Os 318 circuncidados de Abraão em Barnabé
Por que a Epístola de Barnabé diz que Abraão circuncidou 318 homens, um número que não aparece em Gênesis 17?
Resposta curta
relata que Abraão, no mesmo dia em que recebeu de Deus a aliança da circuncisão, circuncidou a si mesmo, a Ismael e a todos os homens de sua casa — os nascidos ali e os comprados com dinheiro de estrangeiros. O texto marca a obediência imediata do patriarca, mas em nenhum momento informa quantos homens passaram pelo rito naquele dia.
A Epístola de Barnabé, carta cristã anônima do início do século II, retoma esse episódio em seu capítulo 9 e afirma que Abraão circuncidou "trezentos e dezoito homens" — número que ela decompõe em letras gregas para enxergar, escondidos ali, o nome de Jesus e o formato da cruz. O problema é que esse número não está em : ele pertence a , um episódio diferente da vida de Abraão.
O que diz Epístola de Barnabé
Epístola de Barnabé 9
narra o momento em que Deus estabelece com Abrão a aliança da circuncisão, muda seu nome para Abraão e promete que dele viria uma multidão de nações. Os versículos 23 a 27 fecham o capítulo mostrando a obediência imediata do patriarca: no mesmo dia, ele circuncida a si mesmo, aos 99 anos, a Ismael, com 13 anos, e a "todo homem entre os domésticos da casa de Abraão" — incluindo servos nascidos ali e os comprados de estrangeiros. É um relato de cumprimento rápido e total, sem menção a números específicos de pessoas envolvidas além de Abraão e Ismael.
A Epístola de Barnabé é uma carta cristã anônima, provavelmente escrita entre o fim do século I e as primeiras décadas do século II, possivelmente em Alexandria, no Egito. Apesar do título tradicional, a autoria não pode ser confirmada como sendo a do Barnabé companheiro de Paulo mencionado em Atos — a maioria dos estudiosos hoje trata essa atribuição apenas como uma convenção posterior, não como um fato histórico comprovado. O texto circulou com grande prestígio nos primeiros séculos do cristianismo: aparece copiado ao final dos livros do Novo Testamento no Códex Sinaítico (século IV) e foi citado repetidas vezes como Escritura por Clemente de Alexandria. Mesmo assim, acabou excluído do cânon — Eusébio de Cesareia já a listava, no início do século IV, entre os escritos disputados ("notha").
O capítulo 9 da carta discute a circuncisão, argumentando que o verdadeiro sentido do rito sempre foi espiritual (citando profetas como Jeremias) e não uma marca física exclusiva dos judeus. É nesse argumento que o autor introduz sua leitura do episódio de Abraão, atribuindo-lhe o número 318 e extraindo dele, por meio das letras gregas, uma leitura cristológica — o pano de fundo direto do cotejo entre esse capítulo e .
O que diz a Bíblia
Então tomou Abraão a Ismael seu filho, e a todos os servos nascidos em sua casa, e a todos os comprados por seu dinheiro, a todo homem entre os domésticos da casa de Abraão, e circuncidou a carne do prepúcio deles naquele mesmo dia, como Deus lhe havia dito. Era Abraão de idade de noventa e nove anos quando circuncidou a carne de seu prepúcio. E Ismael seu filho era de treze anos quando foi circuncidada a carne de seu prepúcio. No mesmo dia foi circuncidado Abraão e Ismael seu filho. E todos os homens de sua casa, o servo nascido em casa, e o comprado por dinheiro do estrangeiro, foram circuncidados com ele.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Barnabé 9 identifica corretamente que Abraão circuncidou os homens de sua casa, incluindo servos nascidos ali e comprados com dinheiro, ecoando a linguagem de Gênesis 17:23 e 17:27.
- Ambos os textos situam a circuncisão como ato de obediência cumprido no mesmo dia, coerente com a ênfase de Gênesis 17:23 e 17:26 em 'naquele mesmo dia'.
Onde divergem
- Gênesis 17:23-27 não menciona nenhum número de homens circuncidados; o número 318 citado em Barnabé 9:8 não existe nesse capítulo.
- O número 318 pertence a Gênesis 14:14, que descreve os servos armados de Abraão na campanha para resgatar Ló — um episódio diferente, sem relação com a circuncisão.
- A leitura gemátrica de Barnabé usa numerais gregos (Iota=10, Eta=8, Tau=300), mas Gênesis foi composto em hebraico, cujo sistema de valores numéricos das letras é distinto — o argumento depende de um alfabeto que não é o do texto original.
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- A interpretação de que o número 318 prenuncia o nome de Jesus (ΙΗ) e a cruz (Τ) é exclusiva de Barnabé 9:7-9 e não aparece em nenhum lugar do Antigo ou do Novo Testamento.
- A técnica de isopsefia (interpretar letras gregas como números) aplicada ao Antigo Testamento é uma inovação exegética cristã do início do século II, sem precedente no próprio texto veterotestamentário.
Em palavras simples
A Bíblia diz que Abraão circuncidou todos os homens da sua casa no dia em que fechou aliança com Deus, mas não diz quantos eram. Um texto cristão antigo, a Epístola de Barnabé, afirma que foram 318 homens e usa as letras gregas desse número para "encontrar" escondidos ali o nome de Jesus e o desenho da cruz. Só que esse número não vem de — ele aparece em outro capítulo da Bíblia, sobre os servos armados de Abraão, num episódio totalmente diferente.
Aprofundamento
O núcleo do cotejo está em Barnabé 9:7-9. O autor escreve que Abraão "circuncidou dezoito homens, e depois trezentos" (na ordem grega original, ΙΗ antes de Τ) e explica: as letras gregas usadas como numerais eram também usadas para escrever palavras, de modo que Iota (Ι = 10) e Eta (Η = 8) somam 18 e formam as duas primeiras letras do nome "Jesus" em grego (ΙΗΣΟΥΣ). Já a letra Tau (Τ = 300) tem, para o autor, o formato visual exato da cruz de Cristo. Logo, para Barnabé, o número 318 escondido na circuncisão da casa de Abraão seria uma prefiguração de "Jesus na cruz" — um exemplo do que se chama isopsefia, a técnica helenística de atribuir valor numérico a letras do alfabeto, bastante praticada na cultura grega da época (inclusive fora do contexto cristão) e retomada depois por outros autores cristãos, como Clemente de Alexandria e, mais tarde, Ambrósio de Milão.
O ponto que a erudição destaca — e que merece nota clara aqui — é que o número 318 simplesmente não aparece em . Ele vem de , onde se diz que Abraão armou 318 servos nascidos em sua casa para perseguir os reis que haviam capturado seu sobrinho Ló. São dois episódios distintos da vida do patriarca: um sobre um resgate militar (), outro sobre a instituição da circuncisão (). Barnabé os funde como se fossem a mesma cena, atribuindo à circuncisão um número que na verdade descreve um exército doméstico. Estudiosos como James Carleton Paget e Robert A. Kraft, em seus comentários críticos e detalhados à carta, discutem se essa fusão reflete uma tradição judaico-helenística que já circulava combinando os dois textos distintos, ou se é uma leitura livre do próprio autor, mais interessado no efeito exegético e retórico do que propriamente na exatidão histórica da referência bíblica citada.
Vale notar ainda uma segunda camada de tensão: o argumento depende inteiramente do alfabeto grego. Gênesis foi composto em hebraico, cujo sistema de numeração por letras (usado mais tarde na tradição rabínica) segue lógica e valores diferentes dos gregos. Isso não torna a reflexão de Barnabé "errada" enquanto exercício de fé cristã primitiva — é um retrato legítimo de como certos leitores do século II liam o Antigo Testamento à luz de Cristo —, mas deixa claro que se trata de uma camada interpretativa acrescentada posteriormente ao texto, e não de um código numérico lido diretamente dentro dele.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A Epístola de Barnabé prova que já existia um código secreto sobre Jesus escondido no texto hebraico original de Gênesis.
A leitura depende do alfabeto e dos valores numéricos gregos (Iota, Eta, Tau), não do hebraico em que Gênesis foi composto; além disso, o número 318 nem aparece em — vem de , um episódio diferente. É uma técnica interpretativa cristã do século II, não um código embutido no texto original.
Dizem que:A Epístola de Barnabé foi escrita pelo Barnabé companheiro de Paulo mencionado em Atos dos Apóstolos.
Apesar do título tradicional, a autoria é anônima; a maioria dos estudiosos modernos considera a atribuição ao Barnabé bíblico improvável, dado o tom da carta, mais distante da prática judaica do que se esperaria do mediador judeu-helenista retratado em Atos.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ortodoxia Grega
Trata a Epístola de Barnabé como escrito não canônico, mas historicamente valioso entre os Padres Apostólicos — útil para entender a catequese primitiva, sem autoridade de Escritura inspirada.
Catolicismo Romano
Classifica a carta entre os Padres Apostólicos; reconhece seu valor como testemunho da fé cristã do século II, mas nunca a incluiu no cânon bíblico oficial definido pelos concílios.
Protestantismo Evangélico
Rejeita a carta do cânon e costuma citar sua exegese numérica do capítulo 9 como exemplo do tipo de leitura alegórica especulativa que a hermenêutica gramatical-histórica busca evitar.
Igreja Ortodoxa Etíope
Não inclui a Epístola de Barnabé em seu cânon amplo (que reserva espaço a outros escritos, como o Livro de Enoque), mas preserva e reconhece seu lugar entre os documentos da igreja antiga.
O que fazer com isso
Diante de leituras como a de Barnabé 9, vale separar dois planos: o que o texto bíblico registra e o que uma tradição interpretativa posterior acrescenta a ele. Documentos cristãos antigos ajudam a entender como os primeiros leitores liam as Escrituras à luz de Cristo, mas isso não torna toda associação numérica equivalente ao sentido original do texto hebraico. Reconhecer essa diferença fortalece, em vez de enfraquecer, o respeito por ambos os textos.
Fontes consultadas4 obras
- James Carleton Paget. The Epistle of Barnabas: Outlook and Background, 1994.
- Bart D. Ehrman (ed. e trad.). The Apostolic Fathers, Volume II (Loeb Classical Library), 2003.
- Robert A. Kraft. Barnabas and the Didache (The Apostolic Fathers, vol. 3), 1965.
- Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, 325.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Barnabé, autor da carta, é o mesmo companheiro de Paulo citado em Atos dos Apóstolos?
Não se pode confirmar. A maioria dos estudiosos considera a atribuição tradicional duvidosa, já que o tom da carta é mais distante da prática judaica do que se esperaria do Barnabé retratado em Atos.
De onde realmente vem o número 318 citado por Barnabé?
De , onde se diz que Abraão armou 318 servos nascidos em sua casa para resgatar seu sobrinho Ló — um episódio distinto, sem relação direta com a circuncisão narrada em .
Por que Barnabé interpreta um texto hebraico usando letras gregas?
Porque a carta foi escrita em grego, para leitores gregos, usando a isopsefia (atribuir valor numérico às letras), técnica comum na cultura helenística — não porque o texto hebraico original contivesse esse código.
Alguma igreja hoje considera a Epístola de Barnabé Escritura?
Não. Nenhuma grande tradição cristã atual a inclui no cânon bíblico; ela é lida como um dos Padres Apostólicos, valiosa para entender o pensamento cristão do início do século II.
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