Jonas: o profeta fugitivo e a misericórdia para Nínive
o que a bíblia diz sobre jonas
Resposta curta
O livro de Jonas é o mais curto e o mais desconcertante dos profetas menores. Um profeta recebe a ordem de ir à capital do império que oprimia Israel, foge na direção contrária, é lançado ao mar, engolido por um grande peixe e devolvido à terra, e ao pregar em Nínive vê a cidade inteira se arrepender. O desfecho, porém, não é a alegria do profeta, e sim a sua ira, e a última palavra do livro é uma pergunta de Deus que Jonas não responde. Este estudo percorre o livro em seis partes: a fuga, a oração no peixe, Nínive e a Assíria, a ira de Jonas, o debate sobre gênero e ironia, e o sinal de Jonas em Jesus, apresentando as leituras históricas e didáticas sem escolher lado.
Em palavras simples
Jonas é um profeta que recebe de Deus a ordem de avisar Nínive, cidade inimiga de Israel, e foge para o lado oposto. Uma tempestade o lança ao mar, um grande peixe o engole e o devolve à terra, e ele finalmente prega em Nínive. A cidade se arrepende, e Deus a poupa. Jonas fica com raiva e admite que fugira por saber que Deus é misericordioso. O livro termina com uma pergunta de Deus, sem resposta. Cristãos divergem sobre ser história ou narrativa de ensino, e Jesus citou Jonas como sinal.
Antes de começar
O livro leva o nome de Jonas, filho de Amitai. Um profeta com esse nome aparece em , no reinado de Jeroboão II, rei de Israel no século VIII a.C., e é descrito como natural de Gate-Hefer e como alguém que anunciou a ampliação das fronteiras do reino. Isso o liga a um período em que a Assíria, ainda distante, era ameaça crescente. O próprio livro, porém, não traz data, e a questão de quando foi escrito é debatida: tradições mais antigas o situam na época do profeta, e muitos estudiosos contemporâneos o consideram posterior, com redação depois do exílio babilônico.
O destino da missão ajuda a entender a tensão. Nínive foi uma das principais cidades do império assírio, que dominou o Oriente Próximo entre os séculos IX e VII a.C. Os assírios levaram o reino do Norte ao cativeiro em 722 a.C., e o profeta Naum anunciaria o fim da cidade, que caiu em 612 a.C. Para os ouvintes originais, Nínive não era uma metáfora de pecado: era um inimigo concreto, de memória violenta.
A estrutura do livro é simétrica. Os capítulos 1 e 3 repetem a ordem divina, os capítulos 2 e 4 trazem uma oração de Jonas, e em cada metade há um grupo de estrangeiros que reage a Deus melhor que o profeta: os marinheiros e os ninivitas. O verbo "preparar" volta quatro vezes e mostra Deus agindo sobre peixe, planta, verme e vento. O vocabulário do livro também é de contraste, entre o "grande mal" que Jonas sente e o mal de que Deus se arrepende.
Na tradição judaica, Jonas fica entre os Doze, os profetas menores, e é lido na tarde do Yom Kippur. Na cristã, a referência decisiva é , em que Jesus fala do "sinal de Jonas". Por tudo isso, o livro é lido em contextos muito diferentes, às vezes como história, às vezes como parábola, quase sempre como um espelho incômodo para quem o lê.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaJesus é o único que toma Jonas como sinal de si mesmo, e o faz com um contraste embutido: Jonas foge para não pregar, Jesus vai a quem o rejeita. A descida ao mar e a volta à terra seca são lidas desde cedo como figura da morte e da vindicação de Cristo, e a expressão "mais do que Jonas" lembra que a comparação tem limites. A última pergunta do livro, sobre a compaixão por uma cidade que não sabe discernir, encontra no Novo Testamento a figura de quem chora sobre a cidade que o rejeita.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O profeta que corre na direção contrária
O livro começa como começam os livros proféticos: "veio a palavra do Senhor a Jonas, filho de Amitai". Tudo o que se espera vem em seguida, menos a obediência. A ordem é levantar-se, ir a Nínive, a grande cidade, e clamar contra ela, porque a maldade dela subiu até Deus. Jonas se levanta, mas para descer: desce a Jope, desce ao navio, desce ao porão, desce ao sono. O verbo marca o capítulo inteiro, e o leitor atento percebe que a fuga é uma queda em etapas. O destino também fala. Tarsis ficava, na geografia da época, no extremo oposto de Nínive; sua localização exata é discutida, e muitos a procuram no ocidente do Mediterrâneo, talvez na Espanha. O texto diz apenas que Jonas fugia "da presença do Senhor", e a expressão volta no versículo 10.
O capítulo não explica por que ele foge. Quem o lê sozinho supõe medo, e é o que muitos leitores supõem. A explicação só chega em 4:2, no fim do livro, e surpreende: Jonas fugiu porque sabia que Deus perdoaria. Esse atraso de informação é uma escolha narrativa, e convém respeitá-la, resistindo a ler o capítulo 1 com a resposta do capítulo 4 já na mão.
O restante da cena contrasta o profeta com os estrangeiros. A tempestade vem, e os marinheiros clamam cada um ao seu deus, lançam a carga ao mar e acordam o passageiro que dorme no porão: "levanta-te, invoca o teu deus". É quase cômico, porque o único homem a bordo que conhece o Deus verdadeiro é o único que não ora. Quando a sorte cai sobre ele, Jonas confessa temer o Deus do céu, que fez o mar e a terra seca, e a confissão se contradiz com a ação, pois ninguém foge por mar daquele que fez o mar. Em seguida pede que o lancem fora. Alguns leitores veem nisso coragem; outros, uma maneira de morrer sem obedecer. O texto deixa as duas leituras de pé.
Os marinheiros hesitam em obedecê-lo, remam para voltar à terra, pedem que Deus não lhes impute sangue inocente e, passada a calmaria, temem ao Senhor, oferecem sacrifício e fazem votos. O capítulo termina com pagãos mais piedosos que o profeta, padrão que se repetirá em Nínive. Por fim, "o Senhor tinha preparado um grande peixe". O verbo preparar volta quatro vezes no livro, para o peixe, a planta, o verme e o vento. Deus é o personagem que prepara, e Jonas, o que reage.
Para conversar
- O texto retarda a razão da fuga até o capítulo 4. O que muda na leitura do capítulo 1 quando se guarda essa informação, e o que muda quando se a antecipa?
- Os marinheiros estrangeiros aparecem melhor que o profeta. Que efeito essa inversão deveria produzir no primeiro leitor do livro?
- Jonas pede para ser lançado ao mar. Você lê o gesto como coragem, como desistência ou como outra coisa? O que no texto sustenta a sua leitura?
2.Dentro do peixe: a oração de Jonas
Jonas passa "três dias e três noites" no ventre do peixe, e é ali que, pela primeira vez no livro, ele ora. O capítulo 2 é um poema, o único trecho em verso de uma narrativa em prosa, e tem a forma de um salmo de ação de graças. A observação mais importante sobre ele é gramatical: Jonas fala no passado, "clamei ao Senhor, e ele me respondeu". Está dentro do peixe e agradece como quem já foi resgatado. Para alguns leitores isso mostra fé genuína, que agradece antes de ver o fim; para outros, o peixe já é o resgate, e a ação de graças chega no momento certo.
O poema é feito quase todo de ecos dos Salmos. A água que sobe até o pescoço lembra o Salmo 69, a voz que clama da angústia lembra o Salmo 120, e a frase final, "ao Senhor pertence a salvação", aparece quase igual no Salmo 3:8. Isso levou parte dos estudiosos a ver no capítulo uma composição montada com material litúrgico; outros veem a oração de um homem que, sem palavras próprias, recorre à linguagem que aprendeu. Em qualquer caso, o poema descreve a descida como descida aos mortos: fala do ventre do Sheol, das raízes dos montes, da cova. O vocabulário é o da morte, e o resgate é narrado como volta de lá.
O que a oração diz importa menos do que o que ela não diz. Não há confissão de pecado, não há pedido de perdão, não há promessa de ir a Nínive. Há, no versículo 8, uma frase dura sobre "os que se apegam a vaidades inúteis" e abandonam a fidelidade de Deus, e logo a seguir Jonas promete sacrifício "com voz de ação de graças". Vários comentaristas notam a ironia: ele despreza os idólatras com palavras que, no capítulo 1, descrevem melhor o que ele mesmo fez, enquanto os marinheiros idólatras foram os que ofereceram sacrifício. Outros resistem a essa leitura e tomam o poema como arrependimento sincero, deixando a ironia para o capítulo 4.
O peixe merece uma nota. O hebraico diz dag gadol, "grande peixe", sem espécie. A tradução grega usa kētos, "grande criatura marinha", e dela vem a tradição da baleia. O texto não precisa dela.
Depois do poema, uma única frase em prosa encerra a cena: o Senhor fala ao peixe, e este vomita Jonas na terra seca. O livro tratará de novo, em outro tom, da mesma ordem de partir.
Para conversar
- A oração de Jonas é de gratidão e não de arrependimento. Você acha que isso é uma falha dele, uma escolha do narrador ou algo que o texto deixa em aberto?
- Se o poema é feito de frases de salmos, isso o torna menos pessoal ou mais? Que lugar tem a linguagem herdada na oração de quem não encontra palavras?
- O versículo 8 critica os que se apegam a vaidades. Em que sentido essa frase pode ser lida como autocrítica involuntária, e em que sentido pode ser lida como simples convicção?
- O que muda na história se o ventre do peixe for lido como lugar de morte e retorno, e não como episódio de aventura?
3.Nínive e a Assíria: quem eram os destinatários
A ordem é repetida quase palavra por palavra no capítulo 3, e agora Jonas obedece. O texto descreve Nínive como "cidade grande para Deus, de três dias de caminhada", e Jonas percorre um dia e diz uma frase, que em hebraico tem cinco palavras: "ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida". A frase não menciona o nome de Deus, não oferece saída e não convida ao arrependimento. O verbo traduzido por "subvertida" pode significar virada de cabeça para baixo, destruída ou transformada, e essa ambiguidade acompanha a cena. A resposta é desproporcional ao esforço: o povo crê em Deus, jejua, veste-se de pano de saco, dos maiores aos menores. O rei levanta-se do trono, tira o manto, senta-se na cinza e decreta que pessoas e animais jejuem e que cada um deixe seu mau caminho e "a violência que há nas suas mãos". Termina com uma esperança cautelosa: "quem sabe Deus se voltará". E Deus se volta.
Quem eram esses destinatários? Nínive foi uma das grandes cidades do império assírio, que dominou o Oriente Próximo entre os séculos IX e VII a.C. Os reis assírios aparecem na Bíblia como algozes: foi um deles, no tempo de Oseias, que levou o reino do Norte ao exílio (2 Reis 17), e foi Senaqueribe quem cercou Jerusalém em 701 a.C. (2 Reis 18-19). O profeta Naum anuncia o fim de Nínive e a chama de "cidade sanguinária" (Naum 3:1); ela caiu em 612 a.C., diante de babilônios e medos. Para o primeiro leitor, portanto, mandar Jonas pregar ali era como mandar alguém avisar o carrasco de que ele ainda tinha tempo.
Dois pontos pedem honestidade. O primeiro é que os registros assírios conhecidos não mencionam Jonas nem um arrependimento coletivo como o do livro, e o texto não nomeia o rei, que aparece como "rei de Nínive" e não como "rei da Assíria", fórmula habitual na Bíblia. Intérpretes tiram conclusões diferentes desse silêncio. O segundo é que o livro não diz que o arrependimento foi duradouro: Naum, mais tarde, fala da mesma cidade em termos opostos. O texto afirma que Deus se voltou naquele momento; sobre o que veio depois, é silencioso.
Para conversar
- O primeiro leitor conhecia a Assíria como inimiga. Quem seria, hoje, o equivalente de Nínive para o seu grupo, e o que significaria honestamente reconhecer esse paralelo?
- A pregação de Jonas é curta e nem menciona Deus. O que isso sugere sobre a relação entre a eficácia da mensagem e a qualidade de quem a entrega?
- O livro não diz que o arrependimento durou. Que consequências esse silêncio tem para o modo de ler o capítulo, e para o de ler Naum?
4.A ira de Jonas e a pergunta sem resposta
O capítulo 4 abre com uma frase que, em hebraico, faz jogo de palavras: a salvação de Nínive "foi um grande mal para Jonas". Ele fica irado e finalmente confessa por que fugiu. Reza: "Ah, Senhor! Não foi isto o que eu disse quando ainda estava na minha terra? Por isso me adiantei a fugir para Tarsis, pois sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em benignidade". A fórmula não é dele. Vem de Êxodo 34:6-7, a autodefinição que Deus pronuncia a Moisés depois do bezerro de ouro, e reaparece em Números 14, Neemias 9, nos Salmos 86, 103 e 145 e em Joel 2:13. Era uma confissão central de Israel, cantada e recitada. Jonas a reconhece como verdadeira e a usa como queixa. O próprio Joel a cita como motivo para voltar a Deus; Jonas a cita como motivo para se ressentir.
Em seguida pede para morrer, como o profeta Elias fez em outra crise (1 Reis 19:4). A resposta de Deus não é um sermão, é uma pergunta: "Fazes bem em te irar?" Jonas não responde. Sai da cidade, constrói uma cabana a leste e senta-se para ver o que acontece. Deus prepara uma planta, a qiqayon, cuja espécie é incerta (tradicionalmente identificada com a mamoneira, mas a tradução é discutida), e Jonas, pela primeira e única vez no livro, "alegrou-se com grande alegria". No dia seguinte Deus prepara um verme, que a destrói, e um vento oriental e abrasador. Jonas torna a pedir a morte e declara que faz bem em se irar.
É então que o livro dá sua última palavra, e ela é uma pergunta: tu tens compaixão de uma planta, na qual não trabalhaste, e eu não teria compaixão de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas "que não sabem discernir entre a mão direita e a esquerda", e também muitos animais? A expressão pode designar crianças ou pessoas moralmente sem discernimento, e os intérpretes se dividem.
O livro termina sem dizer o que Jonas respondeu, ou se respondeu. A tradição de leitura tem proposto que o silêncio é para o leitor: Jonas é cada um de nós diante de uma misericórdia que não pedimos.
Para conversar
- Jonas cita a confissão de como argumento contra Deus. O que significa crer numa descrição de Deus e, ao mesmo tempo, ressentir-se do que ela implica?
- Deus responde à raiva de Jonas com perguntas, e não com repreensões. O que isso mostra sobre o modo como o livro quer persuadir?
- O livro termina sem resposta de Jonas. Você prefere ler o silêncio como recusa, como arrependimento ou como convite ao leitor? O que pesa na sua escolha?
- Que papel têm os animais no argumento final de Deus? Por que o narrador os teria incluído?
5.Como ler o livro: gênero, ironia e debate
Quem termina o livro de Jonas precisa decidir como o leu, e aqui as tradições divergem de forma real. Os fatos são estes: o livro está entre os profetas menores, mas quase não contém oráculos proféticos; é uma narrativa curta, com poucas personagens e um protagonista que sai mal retratado. Um profeta chamado Jonas, filho de Amitai, aparece em 2 Reis 14:25 no tempo de Jeroboão II, o que o situa no século VIII a.C. O livro, porém, não diz quando foi escrito, e o texto não declara seu gênero.
Dois argumentos sustentam a leitura histórica. O primeiro é que Jonas é um profeta real, nomeado em outro livro. O segundo é que Jesus fala dos ninivitas que se levantarão no juízo (Mateus 12:41), e muitos entendem que ele os trata como pessoas que de fato existiram e se arrependeram. A maior parte dos pais da Igreja e dos reformadores leu assim, e o historiador Flávio Josefo, no século I, também narra Jonas como história.
Outros leitores, de várias tradições cristãs, apontam traços que lhes parecem de narrativa didática: a cidade tão grande que atravessá-la leva três dias, uma pregação de cinco palavras que converte uma cidade inteira, animais que jejuam, um peixe, uma planta que cresce e morre em um dia. Acrescentam que "rei de Nínive" não é a fórmula usual, que o verbo em 3:3 está no passado ("era uma cidade grande"), como se Nínive já não existisse, e que a datação do livro é debatida, com muitos situando a redação depois do exílio. Para esses leitores, a ironia é o método: o livro usa a caricatura para fazer o leitor se reconhecer em Jonas, algo que as parábolas de Jesus fazem. Muitos deles sustentam que isso em nada reduz a autoridade do texto.
Há ainda quem una os dois lados: defende a historicidade e reconhece a ironia, pois um fato real pode ser contado com ênfase e humor. Na tradição judaica o livro é lido inteiro na tarde do Yom Kippur, o Dia da Expiação, o que dá ao texto um papel ligado ao arrependimento. O gênero, em suma, é questão em aberto entre leitores sérios; o ensino central, a misericórdia de Deus que alcança os inimigos, sobrevive às duas leituras.
Para conversar
- Se o gênero do livro não é declarado, que critérios você usaria para decidir como lê-lo, e quais evitaria?
- Em que sentido a ironia pode ensinar algo que um relato direto não ensinaria? O que o leitor de Jonas faz, ao rir do profeta, que não faria com um sermão?
- Sustentar uma leitura histórica ou uma leitura didática muda o que o livro afirma sobre Deus? O que exatamente permanece igual nas duas?
- Por que a tradição judaica escolheu justamente este livro para a tarde do Yom Kippur?
6.Jonas e Jesus: o sinal e o que o livro deixa em aberto
Jonas é o único profeta do Antigo Testamento que Jesus usa como sinal. Em Mateus 12, escribas e fariseus pedem um sinal, e ele responde que nenhum será dado a uma geração má, exceto o de Jonas: assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra. Em seguida acrescenta que os ninivitas se levantarão no juízo com aquela geração, porque se arrependeram com a pregação de Jonas, "e eis aqui mais do que Jonas". Lucas 11:29-32 traz a mesma passagem sem a menção aos três dias: ali o sinal é o próprio Jonas, que foi sinal para os ninivitas, e assim será o Filho do Homem para aquela geração. As duas formas convivem no Novo Testamento, e os leitores têm tomado ora uma, ora outra como chave.
A leitura mais comum vê em Jonas uma figura da morte e da vindicação de Cristo: o descer, a escuridão, o regresso. A contagem de "três dias e três noites" gera discussão própria, pois não bate exatamente com a cronologia da sexta ao domingo, e muitos explicam pelo costume de contar parte de um dia como um dia inteiro. A figura, porém, tem limites claros. Jonas é o profeta que foge; Jesus é o enviado que vai. Jonas senta-se fora da cidade e espera que ela caia; Jesus chora sobre Jerusalém (Lucas 19:41). O contraste também faz parte da comparação, e a expressão "mais do que Jonas" já o anuncia.
Outros ecos aparecem. Jesus dorme na barca durante a tempestade e, ao ser acordado, acalma o vento (Marcos 4:35-41), numa cena que parece inverter a do capítulo 1. A parábola do filho pródigo termina com o irmão mais velho do lado de fora da festa, irritado com a misericórdia do pai, e sem dizer se entrou (Lucas 15:25-32), como Jonas. Em Atos, é em Jope que Pedro recebe a visão que o manda à casa de Cornélio, e a reação da igreja é de quem aprende o que Jonas não disse: "então Deus concedeu também aos gentios o arrependimento para a vida" (Atos 11:18).
O livro não diz o que Jonas fez depois. Nenhuma tradição cristã resolve isso por ele.
Para conversar
- Mateus e Lucas explicam o sinal de Jonas de maneiras diferentes. O que cada versão acrescenta ou deixa de lado, e por que as duas poderiam ser verdadeiras?
- Onde a comparação entre Jonas e Jesus funciona bem, e onde ela deve ser deixada de lado para não distorcer nenhum dos dois?
- Jesus deixa a parábola do irmão mais velho sem final, como o livro de Jonas. O que o autor ganha ao devolver a pergunta ao leitor?
- Pedro, em Jope, e Jonas, no mesmo porto, reagem de maneira muito parecida a uma ordem sobre estrangeiros. O que o paralelo sugere sobre a dificuldade de aceitar quem Deus aceita?
O que fica
- Jonas foge porque conhece o caráter de Deus, não por ignorá-lo: sabia que ele é clemente e misericordioso, e foi isso que não aceitou.
- A oração do peixe é de gratidão, não de confissão, e o livro deixa em aberto se Jonas mudou.
- Nínive era a capital do império que oprimiu Israel, e o texto afirma que Deus se voltou ao ver seu arrependimento, sem dizer que a mudança durou.
- O gênero do livro é debatido entre leitores sérios, mas o ensino central sobrevive às duas leituras: a compaixão de Deus alcança também os inimigos.
- Jesus usa Jonas como sinal e se apresenta como "mais do que Jonas"; o livro termina com uma pergunta que Jonas não responde e que o leitor não pode contornar.
Aprofundamento
A leitura do livro envolve três discussões que convém distinguir. A primeira é a do gênero. As tradições mais antigas, entre elas a patrística e a reformada clássica, leem Jonas como narrativa histórica, com base na existência de um profeta de mesmo nome em 2 Reis e na referência de Jesus aos ninivitas. Outras leituras, comuns na pesquisa crítica e em parte da tradição católica e protestante contemporânea, o tratam como narrativa didática, próxima da parábola ou da sátira, por causa da hipérbole (a cidade de três dias de caminhada, os animais em jejum, a planta que cresce em uma noite) e do tom irônico. A pergunta de fundo é se o livro precisa de historicidade para ensinar o que ensina, e o texto, por não declarar seu gênero, não resolve a questão.
A segunda é o sentido do "arrependimento" de Deus. O verbo hebraico nacham, usado em 3:10 e 4:2, aparece em outras passagens para dizer que Deus muda de curso diante da resposta humana. A leitura clássica sustenta que isso é linguagem de acomodação e que o propósito divino permanece; leituras mais recentes tomam o texto no sentido aparente, de uma abertura real de Deus ao que acontece. é o texto de referência para a ideia de que as advertências proféticas são condicionais, e a história de Nínive é, nesse sentido, o exemplo prático.
A terceira é a relação do livro com o resto do Antigo Testamento. Jonas cita como queixa, e o seu final dialoga com Naum, que anuncia o fim da mesma cidade. A tensão entre os dois livros é tratada de modos distintos: alguns veem em Naum o juízo que veio depois de uma geração que voltou ao pecado; outros, duas perspectivas que o cânon preserva lado a lado, sem harmonizar. O que ambos afirmam é que o destino das nações é assunto de Deus, e que a fidelidade do Senhor não se limita a Israel.
Há, por fim, a questão das fontes antigas. Jerônimo e Agostinho discutiram a tradução da planta, e Agostinho se ocupou da pergunta sobre os três dias no peixe. Lutero e Calvino também comentaram o livro, atentos ao caráter do profeta e à paciência de Deus com ele. A obra de Phyllis Trible e a de Uriel Simon, mais recentes, dão atenção à estrutura e à ironia do relato, que ajudam a ver por que o leitor tende a se identificar com Jonas mesmo quando preferia não o fazer.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Jonas foi engolido por uma baleia.
O texto hebraico fala de um "grande peixe" (dag gadol) e não nomeia espécie. A baleia entrou na tradição pela tradução grega kētos, "grande criatura marinha", que também usa. A discussão sobre qual animal teria sido é posterior ao texto e desvia do que o capítulo quer dizer.
Dizem que:Jonas fugiu por medo de Nínive.
O capítulo 1 não dá motivo, mas 4:2 o dá: Jonas fugiu porque sabia que Deus é clemente e perdoaria os ninivitas, e ele não queria isso. A leitura do profeta medroso vem do silêncio do capítulo 1, não do que o livro afirma ao final.
Dizem que:Nínive se converteu e passou a servir ao Deus de Israel para sempre.
O livro diz que os ninivitas creram em Deus, jejuaram e abandonaram o mau caminho e a violência, e que Deus se voltou do castigo. Não diz que a mudança foi duradoura nem que a cidade adotou a religião de Israel. Naum, que anuncia a queda da cidade, mostra que a história seguiu outro rumo.
Dizem que:O livro de Jonas é sobre o peixe.
O peixe ocupa poucos versículos de narrativa e o capítulo 2 é uma oração. O centro do livro é a pergunta final de Deus sobre a compaixão por Nínive. Ler o livro como história de milagre marinho deixa de lado a maior parte do texto.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórica tradicional
Trata o livro como relato de acontecimentos reais, tendo por base o profeta de e a referência de Jesus aos ninivitas. É a leitura dominante entre os pais da Igreja, os reformadores e muitos comentaristas evangélicos e católicos conservadores. Os milagres são aceitos como obras de Deus, e a ironia do texto é reconhecida sem pôr em dúvida os fatos.
Leitura como narrativa didática
Considera o livro uma narrativa de ensino, comparável a uma parábola ou sátira, escrita provavelmente depois do exílio, com forte uso de hipérbole e ironia. Vê em Jonas uma figura de Israel ou do leitor religioso, e a pergunta final como o ponto da obra. É comum na pesquisa crítica e em parte das tradições protestante e católica contemporâneas, que sustentam que o gênero não diminui a autoridade do texto.
Leitura figural cristã
Desde os pais da Igreja, lê Jonas à luz de como figura da morte e ressurreição de Cristo, e o ventre do peixe como figura do sepulcro. Preserva o sentido histórico ou literário do livro e acrescenta uma camada cristológica, com cuidado para marcar as diferenças entre o profeta fugitivo e o Filho do Homem.
Tradição judaica
Situa Jonas entre os Doze profetas e o lê inteiro na tarde do Yom Kippur, ligando-o ao arrependimento (teshuvá) e à misericórdia divina. Nessa tradição, o foco recai sobre o poder do arrependimento sincero, de Nínive e de qualquer pessoa, e sobre a pergunta final como convite ao leitor a considerar a compaixão de Deus.
O que fazer com isso
Ao ler Jonas, observe em que ponto você deixa de se identificar com os marinheiros e com os ninivitas e passa a se reconhecer em Jonas. O livro foi escrito para ser um espelho, e o final aberto é deliberado: a pergunta de Deus foi deixada sem resposta para que o leitor a responda. Antes de concluir o que o livro ensina, vale perguntar quem seria hoje a sua Nínive, e o que lhe custaria ouvir que ela também foi alvo da compaixão que o livro descreve.
Perguntas frequentes
- Jonas foi engolido por uma baleia?
- O texto hebraico diz "grande peixe" e não menciona espécie. A ideia da baleia vem da tradução grega kētos, "grande criatura marinha". O livro dedica ao peixe poucas linhas e se interessa muito mais pelo que acontece em Nínive.
- Por que Jonas fugiu?
- O capítulo 1 não diz. A razão aparece em 4:2: Jonas sabia que Deus é clemente e misericordioso e temia que perdoasse Nínive, inimiga de Israel. A fuga é, portanto, um desacordo com a misericórdia de Deus, e não medo da cidade.
- O livro de Jonas é história ou parábola?
- As tradições divergem. Muitos leem o livro como história, apoiados em e na referência de Jesus. Outros o leem como narrativa didática, por causa das hipérboles e da ironia. O texto não declara o gênero, e o ensino central sobre a misericórdia vale nas duas leituras.
- O que Jesus quis dizer com o sinal de Jonas?
- Em , Jesus compara os três dias de Jonas ao tempo em que o Filho do Homem estaria na terra. Em , o sinal é o próprio Jonas, pregador que foi sinal aos ninivitas. As duas formas estão no Novo Testamento, e muitos leitores veem nelas dois aspectos do mesmo sinal.
Fontes consultadas
- Jerônimo. Comentário sobre Jonas.
- Agostinho de Hipona. Carta 102.
- Martinho Lutero. Preleções sobre Jonas, 1526.
- João Calvino. Comentário sobre Jonas, 1559.
- Terence E. Fretheim. The Message of Jonah, 1977.
- Jack M. Sasson. Jonah (Anchor Bible), 1990.
- Phyllis Trible. Rhetorical Criticism: Context, Method, and the Book of Jonah, 1994.
- Uriel Simon. Jonah (JPS Bible Commentary), 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.