Samaria e os samaritanos: história, rivalidade e Jesus
quem eram os samaritanos na bíblia
Resposta curta
Samaria começa como a capital que o rei Onri comprou e batizou com o nome do antigo dono, e acaba como o nome de um povo que judeus e cristãos do primeiro século conheciam muito bem. Entre uma coisa e outra há uma deportação assíria, uma disputa pós-exílio sobre a reconstrução de Jerusalém, uma Torá própria e um monte rival. Este estudo percorre seis etapas: a cidade, o que afirma e não afirma, Esdras e Neemias, o Gerizim e o Pentateuco samaritano, os encontros de Jesus em e Lucas, e a missão de . Onde as fontes judaicas, samaritanas e históricas divergem sobre a origem do grupo, o estudo apresenta cada lado sem decidir por eles.
Em palavras simples
Samaria foi a capital do reino do norte de Israel, fundada pelo rei Onri. Depois que os assírios a conquistaram, conta que povos estrangeiros foram instalados ali. Os samaritanos do tempo de Jesus eram vizinhos dos judeus, com quem tinham uma longa rivalidade: aceitavam só a Torá e adoravam no monte Gerizim, não em Jerusalém. A Bíblia mostra Jesus conversando com uma samaritana, contando a parábola do bom samaritano e curando um leproso samaritano. Judeus, samaritanos e historiadores explicam a origem do grupo de maneiras diferentes.
Antes de começar
O reino do norte surgiu da divisão narrada em , depois da morte de Salomão. Dez tribos ficaram sob a liderança de Jeroboão e estabeleceram santuários próprios em Betel e em Dã, para que o povo não precisasse subir ao templo de Jerusalém. Cerca de meio século depois, o rei Onri comprou o monte de Semer por dois talentos de prata e ali construiu Samaria, que serviu de capital até o fim do reino (). A palavra, portanto, designa primeiro uma cidade e depois a região e o reino em torno dela.
O capítulo 17 de 2 Reis registra o fim: o rei da Assíria tomou Samaria, deportou parte da população e instalou colonos vindos de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim. O texto diz que esses colonos receberam a visita de um sacerdote israelita e passaram a combinar o culto ao Senhor com o de seus deuses de origem. Outros textos, como e , mostram que ainda havia no norte adoradores do Senhor que subiam a Jerusalém.
Depois do exílio babilônico, os que voltaram a Judá encontraram vizinhos ao norte com quem entraram em atrito. e registram a recusa de ajuda na reconstrução do templo e as ameaças contra o muro, nomeando figuras como Sanabalate, que governava em Samaria. A partir daí, as fontes ficam mais escassas e as perspectivas se dividem. Os samaritanos desenvolveram uma comunidade centrada no monte Gerizim e na Torá, enquanto o judaísmo de Jerusalém concentrou o culto no templo em Sião.
No primeiro século, a hostilidade entre os grupos era reconhecida a ponto de aparecer como insulto em e como pressuposto em . Foi nesse cenário que Jesus conversou com uma mulher em Sicar, contou uma parábola cujo herói era um samaritano e elogiou a gratidão de um leproso samaritano. Depois da ressurreição, relata a pregação de Filipe em Samaria, e já havia incluído a região no mapa da missão.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO tema atravessa o Antigo Testamento como uma fronteira, e os Evangelhos mostram Jesus cruzando-a. Em , a mulher diz esperar o Messias que explicaria tudo, e é nessa conversa que Jesus se identifica com mais clareza do que em muitos encontros com seus conterrâneos. Os samaritanos de Sicar o reconhecem como Salvador do mundo, e e 8 registram o movimento que leva essa mesma mensagem de Jerusalém a Samaria.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Samaria: uma colina comprada e uma capital
Antes de ser o nome de um povo, Samaria foi o nome de um lugar, e o texto bíblico é preciso sobre como ele surgiu. Primeiro Reis 16:24 conta que Onri, rei do reino do norte, comprou o monte de um homem chamado Semer por dois talentos de prata, fortificou-o e deu à cidade o nome do antigo dono. É uma capital sem passado sagrado: não guarda o túmulo de um patriarca, não herdou um altar e não aparece entre as cidades da conquista. Foi escolhida por um rei, e essa origem a distingue de Jerusalém, cujo peso religioso vinha de Davi e do templo.
Depois da divisão do reino, narrada em 1 Reis 12, o norte ficou com a maior parte do território e das tribos, mas sem o templo. Samaria tornou-se o centro político de um reino que a Bíblia chama de Israel, e esse uso é a chave de tudo o que vem depois: durante dois séculos, “Samaria” podia designar a cidade, a região ou o reino inteiro. Os profetas falam assim. Oseias 8:5-6 menciona o bezerro de Samaria, e Amós 4:1 interpela as “vacas de Basã” que estavam no monte de Samaria e oprimiam os pobres, imagem que a maioria dos leitores entende como dirigida a mulheres da elite.
O Antigo Testamento não descreve esse norte como um reino sem Deus. Descreve um reino com santuários rivais, em Betel e em Dã (1 Reis 12:28-30), e, no tempo de Acabe, filho de Onri, com um templo de Baal levantado na própria capital (1 Reis 16:31-33).
O fim vem em 2 Reis 17:5-6. O rei da Assíria cercou Samaria por três anos, tomou-a no nono ano de Oseias e levou Israel para o exílio, instalando os deportados em Hala, junto ao Habor, rio de Gozã, e nas cidades dos medos. O texto diz apenas “o rei da Assíria”; as inscrições assírias atribuem a conclusão a Sargão II e falam em dezenas de milhares de deportados, número que os historiadores discutem, mas que aponta na mesma direção do relato bíblico.
Convém fixar dois pontos. “Samaria” é um termo geográfico e político antes de ser étnico ou religioso. E a deportação de 2 Reis 17 é a premissa do debate sobre os samaritanos, não a sua resposta: quem ficou, quem chegou e o que se tornaram é o assunto da parte seguinte.
Para conversar
- Uma capital fundada por compra e decisão real, sem passado sagrado, muda a forma como você lê as críticas dos profetas a Samaria? Em que sentido?
- O mesmo nome serve para uma cidade, uma região e um reino. Que confusões surgem quando lemos “Samaria” no Novo Testamento com o sentido de um povo?
- O texto bíblico julga Samaria sobretudo por sua religião. O que se ganha e o que se perde ao ler essa avaliação como a de um autor do reino rival?
2.2 Reis 17: o que o capítulo afirma sobre a origem do grupo
O texto central é 2 Reis 17:24-41, e convém lê-lo devagar, porque ele afirma menos do que costuma ser atribuído a ele. O versículo 24 diz que o rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim e a instalou nas cidades de Samaria no lugar dos israelitas. Surgiram leões entre os recém-chegados, que concluíram não conhecer “a lei do deus da terra”. O rei mandou de volta um dos sacerdotes deportados, que se estabeleceu em Betel e ensinou como temer ao Senhor (17:27-28).
O resultado é descrito com franqueza desconfortável. Cada nação fez os seus deuses e os pôs nos santuários dos lugares altos (17:29-31). O versículo 33 diz que “temiam ao Senhor e serviam aos seus próprios deuses”, e o 34 acrescenta que, até aquele dia, faziam segundo os costumes antigos e “não temem ao Senhor”. Os comentaristas notam a tensão entre os dois versículos e a resolvem de formas diferentes: alguns leem o 34 como referência aos povos, outros ao conjunto, em tom de balanço final do autor.
Convém registrar o que o capítulo não diz. Ele não afirma que toda a população do norte foi deportada, e outros textos mostram que não foi. Em 2 Crônicas 30:10-11, gente de Aser, Manassés e Zebulom desce a Jerusalém para a Páscoa de Ezequias; em 2 Crônicas 34:9, habitantes de Manassés e Efraim contribuem para o templo no tempo de Josias; em Jeremias 41:5, oitenta homens de Siquém, Siló e Samaria levam ofertas à casa do Senhor depois da queda de Jerusalém. Havia, portanto, uma população israelita que permaneceu e continuou a invocar o Senhor.
Também vale notar que 17:29 usa o termo hebraico shomronim, “os de Samaria”, para quem fez os lugares altos. Algumas traduções o vertem como “samaritanos”, outras como “gente de Samaria”, e o próprio texto não esclarece se fala dos deportados trazidos, dos israelitas remanescentes ou da mistura entre eles.
Sobre o capítulo, portanto, a leitura honesta distingue o que ele registra, que é a vinda de colonos estrangeiros, a adoção de cultos mistos e a presença de um sacerdote em Betel, do que ele não diz, que é uma descendência exclusiva desses colonos. Ligar toda a identidade samaritana posterior a esse episódio é uma inferência, não uma afirmação do texto, e é nesse ponto que as fontes se separam, como o aprofundamento mostrará em detalhe.
Para conversar
- Se descreve colonos estrangeiros e descreve adoradores do norte indo a Jerusalém, que quadro da população você consegue montar sem escolher só um dos textos?
- Os versículos 33 e 34 parecem se contradizer. Que critérios você usaria para decidir entre as leituras possíveis?
- Quando o único relato que temos de um grupo vem de um autor do grupo vizinho, que cuidados a leitura exige?
3.Esdras 4 e Neemias 4: o conflito depois do exílio
Quando os exilados de Judá voltam e começam a reconstruir o templo, o conflito aparece pela primeira vez como narrativa. Esdras 4:1-3 diz que “os adversários de Judá e de Benjamim” ofereceram ajuda: queriam construir junto, porque buscavam o mesmo Deus e lhe sacrificavam desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria. Zorobabel, Jesua e os chefes das casas paternas recusaram, dizendo que a obra cabia apenas a eles, conforme a ordem de Ciro. A recusa é seca, e o texto não explica de que modo a pretensão de “buscar o mesmo Deus” foi avaliada.
É preciso notar a escolha de palavras. Esdras 4 chama esses oponentes de adversários e, em 4:4, de “povo da terra”; não os chama de samaritanos nem os define como um grupo religioso à parte. A consequência foi hostilidade prolongada: desânimo, intimidação e conselheiros subornados contra a obra (4:4-5). Mais adiante, Esdras 4:6-23 reproduz cartas dirigidas ao rei persa por Reum e Simsai, que escrevem de Samaria (4:17), com acusações de que a cidade reconstruída se rebelaria. A ordem dos eventos no capítulo é discutida, porque o trecho trata de reis posteriores ao do templo e parece inserido por tema, não por cronologia.
Neemias 4 mostra a mesma tensão com um desfecho diferente. Sanabalate, que fala “diante do seu irmão e do exército de Samaria” (4:2), ridiculariza os judeus; Tobias, o amonita, diz que uma raposa derrubaria o muro (4:3). Em 4:7-8, árabes, amonitas e asdoditas se irritam e conspiram para atacar. A resposta é a oração e a vigilância, com a espada numa mão e a ferramenta na outra (4:17-18). A rivalidade era política, econômica e religiosa, tudo ao mesmo tempo.
Há também laços de família. Neemias 13:28 conta que um neto do sumo sacerdote Eliasibe era genro de Sanabalate, o horonita, e foi expulso. Fora da Bíblia, papiros de Elefantina, do fim do século V a.C., mencionam Sanabalate como governador de Samaria e dão a seus filhos nomes com elemento ligado ao nome divino, o que sugere uma família que se via como adoradora do Senhor.
Nada disso prova que o cisma entre judeus e samaritanos nasceu aqui. Os textos descrevem um conflito de lideranças pelo controle da reconstrução. Que ele tenha se tornado separação religiosa é uma conclusão que as fontes posteriores, examinadas adiante, só confirmam séculos depois.
Para conversar
- Os adversários dizem buscar o mesmo Deus e a recusa vem sem explicação. Como você leria essa cena se estivesse do lado de Zorobabel? E do lado de quem foi recusado?
- mistura ridículo, ameaça política e interesse econômico. Em que medida esses fatores se separam de um conflito religioso?
- mostra casamento entre famílias de Samaria e do sacerdócio de Jerusalém. O que isso sugere sobre a fronteira entre os dois lados no período?
4.Gerizim e o Pentateuco samaritano
O ponto em que as duas comunidades realmente se separam é um monte. Deuteronômio 11:29 e 27:12 mandam proclamar as bênçãos sobre o Gerizim e as maldições sobre o Ebal, perto de Siquém, e Josué 8:30-35 narra o cumprimento da cerimônia. Siquém é também o lugar do primeiro altar de Abraão em Canaã (Gênesis 12:6-7) e da compra de terra por Jacó (Gênesis 33:18-20). Para os samaritanos, Gerizim é o lugar que Deus escolheu; para a tradição de Jerusalém, o lugar escolhido é Sião, como dizem 1 Reis 8 e o Salmo 78:67-69.
Os samaritanos aceitam como Escritura apenas a Torá, os cinco livros de Moisés, em uma forma própria, o Pentateuco samaritano, copiado em escrita hebraica antiga. Esse texto difere do texto massorético em milhares de pontos, a maioria pequena, e em alguns concorda com a tradução grega mais antiga contra o texto hebraico tradicional. Três diferenças interessam diretamente ao debate: em Deuteronômio 27:4 o altar é mandado para o Gerizim, onde o texto massorético tem Ebal; o decálogo samaritano traz um mandamento sobre erguer altar no Gerizim; e em Deuteronômio 12, a expressão “o lugar que o Senhor escolheu” aparece no passado, e não no futuro. Também a identificação do monte Moriá de Gênesis 22 com o Gerizim pertence à tradição samaritana, enquanto 2 Crônicas 3:1 liga Moriá a Jerusalém.
A história do santuário vem de fontes externas. Josefo conta que um templo foi construído no Gerizim, situando-o no tempo de Alexandre, o Grande, cronologia que muitos historiadores corrigem. Escavações lideradas por Yitzhak Magen encontraram vestígios de um complexo sagrado no monte, com datas que alguns propõem recuar até o século V a.C., embora esse ponto seja discutido. O mesmo Josefo relata que o sumo sacerdote João Hircano destruiu o templo no fim do século II a.C. Para muitos estudiosos, essa destruição, mais do que Esdras 4, consolidou a separação.
A autodefinição samaritana também importa. O nome que usam, shamerim, é lido como “guardiões” da Torá, e tradições deles reivindicam descendência de Efraim e Manassés, tribos de José. A comunidade ainda existe, em número que as estimativas recentes põem abaixo de mil pessoas, e ainda celebra a Páscoa no Gerizim. A divergência com o judaísmo de Jerusalém, portanto, não é sobre ter ou não a Torá: é sobre qual monte e quais livros além dela.
Para conversar
- As duas comunidades apelam à mesma Torá e chegam a conclusões diferentes sobre o lugar de culto. Que fatores além do texto parecem pesar nessa divergência?
- Quando uma variante textual favorece a posição de um grupo, como um leitor externo deve avaliar se ela é antiga ou se foi ajustada depois?
- O que muda em sua leitura de quando você sabe que o argumento “nossos pais adoraram neste monte” tem apoio textual no Pentateuco samaritano?
5.Jesus e os samaritanos nos Evangelhos
Os Evangelhos não apresentam uma atitude única de Jesus diante dos samaritanos, e vale ler cada cena no que ela diz. Em Mateus 10:5, ao enviar os Doze, ele os proíbe de entrar em cidade de samaritanos, e o texto não justifica a restrição além da ordem de ir primeiro às ovelhas perdidas de Israel (10:6). Em Lucas 9:51-56, uma aldeia samaritana recusa recebê-lo porque ele ia para Jerusalém; Tiago e João pedem fogo do céu e são repreendidos. Em João 8:48 “samaritano” aparece como insulto dirigido a ele. Esse é o pano de fundo: uma hostilidade mútua e conhecida.
Em João 4, Jesus atravessa Samaria porque “era necessário” (4:4), pede água a uma mulher junto ao poço de Jacó, em Sicar, e provoca espanto, porque, diz o narrador, judeus e samaritanos não se relacionam (4:9). A expressão grega é discutida: pode significar não partilhar utensílios ou não ter trato. A conversa percorre o terreno que as partes anteriores prepararam. A mulher menciona os cinco maridos apenas quando Jesus os traz à conversa, e o texto não afirma o que as interpretações costumam acrescentar sobre sua vida. Ela levanta o tema do monte (4:20), e a resposta de Jesus tem duas frases que parecem puxar em sentidos contrários: “a salvação vem dos judeus” (4:22) e “nem neste monte nem em Jerusalém” (4:21), seguido de adoração “em espírito e em verdade”. Ela fala então da expectativa do Messias, e ele se identifica (4:25-26). Muitos samaritanos de Sicar passam a crer e o chamam de Salvador do mundo (4:39-42).
Lucas usa o samaritano de outro modo. Em Lucas 10:25-37, é respondendo a um perito na lei que Jesus conta a história do homem ferido na estrada de Jericó: um sacerdote e um levita passam adiante, e quem cuida dele é um samaritano. A pergunta final é invertida: não “quem é meu próximo?”, e sim “qual dos três se mostrou próximo?”. Em Lucas 17:11-19, entre dez leprosos curados, só um volta para agradecer, e Lucas faz questão de dizer que era samaritano, chamado “estrangeiro” por Jesus (17:18).
Os textos juntos pedem cuidado com generalizações. Não mostram um Jesus que abole as diferenças nem um que as ignora: mostram alguém que fala com a divergência nomeada, atende o pedido de quem a carrega e, no fim, coloca um samaritano em papel de exemplo diante de judeus.
Para conversar
- Em e 4:21 Jesus parece afirmar e relativizar a posição judaica ao mesmo tempo. Como você harmonizaria as duas frases sem apagar nenhuma delas?
- Lucas poderia ter escolhido um personagem de qualquer origem como herói da parábola. O que a escolha de um samaritano acrescenta para o ouvinte original?
- restringe a missão e destaca a gratidão de um samaritano. Como esses dois textos podem conviver na mesma leitura?
- Em , a mulher leva a cidade até Jesus por meio de seu testemunho. Que papel o texto dá a ela, e o que ele deixa em silêncio?
6.Atos 8 e as perguntas que o tema deixa abertas
O livro de Atos retoma o assunto onde os Evangelhos o deixaram. Em Atos 1:8 Jesus anuncia que os discípulos seriam testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, em Samaria e até os confins da terra. A perseguição que se segue à morte de Estêvão dispersa a igreja “pelas regiões da Judeia e de Samaria”, com exceção dos apóstolos (8:1), e Filipe, um dos sete escolhidos em Atos 6, anuncia Cristo numa cidade samaritana (8:5). O texto diz que as multidões atenderam com unanimidade, e houve curas e alegria.
Há dois episódios dentro do capítulo. O primeiro é o de Simão, o mago, que impressionara a cidade com suas práticas, crê, é batizado e segue Filipe (8:9-13). Quando mais tarde tenta comprar de Pedro o poder de transmitir o Espírito, é duramente repreendido (8:18-24). O segundo é a chegada de Pedro e João, enviados de Jerusalém, que oram e impõem as mãos sobre os samaritanos, que então recebem o Espírito (8:14-17). O texto diz que antes disso eles apenas haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus, e não explica por que a ordem foi essa.
As leituras divergem. Uma entende o episódio como um “Pentecostes samaritano”, em que os apóstolos de Jerusalém certificam a inclusão de um povo antes separado, evitando a formação de uma igreja paralela. Outra o lê como etapa singular na história da salvação, sem valor de norma para a experiência posterior. Uma terceira destaca o contraste entre o assombro diante dos sinais e a fé genuína, tendo Simão como caso extremo. O estudo sobre o Espírito Santo trata do tema pneumatológico; aqui interessa o gesto: Jerusalém vai a Samaria e aprova.
Em 8:25, Pedro e João pregam em muitas aldeias samaritanas na volta. Atos 9:31 diz que a igreja passou a ter paz em toda a Judeia, Galileia e Samaria, e Atos 15:3 menciona que a conversão dos gentios dava alegria aos irmãos da Fenícia e de Samaria. O texto não diz se os samaritanos que creram abandonaram o Gerizim, nem como a questão do monte se resolveu na prática.
Esse silêncio é a pergunta que resta. O Novo Testamento mostra que a fronteira com Samaria foi cruzada, e mostra quem a cruzou, mas não dá as respostas que o debate histórico gostaria de ter.
Para conversar
- A ordem dos acontecimentos em (batismo, depois imposição de mãos) é incomum. Que explicações você consideraria mais ou menos convincentes, e por quê?
- Atos coloca Samaria entre Jerusalém e os confins da terra. O que a posição intermediária sugere sobre o modo como o livro organiza o avanço da mensagem?
- O Novo Testamento é silencioso sobre o destino do Gerizim entre os samaritanos que creram. Como lidar com esse silêncio sem preenchê-lo à força?
O que fica
- Samaria é antes uma cidade e uma região do que um povo: foi capital do reino do norte e só depois nome de uma comunidade.
- registra colonos estrangeiros, mas outros textos mostram que adoradores israelitas permaneceram; ligar tudo a um só episódio é inferência, não afirmação do texto.
- e descrevem conflito de lideranças, não um cisma religioso formal; a separação nítida aparece em fontes posteriores.
- A divergência com Jerusalém gira em torno do Gerizim e do Pentateuco samaritano, e Jesus a nomeia em sem esconder nenhum dos dois lados.
- Em , a missão cruza a fronteira com Samaria, mas o texto é silencioso sobre vários detalhes que o debate histórico gostaria de conhecer.
Aprofundamento
O debate central é como entender diante de outras fontes. Há três grandes leituras sobre a origem dos samaritanos, e cada uma tem o que a apoia e o que a enfraquece.
A primeira, de forte presença na tradição judaica antiga, enfatiza a origem estrangeira. Josefo emprega o nome “cuteus”, derivado de Cuta, e o relato de fundamenta essa associação. A tradição rabínica posterior chama o grupo de kutim e discute se se tratava de convertidos genuínos. Essa leitura tem a vantagem de partir do texto bíblico, mas o próprio texto não diz que a população israelita remanescente desapareceu, e e sugerem o contrário. Além disso, Josefo escreve séculos depois dos fatos e num ambiente de rivalidade aberta, o que pesa sobre a imparcialidade do relato.
A segunda, defendida pelos próprios samaritanos, parte de uma autodefinição diferente: eles são os shamerim, “guardiões” da Torá, descendentes de Efraim e Manassés, e o verdadeiro Israel que permaneceu fiel ao culto no Gerizim. Em sua versão, o desvio foi de Judá e do sacerdote Eli, que teria transferido o santuário para Siló. Essa memória, registrada em crônicas medievais, preserva uma tradição comunitária antiga, mas as fontes que a contêm são tardias e interessadas, como também são as fontes judaicas.
A terceira leitura, comum entre historiadores, combina as duas. Houve deportação e houve colonos, mas também houve continuidade de uma população israelita do norte, que com o tempo se misturou aos novos habitantes, manteve o culto ao Senhor e desenvolveu sua própria forma de Torá. A separação teria sido gradual, e não um evento. Dados arqueológicos do Gerizim, o Pentateuco samaritano e a destruição do templo por João Hircano são pontos de apoio, mas a datação de cada um é discutida.
Duas observações ajudam a ler o debate. A primeira é que e descrevem conflito, não cisma religioso formalizado: os oponentes são chamados de adversários e “povo da terra”, e não samaritanos. A segunda é que mostra, no primeiro século, uma divisão já consolidada, na qual os dois lados discordam sobre o monte, mas esperam o mesmo Messias. Também convém lembrar que o Novo Testamento não dá explicação sobre a origem do grupo; trata os samaritanos como realidade presente. O estudo não força uma síntese: o que se pode afirmar com segurança é que a origem do grupo envolve mais de uma causa e que as fontes sobreviventes têm, cada uma, motivos para contá-la a seu modo.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Os samaritanos eram estrangeiros sem nenhuma ligação com Israel.
É uma simplificação que lê só . O próprio Antigo Testamento mostra, em e , israelitas do norte que continuaram a invocar o Senhor, e os samaritanos se definem como descendentes de Efraim e Manassés. A origem do grupo é debatida entre historiadores, mas combina elementos locais e estrangeiros.
Dizem que:Os samaritanos tinham uma Bíblia diferente, com livros falsos.
Os samaritanos aceitam apenas os cinco livros da Torá, e seu Pentateuco difere do texto massorético em muitos pontos, a maioria pequenos. Não possuem uma versão alternativa dos Evangelhos nem acrescentaram livros novos. A diferença de maior peso é a escolha do Gerizim como lugar de culto, que se apoia em variantes de Deuteronômio.
Dizem que:Em João 4, Jesus condena a mulher por viver em pecado sexual.
O texto registra os cinco maridos e o companheiro atual, mas não emite juízo moral nem a chama de pecadora. Jesus os menciona para mostrar que sabe sua história, e a conversa segue para o monte e a adoração. O texto não esclarece o motivo de cada união desfeita, que pode ter sido viuvez, divórcio ou outra causa.
Dizem que:O bom samaritano é só uma lição geral sobre ajudar quem precisa.
Ela inclui isso, mas a escolha de um samaritano como herói, diante de um sacerdote e um levita, sendo contada a um perito na lei, tem peso específico. Os ouvintes esperariam outro personagem. O contexto histórico de rivalidade é parte do que torna a parábola incômoda.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Tradição judaica antiga (Josefo e rabinos)
Enfatiza a origem estrangeira dos samaritanos, associando-os aos colonos de Cuta citados em . Josefo os chama de cuteus e observa que reivindicavam parentesco com os judeus quando isso convinha. A tradição rabínica posterior os chama de kutim e discute em que medida seu comportamento religioso era genuíno.
Tradição samaritana
Define-se como o Israel que conservou a Torá e o culto no Gerizim. Seus integrantes se chamam shamerim, “guardiões”, e reivindicam descendência de Efraim e Manassés. A divisão com Jerusalém é atribuída ao afastamento de Eli e à fundação do santuário de Siló, e não à chegada de colonos assírios.
Historiografia crítica moderna
Vê a formação do grupo como processo gradual, no qual a população israelita remanescente se misturou aos colonos e desenvolveu um culto próprio. Os dados arqueológicos do Gerizim e a destruição do templo por Hircano são tratados como marcos, mas sem consenso sobre datas e sobre o momento exato do rompimento.
Leitura cristã tradicional
Tende a ler os encontros de Jesus com samaritanos como sinal de que a mensagem ultrapassa as fronteiras étnicas e religiosas, e como a etapa de Samaria no avanço de . Há variação sobre o episódio do Espírito em , lido como marco único ou como caso que não define norma.
O que fazer com isso
Ao ler um texto sobre samaritanos, pergunte quem está falando e de que lado. A informação de , de Josefo, dos rabinos e das crônicas samaritanas é verdadeira em algum nível e interessada em outro. Distinguir o que o texto bíblico afirma do que gerações de leitores acrescentaram evita repetir como fato aquilo que é inferência, e ajuda a perceber por que a parábola de surpreendia seus primeiros ouvintes.
Perguntas frequentes
- Quem eram os samaritanos na Bíblia?
- Eram os habitantes da região de Samaria, no centro de Israel, que adoravam o Deus de Israel, aceitavam apenas a Torá e tinham o monte Gerizim como lugar de culto. Judeus e samaritanos viviam em rivalidade antiga, e é nesse cenário que aparecem , a parábola do bom samaritano e .
- Os samaritanos ainda existem?
- Sim. A comunidade é pequena, com menos de mil pessoas segundo estimativas recentes, e vive principalmente em torno do monte Gerizim e de Holon, em Israel. Continua a celebrar a Páscoa no Gerizim e a guardar o Pentateuco samaritano.
- Por que judeus e samaritanos não se davam?
- Os motivos são vários e se acumularam. Entre eles, conflitos políticos depois do exílio, a divergência sobre o lugar de culto e a destruição do templo do Gerizim por João Hircano. registra a tensão no tempo de Jesus sem explicar sua origem.
- Samaria no Novo Testamento é a mesma da cidade de Onri?
- Em parte. No primeiro século, Samaria era sobretudo a região onde viviam os samaritanos. Herodes, o Grande, havia reconstruído a antiga capital com o nome de Sebaste, e Filipe pregou numa cidade da região em ; o texto não deixa claro qual.
Fontes consultadas
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas.
- Yitzhak Magen. Mount Gerizim Excavations.
- Gary N. Knoppers. Jews and Samaritans: The Origins and History of Their Early Relations, 2013.
- Reinhard Pummer. The Samaritans: A Profile, 2016.
- Ferdinand Dexinger e Reinhard Pummer (orgs.). Die Samaritaner.
- Richard J. Coggins. Samaritans and Jews: The Origins of Samaritanism Reconsidered, 1975.
- Raymond E. Brown. The Gospel according to John, 1966.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.