Josué e a conquista: Canaã, Jericó e a terra prometida
o que a bíblia diz sobre josué
Resposta curta
O livro de Josué conta como Israel atravessa o Jordão, toma Jericó, tropeça em Ai, engana-se com os gibeonitas, vence coalizões no sul e no norte e reparte a terra prometida a Abraão. É um livro de vitórias, mas também de falhas, e é o texto mais difícil do Antigo Testamento para o leitor de hoje, por causa do herem, a destruição de populações inteiras. Este estudo percorre o livro em seis partes, da transição entre Moisés e Josué, passando pela travessia, pela queda de Jericó e pelo sol parado, até o debate moral e arqueológico e a assembleia de Siquém. Apresenta o que o texto afirma, o que ele deixa em aberto e as respostas que as tradições cristãs deram, sem esconder a dificuldade nem decidir pelo leitor.
Em palavras simples
Josué sucedeu a Moisés e levou Israel à terra prometida. O livro conta a travessia do rio Jordão, a queda de Jericó, a derrota em Ai por causa do roubo de Acã, o engano dos gibeonitas e a famosa batalha em que o sol parou. Depois, a terra é repartida entre as tribos, e Josué convida o povo a escolher a quem servir. O livro também traz ordens de destruição de povos inteiros, que até hoje geram debates entre crentes e estudiosos. Este estudo mostra o que o texto diz e como as tradições leem as passagens difíceis.
Antes de começar
O livro de Josué abre o bloco que a tradição judaica chama de Profetas Anteriores e a tradição cristã costuma chamar de livros históricos. Ele continua o Pentateuco: Moisés morreu, Israel está em Moabe, na margem leste do Jordão, e a promessa feita a Abraão em e 15, a de uma terra, espera cumprimento. O nome do protagonista, Yehoshua em hebraico, significa "o Senhor salva" e corresponde ao grego Iesous, que no Novo Testamento é Jesus.
A data dos eventos depende de quando se coloca o Êxodo. A chamada data antiga parte de e leva a conquista a cerca de 1400 a.C.; a data tardia associa a obra de Ramsés ao Êxodo e coloca a entrada em Canaã no século XIII a.C. A estela de Merneptah, de cerca de 1208 a.C., é a primeira menção a Israel fora da Bíblia, e mostra que algum grupo com esse nome estava em Canaã por volta dessa época. O livro em si não traz data, e a questão permanece debatida.
O mundo cananeu era uma rede de cidades-estado com reis locais, muralhas e rivalidades, sob influência egípcia em declínio. As cartas de Amarna, do século XIV a.C., mostram governantes cananeus disputando entre si e pedindo ajuda ao faraó. É nesse cenário fragmentado que a narrativa coloca Israel.
A composição também é discutida. A tradição atribui trechos a Josué, e o texto menciona que ele escreveu na lei (24:26), mas o livro contém expressões como "até o dia de hoje" que sugerem edição posterior. Muitos estudiosos veem relação estreita com Deuteronômio, e outros apontam camadas redacionais. Intérpretes conservadores e críticos divergem, mas concordam que o livro foi composto para um povo que já vivia na terra e precisava lembrar de onde viera.
Por fim, a recepção cristã deu a Josué um papel simbólico. Orígenes pregou sobre ele como figura de Jesus, e usa a entrada na terra como imagem do descanso. Esses usos convivem com um problema moral que não pode ser adiado.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO nome de Josué em grego é o mesmo de Jesus, e usa isso de forma indireta: se Josué tivesse dado o descanso definitivo, Deus não falaria de outro dia. A tradição cristã, de Orígenes em diante, leu o líder que conduz o povo através do rio e o introduz na terra prometida como figura daquele que conduz a um descanso maior. Raabe, incluída na genealogia de Mateus, é outro sinal de que a promessa alcança quem estava fora.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.A transição: de Moisés a Josué, e uma mulher de Jericó
O livro de Josué abre com uma frase que funciona como dobradiça: "Depois da morte de Moisés, servo do Senhor" (Josué 1:1). Tudo o que Israel conhecia — o líder, a voz que descia do monte, o homem que falara com Deus face a face — acabou de sair de cena, e o povo está parado na margem leste do Jordão, diante de uma terra que não conhece. Josué é chamado de "ministro de Moisés", o auxiliar que já o acompanhara na tenda e na montanha. O nome também conta: ele nasceu Oséias, e Moisés o rebatizou Josué (Números 13:16), em hebraico Yehoshua, "o Senhor salva".
A primeira ordem de Deus a ele é repetida três vezes em poucos versículos: sê forte e corajoso (1:6, 7, 9). O que sustenta essa coragem não é um plano militar, mas um livro: "Não se aparte da tua boca o livro desta lei" (1:8). O livro começa, portanto, definindo que a conquista, se é que esse é o nome certo, será medida por fidelidade a uma palavra, e não por força. Josué convoca as tribos de Rúben, Gade e meia tribo de Manassés, que já tinham recebido terra no lado leste, e elas se comprometem a atravessar armadas à frente dos irmãos (1:12-18). A terra é assunto de todo o povo.
O segundo capítulo desloca a câmera para dois espiões e uma casa colada ao muro de Jericó. A dona é Raabe, e o texto hebraico a chama de zonah, palavra que a maioria das traduções vê como prostituta. Alguns intérpretes preferiram "hospedeira", mas Hebreus 11:31 e Tiago 2:25 usam o grego pornē, sem suavizar. O que ela faz é decisivo: esconde os homens entre hastes de linho no terraço, mente aos oficiais do rei e, depois, faz uma confissão que poucos israelitas fizeram até ali: "O Senhor vosso Deus é Deus lá em cima nos céus e cá embaixo na terra" (2:11). Ela diz saber do Mar Vermelho e dos reis do outro lado do Jordão. Quem teme é a cidade; quem confia é ela.
Os espiões prometem poupá-la com a casa dela se ela amarrar um cordão escarlate na janela (2:18). Já aparece a tensão que o estudo enfrentará adiante: a mesma narrativa que fala de destruição total reserva espaço para uma cananeia que reconhece o Deus de Israel. Mateus a coloca na genealogia de Jesus (1:5). Antes de qualquer batalha, o leitor encontra uma mulher que atravessa a fronteira pela fé.
Para conversar
- O que muda quando uma liderança é transmitida a alguém conhecido como "ministro" do anterior, e não como herói por mérito próprio?
- Por que o livro começa pedindo coragem a Josué por meio da leitura de um texto, e não de uma estratégia?
- Raabe mente para proteger os espiões e mesmo assim o Novo Testamento a cita como exemplo de fé. Como você lê essa combinação?
- O que a presença de Raabe logo no início sugere sobre como o livro quer ser lido?
2.O Jordão e Jericó: a arca na frente e o muro que cai
A travessia do Jordão (Josué 3 e 4) é narrada como liturgia, e não como operação militar. Quem vai à frente não são os soldados, e sim os sacerdotes carregando a arca da aliança, a uma distância fixada de dois mil côvados (3:4). O rio está em época de cheia, "transbordava todas as suas margens" (3:15), e as águas só se detêm quando os pés dos sacerdotes tocam nelas. O texto situa o represamento "longe, em Adã, a cidade que está ao lado de Zaretã" (3:16), um detalhe geográfico que alguns estudiosos usam para propor causas naturais, como deslizamentos que já represaram o rio em séculos posteriores. O texto, porém, não explica por mecanismo; relata o evento e o amarra a outro. Os leitores devem ouvir o eco do Mar Vermelho, e o livro diz isso: "como o Senhor vosso Deus fez ao Mar Vermelho" (4:23). Moisés e Josué, as duas travessias, estão postos lado a lado.
Doze pedras são levantadas em Gilgal como memorial, e a explicação é pedagógica: quando os filhos perguntarem, os pais contarão (4:6-7). Em seguida vem uma cena que desconcerta quem espera pressa de guerra. Antes de qualquer cerco, os homens nascidos no deserto são circuncidados (5:2-9), celebra-se a Páscoa e o maná cessa (5:12). O povo come, pela primeira vez, do produto da terra. Josué, então, encontra um homem de espada na mão, que se apresenta como comandante do exército do Senhor. Josué pergunta se ele é a favor deles ou dos inimigos, e a resposta é "nem um, nem outro" (5:13-14). Depois, a ordem: "Tira as sandálias" (5:15), a mesma que Moisés ouviu na sarça. O dono da guerra não é Israel.
Jericó cai de modo estranho. Seis dias de procissão em silêncio, sete sacerdotes, sete trombetas, e no sétimo dia sete voltas, o grito e a queda do muro (6:15-20). É um cerco sem engenharia, em que o único instrumento militar é a obediência ritual. A cidade é entregue ao herem, a "dedicação" total a Deus, e o texto diz que foram mortos homens, mulheres, crianças e animais (6:21). Raabe e sua família são poupadas (6:25). Há ainda uma maldição sobre quem reconstruir a cidade (6:26), cumprida em 1 Reis 16:34. Voltaremos ao termo herem e ao debate histórico adiante. Por ora, vale notar o desenho da narrativa: o que Israel recebe, recebe na forma de dom, e a primeira cidade é separada de tudo o que pudesse ser apropriado.
Para conversar
- Por que a narrativa insiste em memoriais, perguntas dos filhos e ritos antes de qualquer batalha?
- A explicação de que o represamento do Jordão teria causas naturais enfraquece ou preserva o sentido do texto? O que isso revela sobre o que esperamos de um milagre?
- O que significa o comandante do exército do Senhor responder "nem um, nem outro" a quem pergunta de que lado ele está?
- Como você lê um cerco em que a ação dos israelitas é só obedecer a um ritual?
3.Acã, Ai e os gibeonitas: quando a conquista tropeça
Se Jericó mostra a vitória como dom, Ai mostra o que acontece quando o dom é tratado como botim. Josué 7 começa com uma frase que muda o clima do livro: "os filhos de Israel cometeram uma transgressão" (7:1). Um homem chamado Acã, da tribo de Judá, havia tomado de Jericó um manto de Sinar, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro, e os escondera debaixo da própria tenda. A cidade era herem, interdita; ele a tratou como saque. Sem saber disso, Josué manda um destacamento pequeno contra Ai, que volta derrotado, com trinta e seis mortos. O texto não esconde a reação: o coração do povo "se derreteu como água" e Josué rasga as vestes diante da arca (7:5-6).
O que segue é um dos episódios mais duros do livro. Pelo sorteio, Acã é identificado, confessa, e é apedrejado junto com os filhos, as filhas, os animais e tudo o que era dele, no vale que passa a se chamar Acor, "perturbação" (7:24-26). O texto não diz se a família sabia do que estava escondido na tenda; ele apenas relata a execução. Leitores se dividem: alguns veem na punição coletiva a lógica corporativa do mundo antigo, em que a casa responde pelo seu chefe, e outros a leem como um dos pontos em que a narrativa mais incomoda, sem disfarce. Ao menos uma coisa é clara: Deus, no livro, não é um aliado automático.
Ai é retomada no capítulo 8 com uma emboscada planejada em detalhe, e desta vez a vitória é dada, com a diferença de que o despojo agora pode ser tomado (8:2). Em seguida, no monte Ebal, Josué constrói um altar e lê toda a lei diante do povo, "mulheres, crianças e estrangeiros" incluídos (8:30-35), cumprindo Deuteronômio 27.
O capítulo 9 traz outra falha, de natureza diferente. Os gibeonitas, que moravam perto, fingem ser de terra distante, com odres rasgados e pão mofado, e propõem aliança. Os israelitas examinam as provisões, "mas não consultaram a boca do Senhor" (9:14), e juram. Três dias depois descobrem o engano. O juramento, contudo, é mantido, e os gibeonitas se tornam lenhadores e carregadores de água para o santuário (9:21-27). Séculos depois, 2 Samuel 21 narra que a violação desse pacto por Saul trouxe fome sobre Israel. A lição é incômoda e coerente: o povo falhou por pressa e por confiar nos próprios olhos, e ainda assim a palavra dada valeu.
Para conversar
- Por que o livro insere a derrota de Ai logo depois da vitória de Jericó? O que essa ordem comunica ao leitor?
- A execução da família de Acã aparece sem comentário do narrador. Como você lida com um texto que relata sem justificar?
- Os gibeonitas enganam Israel, e mesmo assim o juramento é honrado. O que isso diz sobre a seriedade da palavra dada?
- Onde, hoje, é fácil tratar como saque algo que foi recebido como dom?
4.O sol parado e as campanhas do sul e do norte
Os aliados dos gibeonitas têm o que reclamar: cinco reis amorreus se juntam para atacar Gibeom, e Josué, fiel ao juramento, sobe de Gilgal numa marcha de uma noite inteira (Josué 10:9). Durante a batalha, o texto registra uma chuva de pedras de granizo que mata mais gente do que a espada (10:11), e então vem a passagem mais famosa do livro: "Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Aijalom" (10:12). O sol "parou no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um dia inteiro" (10:13). E o narrador comenta: "Não houve dia semelhante a esse, nem antes nem depois" (10:14).
O trecho, porém, é mais complexo do que o título popular sugere. Os versículos 12 e 13 estão em forma poética e são atribuídos ao Livro de Jasar, uma obra hoje perdida, também citada em 2 Samuel 1:18. Isso levanta a pergunta sobre o gênero: o que se descreve é prosa histórica ou canto de vitória? Há ao menos quatro leituras sérias. A literal entende que a rotação aparente do céu foi suspensa por intervenção direta. Outra entende que o dia foi prolongado por um fenômeno luminoso, sem fixar o mecanismo. Uma terceira lê a linguagem como fenomenológica e poética, no mesmo registro com que dizemos "o sol nasce". E há a proposta de John Walton, que vê no vocabulário um paralelo com a adivinhação por presságios na Mesopotâmia, de modo que o pedido de Josué seria sobre um presságio celeste, e não sobre cronologia astronômica. Nenhuma dessas leituras é consenso, e o texto não escolhe.
A história da recepção também é lição. No século XVII, quando Galileu defendeu o sistema de Copérnico, versículos como este foram citados contra ele, e na Carta à Grã-Duquesa Cristina (1615) ele respondeu que a Bíblia ensina como ir ao céu, e não como o céu vai. A discussão mostra como a pressa em fixar um sentido literal pode acabar defendendo uma cosmologia e não o texto.
Os capítulos 10 e 11 completam o quadro: a campanha do sul, com a captura dos cinco reis em Maquedá (10:16-27), e a do norte, liderada pelo rei de Hazor, que Josué derrota nas águas de Merom (11:1-9). Um detalhe importante vai pesar na parte seguinte: Hazor é queimada, mas "Israel não queimou nenhuma das cidades que estavam sobre seus montes, exceto Hazor" (11:13).
Para conversar
- O que muda na leitura de ao saber que são versos poéticos tirados de outro livro?
- Quando a Igreja usou esse texto contra Galileu, o que estava de fato em jogo: o texto ou uma forma de lê-lo?
- Como distinguir o que a Bíblia afirma do que apenas pressupõe sobre o mundo natural?
- Que valor tem um relato que declara que "o Senhor lutava por Israel" e, ao mesmo tempo, atribui parte do resultado a granizo, marcha e estratégia?
5.O herem: o problema moral e o problema histórico
É aqui que o livro cobra do leitor a honestidade que as partes anteriores só adiaram. Herem, em hebraico, é a dedicação de algo a Deus de modo irrevogável, o que no contexto de guerra significa a destruição. Deuteronômio 7:1-5 e 20:16-18 mandam aplicá-lo às nações de Canaã, e Josué 6:21 e 10:40 relatam a execução. Há dois problemas, e convém separá-los.
O primeiro é moral. Como entender que o Deus que o Novo Testamento chama de Pai de Jesus ordene a morte de populações inteiras? A tradição cristã deu respostas distintas. Agostinho, nas Questões sobre o Heptateuco, defendeu que a guerra ordenada por Deus é justa por vir dele. Orígenes, nas Homilias sobre Josué, leu as batalhas como combates espirituais da alma, em chave alegórica. Calvino insistiu que Deus age como juiz e que Israel foi instrumento, não modelo. Autores como Eric Seibert veem nesses textos uma imagem de Deus que o cristão deve ler à luz de Jesus e, nesse ponto, discordar do texto. Outros, como Paul Copan e Matthew Flannagan, respondem que a linguagem é hiperbólica e que o alvo eram centros de poder, não civis. O próprio texto dá pistas: Deuteronômio 9:4-5 diz que Israel não herda por justiça própria, mas pela maldade daquelas nações, e Gênesis 15:16 fala de uma iniquidade que "ainda não está completa".
O segundo é histórico, e os textos se contradizem de forma visível. Josué 11:23 diz que Josué tomou toda a terra, mas 13:1 reconhece que "ainda resta muita terra por possuir", e Juízes 1 enumera cidades que não foram tomadas: jebuseus em Jerusalém, cananeus em Gezer. Estudiosos como Lawson Younger mostram que relatos de conquista do Oriente Próximo antigo usavam linguagem de aniquilação total para vitórias parciais, e a estela de Mesha, rei de Moabe, usa o mesmo verbo herem e declara que Israel "pereceu para sempre", o que não aconteceu.
A arqueologia agrava o debate. Em Jericó, Garstang datou a queda por volta de 1400 a.C.; Kenyon concluiu que a cidade já estava destruída séculos antes; Bryant Wood defende a leitura de Garstang. Ai, identificada com et-Tell, não tem ocupação na Idade do Bronze Tardio. Hazor mostra destruição por fogo no século XIII a.C. Surgiram modelos alternativos, como a infiltração gradual de Alt e a revolta camponesa de Mendenhall. Nenhum deles tem unanimidade, e o leitor honesto precisa admitir que o assunto segue aberto.
Para conversar
- Quais das respostas tradicionais ao herem (justiça divina, hipérbole, alegoria, leitura à luz de Cristo) você acha mais convincente, e por quê?
- O que significa para a fé que o próprio livro, em capítulos diferentes, descreva a conquista como completa e como incompleta?
- Como lidar com um texto sagrado cuja historicidade é debatida entre estudiosos sérios, de dentro e de fora da fé?
- Textos de violência já foram usados para justificar guerras reais. O que um leitor responsável deve perguntar antes de aplicar Josué a qualquer situação atual?
6.A partilha da terra e a escolha de Siquém
Passada a guerra, o livro dedica quase metade de suas páginas a algo que parece tedioso: listas de fronteiras e cidades (Josué 13-21). Esse material é, porém, parte da tese. A terra não é distribuída por força ou prestígio, mas por sorteio (14:2), de modo que a palavra de Deus, e não a competência militar, determina a casa de cada um. Calebe, aos oitenta e cinco anos, pede o monte de Hebrom e o território dos gigantes (14:6-15), lembrando o dia em que ele e Josué foram os únicos espiões a confiar. As filhas de Zelofeade reivindicam herança com base em Números 27 e a recebem (17:3-6). A tribo de Levi fica sem território contínuo, mas recebe quarenta e oito cidades (cap. 21), e seis cidades de refúgio protegem quem matou sem intenção (cap. 20). O capítulo 21 termina com um balanço enfático: "nenhuma de todas as boas promessas falhou" (21:45). Esse versículo parece colidir com Juízes 1, e as duas afirmações precisam ser lidas juntas, como a promessa cumprida em dom e ainda por cumprir em ocupação.
O capítulo 22 mostra uma crise quase civil. As tribos do leste constroem um grande altar junto ao Jordão e as do oeste se preparam para a guerra, até que se explica que o altar é testemunho e não rival. Em vez de violência, houve conversa.
Josué 23 e 24 formam o testamento do líder. No capítulo 24, em Siquém, ele reúne as tribos e recita a história desde Abraão, lembrando que os pais "serviram a outros deuses" além do rio (24:2). Então vem a frase mais citada do livro: "Escolhei hoje a quem sirvais... eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (24:15). O povo promete, e Josué responde com algo desconcertante: "Não podereis servir ao Senhor" (24:19). Ele não está desencorajando; está tirando a ilusão de que a promessa é fácil. Uma pedra fica como testemunha, e a aliança é registrada. Estudiosos observam que a cerimônia de Siquém lembra os tratados de suserania do Oriente Próximo, com prólogo histórico, termos e testemunhas.
O livro termina com três sepultamentos: Josué, aos cento e dez anos; os ossos de José, trazidos do Egito; e Eleazar (24:29-33). Mais tarde, Hebreus 4:8 observa que, se Josué tivesse dado o verdadeiro descanso, Deus não falaria de outro dia. O nome Josué em grego é Jesus. O livro termina deixando a pergunta aberta.
Para conversar
- Por que um livro sobre conquista dedica tanto espaço a listas de terras e cidades? O que isso diz sobre o que ele valoriza?
- Como conciliar a frase de que nenhuma promessa falhou com a lista de territórios não conquistados?
- Por que Josué responde "não podereis servir ao Senhor" quando o povo promete fidelidade?
- O que significa escolher a quem servir hoje, no sentido de , para quem não vive numa sociedade que toma essa decisão em conjunto?
O que fica
- O livro de Josué trata a terra como dom e a conquista como obra de Deus, e mostra que o êxito de Israel depende de fidelidade, não de força militar.
- A narrativa não é só vitória: Acã, Ai e os gibeonitas mostram que Israel falha, e que a falha tem consequências reais.
- O herem é o problema mais difícil do livro, e tem dimensão moral e histórica. As tradições cristãs responderam de formas diferentes, e o leitor honesto reconhece que nenhuma resolve tudo.
- A arqueologia não confirma nem refuta o relato por inteiro: Jericó e Ai são debatidas, Hazor é mais compatível. As datas e os modelos de ocupação seguem em disputa.
- Raabe, os gibeonitas e Siquém indicam que a promessa também alcança quem estava fora, e que a escolha a quem servir é o que o livro entrega ao leitor.
Aprofundamento
O núcleo do debate está em três perguntas que convém não misturar: o que o texto afirma, o que a história e a arqueologia permitem dizer, e o que a fé cristã deve fazer com ele.
Sobre o primeiro ponto, o livro apresenta a conquista como obra de Deus, e Israel como beneficiário que, ao falhar, perde. Acã e os gibeonitas mostram que o êxito não é automático. A palavra herem aparece em contextos de pureza cultual e, como e deixam ver, convive com a sobrevivência de povos que a lei supõe presentes: se todos tivessem sido eliminados, não haveria com quem proibir casamento. Esse indício leva intérpretes a ler a linguagem de aniquilação como convenção retórica de guerra. Não há acordo.
Sobre o segundo, a Idade do Bronze Tardio em Canaã apresenta sinais mistos. Jericó foi escavada por Garstang, depois por Kenyon, e a datação de sua destruição permanece contestada; Bryant Wood defende que os dados de Garstang se ajustam a cerca de 1400 a.C., e outros contestam. Ai (et-Tell) não tem ocupação no período exigido, o que levou a identificações alternativas, como Khirbet el-Maqatir. Hazor, ao contrário, mostra destruição por fogo no século XIII a.C., coerente com . Os modelos acadêmicos variam: conquista militar (Albright), infiltração pacífica (Alt), revolta camponesa (Mendenhall, Gottwald), emergência gradual dentro de Canaã (Finkelstein). Cada um acomoda parte dos dados.
Sobre o terceiro, as tradições respondem de modos distintos. A leitura alegórica de Orígenes e a de Agostinho como guerra justa por ordem divina são antigas. A reformada, a partir de Calvino, enfatiza o julgamento sobre a iniquidade dos cananeus. A anabatista e a pacifista leem à luz do Sermão do Monte e recusam qualquer uso do texto como modelo. A judaica rabínica restringe a aplicação do herem a povos específicos que já não existem e não o toma como norma permanente. Uma questão atravessa todas: se Jesus é a revelação plena de Deus, o que significa ler Josué à sua luz? Sobre isso, o texto bíblico fica em silêncio, e as respostas pertencem às tradições. Vale lembrar, por fim, que o próprio livro sinaliza abertura: Raabe entra para o povo e os gibeonitas permanecem junto ao santuário, de modo que a fronteira entre dentro e fora, no livro, é mais porosa do que a ideia de extermínio total faria supor. Quem quer ler com honestidade precisa manter esses fios juntos, sem eliminar nenhum deles para facilitar a conclusão.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O livro de Josué é um relato de genocídio que a Bíblia aprova sem reservas.
O livro contém ordens de destruição, mas o texto internamente mostra tensões: Raabe e sua família são poupadas, os gibeonitas sobrevivem por pacto, e reconhecem povos que permaneceram, e diz que só Hazor foi queimada. Estudiosos de linhas diferentes discutem o peso da linguagem hiperbólica. Dizer que a Bíblia simplesmente aprova é simplificar um texto que a própria tradição leu de modos diversos, inclusive criticando-o.
Dizem que:A arqueologia já provou que Jericó caiu exatamente como a Bíblia conta.
A datação da destruição de Jericó é disputada: Garstang a colocou por volta de 1400 a.C., Kenyon concluiu que a cidade já estava destruída muito antes, e Bryant Wood retomou a tese de Garstang. Nenhuma das posições é aceita por todos. Dizer que a arqueologia provou o relato, ou que o refutou por inteiro, ultrapassa o que os dados permitem.
Dizem que:O sol parou e a Terra deixou de girar, o que prova que a Bíblia contradiz a ciência.
está em forma poética e cita o Livro de Jasar. As leituras possíveis incluem a literal, a de prolongamento por fenômeno luminoso, a fenomenológica e a que o vê como linguagem de presságio. O texto descreve o que se via do chão, como fazemos ao dizer que o sol nasce, e não afirma um modelo astronômico. A discussão do século XVII com Galileu foi sobre como ler o texto, e não sobre uma afirmação clara dele.
Dizem que:Josué entrou em Canaã e conquistou a terra inteira de uma vez.
O próprio livro afirma que Josué "tomou toda a terra" (11:23), mas também que "ainda resta muita terra por possuir" (13:1), e lista cidades que não foram tomadas. Há tensão interna, e ela costuma ser lida como convenção retórica de guerra antiga, e não como erro de memória.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica e patrística (leitura alegórica e de guerra justa)
Orígenes, nas Homilias sobre Josué, lê as conquistas como combates espirituais da alma e vê em Josué uma figura de Jesus. Agostinho, nas Questões sobre o Heptateuco, trata a guerra ordenada por Deus como justa por vir dele, e distingue essa situação da guerra comum. A leitura tradicional católica combina as duas linhas: sentido literal e sentido espiritual.
Reformada
Calvino, no Comentário sobre Josué, entende a destruição dos cananeus como juízo divino sobre uma iniquidade acumulada () e vê Israel como instrumento, e não como modelo para guerras posteriores. A tradição reformada tende a sublinhar a fidelidade de Deus à promessa e o caráter excepcional e irrepetível do mandato.
Anabatista e pacifista
Lê o livro à luz de Jesus e do Sermão do Monte. Muitos autores dessa linha reconhecem o mandato como parte da história de Israel, mas negam que ele possa servir de modelo e, em alguns casos, afirmam que o cristão deve discordar do texto ao lê-lo à luz de Cristo. Eric Seibert, em The Violence of Scripture (2012), é um exemplo contemporâneo.
Judaica rabínica
A tradição rabínica tende a restringir o herem a povos específicos e a não o tomar como norma permanente para guerras posteriores. Também retrata Raabe como convertida exemplar.
Crítica histórica e arqueológica
Parte dos estudiosos (Finkelstein, Silberman) vê o livro como composição tardia, que projeta no passado a ideologia de uma época posterior. Outros, como Kitchen e Hess, defendem que o livro preserva memórias de uma entrada real, com linguagem de guerra convencional. Os dois lados concordam que a questão não está encerrada.
O que fazer com isso
Ao ler Josué, separe três perguntas que costumam chegar misturadas: o que o texto diz, o que sabemos historicamente e o que fazer com isso hoje. Admita a dificuldade em vez de adoçá-la. Observe também onde o livro oferece consolo e exigência ao mesmo tempo: a coragem pedida a Josué nasce de uma promessa, e a promessa de Siquém exige escolha.
Perguntas frequentes
- Quem foi Josué na Bíblia?
- Josué, filho de Num, foi auxiliar de Moisés, um dos dois espiões que confiaram na promessa () e o líder que conduziu Israel à terra prometida. Nasceu com o nome Oséias, que Moisés mudou para Josué, "o Senhor salva".
- Jericó realmente foi destruída como a Bíblia descreve?
- A arqueologia não dá resposta única. Garstang, Kenyon e Bryant Wood propuseram datas e leituras diferentes para a destruição da cidade. O relato bíblico de queda dos muros e do herem pode ser comparado com os dados, mas não há consenso sobre a correspondência.
- O que é o herem?
- É a dedicação irrevogável de algo a Deus. No contexto da guerra, significa a destruição de cidades e povos, como em . e 20 o ordenam para os povos de Canaã, e as tradições discutem se a linguagem é literal ou retórica.
- O que Josué 24:15 quer dizer?
- Na assembleia de Siquém, Josué convida o povo a escolher a quem servir e declara que ele e sua casa servirão ao Senhor. A frase não é um slogan de família, e sim parte de uma cerimônia de aliança em que o povo reconhece a história de libertação e se compromete.
Fontes consultadas
- Orígenes. Homilias sobre Josué.
- Agostinho de Hipona. Questões sobre o Heptateuco.
- João Calvino. Comentário sobre Josué, 1564.
- Kathleen Kenyon. Digging Up Jericho, 1957.
- Lawson Younger. Ancient Conquest Accounts, 1990.
- Richard Hess. Joshua: An Introduction and Commentary, 1996.
- John Walton e J. Harvey Walton. The Lost World of the Israelite Conquest, 2017.
- Eric Seibert. The Violence of Scripture, 2012.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.