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Significado Bíblico
Estudo completoPara uma classe55 minintermediária

Fariseus e saduceus: quem eram e o que Jesus disse a eles

quem eram os fariseus e saduceus

Resposta curta

Fariseus e saduceus aparecem nos evangelhos como adversários de Jesus, mas as fontes mostram uma realidade mais complexa. Eram correntes de um judaísmo sem autoridade central, ao lado de essênios e zelotes, descritos por Flávio Josefo e pelo Novo Testamento com ângulos diferentes. Os saduceus, ligados ao templo e à aristocracia sacerdotal, negavam a ressurreição e os anjos; os fariseus afirmavam ambos e transmitiam uma tradição de interpretação da Torá. Jesus debate com os dois, come com fariseus e discute com eles, e em faz uma crítica dura em linguagem profética. Nicodemos, Gamaliel e o próprio Paulo mostram fariseus que não se encaixam no estereótipo. Este estudo percorre o mapa, os debates, o capítulo mais difícil e a história do antijudaísmo, sem tomar partido onde as tradições divergem.

Em palavras simples

Fariseus e saduceus eram grupos judeus do tempo de Jesus. Os saduceus, ligados ao templo, não acreditavam em ressurreição nem em anjos. Os fariseus acreditavam, e ensinavam como viver a Torá no dia a dia. Havia também os essênios e os zelotes. Jesus debateu com os dois grupos, comeu na casa de fariseus e, em , fez uma crítica forte à distância entre ensino e prática. Mas Nicodemos, Gamaliel e Paulo também eram fariseus, então não dá para dizer que todos eram vilões. Ler com cuidado evita um erro grave: usar esses textos contra os judeus de hoje.

Antes de começar

O período entre o retorno do exílio e o ano 70 d.C. é chamado de Segundo Templo, e é nele que surgem os grupos que os evangelhos mencionam. A terra estava sob domínio sucessivo de persas, gregos e romanos. A crise do século II a.C., com a perseguição de Antíoco IV e a revolta dos macabeus, deixou uma pergunta aguda: como permanecer fiel à Torá sob pressão? Fariseus, saduceus e essênios são, em boa parte, respostas diferentes a essa pergunta.

Nossas fontes são limitadas. Flávio Josefo, escrevendo em Roma depois da guerra contra Roma, descreve os três grupos como 'escolas' e inclui uma quarta filosofia de zelo revolucionário. Ele afirma ter experimentado cada uma delas e escolhido os fariseus, o que influencia o tom. O Novo Testamento fala de fariseus e saduceus com frequência, dos zelotes de modo discreto, e dos essênios em silêncio. Os rolos de Qumran trazem uma comunidade que muitos pesquisadores identificam com os essênios, embora essa identificação tenha críticos. As fontes rabínicas, redigidas séculos depois, preservam tradições que descendem do movimento farisaico, mas sua utilidade para reconstruir o período anterior a 70 é discutida.

Os saduceus tinham base no templo e no sacerdócio. Segundo Josefo, rejeitavam as normas transmitidas fora da Torá escrita, negavam o destino e a sobrevivência da alma. Os fariseus tinham influência popular, aceitavam a tradição dos anciãos e esperavam ressurreição, recompensa e castigo. Os essênios aparecem em Josefo como comunidades de vida comum e pureza rigorosa. Os zelotes, no sentido estrito, designam grupos que lideraram a revolta contra Roma. Depois de 70, com o templo destruído, os saduceus desaparecem das fontes, e o judaísmo se reorganiza em torno da sinagoga e do estudo, com forte herança farisaica.

Esse pano de fundo importa porque o primeiro leitor dos evangelhos conhecia esses grupos de dentro. O leitor de hoje os conhece, em geral, apenas por frases isoladas e por séculos de polêmica.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

No debate de , Jesus responde aos saduceus com : o Deus de Abraão, Isaque e Jacó é Deus de vivos. O Novo Testamento afirma que essa esperança tem agora um nome e um fato, o de Jesus ressuscitado. A discussão sobre a vida depois da morte, que dividia fariseus e saduceus, ganha para os autores do Novo Testamento um ponto de apoio histórico.

Respaldo no Novo Testamento:

As partes do estudo

  1. 1.O mapa antes dos rótulos: quem eram, e como sabemos

    Quando um leitor moderno ouve 'fariseus e saduceus', costuma imaginar dois partidos políticos com programas fixos, um de legalistas e outro de liberais. A realidade que as fontes deixam ver é mais irregular. Entre o retorno do exílio e a destruição do templo em 70 d.C., o judaísmo da terra de Israel não tinha uma autoridade central que definisse a ortodoxia. Havia correntes que discutiam como viver a Torá sob domínio estrangeiro, com o templo de Jerusalém como único lugar de sacrifício e com a pergunta permanente sobre quem falava por Deus.

    As fontes são poucas e vêm de ângulos diferentes. O historiador judeu Flávio Josefo, que escreveu em Roma no fim do primeiro século, descreve três 'escolas' ou 'filosofias' em Guerra Judaica 2 e em Antiguidades 13 e 18: fariseus, saduceus e essênios, e acrescenta uma 'quarta filosofia' ligada a Judas, o Galileu, de zelo revolucionário. Josefo escreve para leitores gregos e romanos, e por isso traduz as correntes para categorias de escolas filosóficas, o que simplifica. Os evangelhos e Atos mencionam fariseus e saduceus com frequência, os essênios nunca, e os zelotes de forma discreta: Simão, um dos Doze, é chamado 'o Zelote' em Lucas 6:15 e Atos 1:13, e Mateus 10:4 o chama 'cananeu'. Se isso indica filiação a um grupo organizado ou apenas temperamento zeloso é uma pergunta em aberto, porque Josefo só usa o nome de forma clara para facções da guerra contra Roma, a partir de 66.

    O que se pode afirmar com segurança é um esboço. Os saduceus ligavam-se à aristocracia sacerdotal e ao templo; Atos 5:17 liga o sumo sacerdote ao 'partido dos saduceus'. Os fariseus eram um movimento de influência popular, atento à pureza, ao dízimo e à observância do dia a dia, e que ensinava uma tradição de interpretação ao lado do texto escrito. Os essênios, segundo Josefo, viviam em comunidades de bens compartilhados e rigor ritual; muitos estudiosos os associam aos rolos de Qumran, embora haja quem discorde dessa identificação. Os zelotes, na acepção estrita, são o braço armado da resistência.

    Nenhum desses grupos era o judaísmo inteiro. A maioria do povo não pertencia a nenhum deles. Josefo fala de cerca de seis mil fariseus, número que ele próprio apresenta de passagem e que não temos como conferir. Saber isso protege contra um erro frequente: tratar 'os fariseus' como sinônimo de 'os judeus'. Os evangelhos não fazem essa equivalência, e quem a faz está lendo algo que o texto não diz.

    Para conversar

    • Por que é importante lembrar que a maior parte do povo não pertencia a nenhum desses grupos ao ler as cenas dos evangelhos?
    • Josefo traduz as correntes judaicas para categorias de escolas filosóficas gregas. O que se ganha e o que se perde com essa tradução?
    • Que cuidado o leitor precisa ter ao receber de uma única fonte, como Josefo, a descrição de grupos que ele mesmo não defendia por inteiro?
    • Como saber se um rótulo como 'zelote' descreve um partido ou um temperamento? O que isso ensina sobre os limites do que sabemos?
  2. 2.O que estava em disputa: ressurreição, anjos e tradição

    A diferença mais nítida entre fariseus e saduceus aparece em duas cenas dos textos do Novo Testamento. Em Atos 23, Paulo está diante do sinédrio, percebe que o conselho é dividido entre os dois grupos e declara: 'Eu sou fariseu, filho de fariseus; é por causa da esperança e da ressurreição dos mortos que sou julgado'. O narrador explica o efeito: os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito, e os fariseus afirmam todas essas coisas. A assembleia se divide. Lucas descreve a cena e não esconde que Paulo usou a divisão a seu favor; se foi estratégia, sinceridade ou as duas coisas, é questão que o texto não resolve.

    A segunda cena é Mateus 22:23-33 (com paralelos em Marcos 12 e Lucas 20). Os saduceus propõem a Jesus um caso extremo, baseado na lei do levirato de Deuteronômio 25:5-10: uma mulher se casa sucessivamente com sete irmãos, e eles perguntam de quem ela será esposa na ressurreição. O caso é uma redução ao absurdo, e não uma dúvida sincera. A resposta de Jesus tem duas partes. Primeiro, ele diz que na ressurreição não se casa nem se dá em casamento, 'mas são como os anjos no céu', o que corrige a imaginação deles sobre a vida futura. Depois cita Êxodo 3:6, 'Eu sou o Deus de Abraão', argumento que parte de um texto da Torá, a parte da Escritura cuja autoridade os saduceus aceitavam sem dúvida. Lucas 20:39 acrescenta que alguns escribas disseram: 'Mestre, respondeste bem'.

    Aqui já se vê um ponto que o estereótipo apaga: em doutrina, Jesus está mais próximo dos fariseus do que dos saduceus. A esperança da ressurreição, a existência de anjos e a vida de Deus com os mortos o aproximam do campo farisaico.

    Há ainda uma terceira diferença, que Josefo registra: os fariseus transmitiam regras 'recebidas dos pais' que não estavam escritas na lei de Moisés, enquanto os saduceus só reconheciam o que estava escrito. Marcos 7:3-5 menciona a 'tradição dos anciãos' sobre lavagens rituais. Essa diferença não é apenas técnica. Ela ensina que a pergunta 'como se aplica a Torá hoje?' tinha respostas conflitantes, e que a resposta de Jesus nem sempre coincidiu com a de um dos lados.

    Para conversar

    • O argumento de Jesus parte de e não de um texto mais explícito sobre ressurreição. O que isso sugere sobre o modo como ele lia a Torá?
    • Por que a pergunta dos saduceus funciona como piada e não como dúvida? Como reconhecer esse tipo de pergunta em debates de hoje?
    • Se Jesus está doutrinariamente mais perto dos fariseus em alguns pontos, por que a imagem popular dos fariseus é tão negativa?
    • mostra Paulo explorando uma divisão entre seus acusadores. Como você avalia essa atitude, e o que o texto sugere sobre ela?
  3. 3.Jesus entre os fariseus: mesas, sábados e disputas

    Os evangelhos mostram Jesus em contato frequente com os fariseus, e esse contato tem mais de uma face. Em Lucas, um fariseu o convida para jantar em Lucas 7:36, outro em 11:37 e outro em 14:1. Em Lucas 13:31, alguns fariseus o avisam de que Herodes quer matá-lo, gesto difícil de encaixar na ideia de um grupo unanimemente hostil. Em Marcos 12:28-34, um escriba que pergunta qual é o maior mandamento ouve de Jesus que 'não estás longe do reino de Deus'. Essa lista não anula as cenas de conflito; apenas mostra que elas acontecem dentro de uma relação.

    O conflito, por sua vez, tem temas recorrentes. O sábado é um deles: em Marcos 2:23-28 e 3:1-6, discute-se o que a Torá permite fazer no dia de descanso, e o relato conclui que fariseus e herodianos passaram a conspirar contra ele. Outro tema é a pureza das mãos e dos alimentos em Marcos 7. Um terceiro é a companhia: Jesus come com pecadores e cobradores de impostos, o que escandaliza em Lucas 15:1-2. Os evangelhos retratam essas disputas como debates sobre interpretação da Torá, e não como choque entre religião da lei e religião da graça.

    Alguns textos são particularmente delicados. Em Marcos 7:9-13 Jesus acusa seus interlocutores de usar o voto de 'corbã' para evitar sustentar os pais, e o argumento é feito dentro de uma discussão sobre a Escritura: ele cita o mandamento de honrar pai e mãe. Em Mateus 5:20 ele afirma que, se a justiça dos discípulos não superar a dos escribas e fariseus, não entrarão no reino. Quem lê isso como desprezo ignora que os fariseus eram, em muitos aspectos, o padrão de seriedade religiosa da época, e que a frase só tem força porque o padrão era alto.

    Lucas 18:9-14, a parábola do fariseu e do publicano, é frequentemente lida como retrato do grupo. O texto diz algo mais restrito: ela é dirigida a 'alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros'. O alvo é uma atitude que pode aparecer em qualquer pessoa religiosa, e a parábola só surpreende porque o ouvinte esperaria que o fariseu fosse o exemplo. A tradição ortodoxa, aliás, inaugura o ciclo litúrgico que prepara a Quaresma com esse texto, aplicando-o ao fiel, não ao outro.

    Para conversar

    • Que diferença faz ler os conflitos de Jesus com os fariseus como debate dentro da Torá, e não como choque entre duas religiões?
    • mostra fariseus avisando Jesus de um perigo. Que efeito essa cena tem sobre a imagem que você carregava do grupo?
    • A parábola de só funciona porque o fariseu parecia o modelo. Quem seria o 'fariseu' equivalente no seu ambiente, e por que é mais fácil apontar o fariseu dos outros?
    • usa os fariseus como padrão de justiça a ser superado. O que isso supõe sobre o respeito de Jesus por eles?
  4. 4.Mateus 23: lendo os 'ais' com cuidado

    Mateus 23 é o texto mais duro de Jesus contra um grupo, e por isso o mais usado e mais mal usado. Antes de interpretá-lo, convém ver como ele começa. Jesus fala 'às multidões e aos seus discípulos', e o primeiro conselho é surpreendente: os escribas e fariseus 'se assentaram na cadeira de Moisés; portanto, tudo o que vos disserem, fazei e guardai, mas não imiteis suas obras'. A autoridade do ensino é reconhecida; o que se critica é a distância entre o que se ensina e o que se pratica, e o gosto por títulos, lugares de honra e vestes vistosas (v. 5-12).

    Seguem os 'ais'. Conforme o texto grego que a maioria das edições críticas adota, são sete: fechar o reino diante das pessoas, converter alguém e torná-lo pior, jurar de modo casuístico, dizimar a hortelã e esquecer 'a justiça, a misericórdia e a fé', limpar o exterior do copo, ser sepulcro caiado, edificar túmulos dos profetas e herdar o sangue deles. Em v. 23, a crítica ao dízimo traz uma ressalva: 'estas coisas devíeis fazer, sem omitir aquelas'. Jesus não manda abandonar a observância; manda ordenar prioridades, com as mesmas palavras que os profetas usavam.

    O termo traduzido por 'hipócritas' vem do grego ὑποκριτής (hypokritḗs), que no uso clássico designa o ator que representa um papel. Não é ofensa genérica: descreve alguém cuja performance de piedade se descola daquilo que a motiva. A linguagem é dura, mas pertence a um gênero conhecido. Os profetas de Israel, os escritos de Qumran e, mais tarde, textos rabínicos criticam outros judeus com termos igualmente ásperos, e historiadores como Luke Timothy Johnson chamam a atenção para as convenções da polêmica antiga, em que a hipérbole era esperada.

    Há também uma questão de datação e contexto. Muitos estudiosos entendem que Mateus foi composto depois de 70, num momento em que a comunidade de Jesus e as lideranças farisaicas disputavam a herança de Israel. Se assim for, o capítulo reflete também essa tensão posterior, ainda que o texto atribua as palavras a Jesus. Essa hipótese é debatida. O capítulo termina com um lamento, não com uma condenação: 'Jerusalém, Jerusalém... quantas vezes quis eu reunir os teus filhos'.

    Para conversar

    • O que muda na leitura de ao notar que a primeira ordem é 'tudo o que vos disserem, fazei'?
    • Os 'ais' usam a linguagem dos profetas contra seus próprios líderes. Como distinguir crítica de dentro de uma comunidade e ataque de fora?
    • Se Mateus foi escrito num momento de disputa entre comunidades, como isso afeta a maneira de aplicar o capítulo hoje?
    • O capítulo termina com lamento. Que diferença esse fecho faz para o tom com que a passagem deveria ser lida em voz alta?
  5. 5.Nicodemos, Gamaliel e Paulo: fariseus que o estereótipo apaga

    Se os evangelhos fossem uma campanha contra os fariseus, não conservariam as figuras que se seguem. Nicodemos aparece em João 3 como 'fariseu, chefe dos judeus', que vai a Jesus à noite e abre a conversa reconhecendo que ele veio de Deus por causa dos sinais. A conversa que se segue, sobre nascer de novo, mostra alguém que não entende de imediato, mas que também não vai embora. Em João 7:50-51, no sinédrio, ele pergunta se a lei condena alguém sem antes ouvi-lo; em João 19:39, traz cerca de cem libras de mirra e aloés para o sepultamento. O texto não afirma que ele se tornou discípulo no sentido pleno, e as tradições divergem sobre como ler essa trajetória.

    Gamaliel é apresentado em Atos 5:34 como fariseu, doutor da lei, honrado por todo o povo. Diante da acusação contra os apóstolos, propõe que o conselho espere: se a obra vem de homens, desaparecerá, como ocorreu com outros movimentos; se vem de Deus, não poderão detê-la, 'para que não vos achem combatendo contra Deus'. Os exemplos que ele cita levantam problemas cronológicos que os historiadores discutem, mas a atitude registrada, a de moderação diante do que não se conhece, é nítida. Em Atos 22:3, Paulo diz ter sido educado 'aos pés de Gamaliel'.

    O próprio Paulo é a figura mais significativa. Em Filipenses 3:5-6 ele relaciona sua origem: circuncidado no oitavo dia, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, 'quanto à lei, fariseu'. Em Atos 26:5, diz que viveu como fariseu, a 'seita mais rigorosa'. Nada no tom de Paulo sugere que ele considere essa formação uma vergonha; na mesma passagem, o que ele passa a ver como perda é a confiança nesse histórico como base diante de Deus, não o histórico em si. Atos 15:5 mostra ainda que alguns fariseus faziam parte da comunidade cristã e levantaram, em Jerusalém, a questão de circuncidar os gentios.

    O que essas figuras ensinam é uma lição de método. O fariseu dos evangelhos não é uma única personagem: há opositores, há curiosos, há defensores moderados, há quem siga Jesus. Um estereótipo precisa que todos sejam iguais. O texto bíblico, em seu próprio interior, não permite isso.

    Para conversar

    • Nicodemos vai de noite. O texto não explica por quê. Que hipóteses você consideraria, e o que cada uma sugere sobre ele?
    • O conselho de Gamaliel pode ser lido como sabedoria ou como omissão. Em que situações atuais ele ajuda e em que situações falha?
    • Em , Paulo não nega seu passado fariseu; ele muda o lugar dele. O que significa mudar o lugar de uma identidade sem renegá-la?
    • Quando uma generalização sobre um grupo religioso é útil e quando passa a ser injusta? O que os textos desta parte sugerem como teste?
  6. 6.O debate: hipocrisia, antijudaísmo e o que muda na leitura

    O estereótipo do fariseu hipócrita tem história, e essa história não é inocente. Ao longo dos séculos, a leitura de Mateus 23, de João e de outros textos foi usada para sustentar a ideia de que 'os judeus' eram legalistas, cegos ou culpados coletivos. Essa leitura alimentou perseguições, expulsões e massacres, e mesmo grandes nomes da tradição cristã escreveram textos duros contra os judeus, como Lutero em Dos judeus e suas mentiras, de 1543. Não se trata de acusar a Bíblia, e sim de reconhecer que leituras descuidadas dela produziram dano real.

    Depois da Segunda Guerra, muitas igrejas revisaram essa herança. A declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II (1965), afirma em seu item 4 que o que se passou na paixão de Cristo não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus daquele tempo, nem aos de hoje. Em comunidades protestantes e ortodoxas há movimentos semelhantes. No campo acadêmico, estudos de E. P. Sanders, Anthony Saldarini e Amy-Jill Levine, esta última estudiosa judia do Novo Testamento, chamam a atenção para dois erros comuns: retratar o judaísmo do primeiro século como religião de mérito, e opor um Jesus 'de graça' a um judaísmo 'de lei'. Sanders propôs a expressão 'nomismo da aliança' para dizer que a obediência era vista como resposta à aliança já dada.

    As tradições divergem sobre o peso a dar aos textos duros. Leituras protestantes clássicas viram nos fariseus um tipo permanente da religião que confia em si mesma, e é por isso que Lutero e Calvino os usam como espelho. A visão católica pós-conciliar enfatiza que a crítica de Mateus 23 é intra-judaica e profética, e recusa a aplicação coletiva. A tradição ortodoxa usa a parábola de Lucas 18 como exame do próprio coração. Vozes judaicas lembram que o judaísmo rabínico posterior se desenvolveu em continuidade com o movimento farisaico, de modo que 'fariseu' não é um nome de um passado superado.

    Há, enfim, uma pergunta prática. Se os textos têm força, é porque tocam um risco real: a religião pode virar encenação. Esse risco, porém, não é de um povo, e sim de qualquer pessoa que ensina. Ler os fariseus bem exige duas coisas ao mesmo tempo: levar a sério a advertência e recusar usá-la contra os outros.

    Para conversar

    • Por que a mesma passagem pode servir para examinar a si mesmo ou para acusar os outros? O que decide qual uso prevalece?
    • Como uma comunidade pode manter a seriedade das advertências de Jesus sem repetir o dano histórico do antijudaísmo?
    • adverte os gentios contra a arrogância diante dos ramos naturais. O que esse texto acrescenta ao debate?
    • Qual é a diferença entre criticar uma atitude religiosa e desprezar um grupo? Dê exemplos da vida de hoje.

O que fica

  • Fariseus, saduceus, essênios e zelotes eram correntes de um judaísmo diverso e sem autoridade central; a maioria do povo não pertencia a nenhuma delas.
  • A disputa mais clara entre fariseus e saduceus era sobre ressurreição, anjos e tradição oral, e em doutrina Jesus ficava mais perto dos fariseus nos dois primeiros pontos.
  • Os evangelhos mostram Jesus à mesa, em debate e em conflito com fariseus; os conflitos são sobre como viver a Torá, dentro da própria tradição judaica.
  • reconhece a autoridade de ensino dos fariseus, usa a linguagem dos profetas e termina em lamento; a datação e o contexto do capítulo continuam debatidos.
  • Nicodemos, Gamaliel e Paulo impedem o estereótipo, e a história do antijudaísmo mostra por que a leitura precisa ser cuidadosa.

Aprofundamento

Três questões concentram o debate acadêmico e teológico, e vale separá-las.

A primeira é histórica: quão confiáveis são as descrições dos grupos? Josefo escreve com propósito apologético e adapta categorias; os evangelhos refletem a experiência de comunidades cristãs de décadas depois; as fontes rabínicas são tardias. Estudiosos como Jacob Neusner questionaram o quanto se pode saber dos fariseus antes de 70, enquanto outros, como E. P. Sanders, defendem que um retrato razoável é possível cruzando as fontes. O leitor deve saber que o consenso é limitado.

A segunda é exegética: como ler . Uma linha entende o capítulo como crítica profética dentro do judaísmo, comparável a ou , dirigida a líderes específicos e a uma atitude. Outra enfatiza o contexto pós-70, em que a comunidade de Mateus disputava com lideranças farisaicas a herança de Israel, o que explicaria parte da dureza. Uma terceira, mais tradicional entre protestantes, lê os 'ais' como tipo de toda religiosidade que confia em si mesma. Os três modos não se excluem por completo, e o texto sustenta partes de cada um. pede obediência ao ensino dos escribas e fariseus, e usa a justiça deles como padrão; qualquer leitura que ignore isso perde algo.

A terceira é teológica: o que fazer com a história do antijudaísmo. O Vaticano II (Nostra Aetate, 1965), muitas declarações protestantes posteriores e a pesquisa de Levine e Saldarini convergem em recusar a ideia de culpa coletiva e a caricatura do judaísmo como religião de mérito. Isso não elimina a pergunta de fundo, que as tradições respondem de modos distintos: o que significa, para a fé cristã, que Jesus tenha entrado em debate com seus contemporâneos sobre quem ele era? A resposta católica, ortodoxa, protestante e judaica diverge, e este estudo apenas apresenta essa divergência.

Há ainda uma quarta questão, menor, mas que o leitor atento notará: o que exatamente os fariseus esperavam. Josefo descreve a crença farisaica em termos que lembram a filosofia grega, com almas que passam a outro corpo, enquanto o Novo Testamento e a literatura rabínica falam de ressurreição dos mortos. Se Josefo adaptou o vocabulário ao público romano ou registra uma variação real é discutido, e por isso o estudo evita afirmar mais do que as fontes permitem sobre os detalhes dessa esperança.

Uma advertência final: a Bíblia não pede que o leitor ria dos fariseus. Ela pede que ele se reconheça em algumas das cenas, e esse movimento é o contrário da caricatura.

O que costumam dizer errado

  • Dizem que:Todos os fariseus eram hipócritas e inimigos de Jesus.

    Os evangelhos mostram fariseus convidando Jesus para jantar (; 14:1), avisando-o do perigo de Herodes () e, no caso de Nicodemos, defendendo que ele fosse ouvido (). apresenta Gamaliel como moderado, e Paulo se descreve fariseu em . critica uma atitude de líderes específicos, não o grupo como um todo.

  • Dizem que:Fariseus e saduceus eram partidos políticos ou denominações com doutrinas fixas.

    Eram correntes de um judaísmo sem autoridade central, com perfis diferentes: os saduceus mais ligados ao templo e ao sacerdócio, os fariseus de influência popular. Josefo os apresenta como escolas filosóficas por adaptação ao público romano. A maior parte do povo não pertencia a nenhum deles.

  • Dizem que:O judaísmo do primeiro século era uma religião de salvação por obras, contra a qual Jesus e Paulo teriam proposto a graça.

    A pesquisa recente, a partir de E. P. Sanders, mostra que o judaísmo da época entendia a obediência como resposta à aliança já dada por Deus. Opor 'lei' a 'graça' como se fossem duas religiões é uma leitura posterior, e não consta nos textos. As tradições cristãs discutem como Paulo se relaciona com isso, mas não é mais possível sustentar a caricatura sem ressalvas.

  • Dizem que:Os essênios e os zelotes aparecem nos evangelhos como grupos rivais de Jesus.

    Os essênios não são mencionados no Novo Testamento. Quanto aos zelotes, Simão, um dos Doze, é chamado 'o Zelote' (), mas os estudiosos discutem se isso indica um partido organizado ou zelo religioso, já que Josefo usa o nome para facções da guerra contra Roma, a partir de 66.

Como diferentes tradições cristãs leem

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Desde o Vaticano II, a Nostra Aetate (1965) afirma que a paixão de Cristo não pode ser imputada indistintamente a todos os judeus de então nem aos de hoje. Textos como são lidos como crítica profética dentro do judaísmo, dirigida a atitudes, e não como julgamento sobre um povo. Os fariseus são vistos como parte de um judaísmo vivo, em continuidade com a tradição rabínica.

  • Protestante clássica (luterana e reformada)

    Tende a usar os fariseus como espelho de toda religiosidade que confia na própria justiça, a partir da parábola de e de . A ênfase está em que o perigo vale para o crente. Os reformadores estabeleceram esse uso, e parte dos protestantes contemporâneos o corrige, depois da pesquisa sobre o judaísmo do Segundo Templo, para não aplicá-lo ao judaísmo histórico.

  • Ortodoxa

    Lê a parábola do fariseu e do publicano como exame de consciência pessoal, e dedica a ela o domingo que abre o período litúrgico de preparação para a Quaresma. O acento recai no risco da soberba espiritual em qualquer fiel, mais do que em um retrato histórico dos fariseus.

  • Nova Perspectiva sobre Paulo e pesquisa acadêmica

    A partir de E. P. Sanders, entende que o judaísmo da época se via dentro da aliança graciosa de Deus, com a obediência como resposta. Isso muda a leitura de Paulo e dos conflitos com os fariseus: o debate seria sobre fronteiras da aliança e o lugar dos gentios, mais do que sobre mérito. Há críticas a essa proposta em círculos reformados e católicos.

  • Judaica

    O judaísmo rabínico entende-se como continuação, em larga medida, do movimento farisaico. Estudiosos judeus, como Amy-Jill Levine, pedem que os cristãos leiam as críticas dos evangelhos como debate interno e evitem reduzir o judaísmo a caricatura. A historicidade e a datação de cada cena são discutidas por diferentes autores.

O que fazer com isso

Antes de usar a palavra 'fariseu' como acusação, pergunte três coisas: de quem o texto está falando, a quem Jesus está falando e o que ele quer que o ouvinte faça. Em seguida, aplique a advertência primeiro a si mesmo, e só depois a qualquer outra pessoa. Se a leitura servir apenas para desqualificar um grupo, é provável que o texto tenha sido lido ao contrário.

Perguntas frequentes

Qual era a diferença principal entre fariseus e saduceus?
resume: os saduceus diziam que não havia ressurreição, nem anjo, nem espírito, e os fariseus afirmavam todas essas coisas. Segundo Josefo, havia ainda a questão da tradição oral, aceita pelos fariseus e rejeitada pelos saduceus, que se ligavam ao templo e à aristocracia sacerdotal.
Paulo era fariseu?
Sim. Em ele diz que, quanto à lei, era fariseu, e em declara ser fariseu e filho de fariseus. diz que foi educado aos pés de Gamaliel, outro fariseu.
Jesus condenou todos os fariseus em Mateus 23?
O capítulo reconhece a autoridade de ensino dos escribas e fariseus em v. 2-3 e critica a distância entre ensino e prática. Os evangelhos mostram também fariseus que o convidam, o avisam de perigo ou o defendem. A leitura mais cuidadosa evita estender a crítica a todos.
Quem eram os essênios e os zelotes?
Os essênios, descritos por Josefo, viviam em comunidades de rigor ritual e não são citados no Novo Testamento. Os zelotes, no sentido estrito, foram grupos da revolta contra Roma; Simão, um dos Doze, é chamado 'o Zelote', mas os estudiosos debatem o que isso indica.

Fontes consultadas

  • Flávio Josefo. Guerra Judaica, 75.
  • Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 94.
  • Anthony J. Saldarini. Pharisees, Scribes and Sadducees in Palestinian Society, 1988.
  • E. P. Sanders. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE–66 CE, 1992.
  • Amy-Jill Levine. The Misunderstood Jew, 2006.
  • Concílio Vaticano II. Nostra Aetate, 1965.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Temas

Publicado em 13/11/2026

Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 6 obras citadas, com autor e ano
  • 4 afirmações populares checadas e refutadas
  • 5 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.