Milênio e tribulação: as leituras do fim dos tempos
o que a bíblia diz sobre o milênio e a grande tribulação
Resposta curta
Milênio e grande tribulação são dois temas que a Bíblia trata em poucos textos e que as tradições cristãs organizaram em sistemas muito diferentes. A expressão "mil anos" aparece num único trecho, ; a "grande tribulação" vem de , e , e as setenta semanas de alimentam parte do debate. Este estudo percorre seis etapas: o texto de , Daniel, o discurso de , as cartas aos tessalonicenses e o arrebatamento, as quatro leituras do milênio e, por fim, o que todas afirmam e o que isso muda na prática. Apresenta pré-milenismo, amilenismo e pós-milenismo sem escolher lado e diz onde o texto é silencioso.
Em palavras simples
A Bíblia fala em "mil anos" de reinado de Cristo em um só lugar, o capítulo 20 do Apocalipse, e esse texto curto gerou várias leituras. Alguns cristãos acham que Cristo volta antes dos mil anos e reina na terra. Outros acham que os mil anos são o tempo atual da Igreja. Outros esperam uma era de bênção antes da volta. Também discordam sobre a grande tribulação e sobre quando os fiéis serão levados ao encontro de Cristo. O que todos afirmam é que Cristo voltará, que os mortos ressuscitarão, que haverá juízo e que Deus vencerá o mal.
Antes de começar
A literatura que sustenta esse debate tem gênero próprio. Daniel e o Apocalipse pertencem à tradição apocalíptica judaica e cristã: visões cheias de animais, números e cores, escritas para povos sob pressão, a fim de afirmar que Deus governa a história mesmo quando ela parece fora de controle. Isso afeta a leitura. Quem trata cada número como medida exata e quem trata cada número como símbolo estão, os dois, tomando uma decisão sobre o gênero antes de ler o primeiro versículo.
O Antigo Testamento já falava de uma era de paz sob o Messias, em textos como e 65 e , e do dia do Senhor, momento de juízo e libertação. O Novo Testamento reaproveita esse vocabulário. Jesus fala do Filho do Homem que vem nas nuvens, de uma tribulação grande e de um dia que ninguém conhece. Paulo escreve aos tessalonicenses sobre a vinda do Senhor e os mortos que ressuscitam. João, no Apocalipse, é o único a falar em mil anos.
Nos primeiros séculos, vários autores cristãos, como Papias, Justino e Irineu, esperavam um reino terreno de mil anos. Com Agostinho, no início do século V, firmou-se na tradição latina a leitura de que os mil anos descrevem a era da Igreja, e essa passou a ser a posição dominante por mais de um milênio. A Reforma manteve, em geral, essa linha. O pós-milenismo ganhou força a partir do século XVIII, e o pré-milenismo dispensacional, com seu arrebatamento antes da tribulação, firmou-se no século XIX com John Nelson Darby e se popularizou nos Estados Unidos com a Bíblia de Scofield, em 1909.
Desde então, no mundo evangélico, o assunto ganhou lugar enorme em livros, filmes e conferências. Muitas igrejas brasileiras herdaram a leitura dispensacional por meio de missionários e de edições anotadas da Bíblia, e muitos fiéis a recebem como se fosse o ensino simples do texto. Os estudiosos de todas as tradições, porém, reconhecem que se trata de um terreno em que cristãos sérios chegam a conclusões diferentes, e que a ordem dos acontecimentos finais não é afirmada com a mesma clareza que a própria volta de Cristo.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoEm todas as leituras, o centro do fim dos tempos é uma pessoa. O Filho do Homem de recebe o reino, e Jesus aplica a si essa figura diante do sumo sacerdote. O Cordeiro e o cavaleiro do Apocalipse têm nome. O que as tradições discutem é o calendário, mas o que afirmam é que o rei que virá é o mesmo que foi crucificado.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O único trecho com mil anos: Apocalipse 20
A palavra "milênio" vem do latim e quer dizer mil anos. Na Bíblia, a expressão "mil anos" aplicada a esse reinado aparece num único trecho, Apocalipse 20:1-7, onde se repete seis vezes. Nem Daniel, nem os evangelhos, nem as cartas de Paulo falam de um reinado de mil anos. Isso não decide nada, mas explica por que a discussão é tão intensa: quase tudo o que se diz sobre o milênio é uma tentativa de encaixar um trecho curto no restante da Escritura.
O que o capítulo descreve, em sequência, é o seguinte. Um anjo prende Satanás com uma corrente e o lança no abismo, para que não engane mais as nações durante os mil anos. João vê tronos, pessoas assentadas neles e as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus; esses viveram e reinaram com Cristo mil anos. O texto acrescenta que os demais mortos não reviveram até que os mil anos se completassem, e chama isso de "primeira ressurreição". Terminado o período, Satanás é solto por pouco tempo, reúne Gogue e Magogue para a batalha, é vencido, e segue-se o julgamento diante do grande trono branco.
As divergências nascem das perguntas que o texto não responde de forma explícita. Esse reinado acontece na terra ou no céu? Os mil anos são uma duração literal ou um número simbólico, como tantos outros no Apocalipse? A "primeira ressurreição" é corporal, como a segunda, ou é outra coisa, como o novo nascimento ou a entrada dos mártires na presença de Cristo? O mesmo verbo grego, "viveram", aparece nos versículos 4 e 5, e há quem veja nele um único sentido nas duas ocorrências e quem veja dois sentidos, cada um com razões sérias.
Há ainda a questão da ordem. O capítulo 19 termina com a vinda de um cavaleiro montado em cavalo branco; o capítulo 20 começa com "vi" e continua assim, de visão em visão. Essa palavra, por si só, não informa se o que vem depois acontece depois. O Apocalipse às vezes conta a mesma realidade mais de uma vez, com imagens diferentes, e às vezes avança. Quem lê o capítulo 20 como continuação cronológica do 19 chega a uma conclusão; quem o lê como um novo olhar sobre o período entre as duas vindas chega a outra.
As partes seguintes não tentam resolver essas perguntas de saída. Elas reúnem os demais textos que entram no debate e só então apresentam as leituras.
Para conversar
- Se um único trecho de uma Bíblia inteira fala dos mil anos, que peso você acha razoável dar a ele ao montar um quadro geral dos últimos acontecimentos?
- O Apocalipse usa números como sete, doze e 144.000 com evidente carga simbólica. O que, no texto de , faria você ler os mil anos de outro modo?
- A expressão "primeira ressurreição" pressupõe uma segunda. Quais são as maneiras possíveis de entender essa numeração, e o que cada uma exige do resto do capítulo?
- Em que ponto a sua leitura de e 20 depende de uma suposição sobre a ordem dos acontecimentos que o texto não declara?
2.Daniel: o reino do Filho do Homem e as setenta semanas
Daniel fornece boa parte do vocabulário que o Novo Testamento usa para falar do fim. O capítulo 7 descreve quatro animais que sobem do mar, um tribunal em que o Ancião de Dias se assenta, e "alguém como um filho de homem" que vem com as nuvens do céu e recebe domínio, glória e um reino que não passará. O mesmo capítulo diz que o reino será dado "aos santos do Altíssimo" e fala de um chifre que faz guerra aos santos por "um tempo, tempos e metade de um tempo". Esse período reaparece em Daniel 12:7 e, no Apocalipse, como quarenta e dois meses e mil duzentos e sessenta dias. Jesus se apropria da imagem do Filho do Homem nas nuvens em Mateus 24:30 e 26:64.
Quem são os quatro reinos é matéria de debate. A leitura cristã tradicional enxerga Babilônia, Média e Pérsia, Grécia e Roma. Outra leitura, comum entre muitos estudiosos, conta Babilônia, Média, Pérsia e Grécia, e vê no chifre pequeno o rei Antíoco IV Epifânio, do século II a.C., que profanou o templo. Cada leitura tem implicações para o que ainda estaria por cumprir.
O capítulo 9 é o de maior controvérsia. Daniel, lendo que o exílio duraria setenta anos, ora e confessa os pecados do povo. O anjo Gabriel responde que "setenta semanas" estão determinadas sobre o povo e a cidade, para pôr fim à transgressão, expiar a iniquidade, trazer justiça eterna, selar visão e profecia e ungir o santo dos santos. A contagem se divide em sete semanas, sessenta e duas e uma. Depois das sessenta e duas, um ungido será morto, e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário. Na última semana, alguém fará aliança com muitos e, na metade dela, fará cessar o sacrifício, e virá o desolador.
Os pontos disputados são quatro. O primeiro é o ponto de partida: Esdras 7, Neemias 2 e outras ordens persas são candidatas. O segundo é se as semanas são períodos de sete anos, leitura quase unânime, mas com contagens diferentes. O terceiro é se a septuagésima semana vem logo depois das outras, ou depois de um intervalo longo, como defende a leitura dispensacional. O quarto é quem "firma a aliança" no versículo 27: o príncipe vindouro, ou o Ungido de que se falou antes. A gramática hebraica, sozinha, não resolve a questão.
Para conversar
- diz que o reino é dado ao Filho do Homem e depois aos santos. Que diferença faz ler isso como algo já iniciado, ainda por vir, ou as duas coisas?
- A profecia das setenta semanas depende de escolher um ponto de partida entre várias ordens persas. O que isso sugere sobre o grau de certeza que um leitor deve ter ao calcular datas?
- Se a mesma sequência de tempos aparece em Daniel e no Apocalipse com números diferentes, o que se ganha e o que se perde ao somar tudo num único calendário?
- Como você explicaria a um recém-chegado que cristãos sérios leem o versículo 27 de de modos opostos sem que nenhum deles esteja ignorando o texto?
3.Mateus 24 e a grande tribulação
O discurso de Mateus 24 nasce de uma frase sobre o templo. Jesus, ao sair dele, diz que não ficará pedra sobre pedra, e os discípulos, em particular, fazem uma pergunta que Mateus formula em três partes: quando será isso, qual o sinal da tua vinda e qual o sinal do fim do mundo. Marcos 13 e Lucas 21 registram o mesmo discurso com perguntas mais curtas, e Lucas 21:20 fala de Jerusalém cercada por exércitos no lugar da "abominação da desolação" que Mateus, citando Daniel, menciona em 24:15. Essa comparação entre os evangelhos pesa em toda a discussão.
O texto contém sinais que parecem de longa duração, como guerras, fomes, falsos messias e o evangelho pregado em todo o mundo, e contém também afirmações que parecem dirigidas a uma geração concreta. O versículo 34 diz que "esta geração não passará" antes que tudo aconteça, e o versículo 36 diz que ninguém conhece o dia e a hora. Cada leitura resolve essa tensão de um jeito. A leitura preterista entende que a maior parte dos versículos 1 a 34 se cumpriu na destruição de Jerusalém em 70 d.C., e que a "vinda do Filho do Homem" com nuvens é linguagem de juízo, como em Daniel 7. A leitura futurista aponta para um tempo de angústia ainda por vir, e muitos combinam as duas: 70 d.C. seria um cumprimento parcial que antecipa o final.
A "grande tribulação" do versículo 21 ecoa Daniel 12:1, "tempo de angústia como nunca houve". No Apocalipse, a expressão aparece em 7:14, ao falar dos que "vieram da grande tribulação" e lavaram suas vestes. Para a leitura dispensacional, trata-se de um período de sete anos, a septuagésima semana de Daniel, e Mateus 24:15 marca o meio dele. Para outras leituras, é a aflição que a Igreja vive desde o início, e João se apresenta em Apocalipse 1:9 como "companheiro na tribulação". Outras ainda a veem como a intensificação final de algo contínuo.
Resta o versículo 40: "dois estarão no campo; um será tomado e o outro deixado". A leitura pré-tribulacionista o associa ao arrebatamento. Mas o texto compara a cena aos dias de Noé, em que o dilúvio "levou a todos", e por isso muitos entendem que os tomados são os que sofrem o juízo.
Para conversar
- Se e descrevem o mesmo discurso com palavras diferentes sobre Jerusalém, o que isso permite concluir sobre como os evangelistas usaram a linguagem de Daniel?
- e 24:36 aparecem no mesmo discurso. Como você mantém as duas afirmações juntas sem forçar nenhuma?
- A tribulação é um período definido no futuro, uma condição permanente da Igreja, ou as duas coisas em graus diferentes? O que muda em cada caso na leitura de ?
- Quando um texto compara o fim aos dias de Noé, o que o leitor deve concluir sobre quem é levado e quem fica?
4.O encontro nos ares: Tessalonicenses e o arrebatamento
A passagem central sobre ser "arrebatado" está em 1 Tessalonicenses 4:13-18, e o contexto ajuda a ler. Paulo escreve a uma igreja em luto, preocupada com os que já tinham morrido, e responde que os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro e que os vivos serão "arrebatados" com eles, nas nuvens, "para o encontro com o Senhor nos ares". O verbo grego é harpazō, de onde vem o latim rapiemur e, por tradição, a palavra "arrebatamento". O substantivo não aparece na Bíblia; o que aparece é a ideia. O texto termina com uma instrução pastoral: consolai-vos uns aos outros.
O capítulo seguinte trata dos "tempos e épocas". O dia do Senhor virá como ladrão à noite, quando disserem "paz e segurança", e Paulo acrescenta que Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação. A segunda carta aborda o mesmo tema por outro ângulo. Alguns afirmavam que o dia do Senhor já tinha chegado, e Paulo responde que antes virá a apostasia e será revelado o "homem da iniquidade", que se assenta no santuário de Deus. Há ainda algo ou alguém que "o detém", e Paulo diz que isso já lhes tinha sido explicado. Para nós, a explicação se perdeu. As propostas incluem a ordem jurídica do Império Romano, a pregação do evangelho, o Espírito Santo e um anjo; o texto não nomeia.
Esses textos sustentam três principais leituras sobre o momento do arrebatamento em relação à tribulação. A pré-tribulacionista entende que a Igreja é retirada antes dela, apoiando-se em 1 Tessalonicenses 5:9 e Apocalipse 3:10, e geralmente pressupõe a distinção entre Israel e a Igreja. A meso-tribulacionista coloca o evento no meio do período, associando a "última trombeta" de 1 Coríntios 15:52 à sétima de Apocalipse 11. A pós-tribulacionista entende que há uma única vinda de Cristo, depois da tribulação, e cita Mateus 24:29-31 e 2 Tessalonicenses 2:1-3, que liga a "nossa reunião" ao dia do Senhor. Existe também uma variante intermediária, o arrebatamento antes da ira.
Vale registrar um dado histórico: o arrebatamento pré-tribulacional, como sistema, se difunde no século XIX, a partir de John Nelson Darby. Seus defensores respondem que o texto bíblico o sustenta e que a data da formulação não decide a questão.
Para conversar
- Paulo escreve para consolar quem chora seus mortos. Como a pergunta pelo "quando" muda se esse for o centro do texto?
- Em , Paulo diz que já havia ensinado sobre aquele que detém e o texto não conta. O que isso diz sobre o que a Escritura nos garante saber?
- Que peso você dá ao fato de uma doutrina ter sido formulada como sistema apenas no século XIX? A data decide algo, ou é preciso olhar cada texto?
- "Não nos destinou para a ira" pode significar ficar fora da tribulação, ou ser preservado dentro dela. O que a palavra "ira" exige do contexto para ser entendida de um jeito ou de outro?
5.Quatro leituras do milênio
Com os textos à mesa, as posições principais se descrevem melhor como respostas a perguntas: quando Cristo volta em relação aos mil anos, e o que são esses mil anos.
O pré-milenismo histórico afirma que Cristo volta antes do milênio, ressuscita os justos, e reina com eles por mil anos antes do juízo final. Tem apoio entre autores muito antigos: Papias, Justino e Irineu o defenderam. Justino, no Diálogo com Trifão, afirma que cristãos de fé reta pensam assim, mas diz também que há outros, igualmente piedosos, que não pensam. Tende a ser pós-tribulacionista. O pré-milenismo dispensacional, que se difundiu no século XIX com Darby e se popularizou com a Bíblia de Scofield, mantém essa estrutura, mas separa Israel e a Igreja em planos distintos, vê um arrebatamento antes de sete anos de tribulação e espera o cumprimento literal das promessas a Israel durante o milênio.
O amilenismo entende que os mil anos descrevem a era presente, entre a primeira e a segunda vinda. Satanás está preso no sentido de que não pode impedir a pregação às nações, e a primeira ressurreição é o novo nascimento ou a vida dos fiéis com Cristo no céu. O nome induz a erro: não nega o reinado de Cristo, mas o situa agora. Agostinho, em A Cidade de Deus, livro 20, é a referência clássica, e essa é a posição de grande parte das tradições católica, ortodoxa, luterana e reformada.
O pós-milenismo espera que o evangelho produza uma era longa de bênção antes da volta de Cristo, que virá depois. Teve defensores como Jonathan Edwards e Charles Hodge, e perdeu espaço no século XX, após as guerras mundiais, voltando em círculos mais restritos.
Cada leitura paga um preço. O pré-milenismo precisa explicar como Apocalipse 20 se organiza em relação a 1 Coríntios 15:23-26 e João 5:28-29, que parecem falar de uma só hora de ressurreição. O amilenismo precisa sustentar que a primeira ressurreição não é corporal e que a prisão de Satanás é compatível com 1 Pedro 5:8. O pós-milenismo precisa conciliar o otimismo histórico com textos como 2 Timóteo 3:1-5. Nenhum desses custos é decisivo para quem está convicto, mas todos são reais.
Para conversar
- Cada posição tem um texto que lhe parece mais natural e outro que a incomoda. Qual texto você acha que mais pressiona a posição que lhe parece mais convincente?
- Se Justino reconhecia que cristãos piedosos pensavam diferente dele no século II, que lugar o debate sobre o milênio deve ter na identidade de uma igreja?
- O amilenismo afirma que Cristo já reina. Como você relaciona essa afirmação com a experiência de um mundo em que o mal continua visível?
- O que você espera que uma posição sobre o milênio mude na maneira como alguém trata as outras três?
6.O que todos afirmam e o que isso muda na vida
Quem abre um livro sobre o assunto encontra gráficos e linhas do tempo, e é fácil esquecer que as quatro leituras convergem em quase tudo o que o Novo Testamento afirma com clareza. Todas sustentam que Cristo voltará de modo pessoal, visível e corporal, como diz Atos 1:11. Todas afirmam a ressurreição dos mortos e um juízo final, e a vitória definitiva sobre o mal, sobre a morte e sobre Satanás. Todas esperam novos céus e nova terra, onde Deus habita com seu povo. E todas aceitam que ninguém conhece o dia e a hora, como diz Mateus 24:36. Os credos antigos resumem o núcleo comum: de lá há de vir para julgar os vivos e os mortos, e esperamos a ressurreição dos mortos. O que divide é a ordem dos eventos, não a existência deles.
Isso pesa quando se olha para a prática. A história cristã tem exemplos de datas marcadas que falharam, como a de William Miller para 1844, e de comunidades que organizaram a vida em torno de um calendário que nunca se cumpriu. O próprio Novo Testamento registra essa tentação: em 2 Tessalonicenses 3:6-12, Paulo trata de pessoas que, ao que tudo indica, haviam parado de trabalhar, e pede que voltem a ganhar o seu pão. O que os textos apocalípticos pedem, de modo recorrente, é vigilância: Mateus 24:42-44 e 25:1-13, 1 Tessalonicenses 5:6 e 2 Pedro 3:11-14. A pergunta que o Novo Testamento faz ao leitor é "que tipo de pessoas devemos ser", e não "em que ano".
Há também uma diferença entre a convicção de cada um e o que se exige de todos. Muitas confissões de fé deixam o tema do milênio em aberto de propósito; outras fazem dele uma condição de pertença. Um estudo em grupo pode decidir o que prefere, mas faz bem em saber onde a própria tradição colocou a linha.
Por fim, o consolo. A passagem mais citada sobre o arrebatamento termina dizendo "consolai-vos uns aos outros com estas palavras". Quem lê o tema como mapa pode perder o que ele diz primeiro: que quem morre em Cristo não ficou para trás, e que a história tem um fim com nome e rosto.
Para conversar
- Se todas as leituras concordam no essencial, que parte do debate você acha que vale discutir com calma, e em que parte a discussão costuma só gerar atrito?
- Os textos apocalípticos do Novo Testamento quase sempre terminam em exortação. O que você tem visto que acontece com grupos que fazem o inverso?
- Em sua tradição, o milênio é um assunto aberto, uma posição ensinada ou uma condição para pertencer? Como isso afeta a conversa entre irmãos?
- Que lugar o consolo, e não a previsão, deveria ter nas conversas sobre o fim dos tempos que acontecem à sua volta?
O que fica
- O termo "mil anos" aparece num único trecho da Bíblia, , e quase todo o debate é a tentativa de encaixar esse trecho no restante da Escritura.
- e 9, e as cartas aos tessalonicenses fornecem as peças, mas a ordem entre volta de Cristo, tribulação e milênio não é declarada por nenhum texto isolado.
- Pré-milenismo (histórico e dispensacional), amilenismo e pós-milenismo respondem às mesmas perguntas e cada um paga um preço exegético diferente.
- Todas as leituras afirmam a volta pessoal de Cristo, a ressurreição, o juízo e a vitória final sobre o mal; divergem na ordem, não na realidade.
- Os textos sobre o fim terminam em consolo e vigilância, e não em calendário.
Aprofundamento
O debate se organiza em três eixos, e vale não confundi-los.
O primeiro é a relação entre a volta de Cristo e o milênio. O pré-milenismo diz que Cristo volta antes, o pós-milenismo diz que volta depois de uma era de bênção, e o amilenismo identifica os mil anos com o tempo entre as duas vindas. O ponto exegético é em relação ao capítulo 19: o texto narra uma sequência ou revê o mesmo cenário por outro ângulo? Os pré-milenistas apontam o paralelo literário de "vi" repetido; os amilenistas notam que o Apocalipse recapitula, e que o capítulo 20 retoma, em outra imagem, a derrota de Satanás já descrita em 12:7-12.
O segundo eixo é o sentido da palavra "primeira ressurreição". Os que leem o verbo "viveram" nos versículos 4 e 5 com o mesmo sentido concluem que as duas ressurreições são corporais. Os que veem aí dois sentidos citam , em que passar da morte para a vida acontece agora, e e , em que os fiéis já ressuscitaram com Cristo.
Dentro desse primeiro eixo está a prisão de Satanás. Os amilenistas associam a imagem a , em que Jesus fala de amarrar o homem forte, a e a , e entendem que o engano das nações foi limitado pela pregação do evangelho. Os pré-milenistas respondem que , em que o diabo ronda como leão, descreve uma atividade incompatível com um adversário preso no abismo, e que a prisão do capítulo 20 é mais completa do que a de qualquer época já vivida.
O terceiro eixo é a relação entre Israel e a Igreja, que decide quase todo o restante da leitura dispensacional. A leitura dispensacional distingue dois povos, com promessas diferentes, e por isso espera o cumprimento literal das promessas territoriais e nacionais. As demais tradições entendem que a Igreja é o povo de Deus em continuidade com Israel, e leem textos como a 11 e como evidência disso. Em , "todo o Israel será salvo" é lido de várias formas: a conversão em massa do povo judeu no final da história, o conjunto dos eleitos de judeus e gentios, ou o Israel espiritual.
Soma-se a esses eixos a pergunta pela tribulação: se a Igreja passa por ela, escapa dela, ou se ela já começou. Aqui as palavras de , as de Paulo aos tessalonicenses e o texto de são lidos de modos incompatíveis. O leitor honesto deve reconhecer que esses textos, tomados em conjunto, não produzem de forma óbvia um único quadro.
O que costumam dizer errado
Dizem que:A Bíblia ensina com clareza que haverá sete anos de tribulação, com o arrebatamento da Igreja antes deles.
Os sete anos são uma dedução a partir da septuagésima semana de , lida como separada das anteriores por um intervalo. Daniel não diz esse intervalo, e o Novo Testamento não usa a expressão "sete anos de tribulação". É uma posição defendida por exegetas sérios, mas é uma síntese entre vários textos, e muitas tradições cristãs a rejeitam.
Dizem que:Quem não é dispensacionalista não acredita na volta de Cristo ou na Bíblia.
Católicos, ortodoxos, luteranos e reformados em geral são amilenistas e confessam a volta de Cristo em termos idênticos aos de qualquer evangélico. A diferença está na ordem dos eventos, e não na realidade deles.
Dizem que:A palavra "arrebatamento" aparece na Bíblia.
A palavra vem do latim rapiemur, usado na Vulgata para o verbo grego harpazō em . O texto fala de ser "arrebatado" ao encontro do Senhor, mas o termo técnico e a doutrina da retirada antes da tribulação são construções posteriores.
Dizem que:O milênio é uma doutrina inventada recentemente.
A expectativa de um reino de mil anos aparece em autores do século II, como Justino e Irineu, e a leitura de Agostinho sobre os mil anos é do século V. O que é recente é o sistema dispensacional, não o debate.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Pré-milenista histórica
Cristo volta antes do milênio, ressuscita os justos e reina com eles mil anos antes do juízo final. A Igreja atravessa a tribulação e é reunida na vinda única de Cristo. Encontra apoio em Papias, Justino e Irineu, e foi sistematizada por George Eldon Ladd no século XX.
Pré-milenista dispensacional
Distingue Israel e a Igreja. A Igreja é arrebatada antes de sete anos de tribulação, a septuagésima semana de Daniel, e Cristo reina mil anos em Jerusalém, cumprindo literalmente as promessas a Israel. Formulada por John Nelson Darby no século XIX e difundida pela Bíblia de Scofield.
Amilenista
Os mil anos descrevem a era presente, entre a primeira e a segunda vinda. Cristo reina agora e Satanás está contido quanto ao engano das nações. A primeira ressurreição é espiritual e a segunda é a ressurreição corporal final. Remonta a Agostinho e é a posição de grande parte dos católicos, ortodoxos, luteranos e reformados.
Pós-milenista
O evangelho produz, antes da volta de Cristo, uma longa era de bênção e influência cristã no mundo, e Cristo volta depois. Teve defensores como Jonathan Edwards e Charles Hodge, e perdeu espaço no século XX.
O que fazer com isso
Antes de discutir qual quadro está correto, pergunte o que cada texto pede de quem o lê. Os textos sobre o fim nunca terminam em previsão: terminam em consolo, em vigilância e em perseverança. Ao ouvir uma tese sobre o milênio, separe o que a Bíblia afirma com clareza, como a volta de Cristo e a ressurreição, do que é montagem de peças, como a ordem, a data e o calendário. Com isso, a conversa fica mais calma.
Perguntas frequentes
- A Bíblia diz que o milênio será literal?
- O texto de não declara se os mil anos são uma duração exata ou um número simbólico. Pré-milenistas leem de forma literal, amilenistas e pós-milenistas tendem a lê-lo como símbolo de plenitude. O gênero apocalíptico, que usa muitos números simbólicos, é o argumento mais frequente dos segundos.
- O que é a grande tribulação?
- É a expressão de e , ecoando . Para alguns, é um período futuro, geralmente de sete anos; para outros, é a aflição vivida pela Igreja ao longo da história, ou um acontecimento já cumprido em 70 d.C. O texto não fixa a duração.
- Os cristãos serão arrebatados antes da tribulação?
- Depende da leitura. Os pré-tribulacionistas dizem que sim, os meso-tribulacionistas dizem que no meio, e os pós-tribulacionistas dizem que depois, em uma única vinda. Os textos usados por todos são os mesmos, e a Bíblia não usa a palavra "tribulação" ao falar do encontro nos ares em .
- Quem é o Anticristo?
- O termo "anticristo" aparece só nas cartas de João, que o aplicam a quem nega que Jesus é o Cristo e diz que já há muitos. O "homem da iniquidade" de e a besta do Apocalipse são figuras relacionadas, mas o Novo Testamento não as identifica explicitamente entre si, e as tradições discordam.
Fontes consultadas
- Justino Mártir. Diálogo com Trifão, 160.
- Irineu de Lyon. Contra as Heresias, 180.
- Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus, 426.
- George Eldon Ladd. The Blessed Hope, 1956.
- Robert G. Clouse (org.). The Meaning of the Millennium: Four Views, 1977.
- Darrell L. Bock (org.). Three Views on the Millennium and Beyond, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.