Entre os testamentos: 400 anos de silêncio que prepararam Jesus
o que aconteceu entre o antigo e o novo testamento
Resposta curta
Entre Malaquias e Mateus passam-se cerca de quatro séculos que a Bíblia protestante não narra, mas que mudaram tudo o que o leitor encontra nos evangelhos. Persas, Alexandre e seus sucessores, a perseguição de Antíoco IV, a revolta dos macabeus, a dinastia hasmoneia, o domínio de Roma e o reinado de Herodes formam o pano de fundo político. Dele saem a Septuaginta, a sinagoga, os partidos judaicos e as esperanças messiânicas. Este estudo percorre o período em seis partes, do contexto histórico à pergunta sobre quais livros pertencem à Escritura, e mostra onde as tradições cristãs divergem sobre os livros deuterocanônicos, sem tomar partido onde o debate é real.
Em palavras simples
Entre o último livro do Antigo Testamento e o primeiro do Novo passaram-se cerca de quatrocentos anos. Nesse tempo, a Judeia foi dominada pelos persas, pelos gregos e depois pelos romanos. Surgiram a tradução grega da Bíblia, a sinagoga, os fariseus e os saduceus, e uma revolta famosa, a dos macabeus. As pessoas esperavam um salvador, mas imaginavam coisas diferentes. Quando Jesus aparece, tudo isso está em volta dele. As igrejas também discordam sobre alguns livros escritos nesse período.
Antes de começar
O Antigo Testamento hebraico termina com o retorno do exílio e as reformas de Esdras e Neemias, por volta do século V a.C. O Novo Testamento começa em um mundo que já não é o dele. Entre os dois, o território de Judá passa por quatro regimes: o persa, o helenístico (primeiro sob os ptolomeus do Egito, depois sob os selêucidas da Síria), o hasmoneu, que foi um breve período de autonomia, e o romano, no qual Herodes reina como rei aliado.
Nesse tempo, a língua comum se torna o grego, e a Bíblia hebraica é traduzida na Septuaginta. A tradição, segundo a Carta de Aristeias, atribui a tradução a setenta e dois sábios em Alexandria, mas os historiadores a consideram em parte lenda. A sinagoga se firma como centro de leitura e ensino, e o templo de Jerusalém continua como centro do culto, até ser destruído por Roma em 70 d.C.
A crise mais grave foi a de Antíoco IV Epifânio, que em 167 a.C. proibiu práticas judaicas e profanou o templo. A revolta liderada por Judas Macabeu resultou na purificação do templo em 164 a.C., lembrada em Hanucá. é lido pelas tradições de modos diferentes: como predição feita séculos antes ou como visão composta durante essa crise.
Dessas décadas nascem correntes como fariseus, saduceus, essênios e, em sentido mais discutido, zelotes, cada uma com uma resposta própria ao domínio estrangeiro e à helenização. Crescem também a literatura apocalíptica e variadas esperanças messiânicas: rei davídico, sacerdote ungido, profeta como Moisés e o Filho do Homem de .
Por fim, circulam livros que algumas tradições chamam de deuterocanônicos e outras de apócrifos. A divergência sobre eles é um dos temas em que católicos, ortodoxos e protestantes continuam a discordar, e a Bíblia não resolve a questão por si mesma. Todos esses elementos formam o ambiente em que Jesus nasce, ensina e é recebido.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO período entre os testamentos prepara uma pergunta, não uma resposta: quem virá, e de que modo? O Novo Testamento afirma que a espera termina em uma pessoa e que o tempo estava maduro. Paulo diz isso com a expressão “plenitude do tempo”, e os evangelhos mostram Jesus respondendo a esperanças reais de seu tempo, ao mesmo tempo que as corrige, pois o Messias que aparece sofre, e não só reina.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O silêncio que não foi silêncio
A expressão “quatrocentos anos de silêncio” é conveniente e pouco exata. Ela descreve o que falta numa Bíblia protestante comum: depois de Malaquias, as páginas viram e já se está em Mateus. Mas o intervalo não foi vazio de história, nem de escrita. Foi um dos períodos mais agitados do povo judeu, e o mundo que Jesus encontra, com suas línguas, partidos e esperanças, só se explica por ele. O que cessou, na leitura de vários textos da época, foi a profecia no estilo antigo: 1 Macabeus 9:27 fala de uma aflição como não havia desde que deixou de aparecer profeta entre eles.
O ponto de partida é o retorno do exílio. Ciro, rei da Pérsia, permite a volta dos judeus em torno de 539 a.C. (Esdras 1:1-4), e Judá vive pouco mais de dois séculos como província do império persa, governada com certa tolerância religiosa. Esdras, Neemias, Ageu, Zacarias e Malaquias pertencem a esse tempo. Os persas deixam o templo ser reconstruído e a Torá ser lida publicamente (Neemias 8), mas não há rei da linhagem de Davi. Israel volta à terra sem voltar à glória descrita pelos profetas, e a pergunta “quando isso se cumprirá?” fica no ar.
Em 334 a.C., Alexandre da Macedônia começa a conquista do Oriente. Em poucos anos o domínio persa acaba, e Alexandre morre em 323 a.C. sem herdeiro adulto. Seus generais dividem o território, e a Judeia fica entre dois reinos rivais: os ptolomeus, no Egito, e os selêucidas, na Síria. Primeiro os ptolomeus controlam a região; por volta de 200 a.C. ela passa aos selêucidas. Estar no meio significava ser território de passagem, de tributo e de guerra, algo que o livro de Daniel descreve em linguagem de visão.
A consequência cultural é o helenismo: o grego como língua comum, cidades no modelo grego, ginásios, teatro, filosofia e moeda. Nem tudo era hostil, e muitos judeus adotaram o grego com naturalidade. A questão que atravessa todo o período é quanto dessa cultura um judeu fiel podia absorver sem deixar de ser judeu. Os capítulos seguintes mostram respostas muito diferentes, algumas violentas.
O leitor do Novo Testamento herda essa tensão sem que ela seja explicada. Por isso um estudo sobre o intervalo não acrescenta informação ao cânon; ele devolve ao leitor o pano de fundo que os primeiros ouvintes já conheciam.
Para conversar
- Se a profecia no estilo antigo parou, o que significa chamar esse tempo de “silêncio”? Quem fala e quem deixa de falar?
- O retorno do exílio não trouxe a glória que os profetas descreveram. Como um povo continua esperando quando o cumprimento parece atrasado?
- Até onde uma cultura dominante pode ser usada, e a partir de onde ela passa a ameaçar a fé de quem a adota? Onde você traçaria essa linha hoje?
2.Uma Bíblia em grego e uma casa de reunião
Uma das heranças mais duradouras do período é linguística. Com a conquista de Alexandre e o comércio do Mediterrâneo, comunidades judaicas se espalham de Alexandria à Ásia Menor, e muitas delas já não leem hebraico com facilidade. O grego é a língua das ruas, dos contratos e, cada vez mais, da oração. É nesse contexto que nasce a Septuaginta, a tradução das Escrituras de Israel para o grego.
A tradição sobre sua origem aparece na Carta de Aristeias, texto antigo segundo o qual setenta e dois sábios foram enviados de Jerusalém a Alexandria, no reinado de Ptolomeu II, para traduzir a Lei. Os historiadores tratam o relato com cautela, porque ele tem feição de lenda e interesse de propaganda. O que parece firme é que a Torá foi traduzida em Alexandria no século III a.C., e que os demais livros foram vertidos nas gerações seguintes, por mãos diferentes e com qualidade desigual. O nome vem do número setenta, e a abreviatura é LXX.
Isso importa para o Novo Testamento. Quando os autores neotestamentários citam o Antigo Testamento, muitas vezes o fazem em forma próxima à da Septuaginta. O caso mais discutido é Mateus 1:23, que cita Isaías 7:14 com a palavra grega parthenos, “virgem”, onde o hebraico traz almah, termo para uma jovem. Tradições diferentes avaliam esse detalhe de maneiras diferentes, e o debate é legítimo; o que ele mostra é que os primeiros cristãos liam a Bíblia que tinham à mão, e essa era uma Bíblia em grego.
Ao lado do livro, havia o lugar. A sinagoga, palavra grega que significa reunião, é o outro grande fruto do intervalo. Sua origem exata é incerta: alguns a associam ao exílio babilônico, outros ao período helenístico, e a evidência arqueológica mais clara vem de séculos depois. O que se vê no Novo Testamento é uma instituição consolidada, em que a Lei e os Profetas eram lidos e comentados no sábado (Lucas 4:16-21; Atos 13:15). Sem templo, sem sacrifício e sem sacerdote, qualquer grupo com dez homens adultos, segundo a prática posterior, podia manter a vida religiosa.
Paulo depende dessas duas heranças. Em cada cidade que visita, começa pela sinagoga, onde encontra judeus e também gentios simpatizantes, os chamados “tementes a Deus”, e encontra a Escritura já em grego. A pregação cristã se espalha pelo mundo mediterrâneo por um caminho que o intervalo havia aberto.
Para conversar
- Uma tradução pode se tornar Escritura para um povo antes de qualquer decisão oficial. O que isso diz sobre a relação entre texto, língua e comunidade?
- Os apóstolos citam a Septuaginta e não apenas o hebraico. Isso muda a forma como você pensa sobre qual texto “original” é o que importa?
- A sinagoga sobreviveu sem templo. Que formas de vida de fé podem continuar quando o centro simbólico de uma comunidade é perdido?
3.Antíoco, os macabeus e os hasmoneus
O episódio mais traumático do intervalo é a perseguição de Antíoco IV Epifânio, rei selêucida que governou de 175 a 164 a.C. As fontes principais são 1 e 2 Macabeus, livros que o cânon protestante não inclui, e o historiador Josefo, que escreve muito tempo depois. Segundo esses relatos, parte da elite de Jerusalém quis adotar costumes gregos, o sumo sacerdócio passou a ser disputado por dinheiro e, em 167 a.C., Antíoco proibiu a circuncisão, o sábado e a leitura da Torá, e instalou um altar pagão sobre o altar dos holocaustos. Foi a isso que 1 Macabeus 1:54 chamou de “abominação da desolação”.
A expressão vem de Daniel (Daniel 9:27; 11:31; 12:11). O capítulo 11 descreve, em detalhes impressionantes, uma sucessão de reis do norte e do sul, e culmina num rei que profana o santuário e persegue os fiéis. Aqui as tradições de leitura se separam. Muitos estudiosos históricos situam a redação final do livro no século II a.C., durante essa crise, e leem o capítulo como descrição dos acontecimentos seguida de visão do fim. Intérpretes conservadores sustentam uma data no século VI a.C. e leem os mesmos versículos como predição verdadeira. O texto, em si, não traz data, e a divergência se resolve menos pela exegese do que por pressupostos sobre profecia.
A reação veio de uma família de sacerdotes. Matatias, em Modin, recusa oferecer sacrifício pagão, e seu filho Judas, chamado Macabeu, lidera uma guerrilha que reconquista Jerusalém. Em 164 a.C. o templo é purificado e rededicado, evento lembrado na festa de Hanucá, que João 10:22 menciona como “Festa da Dedicação”. É um dos poucos pontos em que o Novo Testamento toca diretamente esse período.
Os descendentes de Matatias fundam a dinastia hasmoneia, que governou a Judeia como sumo sacerdócio e, depois, como reino, até 63 a.C. O resultado foi ambíguo. Havia independência política, que não se via desde o exílio, mas os hasmoneus acumularam os cargos de rei e sacerdote sem serem da linhagem de Davi nem da de Zadoque, expandiram o território à força e se envolveram em guerras civis. Muitos judeus piedosos reagiram com desencanto, e dessa decepção sairão vários dos grupos do próximo capítulo.
Para conversar
- pode ser lido como predição ou como história contada em forma de visão. O que muda, na sua leitura, em cada caso, e o que permanece?
- Resistir a uma perseguição com armas e resistir sem elas são respostas diferentes. Que textos bíblicos sustentam cada uma, e quais os limites de cada uma?
- A independência dos hasmoneus decepcionou muita gente piedosa. O que acontece com a fé quando uma esperança se realiza de forma politicamente ambígua?
4.Roma, Herodes e os partidos judaicos
Em 63 a.C., o general romano Pompeu entra em Jerusalém, intervém numa disputa entre dois irmãos hasmoneus e coloca a Judeia sob a órbita de Roma. A autonomia dura pouco. Roma governa por intermediários, e o mais conhecido é Herodes, o Grande, nomeado rei pelo senado romano em 40 a.C. e dono efetivo do trono em 37 a.C., onde permaneceu até 4 a.C. Era idumeu de origem, a serviço de Roma, famoso por obras monumentais e por violência doméstica. Reconstruiu o templo de Jerusalém em escala grandiosa e, segundo Mateus 2, reagiu com brutalidade à notícia de um rei nascido em Belém. É o rei sob o qual o Novo Testamento abre.
Depois dele, o reino é dividido entre seus filhos, e a Judeia passa a ser governada por prefeitos romanos, como Pôncio Pilatos. O imposto romano, o recenseamento e a presença de soldados pesam sobre a vida cotidiana e alimentam o debate sobre pagar ou não tributo a César (Marcos 12:13-17).
Nesse ambiente, o judaísmo se organiza em correntes. Josefo descreve três ou quatro delas, e o Novo Testamento menciona algumas. Os fariseus davam grande peso à interpretação da Torá, preservada também em tradições orais, e acreditavam em ressurreição, anjos e destino final. Os saduceus, ligados à aristocracia sacerdotal do templo, aceitavam apenas a Torá escrita e negavam a ressurreição (Marcos 12:18; Atos 23:8). Os essênios, descritos por Josefo e Plínio, aparecem como comunidades que se afastaram do templo por considerá-lo corrompido. Muitos estudiosos os associam aos manuscritos do mar Morto e ao assentamento de Qumran, hipótese majoritária mas debatida. Os zelotes são o caso mais incerto: Lucas 6:15 menciona um discípulo chamado Simão, o zelote, mas é discutido se já havia um partido organizado com esse nome antes da guerra contra Roma, em 66–70 d.C. Seja como for, a atitude existia: o zelo violento pela Lei e contra o domínio estrangeiro.
Alguns cuidados ajudam. Os evangelhos retratam principalmente o conflito de Jesus com fariseus e escribas, e essa ênfase reflete o que os autores querem destacar, não um julgamento sobre o fariseísmo inteiro, que também produziu mestres admiráveis. E essas correntes não esgotam o povo: a maior parte vivia do campo, da pesca e do artesanato, sem partido algum.
Para conversar
- Cada grupo respondia ao domínio estrangeiro de um modo: adaptar-se, separar-se, resistir ou reinterpretar. Qual dessas respostas você reconhece nos debates religiosos de hoje?
- Os evangelhos criticam duramente alguns fariseus, mas Paulo e Nicodemos também eram ligados ao mundo farisaico. Como ler essas críticas sem generalizar?
- Pagar impostos a um poder que se considera ilegítimo é uma pergunta antiga. O que permite dizer, e o que deixa em aberto?
5.O que Israel esperava
Sob esse peso político, o desejo de libertação se transforma em literatura. Muita coisa que hoje chamamos de “esperança messiânica” não aparece como um sistema único, e sim como um conjunto de expectativas que se sobrepõem e às vezes se contradizem. É fácil ler o Novo Testamento supondo que todo judeu do século I esperava a mesma figura. Os textos não permitem essa simplificação.
A linha mais forte é a do rei davídico. Promessas como as de 2 Samuel 7 e Isaías 11 alimentavam a expectativa de um descendente de Davi que restauraria Israel. Os Salmos de Salomão, composição judaica do século I a.C., descrevem esse rei em tom militar e moral, depois da decepção com os hasmoneus. Ao lado dele havia outras imagens: um sacerdote ungido, nos textos de Qumran, que falam em mais de um messias; um profeta como Moisés, prometido em Deuteronômio 18:15, a quem o povo pergunta se João Batista é (João 1:21); e a figura de “um como filho de homem” de Daniel 7:13-14, que em textos como as Parábolas de Enoque ganha traços de juiz celestial. Nem todos, porém, esperavam um messias: algumas correntes, ao que parece, pensavam mais no reino de Deus em si do que numa figura central.
Cresce também a literatura apocalíptica, gênero que revela, por visões, o que está por trás da história. Daniel é o exemplar canônico mais conhecido; fora do cânon da maioria das igrejas, estão 1 Enoque e outras obras. Ela ensina a ler a opressão presente como transitória e promete que Deus vai intervir. É nesse período que a ressurreição dos mortos ganha lugar: Daniel 12:2 é o texto antigo mais claro, e 2 Macabeus 7 a mostra na boca de mártires que esperam que Deus lhes devolva o corpo.
Quando o Novo Testamento abre, esse vocabulário é corrente. As multidões pedem sinais, perguntam se o reino será restaurado (Atos 1:6), e discípulos de Jesus discutem posições no trono. A mensagem cristã, por sua vez, não nega essa esperança: afirma que ela foi cumprida de um modo que ninguém havia previsto por inteiro, em um Messias que sofre. Esse é o ponto em que o intervalo deixa de ser pano de fundo e passa a ser parte do argumento, tema desenvolvido em outros estudos sobre o Messias.
Para conversar
- Se os contemporâneos de Jesus tinham esperanças diferentes entre si, o que muda na leitura das reações a ele nos evangelhos?
- A literatura apocalíptica ensina a esperar em meio à opressão. Que lugar essa forma de esperança tem na sua vida e comunidade hoje?
- A crença na ressurreição se firma no período do intervalo. Por que talvez tenha sido preciso um tempo de sofrimento para que essa ideia ganhasse força?
6.Livros, tradições e a plenitude do tempo
A literatura do intervalo deixa uma pergunta que as igrejas respondem de formas diferentes: quais desses livros pertencem à Escritura? Entre o fim do Antigo Testamento hebraico e o Novo, circulavam obras como Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirácida), Baruque e 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos a Ester e Daniel. Muitas chegaram até nós pela Septuaginta, em grego, e não pelo hebraico.
A Igreja Católica chama esses textos de deuterocanônicos, “do segundo cânon”, e os reconheceu formalmente no Concílio de Trento, em 1546, embora seu uso fosse muito anterior. As igrejas ortodoxas também os aceitam e, conforme a tradição, incluem outros, como 3 Macabeus ou o Salmo 151. As igrejas oriundas da Reforma, em sua maioria, seguem o cânon hebraico e chamam o conjunto de apócrifos; Lutero os incluiu em sua tradução como livros “úteis e bons de ler”, sem os tratar como regra de fé, e a posição anglicana é parecida. Já Jerônimo, tradutor da Vulgata, distinguia entre o que a Igreja lê para edificação e o que usa para estabelecer doutrina. O debate, portanto, é antigo, e não se resume a uma invenção de nenhum lado.
Os argumentos de cada posição são reais. Quem defende a inclusão aponta o uso da Septuaginta pela igreja primitiva e ecos no Novo Testamento, como Hebreus 11:35, frequentemente comparado a 2 Macabeus 7. Quem defende a exclusão aponta que o judaísmo palestino não os reconheceu como Escritura, que o Novo Testamento não os cita como “está escrito”, e que alguns trechos ensinam práticas, como a oração pelos mortos em 2 Macabeus 12:43-45, que as tradições reformadas rejeitam. Judas 14-15, por sua vez, cita 1 Enoque, que quase nenhuma tradição inclui no cânon, o que mostra que ser citado e ser canônico não são a mesma coisa. Esses pontos aparecem com mais detalhe no estudo sobre o cânon.
No fim, Paulo resume o que o intervalo significa para a fé cristã: “vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho” (Gálatas 4:4). Há um grego comum, uma estrada romana, uma sinagoga em cada cidade e uma Escritura traduzida. Isso não prova que tudo foi planejado em cada detalhe, e a Bíblia não faz esse argumento; ela diz apenas que, na leitura de Paulo, o tempo certo havia chegado.
Para conversar
- Se a igreja primitiva leu livros que mais tarde ficaram fora de alguns cânones, o que se ganha e o que se perde ao ler esses livros hoje?
- Judas cita 1 Enoque, mas quase nenhuma tradição o considera Escritura. O que isso ensina sobre a diferença entre citar, valorizar e canonizar?
- Paulo fala de “plenitude do tempo”. Que cuidado é preciso para ler essa expressão sem afirmar mais do que o texto diz sobre o plano de Deus na história?
- Em que medida conhecer o contexto histórico enriquece a leitura do Novo Testamento, e em que medida corre o risco de substituí-lo?
O que fica
- O intervalo entre os testamentos não foi silêncio de história: foi o período em que se formaram o grego bíblico, a sinagoga, os partidos judaicos e as esperanças que os evangelhos pressupõem.
- A Septuaginta era a Bíblia de grande parte do mundo de Jesus, e o Novo Testamento a cita com frequência. Sua origem lendária não deve ser confundida com sua origem histórica.
- Sobre , a data do livro e os livros deuterocanônicos, as tradições divergem de modo real, e cada uma tem argumentos sérios que merecem ser ouvidos.
- O Novo Testamento não diz que o intervalo foi planejado em cada detalhe, mas afirma que o tempo estava maduro; a esperança de Israel foi cumprida de modo inesperado.
Aprofundamento
Três discussões concentram o que há de mais disputado no estudo do período, e vale nomeá-las com precisão.
A primeira é a data e a natureza do livro de Daniel. Os capítulos 8 e 11 descrevem com detalhe a sucessão de reis persas, gregos e selêucidas, até um rei que profana o templo. A maior parte da crítica histórica data a forma final do livro em torno de 165 a.C., e entende os capítulos como relato de acontecimentos já ocorridos, vestido de visão. Leitores conservadores, de várias tradições, mantêm uma data no século VI a.C. e entendem o texto como profecia genuína de eventos futuros. O texto não traz uma data de composição, e nenhum dos lados dispõe de prova decisiva. Os dois reconhecem, porém, que a perseguição de Antíoco IV é o ponto de referência histórico mais claro de .
A segunda é a identidade dos grupos judaicos. Nossas fontes principais são Josefo, escrito depois do fato, e o Novo Testamento, que tem seus próprios interesses. A ligação entre essênios e Qumran é hipótese majoritária, mas não unânime, e alguns estudiosos preferem ver os manuscritos como biblioteca de origens variadas. Quanto aos zelotes, discute-se se foram um partido antes de 66 d.C. Convém falar de tendências, e não de partidos fechados.
A terceira é o cânon. A tradição católica, apoiada em Trento (1546), inclui os deuterocanônicos; a ortodoxa os aceita, com variações; as igrejas reformadas e a maior parte do protestantismo seguem o cânon hebraico. Jerônimo, no século IV, distinguia entre o hebraico e o grego e expressava reservas. Lutero os separou em seção própria. O argumento histórico é que, no tempo de Jesus, não havia lista fechada, e a Septuaginta circulava com contornos variáveis. O argumento contrário aponta que o judaísmo palestino operava com um conjunto mais restrito. O Novo Testamento cita a Septuaginta com frequência, mas não cita os deuterocanônicos como Escritura de modo claro, e isso é lido de formas diferentes.
Uma quarta cautela é metodológica: os livros dos macabeus e Josefo escrevem do ponto de vista de um dos lados, e relatos de martírio e de vitória tendem a engrandecer os fatos. Usá-los como fonte exige o mesmo cuidado que se tem com qualquer narrativa de guerra.
Há ainda a pergunta teológica de fundo: o intervalo foi preparação providencial ou apenas história? Paulo fala de “plenitude do tempo” (), mas não explica o que o compõe. Dizer que o helenismo e a estrada romana foram planejados para o evangelho é uma interpretação posterior, plausível para muitos, mas que o texto não afirma.
O que costumam dizer errado
Dizem que:Durante os quatrocentos anos entre os testamentos não aconteceu nada, e Deus ficou completamente em silêncio.
O período foi um dos mais movimentados da história judaica: houve a conquista de Alexandre, a tradução da Septuaginta, a perseguição de Antíoco IV, a revolta macabeia, a independência hasmoneia e a chegada de Roma. O que se pode dizer é que não surgiu nenhum livro profético reconhecido por todas as tradições, e que os próprios textos da época falam de ausência de profetas. “Silêncio” descreve a falta de livros no cânon protestante, não a falta de história nem de vida religiosa.
Dizem que:A Septuaginta foi traduzida em setenta dias por setenta e dois sábios, todos concordando palavra por palavra.
Essa é a versão lendária da Carta de Aristeias. Os historiadores concluem que a Torá foi traduzida em Alexandria no século III a.C. e que o restante foi traduzido depois, por tradutores diferentes, com qualidade desigual. Não existe uma única Septuaginta uniforme: os manuscritos variam, e as diferenças em relação ao texto hebraico são parte do que se discute.
Dizem que:Os fariseus eram simplesmente hipócritas, e todos os judeus daquele tempo pensavam como eles.
Os evangelhos criticam atitudes de alguns fariseus, mas o grupo era diverso, e Nicodemos, Gamaliel e o próprio Paulo aparecem ligados a ele de forma positiva ou neutra. Além disso, os fariseus eram só uma das correntes ao lado de saduceus, essênios e da maioria do povo sem partido. Generalizar a crítica de alguns trechos para um grupo inteiro é ler o texto além do que ele diz.
Dizem que:Os livros deuterocanônicos foram acrescentados à Bíblia católica no século XVI para responder a Lutero.
Trento definiu o cânon em 1546, em contexto de controvérsia, mas esses livros já circulavam na Septuaginta e na Vulgata e eram lidos na liturgia havia séculos. O que Trento fez foi declarar de forma solene uma lista. Por outro lado, não é correto dizer que a Reforma “retirou” livros que sempre tiveram o mesmo estatuto: o debate sobre eles é muito anterior, e Jerônimo já fazia distinções.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
Reconhece como Escritura inspirada os livros deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 e 2 Macabeus e acréscimos a Ester e Daniel), definidos por Trento em 1546. Vê o uso da Septuaginta pelos primeiros cristãos como argumento a favor do cânon mais amplo e vê no intervalo uma preparação providencial para a vinda de Cristo.
Ortodoxa
Também aceita os livros do cânon mais amplo, com variações entre as igrejas, que podem incluir 3 Macabeus, 1 Esdras ou o Salmo 151. Dá grande peso à Septuaginta como texto do Antigo Testamento usado na igreja primitiva e na liturgia, e trata o cânon como algo recebido pela vida da Igreja, não definido por um decreto único.
Protestante histórica (luterana, reformada, anglicana)
Segue o cânon hebraico para fixar doutrina e chama os demais de apócrifos. Lutero os incluiu em sua Bíblia como livros úteis e bons de ler, mas fora da regra de fé; a Confissão de Westminster (1646) os considera sem autoridade, enquanto o Artigo VI anglicano permite lê-los para exemplo de vida, mas não para estabelecer doutrina. Nessa leitura, o intervalo é história relevante, não revelação.
Judaica
Não reconhece os deuterocanônicos como Escritura e fixa o cânon hebraico, tradicionalmente associado à consolidação rabínica depois de 70 d.C. Os livros dos macabeus são lembrados pela história e por Hanucá, mas não fazem parte do Tanakh. A tradição rabínica continua a corrente farisaica.
Crítica histórica acadêmica
Estuda o período a partir de fontes como Josefo, Macabeus e os manuscritos do mar Morto, sem pressupor uma posição de fé. Costuma datar a forma final de Daniel no século II a.C. e tratar as correntes judaicas como tendências fluidas. Reconhece o valor do material para entender o Novo Testamento, mas suas conclusões sobre datas e autoria são contestadas por leitores conservadores.
O que fazer com isso
Ao ler os evangelhos, pergunte quem está falando e a partir de qual esperança. Um fariseu, um saduceu, um zelote e um pescador da Galileia ouviam as mesmas palavras de Jesus com expectativas diferentes. Reconhecer isso evita ler o texto como se todos pensassem como nós, e ajuda a perceber por que algumas respostas de Jesus surpreendem tanto quanto surpreenderam.
Perguntas frequentes
- Houve mesmo 400 anos de silêncio entre os testamentos?
- O número é redondo, mas serve como aproximação entre Malaquias, por volta do século V a.C., e o início do Novo Testamento. O silêncio é de livros reconhecidos como profecia, não de história: houve conquistas, perseguições, revoltas e muita produção literária judaica, dentro e fora do cânon.
- O que é a Septuaginta e por que ela importa?
- É a tradução grega das Escrituras de Israel, feita em Alexandria a partir do século III a.C. Importa porque era a Bíblia de muitos judeus de fala grega e porque os autores do Novo Testamento a citam com frequência. Sua origem lendária, de setenta e dois tradutores, é contada na Carta de Aristeias.
- Por que a Bíblia católica tem mais livros que a protestante?
- Porque a tradição católica inclui os deuterocanônicos, que vieram da Septuaginta, enquanto as igrejas da Reforma seguem o cânon hebraico. O debate é anterior à Reforma: Jerônimo já tinha reservas, e Trento fixou a lista em 1546. Ortodoxos também os aceitam, com variações.
- Quem eram fariseus, saduceus, essênios e zelotes?
- Eram correntes do judaísmo do período. Os fariseus valorizavam a tradição oral e criam na ressurreição; os saduceus, ligados ao templo, aceitavam só a Torá escrita; os essênios formaram comunidades separadas, ligadas por muitos aos manuscritos do mar Morto; zelotes eram os de zelo violento contra Roma, mas se foram partido antes de 66 d.C. é discutido.
Fontes consultadas
- Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, 94.
- Flávio Josefo. A Guerra dos Judeus, 75.
- Concílio de Trento. Decreto sobre os Livros Sagrados, Sessão IV, 1546.
- Martin Hengel. Judaism and Hellenism, 1974.
- E. P. Sanders. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE – 66 CE, 1992.
- James C. VanderKam. An Introduction to Early Judaism, 2001.
- Bruce M. Metzger. An Introduction to the Apocrypha, 1957.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.