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Deus ou "aquele que"? A correção no Alexandrinus

Por que algumas Bíblias dizem "Deus se manifestou em carne" e outras dizem só "aquele que se manifestou"?

Resposta curta

preserva um hino antigo do cristianismo primitivo, e também abriga uma das variantes mais discutidas do Novo Testamento grego. Bíblias que seguem o Texto Recebido, base de traduções como esta, trazem "Deus foi revelado em carne" — em grego, ΘΕΟΣ (theós). Os manuscritos gregos mais antigos, porém, trazem ΟΣ (hós), pronome relativo que se traduz por "aquele que" ou simplesmente "ele".

O Codex Alexandrinus, do século V, é peça central nesse debate porque guarda fisicamente o rastro da alteração: sob a tinta que hoje forma o Θ de "Deus", reconhece-se o traço de um Ο original, reforçado depois por um corretor que acrescentou os elementos que transformam a letra na abreviação sagrada de "Deus". O caso não decide sozinho qual leitura é mais antiga, mas mostra, numa única página, como uma variante entra na tradição manuscrita.

O que diz Codex Alexandrinus

Codex Alexandrinus, variante 'Deus manifestado em carne'

O Codex Alexandrinus é um dos quatro grandes códices unciais do Novo Testamento grego, ao lado do Sinaítico, do Vaticano e do Efraimita Rescrito. Foi copiado provavelmente no Egito, em algum momento do século V, contém a maior parte do Antigo e do Novo Testamentos em grego, além de textos como as Epístolas de Clemente, e hoje está guardado na British Library, em Londres, para onde chegou como presente ao rei Carlos I da Inglaterra em 1627, enviado pelo patriarca de Constantinopla Cirilo Lucaris.

Em , o texto grego traz o que muitos estudiosos consideram um fragmento de hino ou credo litúrgico usado pelas primeiras comunidades cristãs — seis linhas curtas e paralelas sobre a manifestação, vindicação, exibição, proclamação, aceitação e exaltação de Cristo. A frase de abertura desse hino é onde mora a variante: o sujeito gramatical do verbo "foi manifestado" pode ser lido como ΘΕΟΣ ("Deus"), ΟΣ ("aquele que", masculino) ou ὅ ("o que", neutro, referindo-se a "mistério").

No Alexandrinus, a palavra aparece hoje como a abreviação sagrada de "Deus" (ΘΣ, com um traço horizontal por cima indicando que é um nomen sacrum). Mas sob exame mais atento — já registrado por editores e paleógrafos que trabalharam diretamente com o manuscrito — nota-se que a tinta do traço central do Θ e do traço superior tem coloração e textura diferentes da tinta original da coluna, e que o contorno arredondado por baixo se parece com um Ο. Isso indica que a palavra original era ΟΣ, e que um corretor, em data posterior à confecção do códice, alterou a letra.

Esse tipo de correção visível é incomum: a maioria das variantes textuais existe apenas como diferenças entre cópias distintas, sem que se veja o processo de mudança acontecendo dentro de um único manuscrito. O Alexandrinus, nesse ponto específico, oferece um raro retrato físico de como uma leitura pode ser ajustada ao longo da vida de um mesmo objeto.

Ler mais sobre Codex Alexandrinus

O que diz a Bíblia

E, sem dúvida nenhuma, grande é o mistério da devoção divina: Deus foi revelado em carne, justificado em Espírito, visto pelos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, e recebido acima em glória.

Onde coincidem e onde divergem

Onde coincidem

  • Em todas as leituras (ΘΕΟΣ, ΟΣ ou ὅ), o hino descreve o mesmo evento: uma manifestação em carne seguida de vindicação no Espírito, visão pelos anjos, proclamação às nações, fé no mundo e recepção em glória.
  • A estrutura do hino em seis linhas paralelas é idêntica em todos os manuscritos e famílias textuais, independente da variante na primeira palavra.
  • O próprio Codex Alexandrinus, mesmo após a correção, preserva o restante do versículo sem alteração, mostrando que a intervenção do corretor foi pontual, restrita a essa única palavra.

Onde divergem

  • A leitura ΘΕΟΣ (Texto Recebido, manuscritos bizantinos tardios) nomeia 'Deus' como sujeito explícito do verbo 'foi manifestado'; a leitura ΟΣ (unciais mais antigos, como o Sinaítico e a mão original do Alexandrinus) usa um pronome relativo masculino sem sujeito nomeado.
  • A leitura latina ὅ (Vulgata, Nova Vulgata) usa um pronome neutro que retoma gramaticalmente 'mistério', e não introduz 'Deus' como sujeito da oração.
  • No próprio Codex Alexandrinus, a leitura original da mão copista (ΟΣ) diverge da leitura hoje visível na página (alterada por um corretor posterior para a abreviação de ΘΕΟΣ).

O que só existe fora do cânon

Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.

  • O rastro físico da correção no Codex Alexandrinus — a diferença de tinta e traço entre a letra original e os acréscimos do corretor — é um dado codicológico sobre a história do objeto, sem paralelo no texto bíblico em si.
  • A datação, a origem egípcia provável e a trajetória de custódia do Codex Alexandrinus até a British Library, incluindo seu envio como presente ao rei Carlos I em 1627, são fatos sobre a transmissão material do manuscrito.
  • A existência de uma terceira variante, o pronome neutro ὅ preservado na tradição latina (Vulgata e Nova Vulgata), é um dado da história da transmissão textual que não aparece nas edições gregas impressas hoje mais correntes.
Em palavras simples

Em , algumas Bíblias dizem que "Deus foi revelado em carne"; outras, seguindo manuscritos mais antigos, dizem apenas "aquele que foi revelado em carne". A diferença é uma única palavra grega. Um dos manuscritos mais famosos, o Codex Alexandrinus, do século V, mostra isso de um jeito raro: dá para ver, na própria página, que alguém depois alterou a letra original para deixá-la parecida com a abreviação de "Deus".

Aprofundamento

A crítica textual do Novo Testamento lida com milhares de pequenas diferenças entre manuscritos, e a maioria delas não afeta o sentido de forma relevante. é uma exceção notável: aqui, a variante entre ΘΕΟΣ, ΟΣ e ὅ (deus, aquele que, o que) muda o sujeito gramatical da primeira linha do hino, e por isso a passagem é discutida com regularidade em manuais de crítica textual, entre eles o clássico "A Textual Commentary on the Greek New Testament", de Bruce M. Metzger, elaborado para justificar as escolhas do comitê por trás das edições gregas usadas hoje pela maioria dos tradutores.

Os manuscritos unciais mais antigos que preservam esse trecho — o Sinaítico (século IV) e a mão original do Alexandrinus (século V), antes da correção — trazem ΟΣ. É essa leitura que a maioria dos críticos textuais contemporâneos considera mais próxima do texto original, e é a que aparece nas edições gregas críticas (Nestle-Aland/UBS) usadas como base de traduções recentes como a NVI e a NAA. Um argumento a favor dessa prioridade é justamente sua dificuldade gramatical: ΟΣ é um pronome relativo masculino, mas seu antecedente mais próximo na frase, "mistério" (mystérion), é neutro em grego — uma concordância estranha que copistas teriam tido motivo para "corrigir", seja trocando para o neutro ὅ (que concorda gramaticalmente), seja trocando para ΘΕΟΣ (que dispensa a necessidade de concordância, por introduzir um sujeito novo). Esse raciocínio — de que a leitura mais difícil tende a ser a mais antiga, porque copistas raramente criam problemas gramaticais de propósito — é um princípio padrão da disciplina, embora não seja uma prova definitiva por si só.

A leitura ΘΕΟΣ, por sua vez, é a que prevalece nos manuscritos bizantinos mais tardios, que formam a maioria numérica dos manuscritos gregos sobreviventes e serviram de base ao Texto Recebido de Erasmo, impresso no século XVI, e depois a traduções como a King James e, no Brasil, a Almeida Corrigida e Revisada — a mesma linha textual seguida pela tradução usada neste site para o versículo em português.

Já a leitura ὅ (neutro, "o que" ou "o mistério que") sobrevive sobretudo na tradição latina, incluindo a Vulgata de Jerônimo e a Nova Vulgata de 1979, que trazem "quod manifestatum est in carne" — "que foi manifestado em carne", numa oração relativa que retoma diretamente o substantivo "mistério".

Nenhuma das três leituras nega a manifestação de Cristo em carne; todas descrevem o mesmo evento central. O que muda é apenas a forma gramatical de introduzi-lo — e é justamente por afetar tão pouco o conteúdo teológico geral da passagem, mas tanto a discussão erudita sobre transmissão de texto, que o caso é tão citado em cursos de crítica textual.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:A correção visível no Codex Alexandrinus prova que copistas do século V inventaram a divindade de Cristo.

    A doutrina da divindade de Cristo já aparece em textos bem anteriores ao Alexandrinus, como o Evangelho de João e cartas paulinas; a correção no manuscrito, feita depois de sua confecção, no máximo reflete uma tentativa posterior de tornar mais explícita uma crença já estabelecida, não de criá-la.

  • Dizem que:'Deus manifestado em carne' é a única leitura antiga; 'aquele que se manifestou' é invenção de críticos modernos.

    É o inverso: ΟΣ ('aquele que') é a leitura dos unciais gregos mais antigos preservados, incluindo o Sinaítico e a mão original do Alexandrinus; ΘΕΟΣ ('Deus') é predominante nos manuscritos bizantinos mais tardios, que deram origem ao Texto Recebido.

Como diferentes tradições leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição do Texto Recebido (base de traduções como a King James e a Almeida)

    Segue os manuscritos bizantinos tardios, que trazem ΘΕΟΣ; lê o versículo como uma afirmação direta e explícita de que 'Deus foi manifestado em carne', destacando a divindade de Cristo já na própria oração.

  • Crítica textual contemporânea (base das edições gregas usadas por tradutores da maioria das igrejas hoje)

    Prefere ΟΣ ('aquele que'), por ser o testemunho dos unciais mais antigos preservados e por seguir o princípio de que a leitura gramaticalmente mais difícil tende a ser a original; entende que a divindade de Cristo é afirmada em outros textos do Novo Testamento, sem depender desta palavra específica.

  • Tradição latina/católica (Vulgata de Jerônimo e Nova Vulgata)

    Mantém 'quod' (o pronome neutro ὅ), lendo a oração como referência direta ao 'mistério' anunciado na frase anterior — 'o mistério... que foi manifestado em carne' — sem que o sujeito gramatical dessa linha específica seja 'Deus'.

  • Tradição bizantina/ortodoxa (texto litúrgico grego tradicional)

    Preserva ΘΕΟΣ em seu texto eclesiástico grego padrão, em continuidade com a maioria dos manuscritos bizantinos usados historicamente na leitura litúrgica dessa epístola.

O que fazer com isso

Diante de uma variante como essa, vale lembrar que críticos textuais de tradições diferentes — católicos, ortodoxos e protestantes — trabalham juntos nas mesmas edições gregas, comparando manuscritos com método público e verificável. Notas de rodapé sobre variantes numa Bíblia de estudo não são sinal de fragilidade do texto, mas de transparência sobre como ele chegou até nós. Vale consultar mais de uma tradução ao estudar um versículo assim, sem tirar conclusões apressadas de uma única palavra isolada.

Fontes consultadas4 obras
  • Bruce M. Metzger. A Textual Commentary on the Greek New Testament, 1994.
  • Bart D. Ehrman. The Orthodox Corruption of Scripture, 1993.
  • F. H. A. Scrivener. A Plain Introduction to the Criticism of the New Testament, 1894.
  • H. J. M. Milne e T. C. Skeat. The Codex Sinaiticus and the Codex Alexandrinus, 1938.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Isso significa que a Bíblia foi alterada para inventar a divindade de Jesus?

Não. As três variantes descrevem o mesmo evento central, a manifestação em carne, e diferem apenas no sujeito gramatical da frase. A divindade de Cristo é afirmada em vários outros textos do Novo Testamento independentes desta variante específica.

Por que o Codex Alexandrinus é tão citado nesse debate?

Porque, diferente da maioria das variantes, que só aparecem quando se comparam manuscritos distintos, aqui o próprio manuscrito guarda o rastro físico da mudança: sob os traços que hoje formam a abreviação de 'Deus', ainda se reconhece o contorno de um ômicron original.

Qual leitura os estudiosos hoje consideram mais provável de ser a mais antiga?

A maioria dos críticos textuais atuais, incluindo os comitês por trás das edições gregas Nestle-Aland e UBS, favorece 'hós' (aquele que), com base no testemunho dos unciais mais antigos e no princípio de que a leitura gramaticalmente mais difícil tende a ser a original.

A variante muda a mensagem do hino em 1 Timóteo 3:16?

Pouco. Em qualquer uma das três leituras, o hino segue descrevendo a mesma sequência: manifestação em carne, justificação no Espírito, visto pelos anjos, pregado às nações, crido no mundo e recebido em glória.

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Temas

Publicado em 05/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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