangelho de Pedro situa uma confissão quase idêntica no momento da ressurreição, testemunhada pelos guardas do túmulo. São dois momentos narrativos diferentes que compartilham uma fórmula verbal parecida.
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