Mordomia da criação: cuidar da terra segundo a Bíblia
o que a bíblia diz sobre cuidar da natureza
Resposta curta
A Bíblia fala da terra desde a primeira página e não trata o assunto como detalhe. Este estudo percorre o tema em seis partes: o que Gênesis confia ao ser humano quando fala em dominar e em cultivar e guardar, de quem é a terra segundo os Salmos, Levítico e o discurso a Jó, o que as leis do descanso da terra ensinam, o debate sobre o sentido de dominar e a palavra mordomia, o gemido da criação em e , e a esperança de renovação em . Mostra onde as tradições cristãs concordam, aponta os pontos em que o texto é silencioso ou debatido e não propõe nenhuma agenda política.
Em palavras simples
A Bíblia diz que a terra é de Deus e que o ser humano recebeu a tarefa de governá-la, cultivá-la e guardá-la. Há leis que dão descanso ao solo e proteção a animais e árvores, e há textos em que a criação sofre e espera ser renovada. As tradições cristãs concordam que o texto não permite exploração sem limite, mas divergem sobre o sentido exato de dominar, sobre o melhor vocabulário (mordomo, guardião, rei-pastor) e sobre se o mundo será transformado ou refeito. O estudo mostra cada ponto sem impor uma agenda política.
Antes de começar
O pano de fundo das passagens sobre a terra é um mundo agrícola. Israel vive do solo, da chuva no tempo certo e do rebanho, e a fertilidade da terra é, para os autores bíblicos, uma questão religiosa e não apenas econômica. É por isso que a ordem de e as leis de falam de solo, de sementeira, de gado e de colheita.
Os dois relatos da criação em Gênesis oferecem imagens complementares. No capítulo 1, o ser humano é feito à imagem de Deus e recebe uma ordem de governo, expressa pelos verbos hebraicos rādāh, dominar, e kābash, sujeitar. No capítulo 2, é colocado no jardim para o ʿābad e o shāmar, isto é, para servi-lo e guardá-lo. A palavra "mordomia", que muitos usam para resumir o tema, não aparece nesses textos; é um vocabulário posterior, tirado de figuras do Novo Testamento como o oikonomos, o administrador de uma casa.
O Antigo Testamento reforça a ideia de que a terra pertence a Deus (Salmo 24:1; ) e a trata como destinatária de leis próprias: o ano sabático, o jubileu, a proteção das árvores frutíferas e dos ninhos. Os Salmos (como o 104) e o discurso de Deus a Jó (capítulos 38 a 41) descrevem uma criação cheia de seres que Deus sustenta sem referência à utilidade humana.
O Novo Testamento entra na conversa de outro modo. fala da criação que geme e espera, coloca todas as coisas em Cristo, na origem e na reconciliação, e mostra uma terra renovada onde Deus habita com o seu povo. É difícil ler esses textos como se tratassem apenas de salvação de almas.
Há ainda um contexto moderno que não se pode ignorar. Desde o ensaio de Lynn White Jr. em 1967, a pergunta sobre se o ensino cristão favoreceu a exploração da natureza passou a integrar a discussão. O estudo trata dessa pergunta como debate aberto, sem a transformar em veredito.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento liga a criação a Cristo em três tempos. Ele é aquele por meio de quem tudo foi feito (; ), aquele cuja obra alcança todas as coisas na reconciliação () e aquele em quem se espera a renovação de tudo (). O Adão que recebe o jardim e falha encontra, para os autores do Novo Testamento, em Cristo o ser humano que cumpre a função: governa como servo. Por isso o assunto da terra não é periférico à fé cristã, e tampouco substitui o que ela diz sobre Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O jardim e a imagem: o que Gênesis confia ao ser humano
Duas frases de Gênesis sustentam quase toda a discussão. A primeira está em Gênesis 1:26-28: Deus faz o ser humano à sua imagem e semelhança e o manda dominar sobre os peixes, as aves e os animais da terra, e sujeitar a própria terra. A segunda está em Gênesis 2:15: o homem é posto no jardim "para o cultivar e o guardar". Os dois relatos não se contradizem, mas olham de ângulos diferentes. O primeiro é solene e de escala cósmica, e coloca o ser humano no fim de uma sequência em que Deus vê que o feito é bom. O segundo é íntimo e agrícola, com mãos na terra.
Os verbos importam. Em 1:26-28 aparecem rādāh, "dominar", e kābash, "sujeitar". Ambos têm usos duros no hebraico: rādāh descreve o governo de reis, e kābash aparece em contextos de conquista de território. Em 2:15, porém, os verbos são ʿābad, que quer dizer servir ou trabalhar, e shāmar, guardar ou vigiar. O primeiro é o verbo usado para o serviço a um senhor; o segundo, para guardar uma casa ou observar um mandamento. O texto traz, portanto, uma linguagem de governo e uma linguagem de serviço na mesma narrativa, e não explica como combiná-las.
Há uma pista no que vem antes. A imagem de Deus precede a ordem de dominar e a fundamenta: o ser humano governa como representante de Alguém, e não como dono. Muitos comentaristas notam que, no mundo do Antigo Oriente Próximo, ser "imagem" de um deus era uma forma de falar do rei. Gênesis estenderia esse título ao ser humano em geral, e não apenas ao monarca, embora o texto não faça essa comparação por conta própria. Seja como for, um representante responde a quem o designou, e o resto do relato mostra de quem é o jardim: "plantou o Senhor Deus um jardim" (2:8).
Convém também notar o que o texto não diz. Gênesis 1 e 2 não usam a palavra "mordomo", não descrevem políticas, não separam o que pode ser usado do que deve ser preservado. Dizem que existe uma função, que ela é confiada, e que tem dois lados: governo e serviço. O Salmo 8 repete o quadro em forma de oração, com espanto de que Deus entregue tanto a criaturas tão pequenas (v. 3-8). Quase tudo o que veio depois, na teologia e na história, consiste em decidir qual dos dois lados pesa mais. As partes seguintes acompanham essa decisão com calma, começando por perguntar de quem é a terra.
Para conversar
- O que muda na leitura de quando ele é lido junto de , e não sozinho?
- Se o ser humano governa como imagem de Deus, que tipo de governo o texto parece excluir e que tipo parece pedir?
- Em que momento da sua vida a palavra "dominar" foi usada de um modo que o texto talvez não autorize?
- O que você faz com o fato de Gênesis não dizer como combinar governo e serviço?
2.De quem é a terra: Levítico 25, Salmos 24 e 104, e o discurso a Jó
Antes de dizer o que o ser humano faz, a Bíblia insiste em dizer de quem é a terra. "Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele habitam" (Salmo 24:1). A frase é curta, e Paulo a retoma em 1 Coríntios 10:26. Levítico 25:23 aplica a ideia a um problema concreto, a venda de terras: "a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; vós sois estrangeiros e peregrinos comigo". Israel vive numa terra prometida e, mesmo assim, na condição de hóspede. Posse plena não existe; existe uso concedido.
O Salmo 104 desenvolve a mesma ideia em forma de poema. Deus faz brotar a relva para o gado, rega as árvores do Líbano, dá os altos montes às cabras monteses (v. 14-18). Os leões "buscam de Deus o seu alimento" (v. 21). O poema tem lugar para o ser humano, que sai ao trabalho ao amanhecer (v. 23), mas ele é um morador entre vários, e não o centro do quadro. A terra do salmo é uma casa com muitos habitantes, todos esperando do mesmo Senhor o alimento na hora certa (v. 27-28).
O discurso de Deus a Jó leva o ponto ao limite. Nos capítulos 38 a 41, Deus responde a um sofredor com perguntas sobre a criação. Quem faz chover "em terra onde ninguém está, no deserto, em que não há gente" (38:26)? Quem sacia o leão e prepara o alimento do corvo? Quem solta o jumento selvagem? Quem deu ao avestruz o seu jeito de ser (39:13-18)? Os animais descritos são, na maior parte, os que a vida agrícola não domestica, e o texto os apresenta com evidente deleite, sem pedir que sirvam a ninguém. Behemot e Leviatã (40 e 41) fecham a série como criaturas incontroláveis.
Esses textos corrigem uma leitura que veria no mundo natural apenas um estoque de recursos. Os animais do discurso a Jó não têm utilidade para Jó; têm valor para quem os fez. Isso não resolve tudo, já que a própria Bíblia permite usar a terra para comer e construir. Mas fixa o pano de fundo: o ser humano age num lugar que pertence a outro e que contém muito que não foi feito para ele.
Para conversar
- O que significa, na prática, viver como "estrangeiro e peregrino" numa terra que se usa todos os dias?
- Por que Deus responde ao sofrimento de Jó falando de animais e paisagens? O que essa resposta faz com a ideia de que o mundo gira em torno do ser humano?
- O Salmo 104 coloca o ser humano como um morador entre outros. Como essa imagem convive com ?
- Que lugar da natureza você conhece que não tem utilidade para você e ainda assim parece ter valor?
3.O descanso da terra: Levítico 25 e as leis que protegem o que não fala
Levítico 25 é o texto mais direto da Bíblia sobre o trato com o solo. A terra, diz o capítulo, "guardará um sábado ao Senhor" (v. 2). No sétimo ano não se semeia nem se poda; o que brota por si mesmo não é colhido como de costume, mas fica para todos: o servo, o trabalhador contratado, o estrangeiro, o gado e "os animais que há na tua terra" (v. 6-7). Êxodo 23:10-11 diz algo parecido, com uma justificativa social, pois os pobres comem do que sobra e, do resto, comem os animais do campo. Depois dos sete ciclos vem o jubileu (v. 8-55), quando as terras voltam à família original. O mecanismo ata três coisas que hoje se separam: o descanso do solo, o sustento dos pobres e o limite à acumulação.
O capítulo reconhece o medo que a regra provoca: "que comeremos no sétimo ano?" (v. 20). A resposta é uma promessa de bênção sobre o sexto ano. A prática exige, portanto, confiança, e não só prudência.
Aqui aparece uma dificuldade histórica. Não sabemos com segurança em que medida Israel cumpriu o ano sabático. Levítico 26:34-35 avisa que a terra "gozará os seus sábados" durante o exílio, e 2 Crônicas 36:21 interpreta o exílio nesses termos, o que muitos leem como indício de que os sábados da terra tinham sido negligenciados. Os profetas ligam o tratamento do solo à condição moral do povo: em Oseias 4:1-3, a terra "se pranteia" e as aves e os peixes desaparecem junto com a fidelidade, e em Jeremias 12:4 pergunta-se até quando a terra estará de luto.
Outras leis completam o quadro de modo menos conhecido. Deuteronômio 20:19-20 proíbe derrubar as árvores frutíferas durante um cerco, mesmo em guerra. Deuteronômio 22:6-7 manda deixar a mãe quando se toma o ninho. Êxodo 23:12 garante descanso ao boi e ao jumento no sábado, e Provérbios 12:10 diz que o justo cuida da vida do seu animal.
Como aplicar isso é matéria de debate. Todas essas leis foram dadas a Israel numa terra específica e num regime civil que não existe mais. Alguns estudiosos, entre eles Christopher Wright, tratam Levítico 25 como paradigma: não se copia o mecanismo, mas se aprende o princípio de que a terra tem limites que a economia deve respeitar. Outros acham que isso se afasta demais do texto. O que a leitura honesta pode afirmar é mais modesto: a Bíblia não trata o solo e os animais como matéria neutra, e encarregou a lei de protegê-los.
Para conversar
- admite o medo de ficar sem comida. Que medos hoje levam a esgotar o que deveria descansar?
- O princípio de que a terra tem limites pode ser extraído de leis que eram para Israel? Onde está o risco de ir longe demais, e onde o de não ir longe o bastante?
- Por que a lei junta descanso do solo, sustento dos pobres e limite à acumulação, em vez de tratá-los como assuntos separados?
- O que lhe diz o fato de a Bíblia legislar sobre ninhos, bois e árvores frutíferas?
4.Dominar, guardar, administrar: o debate sobre as palavras
Em 1967, o historiador Lynn White Jr. publicou na revista Science um ensaio que se tornou ponto de partida de uma discussão duradoura: "As raízes históricas da nossa crise ecológica". Sua tese era que o cristianismo, ao ensinar que o ser humano está acima da natureza e recebeu ordem de dominá-la, teria dado base ideológica à exploração técnica do mundo. Ele mesmo propôs Francisco de Assis como patrono de uma alternativa, e o papa João Paulo II o declarou patrono dos ecologistas em 1979. A tese de White foi muito citada e muito contestada, em parte porque as causas históricas da degradação ambiental são numerosas e não se reduzem à religião.
A resposta cristã mais comum foi a linguagem da mordomia: o ser humano seria um administrador de bens que não lhe pertencem. A ideia tem apoio no Novo Testamento, onde o oikonomos, o encarregado da casa, aparece como figura de responsabilidade e prestação de contas (Lucas 12:42-44; 1 Coríntios 4:1-2; 1 Pedro 4:10). Mas é bom notar que Gênesis não usa essa palavra, e que a aplicação da imagem à natureza é uma leitura posterior, razoável, porém uma leitura.
Outros propõem alternativas. Uma delas é a do rei-pastor. No Antigo Testamento, o bom governante é o que protege os fracos (Salmo 72:12-14; Ezequiel 34), e o que Jesus diz em Marcos 10:42-45 transforma poder em serviço. Dominar, nessa chave, seria exercer o poder como o rei justo, e não como o tirano. Outra crítica vem de teólogos como Richard Bauckham, que acham a palavra "mordomo" administrativa demais: ela sugere que o mundo é apenas um patrimônio sob gestão, e esconde que o ser humano é também criatura entre criaturas, parente dos animais na origem comum de Gênesis 1 e partilhando com eles o alimento e o sopro.
O texto de Gênesis 9 mostra que o quadro é mais complexo do que qualquer rótulo. Depois do dilúvio, o medo do ser humano cai sobre os animais e eles são entregues como alimento (v. 2-3), mas no mesmo capítulo Deus faz aliança com os homens e "com todos os seres viventes" (v. 9-10). Domínio e aliança aparecem lado a lado.
As tradições concordam num ponto: o texto não autoriza exploração sem limite. Divergem em quanto peso dar ao serviço e quanto ao governo, e em qual vocabulário comunica melhor. Escolher entre "mordomo", "guardião", "rei-pastor" ou "parente" é, em parte, escolher que perigo se quer evitar.
Para conversar
- Qual vocabulário (mordomo, guardião, rei-pastor, parente) comunica melhor o que Gênesis pede, e que risco cada um deles carrega?
- junta o medo dos animais, a permissão de comer carne e a aliança com todos os seres vivos. Como ler essas três coisas juntas?
- muda o sentido de "governar". Isso é suficiente para reler , ou o texto resiste a essa ponte?
- A crítica de que o cristianismo contribuiu para a exploração da natureza tem algum fundamento? E o que ela deixa de considerar?
5.A criação que geme: Romanos 8 e Colossenses 1
A Bíblia não apresenta a terra como estando em ordem. Já em Gênesis 3:17-18 o solo é afetado pela queda do homem: espinhos e cardos, e o trabalho que passa a custar suor. Paulo retoma o motivo em Romanos 8:19-23, num dos textos mais vigorosos do Novo Testamento sobre o tema. A criação, diz ele, aguarda com ansiedade a revelação dos filhos de Deus, foi sujeita à futilidade "não por sua vontade", e tem esperança de ser libertada da escravidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Ela geme e sofre dores de parto até agora.
Três perguntas de interpretação dividem os leitores. A primeira é o que Paulo quer dizer com "criação" (ktísis). A leitura mais comum entende o mundo não humano, e o contraste do versículo 23, em que "nós também gememos", favorece essa leitura. Outros propõem que se trate da humanidade que ainda não crê, ou de toda a realidade criada incluindo as pessoas. A segunda é quem é "aquele que a sujeitou" (v. 20): Deus, Adão ou o próprio Satanás são sugestões que aparecem nos comentários, e o texto não decide. A terceira é o que significa a criação esperar a "revelação dos filhos de Deus". Pode ser o dia final, quando os crentes forem plenamente manifestados, ou pode incluir já a atuação presente deles. Paulo não diz que os filhos de Deus restauram a criação; diz que ela os espera.
Colossenses 1:15-20 completa o quadro por outro lado. Cristo é "o primogênito de toda a criação", porque "nele foram criadas todas as coisas", visíveis e invisíveis, e "tudo foi criado por meio dele e para ele" (v. 16). Também por meio dele Deus quis "reconciliar consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus", fazendo a paz pelo sangue da cruz (v. 20). A criação, portanto, tem origem em Cristo, destino em Cristo e dívida de reconciliação com Cristo. João 1:3 e Hebreus 1:2 dizem algo semelhante.
O alcance de "todas as coisas" no versículo 20 é debatido. Alguns leem uma renovação cósmica efetiva; outros, uma pacificação que inclui poderes que se submetem sem serem salvos; e há quem veja nele uma esperança universal mais ampla. O ponto firme é que, para Paulo, o mundo não humano está dentro do alcance da obra de Cristo, e não do lado de fora dela.
Para conversar
- Se a criação "geme" e espera, o que isso muda no modo de olhar para uma floresta, um rio ou um animal doente?
- Paulo diz que a criação espera os filhos de Deus, e não que eles a restauram. Que diferença isso faz para a postura de quem cuida da terra?
- Colossenses coloca a origem e o fim da criação em Cristo. Como isso se relaciona com a ideia de que o cuidado com a terra é só uma questão prática?
- Diante de textos em que "todas as coisas" é ambíguo, como evitar dizer mais do que o texto diz?
6.Terra nova e vida presente: Apocalipse 21 e o que a esperança muda
A Bíblia termina com uma imagem de terra. Isaías 65:17-25 já falava de "novos céus e nova terra", com casas construídas e habitadas, vinhas plantadas e comidas, e lobo e cordeiro pastando juntos (cf. Isaías 11:6-9). Apocalipse 21:1-5 retoma o horizonte: João vê "um novo céu e uma nova terra", e a cidade santa desce "do céu, da parte de Deus" (v. 2), isto é, o movimento é do céu para a terra, e não o contrário. A voz do trono declara: "eis que faço novas todas as coisas" (v. 5). Adiante, os reis da terra trazem a ela a sua glória (v. 24-26), o que sugere alguma continuidade entre o que existe agora e o que virá.
Aqui há um debate real. Segunda Pedro 3:10-13 fala do dia do Senhor, em que "os elementos, ardendo, se desfarão" e a terra e as obras que nela há serão, conforme as traduções, "achadas", "descobertas" ou "queimadas": o verbo final do versículo 10 tem variantes nos manuscritos, e as traduções divergem. Uma linha de intérpretes, comum em círculos dispensacionalistas, lê o texto como destruição seguida de recriação. Outra, mais frequente entre católicos, ortodoxos e reformados, lê como purificação e transformação do mesmo mundo, a ponto de falar em continuidade, como o corpo da ressurreição é o mesmo corpo transformado. O texto bíblico não fecha a questão, e as tradições, aqui, podem divergir sem que nenhuma negue a esperança.
O que a esperança de uma terra nova faz com o cuidado da terra presente também se discute. Houve quem concluísse que, se tudo será refeito, o cuidado não importa. A conclusão oposta também existe: se Deus renova o que fez, então o que ele fez vale a pena guardar. Nenhuma das duas é dita pelo texto. O que se encontra no Novo Testamento é o padrão da fidelidade no pequeno: o mordomo que Jesus aprova é o que é achado fazendo o seu trabalho quando o senhor volta (Lucas 12:42-44), e Paulo diz que o trabalho no Senhor não é vão (1 Coríntios 15:58). Jeremias 29:5-7 pede aos exilados que plantem pomares num lugar que não é o seu.
Este estudo não oferece uma agenda. Cristãos que aceitam tudo o que foi visto aqui divergem sobre economia, tecnologia, energia e política pública, e o texto bíblico não decide essas questões. O que oferece é um fundamento: a terra é de Deus, foi confiada a quem a recebe com responsabilidade, sofre, espera, e será renovada.
Para conversar
- Entre destruição e renovação, qual leitura de e lhe parece mais fiel ao texto, e o que a outra leitura enxerga que esta deixa de ver?
- "Se tudo será refeito, o cuidado não importa" e "se Deus renova, o que ele fez vale guardar" são conclusões dos leitores. Como separar o que o texto diz do que se acrescenta a ele?
- pede que se plante onde não é a pátria. O que isso diz sobre como viver numa terra que não é a definitiva?
- Como falar de cuidado com a criação em grupo sem transformar o tema em disputa de partido?
O que fica
- A terra é de Deus (Salmo 24:1; ), e o ser humano age nela como representante e hóspede, não como dono.
- Gênesis une uma linguagem de governo (dominar) e uma de serviço (cultivar e guardar), e não diz como combiná-las; as tradições divergem sobre o peso de cada uma.
- As leis de Israel protegem o solo, os animais e as árvores, mas aplicá-las hoje exige interpretação, e quem a faz deve avisar que está interpretando.
- A criação sofre e espera () e está ligada a Cristo na origem e na reconciliação (); a esperança de renovação em é entendida de formas diferentes.
- A Bíblia fundamenta o cuidado com a terra, mas não fixa política pública; cristãos fiéis ao texto divergem sobre os meios.
Aprofundamento
Três pontos concentram a divergência real, e vale nomear cada um com precisão.
O primeiro é o sentido de "dominar" em . Rādāh e kābash têm usos duros no hebraico, e por isso a palavra foi acusada de legitimar a exploração. Em resposta, intérpretes lembram que a imagem de Deus precede a ordem, que fala de servir e guardar, e que o modelo bíblico de governante, de Salmo 72 a , é o que protege os fracos. As leituras ainda divergem no peso: algumas preferem a figura do mordomo, outras a do rei-pastor, e há as que, como Richard Bauckham, acham que o vocabulário gerencial esconde a condição do ser humano como criatura entre criaturas. O texto, de modo claro, não autoriza exploração sem limite, mas também não dá uma regra de aplicação.
O segundo é a interpretação de . A leitura majoritária entende "criação" como o mundo não humano, mas não é unânime, e a expressão "aquele que a sujeitou" tem mais de uma leitura possível. O que o texto afirma sem ambiguidade é que a criação sofre e espera, e que a sua esperança está ligada à dos filhos de Deus. amplia o horizonte ao falar de reconciliar todas as coisas, mas o alcance dessa reconciliação é discutido, entre os que veem renovação cósmica, os que veem pacificação de poderes e os que veem esperança mais ampla.
O terceiro é o destino do mundo. e falam de nova terra; fala de fogo e dissolução, em versículo com variantes nos manuscritos. Parte dos intérpretes, comum entre dispensacionalistas, entende destruição seguida de recriação; outra parte, frequente em católicos, ortodoxos e reformados, entende transformação do mesmo mundo. Daí se tira ora a conclusão de que o cuidado é secundário, ora a de que é parte da fidelidade, e nenhuma das duas é dita pelo texto.
Há ainda um limite metodológico. As leis de Israel sobre a terra foram dadas num contexto agrícola e civil específico, e a passagem delas a economias modernas exige mediação. Quem a faz precisa dizer que está interpretando, e não apenas citando.
Por fim, convém separar três perguntas que costumam andar juntas. Uma é o que a Bíblia afirma sobre a terra: que é de Deus, que foi confiada ao ser humano e que será renovada. Outra é o que ela manda fazer em situações específicas, e aí o texto fala pouco, porque seus problemas eram outros. A terceira é o que cada comunidade conclui para o seu tempo, e nesse ponto cristãos sérios chegam a medidas diferentes. Misturar as três é a origem de boa parte das brigas sobre o assunto: quem trata a terceira como se fosse a primeira acusa o outro de infidelidade ao texto, quando a divergência está na aplicação e não na Escritura.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Gênesis 1:28 dá ao ser humano licença para usar a natureza como quiser.
O mesmo livro diz que o ser humano foi posto no jardim para o servir e guardar (), que governa como imagem de Deus, e que a terra é do Senhor (Salmo 24:1; ). As leis de Israel limitam o uso do solo e protegem árvores e ninhos. O verbo "dominar" é duro, mas está cercado por textos que o delimitam.
Dizem que:A palavra "mordomia" está em Gênesis e é o que a Bíblia manda fazer com a natureza.
Gênesis não usa essa palavra. Mordomia é vocabulário posterior, inspirado em figuras do Novo Testamento como o oikonomos de , e aplicado à natureza por leitores cristãos. A ideia é defensável, mas é uma interpretação. Há quem prefira "guardião", "rei-pastor" ou "parente" por achar o termo administrativo demais.
Dizem que:Como o mundo vai acabar de qualquer jeito, cuidar da terra é perda de tempo.
A Bíblia não tira essa conclusão. e falam de uma terra renovada, e uma parte dos intérpretes lê como transformação do mesmo mundo. Mesmo entre os que entendem destruição e recriação, o Novo Testamento pede fidelidade no trabalho presente (; ) e não o abandono dele.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Entende a criação como dom a ser acolhido e a ordem de Gênesis como responsabilidade, não como posse. A encíclica Laudato Si' (2015), do papa Francisco, fala da terra como "casa comum" e propõe uma ecologia integral, que liga o cuidado com a natureza ao cuidado com os pobres, e que critica a leitura de domínio como poder arbitrário.
Ortodoxa
Vê o mundo criado como lugar de comunhão com Deus, e o ser humano como sacerdote da criação, que oferece a Deus o que recebe. A criação é tratada com reverência litúrgica, e a esperança da transfiguração do cosmos tem peso central. A tradição fala de pecado contra a criação em termos espirituais, não só éticos.
Evangélica e reformada
Costuma usar a linguagem de mordomia e de mandato cultural, com ênfase na soberania de Deus sobre a terra e na responsabilidade de prestar contas. Declarações como o Compromisso da Cidade do Cabo (2010), do Movimento de Lausanne, tratam o cuidado da criação como parte da missão, com variações entre os que vão por esse caminho e os que desconfiam dele.
Dispensacionalista e outras leituras de ênfase escatológica
Tende a ver a destruição final seguida de nova criação, com base em . Parte desses leitores conclui que o cuidado ambiental é secundário diante da missão; outros sustentam que a fidelidade como mordomo de inclui a terra e que a descontinuidade final não anula a responsabilidade presente.
O que fazer com isso
Ao ler qualquer afirmação de que a Bíblia exige ou proíbe um comportamento em relação à natureza, separe duas coisas: o que o texto diz sobre a terra (de Deus, confiada, ferida, esperando renovação) e a medida concreta que alguém deduz daí. A primeira é bem apoiada nas Escrituras; a segunda é interpretação, e merece ser tratada como tal e discutida com honestidade.
Perguntas frequentes
- "Dominar" em Gênesis 1:28 quer dizer explorar a natureza?
- Não é o que o texto autoriza. O verbo hebraico é forte, mas aparece junto da imagem de Deus, da tarefa de servir e guardar em e das leis que protegem a terra. As tradições divergem sobre o peso entre governo e serviço, e quase todas rejeitam exploração sem limite.
- A Bíblia fala em ecologia?
- Não com esse vocabulário, que é moderno. Mas fala da terra como pertencente a Deus, de leis de descanso do solo, de animais cuidados por Deus e de uma criação que geme e será renovada. Aplicações a questões atuais são interpretação e variam entre cristãos.
- O que é o descanso da terra em Levítico 25?
- É o ano sabático, em que no sétimo ano a terra não é semeada nem podada, e o que nasce por si fica para os pobres e os animais. Depois de sete ciclos vem o jubileu. O texto foi dado a Israel, e como ele se aplica hoje é discutido.
- O mundo será destruído ou renovado?
- Os textos permitem as duas leituras e as tradições divergem. e falam de nova terra; fala de fogo, com variantes de manuscrito. Uns leem destruição e recriação, outros, transformação do mesmo mundo. O estudo apresenta os dois lados.
Fontes consultadas
- Basílio de Cesareia. Hexaêmeron (Homilias sobre os seis dias da criação).
- João Calvino. Comentário sobre Gênesis.
- Lynn White Jr.. The Historical Roots of Our Ecologic Crisis, 1967.
- Christopher J. H. Wright. Old Testament Ethics for the People of God, 2004.
- Richard Bauckham. Bible and Ecology: Rediscovering the Community of Creation, 2010.
- Papa Francisco. Laudato Si': sobre o cuidado da casa comum, 2015.
- Movimento de Lausanne. O Compromisso da Cidade do Cabo, 2010.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.