Os Dez Mandamentos: palavra por palavra
o que a bíblia diz sobre os dez mandamentos
Resposta curta
Os Dez Mandamentos são o texto mais citado e menos lido da Bíblia. Aparecem duas vezes, em e em , com diferenças pequenas e reais, e começam por uma declaração de libertação, não por uma ordem. As tradições judaica, católica e protestante nem sequer contam até dez do mesmo modo, e várias palavras hebraicas centrais (nome em vão, matar, furtar, cobiçar) são mais debatidas do que a tradução sugere. Este estudo percorre o texto em seis partes: as duas versões, o prólogo e a numeração, a primeira parte sobre Deus, a dobradiça dos pais com a vida e o casamento, os três últimos mandamentos e, por fim, o uso que Jesus, Paulo e as igrejas fizeram deles.
Em palavras simples
Os Dez Mandamentos aparecem duas vezes na Bíblia, em e em , com pequenas diferenças. Começam lembrando que Deus libertou o povo do Egito, e só depois vêm as ordens: sobre Deus, sobre os pais e sobre o próximo. Judeus, católicos e protestantes numeram os mandamentos de modos diferentes, mas o texto é o mesmo. Jesus e Paulo os citam como válidos e dizem que o amor é o que os cumpre. As igrejas concordam que são importantes e discordam sobre o que fazer com alguns deles, como as imagens e o sábado.
Antes de começar
O Decálogo é apresentado pelo texto bíblico como a fala mais direta de Deus a Israel. Em e 20, o povo chega ao Sinai três meses depois de sair do Egito, é preparado por três dias, e ouve as palavras em meio a trovões e fumaça. Segundo , o próprio Deus as escreve em duas tábuas de pedra, que Moisés quebra ao ver o bezerro de ouro e que são refeitas em . conta que foram guardadas na arca da aliança, o que explica por que o texto às vezes é chamado de "tábuas do testemunho".
O gênero é o de um tratado de aliança. Estudiosos da antiga Mesopotâmia e da Anatólia notaram que tratados entre um rei e seus vassalos começavam com uma apresentação do rei e um relato do que ele já havia feito, e só depois traziam as obrigações. O prólogo de tem exatamente essa forma, e a comparação ajuda a ver que o conjunto não é um código penal. Não prevê penas, não define crimes com detalhe e não se dirige a juízes: dirige-se a todo o povo, no singular, "tu".
O que vem depois dele, nos capítulos 21 a 23, é o chamado Livro da Aliança, que traz leis detalhadas com penas e casos. A relação entre os dois blocos é discutida: para uns, o Decálogo é o princípio do qual as leis específicas derivam; para outros, é um resumo posterior das obrigações centrais. Os termos hebraicos importam. Dez "palavras" (devarim) é a expressão do próprio texto, e "mandamento" (mitsvá) é o termo que a tradição usa para o conjunto da lei.
A importância histórica é difícil de exagerar. O Decálogo é lido na liturgia judaica, ensinado nos catecismos católicos, luteranos e reformados e citado em debates sobre ética pública. Mas a atenção popular costuma ir para uma lista decorada e quase sempre deixa de lado o prólogo, as diferenças entre as duas versões e a pergunta sobre o que cada palavra hebraica de fato cobre. É nesses pontos que um estudo atento começa.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento não apresenta Jesus como quem substitui os mandamentos, mas como quem os leva ao limite. Em , ele não relaxa a ordem sobre matar e adulterar, e a leva até a raiz. Em , resume a lei e os profetas em dois mandamentos de amor, que correspondem às duas partes do conjunto, Deus e o próximo. O Evangelho de João o mostra dando "um mandamento novo" (Jo 13:34), e o padrão desse amor é ele mesmo. O texto do Sinai começa com um Deus que liberta; o Novo Testamento afirma que essa libertação chega à sua forma mais completa nele.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.Duas versões da mesma palavra: Êxodo 20 e Deuteronômio 5
Os Dez Mandamentos aparecem duas vezes na Bíblia, e o leitor que os conhece de cor raramente percebe que as duas versões não são idênticas. A primeira está em Êxodo 20:2-17, no Sinai, narrada como fala direta de Deus ao povo. A segunda está em Deuteronômio 5:6-21, no discurso de Moisés às portas da terra prometida, quarenta anos depois, quando uma geração nova precisa ouvir de novo o que a anterior ouviu. O próprio texto sabe disso: Moisés diz que a aliança foi feita não com os pais, mas "conosco, que hoje estamos aqui, todos vivos" (Dt 5:3).
A expressão "Dez Mandamentos" é, estritamente, tradução livre. O hebraico de Êxodo 34:28 e Deuteronômio 4:13 diz "as dez palavras", e a tradição judaica as chama assim. A diferença importa: uma "palavra" não é necessariamente uma ordem. O prólogo é uma declaração, e boa parte do que segue é formulada como proibição direta, sem prazo e sem cláusula de exceção. O texto também informa que foram escritas em duas tábuas de pedra (Dt 4:13; 5:22), e não diz como as dez se distribuíam entre elas; a divisão em "cinco e cinco" é tradição de leitura, não dado do texto.
As diferenças entre as versões são pequenas, mas reais. A mais conhecida está no sábado. Êxodo 20:8 manda "lembrar" o dia e o fundamenta na criação, com Deus descansando no sétimo dia. Deuteronômio 5:12 manda "guardar" e fundamenta na saída do Egito, acrescentando que o escravo e a escrava devem descansar "como tu". Deuteronômio traz ainda a expressão "como te ordenou o Senhor teu Deus" e, no mandamento sobre os pais, a promessa de que "te vá bem" além de "se prolonguem os teus dias". Na cobiça, a ordem dos objetos muda: Êxodo põe a casa primeiro, Deuteronômio põe a mulher, e usa dois verbos diferentes, um para a mulher e outro para a casa e os bens.
Há duas maneiras de ler essas variações. Uma vê nelas a adaptação deliberada de um texto vivo, aplicado a uma nova geração, e é a leitura comum na crítica acadêmica e em boa parte dos comentaristas cristãos e judaicos. Outra, mais comum na tradição rabínica clássica, sustenta que as duas formulações foram ditas ao mesmo tempo, e que a diferença é uma convivência de ênfases. O texto bíblico não decide o debate. O que ele deixa claro é que o conteúdo, para Israel, era ao mesmo tempo fixo e reaplicável.
Para conversar
- Se o próprio Moisés reformula as palavras para uma geração nova, o que isso sugere sobre a relação entre texto fixo e aplicação viva?
- As diferenças entre Êxodo e Deuteronômio mudam alguma coisa na forma como você lia os mandamentos, ou parecem detalhes menores? Por quê?
- O texto diz que são "dez palavras", e não "dez ordens". Que diferença isso faz para a leitura?
2.Antes de qualquer ordem: o prólogo e a questão da numeração
A primeira frase do conjunto não é uma ordem. "Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20:2). Antes de dizer o que fazer, o texto diz quem fala e o que já foi feito. A ordem dos fatos é a da aliança: libertação primeiro, obrigações depois. Quem lê os mandamentos como condições para ser aceito por Deus lê o texto em sentido inverso ao que ele mesmo propõe, porque o povo ali já está livre e já está a caminho. As ordens descrevem como é viver como povo libertado, e não como se conquista a libertação. O estudo sobre graça e lei trata essa relação de forma mais ampla, aqui basta registrar que o prólogo existe e que ele muda o tom de tudo o que vem depois.
Esse prólogo está no centro de uma discussão curiosa: como contar até dez. O texto de Êxodo 20 não numera nada, e há três contagens tradicionais. A tradição judaica conta o prólogo ("Eu sou o Senhor teu Deus") como a primeira palavra, e junta a proibição de outros deuses e a de imagens numa segunda. A tradição católica e a luterana, seguindo Agostinho, juntam num só mandamento a proibição de outros deuses e de imagens, e desdobram a cobiça em dois: a da mulher do próximo e a dos seus bens. A tradição reformada, a maior parte das igrejas protestantes e a ortodoxa mantêm separados os deuses e as imagens, e deixam a cobiça como um mandamento único.
Nenhuma dessas contagens altera uma só palavra do texto. Mas cada uma tem consequências de ênfase. Quem conta como os católicos tem, no segundo lugar, o nome em vão, e o sábado em terceiro, o que desloca em um número todos os mandamentos até o oitavo. Algumas formas abreviadas dos catecismos, em diferentes tradições, resumem ou omitem a proibição das imagens, e isso já rendeu acusações de lado a lado sobre quem mexeu no quê. O fato histórico é mais modesto: as três contagens são antigas, têm defensores sérios, e a escolha entre elas depende de como se lê a estrutura do texto hebraico, não de má-fé de ninguém.
Para quem estuda, o útil é saber qual numeração a igreja ou o livro em mãos está usando. Uma conversa sobre "o terceiro mandamento" pode tratar do nome de Deus ou do sábado conforme quem fala. E o prólogo, que nenhuma contagem tira do texto, continua dizendo a mesma coisa nas três.
Para conversar
- Se o prólogo vem antes das ordens, o que muda em ler os mandamentos como resposta a uma libertação e não como condição para ela?
- Já aconteceu de você ouvir "o terceiro" ou "o oitavo mandamento" e entender algo diferente do que a outra pessoa queria dizer? O que isso mostra?
- A divergência de numeração é um problema para a autoridade do texto ou apenas um fato histórico sobre como cada tradição organizou a leitura?
3.Deus, imagens e o nome: o que a primeira parte pede
Os primeiros mandamentos tratam de Deus antes de tratar de gente. "Não terás outros deuses diante de mim" (Êx 20:3) não afirma, em hebraico, que os outros deuses não existam; a fórmula "diante de mim" ou "além de mim" fala de exclusividade na lealdade, e a discussão sobre se o texto pressupõe ou nega a existência de outras divindades é antiga entre os estudiosos. O que ele exige com clareza é que Israel não divida a fidelidade.
A proibição das imagens vem logo depois e é a mais longa de todo o conjunto: nada de escultura, nem de semelhança de coisa alguma no céu, na terra ou nas águas (Êx 20:4-5). O fundamento vem em Deuteronômio 4:12-19: no Horebe, o povo ouviu uma voz e não viu forma nenhuma, e por isso não deve fazer forma nenhuma. O bezerro de ouro, em Êxodo 32, é o caso-teste, e o texto o conta como ruptura. As tradições se dividem sobre o alcance. Para a maior parte da tradição judaica e reformada, a proibição atinge imagens usadas no culto, e vários reformadores a aplicaram com rigor a estátuas e quadros nas igrejas. A tradição católica e a ortodoxa distinguem entre adoração, devida só a Deus, e veneração de imagens, e invocam, entre outros pontos, a encarnação como razão para representar Cristo; o Segundo Concílio de Niceia (787) foi o marco dessa defesa. Lido em si mesmo, o texto não resolve a diferença: o que ele condena é fazer imagem para "prostrar-se" e "servir", e a discussão é sobre o que cabe nesses verbos.
O terceiro (ou segundo, conforme a contagem) é o do nome: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão" (Êx 20:7). O hebraico diz literalmente "não levarás o nome ... para o que é falso ou vazio". A leitura mais comum o entende como juramento falso, mas isso é interpretação: o verbo "levar" e a palavra "vazio" permitem também uso mágico, invocação irrefletida ou uso do nome de Deus para dar peso a uma mentira. O mandamento fala de uso, não de pronúncia, e a leitura que o reduz a palavrões é a menos sustentada pelo texto.
Um aviso costuma incomodar: a iniquidade dos pais alcança os filhos até a terceira e quarta geração (Êx 20:5). Ezequiel 18 retoma o princípio e corrige a leitura fatalista, e o próprio texto contrasta essas gerações com a bondade que alcança "milhares".
Para conversar
- Se a exclusividade é o ponto, que lealdades concorrentes são difíceis de nomear hoje, sem cair em listas moralizantes?
- A proibição das imagens foi lida de modos tão diferentes que dividiu igrejas. O que cada leitura protege, e o que cada uma arrisca perder?
- Se o mandamento do nome trata de uso e não de pronúncia, em que situações comuns o nome de Deus é "levado ao vazio"?
- Como você lê a ideia de consequência por gerações, tendo ao lado de ?
4.Pais, vida e casamento: a dobradiça e o círculo de perto
O mandamento sobre os pais é a dobradiça do conjunto. Em Êxodo 20:12, vem imediatamente depois dos que tratam de Deus e antes dos que tratam do próximo, e é o único com promessa explícita: "para que se prolonguem os teus dias na terra". O verbo é "honrar", e em hebraico a raiz tem o sentido de dar peso, de levar a sério. Não diz "obedecer", e a distinção importa: o texto espera de filhos adultos, não só de crianças, o respeito pelo pai e pela mãe, e a lei de Israel, quando quer exigir obediência, usa outro vocabulário. Jesus usa o mandamento contra uma prática de seu tempo que o esvaziava: em Marcos 7:10-13, ele censura quem declarava seus bens dedicados a Deus para não sustentar os pais idosos. O assunto da família, dos pais e dos filhos tem estudo próprio, e aqui o que interessa é o lugar do mandamento: a primeira relação humana que o texto protege é a que, segundo Deuteronômio 6:7, transmite a própria aliança.
"Não matarás" (Êx 20:13) é a mais curta das proibições, e uma das mais discutidas. O verbo hebraico, ratsach, não é o mais comum para matar em geral: aparece sobretudo para morte de uma pessoa por outra, inclusive a involuntária, tanto que Números 35 organiza cidades de refúgio para quem a comete sem querer. A Bíblia hebraica quase nunca o usa para mortes em guerra ou para as execuções previstas na lei, que recorrem a outros verbos. Daí a leitura de que o mandamento proíbe o assassinato e não toda morte. Tradições pacifistas, como a menonita e a quacre, respondem que Jesus, em Mateus 5, amplia o que o verbo só indicava; a católica clássica e a reformada mantêm a distinção entre homicídio e uso legítimo da força. A discordância está na extensão, não na gravidade do homicídio.
"Não adulterarás" (Êx 20:14) mostra o quanto uma palavra depende de seu mundo. Na lei de Israel, adultério é a relação de um homem com a mulher casada ou prometida a outro (Lv 20:10; Dt 22:22). A proibição protege o casamento como aliança e a certeza da paternidade, e a Bíblia a usa como metáfora central para a infidelidade de Israel a Deus, em Oseias. O mandamento declara é que a aliança entre duas pessoas é lugar sagrado, e que quebrá-la é ato com vítima.
Para conversar
- Se "honrar" não é o mesmo que "obedecer", como esse mandamento se aplica a quem tem pais muito idosos, ou pais que causaram dor?
- Entre ler "não matarás" como proibição de assassinato e como proibição de toda morte, que consequências cada leitura traz, e quem as tira com mais honestidade?
- Por que a Bíblia usa a linguagem do adultério para falar da relação entre Deus e o povo? O que isso diz sobre o peso do mandamento?
5.Roubo, falso testemunho e cobiça: o limite do que a lei alcança
Os três últimos mandamentos, quase sempre lidos em sequência, tratam de uma pergunta que a lei humana raramente consegue fazer: onde começa o dano ao outro? "Não furtarás" (Êx 20:15) parece óbvio, e o hebraico é ainda mais curto que o português: duas palavras. A tradição rabínica clássica entendeu o verbo em seu sentido específico de sequestro, o roubo de uma pessoa, pela proximidade com Êxodo 21:16, onde o sequestro é crime punido com a morte, ao contrário do furto de bens; alguns estudiosos modernos concordam. Outros leem o mandamento como proibição geral do furto de bens, o que Levítico 19:11 e a lei de restituição em Êxodo 22 confirmam em outro lugar. As duas leituras não se excluem, e o texto, curto como é, não obriga a escolher.
"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20:16) tem um cenário nítido: o tribunal. Numa sociedade de aldeia, sem polícia nem promotor, um julgamento dependia da palavra de testemunhas, e Deuteronômio 19:15-21 estabelece que uma só pessoa não basta e que a testemunha falsa sofre a pena que causaria ao outro. Por isso o mandamento protege menos a "sinceridade" em geral do que a possibilidade de justiça. O caso de Nabote, em 1 Reis 21, mostra o que ele previne: dois falsos testemunhos em nome da lei, e um homem morto por uma vinha. A mentira que a lei nomeia é a que transforma a instituição de justiça em instrumento de dano.
O último mandamento é o único que fala de intenção. "Não cobiçarás a casa do teu próximo" (Êx 20:17) trata de desejo, e não de ato, e por isso é o que parece escapar a qualquer tribunal. Estudiosos notam que o verbo hebraico, hamad, nem sempre fica no íntimo: em Miqueias 2:2 os que "cobiçam campos" são os mesmos que "os roubam", e em Josué 7:21 cobiça e apropriação andam juntas. Se o verbo descreve o desejo que já se move para o ato, o mandamento fecha o conjunto mostrando a origem dos anteriores: roubo, adultério, falso testemunho e até a morte começam num olhar demorado. Outros veem aqui desejo puro, e Paulo parece ler assim em Romanos 7:7.
Esse é o ponto em que o conjunto, tão claro como código, mostra que também é espelho. Nenhuma sociedade consegue aplicar o décimo; só a pessoa pode.
Para conversar
- Se "não furtarás" pode ter começado como proibição de sequestro, o que muda na forma como você lê as outras proibições do conjunto?
- O falso testemunho do texto é um problema de tribunal. Em que situações da vida comum a mentira faz o mesmo papel, mesmo sem juiz?
- Faz diferença para você ler a cobiça como desejo íntimo ou como desejo que já se move para o ato? Por quê?
- Por que o último mandamento seria colocado por último? O que a ordem do conjunto sugere?
6.Jesus, Paulo e o que se faz com as dez palavras hoje
O Novo Testamento não revoga os Dez Mandamentos nem os trata como se bastassem. Jesus os cita, os aprofunda e os recoloca no centro de algo maior. Em Mateus 19:16-19, o jovem rico pergunta o que fazer para ter a vida eterna, e Jesus responde enumerando mandamentos da segunda parte do conjunto, acrescentando "amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19:18). Em Marcos 10:19 a lista inclui "não defraudarás", que não é um dos dez. Jesus responde a uma pergunta sobre vida eterna remetendo ao conteúdo dos mandamentos, e depois pede ao jovem algo que a lista não pedia. O Sermão do Monte, que tem estudo próprio, mostra o mesmo movimento em Mateus 5:21-30: o "não matarás" alcança a ira e o desprezo, e o "não adulterarás" alcança o olhar. Jesus não troca a ordem por outra mais frouxa; ele a leva até a raiz, que é onde o décimo mandamento já estava.
Paulo faz duas coisas que parecem opostas e não são. Em Romanos 13:8-10 ele resume os mandamentos sobre o próximo, citando adultério, homicídio, roubo e cobiça, na frase "o amor é o cumprimento da lei". Em Romanos 7:7 ele conta que foi o décimo mandamento, "não cobiçarás", que lhe mostrou o que era pecado, e que a lei fez o desejo despertar em vez de contê-lo. Nem o amor aposenta a lei, nem a lei produz o amor. Paulo cita mandamentos concretos para dizer o que o amor, quando é real, não faz.
As tradições cristãs se dividem no que fazer com o conjunto. A tradição católica e a luterana o usam como roteiro de exame de consciência e como base catequética, e Lutero fez do Decálogo a primeira parte do Catecismo Maior. A reformada, com Calvino, distingue um "uso" da lei que expõe o pecado, outro que restringe o mal na sociedade e um terceiro que orienta o crente, e vê no Decálogo o resumo da lei moral que permanece. Há ainda tradições, como as que guardam o sábado no sétimo dia, que tratam o quarto mandamento como plenamente em vigor, e outras que o leem de modo diferente. O que une quase todas é a prática: ensinar os dez a quem está começando e a quem está cansado, não como ameaça, mas como a descrição de uma vida em que os outros também são levados a sério.
Para conversar
- Jesus remete o jovem rico aos mandamentos e depois pede algo que a lista não pedia. O que essa passagem sugere sobre o lugar dos dez na vida de fé?
- Paulo diz que o amor cumpre a lei e também que a lei despertou nele o desejo. Como você junta as duas afirmações?
- Que uso dos mandamentos você viu na prática, como roteiro, ameaça, espelho ou memória? Que efeito teve em quem os recebia?
- Se tivesse que explicar os Dez Mandamentos a alguém que nunca os ouviu, por onde começaria, e o que deixaria de dizer?
O que fica
- As dez palavras vêm em duas versões, e , com diferenças reais, e começam por uma libertação já acontecida, não por uma exigência.
- Judeus, católicos e protestantes numeram os mandamentos de modos diferentes sem alterar uma palavra do texto; saber qual contagem está em uso evita muita confusão.
- Palavras como matar, furtar, cobiçar e o nome em vão são mais debatidas no hebraico do que a tradução sugere, e dizer isso é honestidade, não relativismo.
- Jesus e Paulo tratam os mandamentos como válidos e os levam à raiz: o amor cumpre a lei, e o décimo mandamento mostra que nenhum código basta.
- O texto fala mais do que o cartaz na parede: vale ler cada palavra com o seu contexto antes de usá-la como argumento.
Aprofundamento
O núcleo da discussão não está em saber se os mandamentos são importantes, mas em três perguntas que o texto deixa em aberto. A primeira é a do alcance dos verbos. O hebraico de "matar" (ratsach), "furtar" (ganav) e "cobiçar" (hamad) é mais restrito ou mais amplo do que o português sugere, dependendo da leitura. A tradição rabínica clássica entende "não furtarás" como sequestro, a tradição cristã geral o entende como furto de bens, e as duas têm apoio em outras passagens. Algo semelhante vale para o nome "em vão", que pode designar juramento falso, uso mágico ou irreverência. Nenhuma dessas leituras é descartada pela comparação com outros textos; cada uma privilegia um lado.
A segunda é a da organização do conjunto. A tradição reformada e a ortodoxa distinguem uma primeira parte sobre Deus e uma segunda sobre o próximo, em quatro e seis mandamentos. A católica e a luterana, pela contagem de Agostinho, separam três e sete. A judaica tradicional lê as duas tábuas em paralelo, associando cada palavra da primeira a uma da segunda. As três contagens são antigas e nenhuma altera o texto.
A terceira é a do estatuto cristão da lei. Jesus e Paulo citam os mandamentos como válidos e, ao mesmo tempo, mostram que não bastam. A tradição reformada distingue na lei de Moisés uma parte cerimonial, uma civil e uma moral, e vê no Decálogo a parte moral que permanece. A católica faz distinção semelhante, apoiada em Tomás de Aquino. A luterana separa lei e evangelho de modo que o Decálogo é, sobretudo, espelho que revela o pecado. Os adventistas e outros grupos que guardam o sábado tratam o quarto mandamento como em vigor. Os menonitas e outras tradições anabatistas dão peso especial à leitura que Jesus faz em .
Resta o caso do sábado, o único mandamento cuja motivação muda entre as versões: a criação em Êxodo, a libertação do Egito em Deuteronômio. Alguns comentaristas veem aí o descanso como ordem da criação, outros como justiça para quem trabalha; o texto sustenta as duas razões lado a lado.
O desacordo, em quase todos os casos, está no que cada tradição considera central, e não no valor do texto. Dois pontos pedem cuidado: nenhum exegeta sério conclui do texto, por si só, qual pena civil convém a cada mandamento, e a transposição direta do Decálogo para leis modernas é debate de ética e de política, não de exegese.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O Decálogo é um código de leis com penas, como o código civil de um país.
O texto não prevê pena para nenhum dos mandamentos, e as penas aparecem em outros trechos, como a 23. As dez palavras seguem a forma de um tratado de aliança: apresentam quem fala, lembram o que já fez e só então pedem lealdade. Tratá-lo como código penal ignora o prólogo e o gênero do texto.
Dizem que:Há uma única forma dos Dez Mandamentos na Bíblia, e todas as igrejas os numeram da mesma maneira.
e diferem no fundamento do sábado, na promessa aos pais e na ordem dos objetos da cobiça. E há três numerações tradicionais: a judaica, a católica e luterana, e a reformada e ortodoxa. Nenhuma altera o texto, mas todas mudam o que se quer dizer com "o quinto mandamento" ou "o nono".
Dizem que:"Não tomarás o nome do Senhor em vão" proíbe, sobretudo, falar palavrão ou dizer "meu Deus" sem pensar.
O hebraico fala de "levar" o nome para o falso ou o vazio, e a leitura mais comum o relaciona a juramento falso e uso do nome para sustentar uma mentira. A irreverência é tema legítimo, mas reduzir o mandamento a ela é a leitura menos apoiada pelo vocabulário e pelo contexto.
Dizem que:Jesus aboliu os Dez Mandamentos ao ensinar o amor.
Em Jesus diz que não veio abolir a lei, e em ele cita os mandamentos ao jovem rico. Paulo diz em que o amor cumpre a lei, o que não equivale a revogá-la. As tradições divergem sobre o estatuto da lei de Moisés, mas nenhuma delas, no cristianismo histórico, trata o Decálogo como abolido.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaica
Conta o prólogo como a primeira palavra e lê o conjunto como o centro da revelação do Sinai, dentro de um total de 613 mandamentos. A tradição rabínica discute se as duas versões foram ditas ao mesmo tempo e entende "não furtarás" como sequestro. O Decálogo tem lugar litúrgico, mas não é separado das demais leis.
Católica
Segue a numeração de Agostinho, com os deuses e as imagens num só mandamento e a cobiça dividida em dois. O Catecismo da Igreja Católica (1992) trata os dez como expressão da lei natural e como roteiro para a vida moral. Defende a veneração de imagens, distinta da adoração, a partir do Segundo Concílio de Niceia (787).
Luterana
Adota a mesma contagem de Agostinho e coloca o Decálogo no início do Catecismo Maior. Lê-o sobretudo como lei que revela o pecado e conduz ao evangelho, sem negar que ele orienta também a vida cristã. A distinção entre lei e evangelho organiza essa leitura.
Reformada
Separa os deuses das imagens e mantém um único mandamento sobre a cobiça. Vê no Decálogo a parte moral da lei, que permanece, e distingue três usos: expor o pecado, restringir o mal na sociedade e orientar o crente. A proibição de imagens no culto é aplicada com rigor maior do que nas tradições católica e ortodoxa.
Ortodoxa e anabatista
Ortodoxos mantêm a contagem que separa deuses e imagens, e defendem o uso de ícones com base na encarnação. As tradições anabatistas, como a menonita, dão peso maior ao Sermão do Monte e leem "não matarás" à luz do ensino de Jesus sobre a ira e o amor aos inimigos.
O que fazer com isso
Ao ler os mandamentos, comece pelo prólogo e leia cada ordem como descrição de uma vida livre, não como lista de condições. Depois, pergunte de qual das dez palavras você costuma falar com mais facilidade e de qual evita falar. Escolha uma delas e leia a passagem em Êxodo e a correspondente em Deuteronômio, observando o que muda. O que o texto pede só se mostra com atenção a cada palavra.
Perguntas frequentes
- Por que as duas versões dos Dez Mandamentos são diferentes?
- As diferenças são pequenas: o fundamento do sábado, a promessa aos pais e a ordem dos objetos da cobiça. Muitos estudiosos veem nelas uma reformulação para uma nova geração; a tradição rabínica clássica entende que ambas foram ditas ao mesmo tempo. O texto não decide entre as leituras.
- Qual é a numeração correta dos Dez Mandamentos?
- O texto não numera, e há três contagens antigas: a judaica, a católica e luterana e a reformada e ortodoxa. Elas diferem em onde começa o primeiro mandamento, se deuses e imagens são um só ou dois e se a cobiça é um ou dois. Nenhuma altera uma palavra do texto.
- "Não matarás" proíbe toda forma de matar?
- O verbo hebraico, ratsach, aparece sobretudo em casos de homicídio, inclusive involuntário, e quase nunca para guerra ou execução judicial. Por isso muitas tradições o leem como proibição de assassinato. Tradições pacifistas entendem que Jesus amplia o alcance. O texto, sozinho, não encerra a discussão.
- Os cristãos precisam obedecer aos Dez Mandamentos?
- Jesus e Paulo citam os mandamentos como válidos e dizem que o amor os cumpre. As tradições divergem sobre o estatuto da lei de Moisés como um todo, e especialmente sobre o sábado. Quase todas veem no Decálogo uma síntese da vida moral cristã, e não uma condição para ser aceito.
Fontes consultadas
- Fílon de Alexandria. Sobre o Decálogo.
- Agostinho de Hipona. Questões sobre o Heptateuco.
- Tomás de Aquino. Suma Teológica, I-II, questões 98 a 105.
- Martinho Lutero. Catecismo Maior, 1529.
- João Calvino. Institutas da Religião Cristã, 1559.
- Brevard S. Childs. The Book of Exodus: A Critical, Theological Commentary, 1974.
- Patrick D. Miller. The Ten Commandments, 2009.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.