O nascimento virginal: Isaías 7, Mateus 1 e Lucas 1
o que a bíblia diz sobre o nascimento virginal de jesus
Resposta curta
Dois evangelhos contam que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo, sem pai humano: Mateus, a partir de José, e Lucas, a partir de Maria. Mateus apoia o relato numa citação de , e aí começa um debate sobre a palavra hebraica almah, a tradução grega parthenos e o sentido do texto no seu tempo. Marcos, João e Paulo não contam o episódio, e as igrejas divergem sobre a virgindade perpétua de Maria. Este estudo percorre o texto de Isaías, a Septuaginta, , , os silêncios do Novo Testamento e as leituras histórico-crítica, católica, ortodoxa e protestante, sem escolher lado onde há divergência real, para que se veja o que a doutrina afirma, como o texto a sustenta e o que continua em aberto.
Em palavras simples
Dois evangelhos dizem que Jesus foi concebido pelo Espírito Santo, sem pai humano. Mateus conta pelo lado de José e cita o profeta Isaías sobre uma jovem que daria à luz um filho. Lucas conta pelo lado de Maria, com o anjo Gabriel. Marcos, João e Paulo não falam do assunto, e isso não prova nada. As igrejas concordam que a história fala de Deus tomando a iniciativa de se fazer humano, mas discordam sobre se Maria continuou virgem depois e sobre como ler a palavra hebraica de Isaías, que pode ser traduzida como virgem ou jovem.
Antes de começar
O ponto de partida é um rei acuado. Em torno de 734 a.C., Acaz, de Judá, ameaçado por Arã e por Israel, ouve de Isaías que a jovem está grávida e dará à luz um filho chamado Emanuel (). O sinal estava ligado a um prazo curto e a uma crise política, e o texto não nomeia a mulher. Esse é o ambiente do versículo que Mateus citará sete séculos depois.
O hebraico usa almah, "moça em idade de casar", e não o termo mais técnico betulah. A Septuaginta, a tradução grega feita por judeus de Alexandria, verteu almah por parthenos, "virgem" na maior parte dos usos, ainda que a mesma tradução use o termo, em , para Diná depois de violentada. O Novo Testamento foi escrito em grego e cita sobretudo essa versão.
No Novo Testamento, o assunto aparece em dois textos independentes. narra o episódio de José, que decide deixar Maria em segredo e é demovido por um anjo em sonho. narra a anunciação a Maria em Nazaré, com a promessa de que o Espírito Santo virá sobre ela. Os dois concordam no essencial e divergem nos detalhes, o que levou estudiosos a ver neles tradições anteriores aos evangelhos. Marcos, o mais antigo, e João não trazem relato de nascimento, e Paulo, o mais antigo de todos, fala apenas de um Filho "nascido de mulher" ().
O século II já conhece a doutrina. Inácio de Antioquia a menciona, e Justino e Ireneu defendem a leitura de contra tradutores judeus que preferiam "moça". Os credos dos séculos IV em diante a incorporam. Por isso, o tema reúne um debate de tradução, um debate de interpretação do Antigo Testamento no Novo e um debate histórico, além da divergência sobre a virgindade perpétua de Maria.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoMateus e Lucas apresentam Jesus como o Emanuel, "Deus conosco", em quem a promessa feita à casa de Davi se cumpre de modo inesperado. O nascimento sem pai humano diz que o Filho não surge da história como um produto dela, mas vem a ela por iniciativa de Deus. Por isso o evangelho de João pode resumir tudo sem narrar o nascimento: o Verbo se fez carne e habitou entre nós.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O sinal dado a Acaz: Isaías 7 no seu tempo
Antes de ler Mateus, é preciso ler Isaías, e lê-lo onde ele foi dito. O capítulo 7 se passa por volta de 734 a.C., quando Rezim, rei de Arã, e Peca, rei de Israel, se aliam contra Judá. O rei Acaz, da casa de Davi, treme "como as árvores do bosque tremem ao vento" (Isaías 7:2). Isaías, com o filho Sear-Jasube, oferece ao rei algo raro: pedir um sinal, qualquer sinal, para confiar em Deus em vez de buscar a Assíria. Acaz recusa com uma piedade de fachada, e é então que o profeta se volta para "a casa de Davi" e anuncia um sinal que o rei não pediu.
O sinal é este: a jovem está grávida, dará à luz um filho e lhe porá o nome de Emanuel, "Deus conosco" (Isaías 7:14). Antes que a criança saiba recusar o mal e escolher o bem, a terra dos dois reis temidos estará abandonada (Isaías 7:16). O relógio do sinal, portanto, é curto: poucos anos.
Aqui o texto deixa perguntas reais. Quem é a jovem? O hebraico diz "a" jovem, com artigo, mas o capítulo não a nomeia. Uma leitura antiga, e a mais comum na tradição judaica, pensa numa mulher da corte, talvez esposa do rei, e em Ezequias como o menino, embora a cronologia de 2 Reis dificulte a conta. Outra liga o sinal ao filho de Isaías em 8:1-4, nascido de "a profetisa", cujo nome, Maher-Salal-Hás-Baz, anuncia o saque que viria sobre Damasco e Samaria. O nome Emanuel reaparece em 8:8, dirigido à terra, e os capítulos seguintes falam de um menino dado cujo reino não terá fim (Isaías 9:6-7), de modo que muitos veem aí um fio messiânico que se estende para além do primeiro cumprimento.
O ponto, para este estudo, é simples e honesto: no contexto original, o texto fala de um nascimento que serve de sinal político e de promessa de presença divina. Ele não diz, por si, que a mãe nunca teve relações. Quem lê Isaías 7 esperando ali uma profecia explícita de concepção sem pai encontra menos do que esperava. Quem o lê vendo apenas um episódio da história de Acaz deixa de ver o que o Novo Testamento viu. A pergunta que vem a seguir, na parte dois, é como a palavra hebraica foi parar em grego e o que o grego passou a dizer.
Para conversar
- Isaías oferece a Acaz um sinal que ele poderia ver acontecer. O que muda na leitura de um texto profético quando perguntamos primeiro o que ele significava para quem o ouviu?
- Se a profecia teve um cumprimento próximo e o Novo Testamento a lê de novo em Jesus, isso enriquece o texto ou o enfraquece? Por quê?
- O que significa, na prática, a promessa 'Deus conosco' dita a um rei que preferiu confiar em outra aliança?
2.Almah, parthenos e a Septuaginta
A palavra decisiva de Isaías 7:14 é עלמה (almah). O hebraico tem outro termo, בתולה (betulah), que costuma designar a virgem, e muita gente conclui que, se Isaías quisesse dizer virgem, teria usado esse. A conclusão é plausível, mas não é segura em nenhum dos dois sentidos. Almah aparece só sete vezes no Antigo Testamento, e nenhuma delas diz explicitamente que a moça era ou não era virgem; o sentido de base é "moça em idade de casar". Em Gênesis 24:16, Rebeca é chamada betulah e se acrescenta que homem algum a conhecera, o que sugere que a palavra sozinha precisava do complemento. Em Gênesis 24:43 a mesma Rebeca é chamada almah. Por outro lado, em Joel 1:8 uma betulah chora pelo marido da sua mocidade, o que mostra que o uso nem sempre era técnico.
O passo seguinte é a tradução grega. Os tradutores de Isaías na Septuaginta, trabalhando provavelmente no século II a.C., escolheram παρθένος (parthenos) para almah. Parthenos costuma significar virgem, mas a própria Septuaginta o usa com certa elasticidade: em Gênesis 34:3 chama assim Diná depois de ela ter sido violentada. Nessa mesma Septuaginta, aliás, a almah de Gênesis 24:43 recebe o termo νεᾶνις (neanis), "moça". Ou seja, os tradutores não tinham uma regra rígida, e a escolha em Isaías 7:14 pode refletir a leitura de que o nascimento era extraordinário, ou apenas o uso corrente de parthenos para uma jovem solteira.
Esse grego é o texto que Mateus cita. Mais tarde, tradutores judeus como Áquila, Símaco e Teodócião, segundo os autores cristãos que os mencionam, preferiram neanis, o que alimentou uma disputa antiga: Justino, no século II, e Ireneu, depois dele, defendem parthenos contra essas versões, enquanto outros veem nelas uma tradução independente, e não uma reação. Convém notar, porém, que o hebraico não foi "corrigido" por ninguém; foi traduzido de duas maneiras.
O que fica de pé? Que o debate sobre uma única palavra não decide a doutrina em nenhuma direção. Quem afirma que "almah significa só jovem, logo Mateus errou" ignora que o grego que Mateus usava dizia parthenos e que isso já era leitura corrente. Quem afirma que "Isaías profetizou claramente a virgem" ignora o hebraico e o contexto da parte anterior. Mateus e Lucas, de resto, não dependem de uma palavra: contam um nascimento, e Lucas nem cita Isaías 7.
Para conversar
- Como você explicaria a um amigo que uma única palavra hebraica pode ser traduzida de formas diferentes sem que ninguém esteja de má-fé?
- O fato de a Septuaginta usar parthenos com certa flexibilidade enfraquece o uso que Mateus faz do texto, ou mostra que ele partiu de uma leitura já corrente?
- Se a doutrina dependesse apenas de , ela seria frágil. Ela depende só disso? O que Lucas, que não cita Isaías, acrescenta à pergunta?
3.Mateus 1: José, o sonho e a citação
Mateus conta o nascimento do ponto de vista de José, e o faz com um cuidado que costuma passar despercebido. Começa por uma genealogia que, ao chegar a José, quebra o padrão. Até ali, o verbo era "gerou"; no versículo 16 lemos "Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus", com o verbo no passivo e sem pai humano para Jesus. Na lista aparecem ainda quatro mulheres, Tamar, Raabe, Rute e "a que foi de Urias", todas com algo de irregular na história, e é nesse clima que Maria entra.
O relato é sóbrio. Maria estava prometida a José e, antes que coabitassem, "achou-se grávida do Espírito Santo" (Mateus 1:18). José, descrito como "justo", não quer expô-la e decide deixá-la em segredo. Mateus não esconde que a situação parecia, aos olhos de qualquer vizinho, uma suspeita de adultério, e é José que a resolve com bondade antes de qualquer explicação. O anjo lhe fala em sonho, chama-o "filho de Davi", e diz que o filho de Maria vem do Espírito Santo e se chamará Jesus, "porque ele salvará o seu povo dos seus pecados" (1:21). O nome carrega a promessa: Yeshua quer dizer "o Senhor salva".
Só então vem a citação: "Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta" (1:22-23). Mateus segue a Septuaginta, com parthenos, e troca o "ela chamará" por "chamarão". É o primeiro de uma série de textos que ele aplica a Jesus com a fórmula do cumprimento. Como entender o verbo? Há quem veja predição direta, o que supõe que Isaías já visava a esse nascimento. Outros leem Mateus como interpretação tipológica: o que Deus fez por Acaz e a casa de Davi se repete, em escala maior, em Jesus, e Emanuel passa a ser nome de pessoa, não só de promessa. E há os que dizem que Mateus partiu da tradição do nascimento e, depois, achou o texto que o iluminava. A narrativa em si não é construída a partir da citação, já que os versículos 18 a 21 a precedem.
O versículo 25 deixa um ponto que a parte seis retomará: José "não a conheceu até que ela deu à luz um filho". O texto afirma o que importa para o argumento de Mateus, que é a concepção sem José. O que aconteceu depois, ele não diz.
Para conversar
- Mateus põe José no centro do relato e não Maria. O que essa escolha ensina sobre confiança, reputação e obediência em situações que ninguém consegue explicar?
- A fórmula 'para que se cumprisse' pode significar predição, tipologia ou ressonância. Qual dessas leituras lhe parece mais próxima do que Mateus faz, e por quê?
- Por que a genealogia de Mateus inclui mulheres com histórias complicadas? O que isso diz sobre o tipo de pessoa por meio de quem Deus age?
- O nome 'Jesus' é explicado como 'o Senhor salva', e 'Emanuel' como 'Deus conosco'. Como esses dois nomes se completam?
4.Lucas 1: Maria, Gabriel e o poder que cobre
Se Mateus conta a partir de José, Lucas conta a partir de Maria, e o tom é outro: menos tribunal, mais anunciação. No sexto mês da gravidez de Isabel, o anjo Gabriel é enviado a Nazaré, na Galileia, a uma moça chamada Maria, descrita como virgem prometida a José, da casa de Davi (Lucas 1:26-27). A palavra parthenos aparece duas vezes na mesma frase, e Lucas não cita Isaías 7. O relato fica de pé sozinho.
A mensagem é dupla. Primeiro, sobre quem o filho será: grande, chamado Filho do Altíssimo, herdeiro do trono de Davi, com um reino sem fim (1:32-33). Depois, sobre como: à pergunta de Maria, "como será isto, pois não conheço homem?", Gabriel responde que o Espírito Santo virá sobre ela e o poder do Altíssimo a cobrirá com sua sombra, "por isso o ser santo que há de nascer será chamado Filho de Deus" (1:34-35). O verbo da sombra, ἐπισκιάζω (episkiazo), é o mesmo que a Septuaginta usa para a nuvem que cobre a tenda do encontro em Êxodo 40, e muitos comentaristas ouvem aí uma presença de Deus, e não uma imagem de relação com a divindade. A diferença para os mitos pagãos de deuses que geram filhos em mulheres mortais é justamente essa: não há união, há ação criadora.
O versículo 34 é debatido. Agostinho leu a pergunta de Maria como indício de um voto de virgindade; muitos exegetas modernos entendem apenas que, estando prometida mas não casada, ela não via como isso seria possível. O texto não decide. O que fica claro é que a resposta de Gabriel não explica o mecanismo; aponta para Deus: "para Deus nada é impossível" (1:37), eco da pergunta feita a Sara em Gênesis 18:14. O sinal oferecido a Maria é Isabel, idosa e antes estéril, já no sexto mês.
Maria responde como serva: "Faça-se em mim segundo a tua palavra" (1:38). Lucas, que diz ter investigado tudo "desde o princípio" (1:3), não revela de quem recebeu a história. A tradição de que Maria seria uma fonte é antiga e plausível, mas é inferência. Convém dizer o que o texto diz e o que apenas se sugere em torno dele.
Para conversar
- Maria pergunta 'como será isto?' e não é repreendida, ao passo que o sacerdote Zacarias, que também perguntou, ficou mudo. O que distingue as duas perguntas?
- Gabriel não explica como acontecerá; diz que o poder de Deus cobrirá Maria. O que isso sugere sobre os limites do que se pode saber acerca da encarnação?
- O sinal que Maria recebe não é prova de laboratório, e sim a gravidez de Isabel. O que isso diz sobre o tipo de confirmação que a fé costuma receber?
5.Os silêncios do Novo Testamento e a pergunta histórica
Dois dos quatro evangelhos contam o nascimento virginal. Os outros dois, e as cartas de Paulo, não o mencionam, e esse silêncio é frequentemente invocado por quem duvida. Convém examiná-lo sem pressa, porque argumentos a partir do silêncio valem pouco nas duas direções.
Marcos começa com o batismo de Jesus, já adulto, e não tem relato de infância algum. Em Marcos 6:3, os vizinhos de Nazaré o chamam "o filho de Maria", fórmula incomum numa cultura que identificava as pessoas pelo pai. Alguns manuscritos trazem "filho do carpinteiro e de Maria", de modo que o texto original é discutido. Há quem veja ali um eco de dúvidas sobre sua origem, e há quem veja apenas que José já tinha morrido; o texto não diz. João afirma que "o Verbo se fez carne" (João 1:14) sem contar como; em 6:42 os judeus perguntam se ele não é "filho de José", e em 8:41 ouvem-se palavras que alguns leem como insinuação sobre seu nascimento, embora a leitura seja contestada. Alguns manuscritos latinos antigos liam João 1:13 no singular, aplicando-o a Jesus, mas a leitura em grego é plural e é a preferida.
Paulo é o mais antigo dos escritores do Novo Testamento. Em Gálatas 4:4 diz que Deus enviou seu Filho, "nascido de mulher, nascido sob a lei". A expressão afirma humanidade e submissão à Torá, e foi lida tanto como indício de que Paulo conhecia o nascimento virginal quanto como prova de que não o conhecia. Nenhuma das duas conclusões decorre do texto. Em Romanos 1:3, Jesus é "descendente de Davi segundo a carne", o que Mateus e Lucas também sustentam por meio de José.
O que a pesquisa histórica pode dizer? O erudito católico Raymond Brown observou que Mateus e Lucas, que escrevem de modo independente e com detalhes muito distintos, coincidem num núcleo: Maria virgem, concepção pelo Espírito Santo, José da linhagem de Davi. Brown concluiu que o método histórico não consegue decidir o assunto, e outros pesquisadores seguem rumos opostos, tratando o relato como lenda teológica ou como memória verdadeira. Nenhum dos lados dispõe de prova decisiva.
Para conversar
- Quando um texto do Novo Testamento não menciona algo, o que se pode concluir com honestidade? O silêncio de Paulo pesa mais ou menos que o testemunho de Mateus e Lucas?
- A coincidência de Mateus e Lucas num núcleo, apesar de relatos tão diferentes, fortalece ou apenas desloca a pergunta sobre a origem da tradição?
- Uma fé que depende de provas históricas conclusivas é diferente de uma fé que reconhece os limites da pesquisa? Em que sentido?
6.Maria depois do nascimento e o que a doutrina quer dizer
A última parte reúne duas perguntas que convém separar: o que a Bíblia diz sobre Maria depois do nascimento e o que o ensino sobre o nascimento virginal pretende afirmar. A primeira é a que mais divide as igrejas.
Católicos e ortodoxos ensinam a virgindade perpétua de Maria: virgem antes, durante e depois do parto. A tradição é antiga, do Protoevangelho de Tiago, texto apócrifo do século II em que os "irmãos" de Jesus são filhos de um casamento anterior de José, até Jerônimo, que no Contra Helvídio (por volta de 383) os trata como primos. O termo "sempre virgem" (aeiparthenos) foi adotado no Concílio de Constantinopla II, em 553. Do lado oposto, as igrejas protestantes e evangélicas em geral afirmam o nascimento virginal e não ensinam a perpetuidade, apontando Mateus 1:25 ("até que ela deu à luz"), a menção a irmãos e irmãs de Jesus em Marcos 6:3 e o título "primogênito" em Lucas 2:7. A resposta católica e ortodoxa lembra que "até" nem sempre indica mudança depois, que "irmão" tinha uso amplo e que Jesus, na cruz, confia a mãe a um discípulo (João 19:26-27). Lutero e, com mais reserva, Calvino resistiram a negar a perpetuidade, e a posição de muitos protestantes de hoje é mais recente que a de seus fundadores. O texto bíblico não traz uma afirmação direta que feche o debate.
Quanto ao sentido, quase todas as tradições convergem em três pontos. Primeiro, a encarnação: a iniciativa é de Deus, e o filho de Maria não é fruto de um projeto humano (Lucas 1:35). Segundo, a humanidade verdadeira, já que ele nasce de mulher (Gálatas 4:4). Terceiro, o paralelo com os nascimentos improváveis da história de Israel, como Isaque, mas com uma diferença: aqui não há pai humano. Teólogos como Karl Barth viram no nascimento um sinal que aponta para o mistério da pessoa, e não uma prova dele; Emil Brunner discordava de que fosse essencial. O Credo Niceno-Constantinopolitano, de 381, diz que ele se encarnou "do Espírito Santo e da virgem Maria", e o Credo dos Apóstolos faz o mesmo. Convém não confundir a doutrina com a Imaculada Conceição, dogma católico de 1854 sobre a concepção da própria Maria.
Para conversar
- O texto bíblico não encerra o debate sobre a virgindade perpétua. Como as igrejas podem discordar sobre isso e ainda confessar juntas a encarnação?
- Se o nascimento virginal é um sinal e não um fundamento, o que ele sinaliza? Isso muda a importância que você dá a ele?
- O que a insistência na iniciativa divina, tão presente em Mateus e Lucas, diz sobre aquilo que ninguém consegue produzir por esforço próprio?
- Por que a diferença entre a doutrina do nascimento virginal e a da Imaculada Conceição costuma se perder na conversa popular?
O que fica
- tem um sentido no tempo de Acaz e um sentido que Mateus lhe dá; o debate sobre almah e parthenos não resolve a doutrina em nenhuma direção.
- Mateus e Lucas contam o mesmo núcleo de formas independentes: Maria virgem, concepção pelo Espírito Santo, José da casa de Davi.
- Marcos, João e Paulo não narram o episódio, e o silêncio não permite concluir nem pró nem contra.
- A virgindade perpétua de Maria divide católicos e ortodoxos de muitos protestantes, e o texto bíblico não encerra a questão.
- O sentido central, aceito por quase todas as tradições, é a encarnação como iniciativa de Deus, e não como projeto humano.
Aprofundamento
O primeiro eixo de discussão é o uso de Isaías por Mateus. Há três maneiras principais de entender a fórmula "para que se cumprisse". A primeira vê predição direta: Isaías visava, já no século VIII a.C., ao nascimento de Jesus, ainda que o sinal tivesse um sentido próximo. A segunda, tipológica, vê um padrão: o que Deus fez em favor da casa de Davi na crise de Acaz se repete e se completa em Jesus, que é o Emanuel de modo pleno. A terceira, histórico-crítica, sustenta que a tradição do nascimento antecede a citação e que Mateus buscou na Septuaginta um texto que a iluminasse. As três coexistem em todas as tradições, e nenhuma é monopólio de uma igreja.
O segundo eixo é a história. Críticos como Rudolf Bultmann trataram o relato como lenda teológica, formada num meio cristão que já confessava Jesus como Filho de Deus. Defensores da historicidade respondem que o relato é sóbrio, não descreve a concepção, tem poucos paralelos reais no mundo judaico e é atestado em dois evangelhos independentes. Quem aponta paralelos pagãos, como relatos de deuses que geram heróis, esbarra no fato de que, no Novo Testamento, não há relação sexual entre Deus e Maria. Raymond Brown, estudioso católico, concluiu que a evidência científica não decide a questão, e essa franqueza é rara.
O terceiro eixo é a virgindade perpétua. Católicos e ortodoxos a afirmam desde a antiguidade, apoiados no Protoevangelho de Tiago, em Jerônimo e nos concílios. Os protestantes, em geral, afirmam o nascimento virginal e deixam em aberto a vida conjugal posterior, lendo "irmãos de Jesus" como filhos de José e Maria. Católicos e ortodoxos respondem que a palavra grega adelphoi cobre parentes próximos e, na tradição oriental, filhos de um casamento anterior de José. Cada leitura é gramaticalmente possível, e o Novo Testamento não resolve o ponto. Nem o "até" de nem o título "primogênito" de bastam para decidir, pois ambos descrevem o que ocorreu até o parto e não dizem nada sobre depois dele.
Há, por fim, a questão do significado. Para todas as tradições, o nascimento virginal aponta para a encarnação e para a iniciativa divina. Divergem sobre se é um fundamento, como em boa parte da tradição, ou um sinal, como em Barth. Em todos os casos, o texto afirma que o início de Jesus não foi produzido por esforço humano, e isso é o que o relato quer dizer antes de qualquer sistema posterior.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Mateus inventou o nascimento virginal a partir de um erro de tradução de Isaías 7:14.
O relato de precede a citação e se sustenta sem ela, e Lucas, que não cita , conta o mesmo núcleo de modo independente. A discussão sobre almah e parthenos é real, mas explica o uso da citação por Mateus, e não a origem da tradição. Dizer que tudo nasceu de um erro de tradução é uma hipótese, não um fato estabelecido.
Dizem que:A Imaculada Conceição é o mesmo que o nascimento virginal de Jesus.
São doutrinas distintas. O nascimento virginal trata da concepção de Jesus pelo Espírito Santo, sem pai humano. A Imaculada Conceição, dogma católico definido em 1854, trata da concepção da própria Maria, preservada do pecado original desde o início. A confusão é comum, inclusive entre quem as defende ou as rejeita.
Dizem que:Marcos, João e Paulo ignoram o nascimento virginal, o que prova que a ideia surgiu depois.
O silêncio é um fato, mas a conclusão é fraca: esses autores também não narram muitos outros episódios da vida de Jesus, e escreviam com finalidades diferentes. Argumentos a partir do silêncio não bastam para afirmar nem para negar. O que se pode dizer é que o assunto não aparece neles.
Dizem que:A Bíblia ensina claramente que Maria permaneceu virgem para sempre, ou então que teve outros filhos.
O Novo Testamento menciona irmãos de Jesus, mas a palavra grega adelphoi tem uso amplo, e não diz o que aconteceu depois do parto. Nem a perpetuidade nem a negação dela vêm declaradas com todas as letras; as igrejas divergem por causa de tradição, de leitura dos termos e de peso dado ao silêncio do texto.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Afirma o nascimento virginal e a virgindade perpétua de Maria, definidos em concílios antigos e reafirmados no ensino atual. Lê como profecia cumprida em Jesus, com sentido próximo para Acaz, e entende os irmãos de Jesus como parentes próximos. A Imaculada Conceição (1854) e a Assunção são doutrinas à parte.
Ortodoxa
Afirma a virgindade perpétua e chama Maria de Theotokos, Mãe de Deus, título confirmado em Éfeso, em 431. O nascimento virginal é lido no quadro da encarnação, e a liturgia o celebra como manifestação da iniciativa divina. A tradição valoriza o Protoevangelho de Tiago como testemunho antigo, sem lhe dar peso de Escritura.
Protestante e evangélica
Afirma o nascimento virginal com base em Mateus e Lucas e o enquadra nos credos antigos. Em geral não ensina a virgindade perpétua, apontando , os irmãos de Jesus e o título 'primogênito'. Lutero e Calvino foram, nesse ponto, mais cautelosos do que muitos herdeiros seus.
Histórico-crítica
Estuda os relatos de Mateus e Lucas como tradições independentes, compara-os com a Septuaginta e com paralelos do mundo antigo. Alguns pesquisadores veem lenda teológica; outros veem memória histórica; outros, como Raymond Brown, consideram que o método não consegue decidir a questão histórica.
Judaica
Lê no seu contexto, como sinal para Acaz, e entende almah como mulher jovem, sem sentido de concepção sem homem. Em geral não aceita que o texto fale do Messias de Mateus.
O que fazer com isso
Ao ler o assunto, separe quatro perguntas que costumam vir misturadas: o que Isaías disse a Acaz, como Mateus o usa, o que Mateus e Lucas contam e o que as igrejas concluíram depois. Cada uma tem um grau de certeza diferente. Responder a uma com a segurança que só cabe a outra é a principal fonte de discussões inúteis. Num grupo de estudo, vale ler os dois relatos lado a lado e anotar o que coincide e o que difere.
Perguntas frequentes
- Almah significa virgem?
- Significa, em primeiro lugar, moça em idade de casar. O hebraico tem outra palavra, betulah, mais próxima de virgem, mas o uso nem sempre é rígido. A Septuaginta traduziu almah por parthenos em , e é esse grego que Mateus cita. A palavra sozinha não resolve o debate.
- Por que Marcos e João não falam do nascimento virginal?
- Os textos não explicam. Marcos começa com o batismo e João com o Verbo que se fez carne. Cada evangelista escolheu o que contar, e o silêncio não prova que desconhecessem ou rejeitassem a tradição. Também não prova o contrário.
- Maria teve outros filhos?
- O Novo Testamento fala de irmãos de Jesus, mas a palavra grega tem uso amplo e o texto não diz de quem eram filhos. Católicos e ortodoxos afirmam a virgindade perpétua; muitos protestantes entendem que eram filhos de José e Maria. O debate permanece e a Bíblia não o encerra.
- O nascimento virginal é essencial para ser cristão?
- Os credos antigos o incluem e a maioria das tradições o tem por parte da fé. Alguns teólogos, como Emil Brunner, discutiram se é necessário para a doutrina da encarnação. Quem estuda o tema deve distinguir o que as igrejas ensinam do que o texto afirma com todas as letras.
Fontes consultadas
- Justino Mártir. Diálogo com Trifão.
- Ireneu de Lyon. Contra as Heresias.
- Jerônimo. Contra Helvídio, 383.
- João Calvino. Institutas da Religião Cristã, 1559.
- Karl Barth. Church Dogmatics, volume I/2, 1938.
- Raymond E. Brown. The Birth of the Messiah, 1977.
- Joseph A. Fitzmyer. The Gospel According to Luke I-IX, 1981.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.