Culto e liturgia: como o povo de Deus se reúne para adorar
o que a bíblia diz sobre culto e liturgia
Resposta curta
A Bíblia mostra o povo de Deus se reunindo de muitas formas, mas quase nunca entrega um roteiro de culto. Levítico e os Salmos apresentam um culto recebido, com ritmo, canto e resposta coletiva. e a sinagoga põem a leitura e a explicação da Escritura no centro. e as cartas de Paulo mostram os cristãos unindo doutrina, oração, canto e mesa, e 1 Coríntios revela uma reunião real, com seus defeitos e seu critério de edificação. Este estudo em seis partes percorre esse caminho, apresenta sem tomar partido a liturgia formal e o culto livre e termina onde Amós e insistem: o culto só é inteiro quando alcança a vida.
Em palavras simples
O culto, na Bíblia, é o encontro do povo com Deus. Em Israel ele seguia instruções recebidas, com cânticos, leitura da Lei e respostas em voz alta. Os primeiros cristãos mantiveram esses elementos e acrescentaram a refeição do Senhor. O Novo Testamento não traz uma ordem fixa de reunião, e por isso há igrejas com liturgia escrita e igrejas com culto livre. Paulo pede que tudo seja compreensível e edifique, e os profetas lembram que culto sem justiça no dia a dia não agrada a Deus.
Antes de começar
A palavra portuguesa culto traduz vocabulário variado. No hebraico do Antigo Testamento, עבד (avad) significa servir e, ao mesmo tempo, trabalhar, de modo que servir a Deus e cultuá-lo são a mesma palavra. Em outros textos aparece השתחוה (hishtachavah), prostrar-se, que descreve um gesto do corpo. No grego do Novo Testamento, λατρεία (latreía) designa o serviço religioso, e λειτουργία (leitourgía) é a origem da nossa palavra liturgia: em grego comum, era um serviço público prestado em favor do povo, e o Novo Testamento a usa para o serviço sagrado, como em e em . Liturgia, no uso moderno, passou a significar a ordem do culto, mas a raiz fala de trabalho em favor de outros.
O culto de Israel girou, por séculos, em torno de um lugar: o tabernáculo e depois o templo de Jerusalém, com sacerdotes, sacrifícios e festas. O estudo sobre sacrifícios e templo trata desse sistema, e o das festas de Israel trata do calendário. O que importa para este tema é o que veio depois. Com a destruição do templo e o exílio, o povo aprendeu a se reunir em torno da Escritura, da oração e do canto, e essa prática foi preservada nas reuniões locais que o Novo Testamento chama de sinagogas.
Os primeiros cristãos eram, em sua maioria, judeus que continuaram a frequentar o templo e a sinagoga, e foram acrescentando reuniões próprias, nas casas, em torno da memória de Jesus. O Novo Testamento não traz um livro de ordem de culto, como Levítico trouxe para Israel. Traz descrições, correções e exortações pontuais. Por isso as tradições cristãs, ao longo dos séculos, completaram o silêncio de maneiras diferentes, e boa parte da discussão sobre o assunto é uma discussão sobre o que fazer quando a Bíblia não decide: seguir a prática antiga da igreja, aplicar apenas o que está escrito ou usar a Escritura como critério e deixar a forma livre. Este estudo apresenta as três respostas sem escolher entre elas.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO Novo Testamento apresenta Jesus como o centro para o qual o culto aponta. Hebreus o descreve como sumo sacerdote que dá acesso a Deus, e mostra a adoração dirigida ao Cordeiro. A reunião cristã é, nesse sentido, um ato de lembrar e de reconhecer quem ele é, e é por isso que a leitura, o canto e a mesa giram em torno dele.
Respaldo no Novo Testamento:
As partes do estudo
1.O culto como dádiva: Levítico e os Salmos
O culto de Israel não começa como invenção humana em busca de uma forma que agrade a Deus. Em Levítico, quase tudo o que hoje chamaríamos de liturgia aparece como instrução recebida: o que se traz, quem oficia, em que ordem, em que lugar e com que palavras. O livro insiste numa ideia que o leitor moderno tende a achar estranha, a de que aproximar-se de Deus é uma ação que tem regras, e que as regras existem porque o encontro é sério. O episódio de Nadabe e Abiú, em Levítico 10, mostra o outro lado da mesma moeda: oferecer fogo que Deus não havia ordenado termina em morte, e o texto não suaviza nem explica o que exatamente tornou aquele fogo inaceitável.
O sistema de sacrifícios e o templo têm estudo próprio neste acervo. Aqui interessa outra coisa: o desenho do culto como encontro com hora marcada, com ritmo e repetição. Levítico 9 narra a primeira vez em que o culto funciona de ponta a ponta, e o desfecho não é um gesto humano, e sim a glória do Senhor aparecendo ao povo, que então grita e cai com o rosto em terra.
Os Salmos mostram a mesma liturgia vista de dentro, na voz de quem participa. O Salmo 24 e o Salmo 15 parecem organizados como perguntas e respostas na porta do santuário: quem pode subir, quem pode entrar. O Salmo 100 convida a entrar pelas portas com ação de graças. O Salmo 136 repete em cada verso o refrão sobre a misericórdia que dura para sempre, o que sugere uma resposta coletiva. O Salmo 122 abre com a alegria de ouvir o convite para ir à casa do Senhor, e a coleção dos Salmos 120 a 134 traz o título de cânticos de romagem, que muitos leitores ligam às subidas a Jerusalém, embora o sentido exato do título seja discutido.
Dois traços merecem atenção. O primeiro é que o culto dos Salmos é coletivo e corporal: pede-se que se cante, se bata palma, se toque, se dance e se prostre, como no Salmo 150 e no Salmo 95. O segundo é que o próprio saltério já relativiza a forma. O Salmo 51 diz que Deus não se agrada de sacrifício que vem sem um coração quebrantado, e o Salmo 50 critica quem oferece muito e vive mal. Antes mesmo dos profetas, portanto, a liturgia de Israel carrega dentro de si a pergunta sobre o que a forma serve.
Para conversar
- Por que o texto apresenta o culto como algo recebido de Deus, e não inventado pelo povo? O que isso muda na forma de pensar a liturgia hoje?
- O episódio de Nadabe e Abiú é difícil de ler. O que fazer, em grupo, com um texto que não explica tudo o que gostaríamos de saber?
- Nos Salmos, o culto envolve voz, corpo e resposta coletiva. Em que sentido a sua comunidade se parece ou não se parece com isso?
2.Palavra lida e explicada: Neemias 8 e a sinagoga
Entre o templo de Salomão e as igrejas cristãs há um intervalo em que o culto de Israel precisou se reinventar. Neemias 8 é o retrato mais claro de um dos movimentos dessa reinvenção. No sétimo mês, depois da volta do exílio, o povo se reúne na praça diante da Porta das Águas e pede a Esdras que traga o livro da Lei. Esdras sobe numa tribuna de madeira e lê, do amanhecer até o meio-dia, para homens, mulheres e todos os que conseguiam entender. A cena não tem sacrifício no centro: o centro é um livro aberto.
Há ali uma sequência que quase todo culto posterior vai imitar, de forma consciente ou não. O livro é lido; o povo se levanta; Esdras bendiz o Senhor; todos respondem Amém, Amém, levantando as mãos; depois se inclinam e adoram com o rosto em terra. Os levitas, por sua vez, leem e dão explicações de modo que o povo entenda o que lê, segundo o versículo 8. A tradução exata dessa frase é debatida: pode indicar leitura clara, tradução para a língua falada ou exposição do sentido, e os intérpretes se dividem. Em qualquer dos casos, o texto liga a leitura da Escritura à compreensão, e liga a compreensão a uma resposta que envolve o corpo.
A reação do povo também importa. Eles choram ao ouvir a Lei, e Neemias e Esdras dizem que aquele é um dia santo e que não devem chorar, porque a alegria do Senhor é a sua força. O culto aqui não é nem só solenidade nem só festa: ele acolhe o choro e o transforma em celebração, com comida repartida com quem não tinha.
A sinagoga entra nessa história com uma incerteza honesta. Não sabemos com precisão quando nem como surgiram as reuniões locais de leitura, oração e ensino; propostas ligam sua origem ao exílio ou a períodos posteriores, e nenhuma é consensual. O que o Novo Testamento mostra é uma instituição já funcionando. Lucas 4:16 conta que Jesus, segundo o seu costume, entrou na sinagoga no sábado e se levantou para ler Isaías. Em Atos 13:15, depois da leitura da Lei e dos Profetas, os dirigentes oferecem a palavra a quem tiver exortação. Atos 15:21 diz que Moisés é lido em cada sábado, em cada cidade. Esse molde de leitura, oração e exposição será a herança mais direta do culto cristão.
Para conversar
- Em , o povo chora, e depois é convidado a celebrar. Que lugar o choro e a alegria têm no culto de vocês?
- O texto liga leitura, explicação e resposta do corpo. Como essas três coisas aparecem, ou deixam de aparecer, na reunião que vocês conhecem?
- Sabemos pouco sobre a origem da sinagoga. Como isso muda, ou não, a maneira de usá-la como modelo para o culto cristão?
3.A reunião dos primeiros cristãos
O Novo Testamento não traz uma ordem de culto. O que traz são lampejos, espalhados em narrativas e cartas, e cabe ao leitor ter a modéstia de não apresentar como roteiro apostólico aquilo que o texto só insinua. O sumário mais citado é Atos 2:42: os primeiros cristãos perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. O versículo 46 acrescenta que frequentavam o templo diariamente e partiam o pão pelas casas. Ou seja, os primeiros cristãos não deixaram a vida religiosa de Israel de um dia para o outro; acrescentaram a ela encontros domésticos centrados na memória de Jesus.
Outros textos completam o quadro. Atos 20:7 menciona uma reunião no primeiro dia da semana para partir o pão, em que Paulo prolonga o discurso até a meia-noite. Em 1 Coríntios 16:2 há uma oferta separada no primeiro dia da semana, e Apocalipse 1:10 fala do dia do Senhor. Paulo recomenda cânticos, hinos e salmos em Colossenses 3:16 e em Efésios 5:19, e Timóteo recebe a ordem de se dedicar à leitura pública, à exortação e ao ensino, em 1 Timóteo 4:13. Os elementos de sempre, portanto, já estão presentes: Escritura lida, ensino, oração, canto, a refeição do Senhor e a oferta.
Fora do Novo Testamento, duas descrições ajudam sem substituir a Bíblia. Uma carta de Plínio, governador romano, escrita por volta do ano 112, diz que os cristãos se reuniam em dia fixo antes do amanhecer e cantavam um hino a Cristo como a um deus. Justino Mártir, por volta de 155, descreve a reunião de domingo com leitura dos escritos dos apóstolos ou dos profetas, exortação de quem presidia, orações, pão e vinho e coleta para os necessitados. Em meados do século II, portanto, já há uma estrutura reconhecível.
Hebreus 10:24-25 entra aqui como o texto mais direto sobre a própria reunião: não deixar de congregar-se, como é costume de alguns, mas estimular-se uns aos outros ao amor e às boas obras. Vale notar o contexto da carta, de pessoas que já tinham sofrido perda e pressão e que podiam ser tentadas a se afastar. A reunião aparece menos como obrigação a cumprir e mais como meio de sustentar quem está cansado, e o argumento é de cuidado mútuo, e não de presença contada.
Para conversar
- reúne doutrina, comunhão, pão e oração. Qual desses quatro costuma ocupar menos espaço na sua experiência de reunião?
- Se o Novo Testamento não traz uma ordem de culto, o que podemos e o que não podemos afirmar sobre como os apóstolos celebravam?
- liga a reunião ao cuidado mútuo. O que significa estimular os outros sem transformar a presença em cobrança?
4.Corinto: quando o culto vai mal
A Primeira Carta aos Coríntios é, por causa dos problemas que descreve, a janela mais detalhada que temos para uma reunião cristã do primeiro século. Paulo não escreve um manual de liturgia; escreve para corrigir o que está dando errado, e é justamente por isso que vemos o culto real, desordenado e vivo.
Em 1 Coríntios 11:17-34, o problema é a refeição do Senhor. Paulo diz que os coríntios se reúnem para pior, e não para melhor, porque cada um come a sua ceia, um passa fome e outro se embriaga. A refeição que deveria dizer que somos um só corpo estava reproduzindo, na mesa, a divisão entre ricos e pobres. O tema da ceia tem estudo próprio; o que interessa aqui é o critério que Paulo aplica. A reunião é avaliada pelo que faz à comunidade, e não apenas pela correção do rito. Celebrar sem discernir o corpo, diz ele, traz juízo.
Em 1 Coríntios 14, o problema são os dons de fala. Paulo não proíbe as línguas, e afirma que fala em línguas mais do que todos. Mas o critério que repete ao longo do capítulo é a edificação: o que se faz na reunião deve ser entendido, para que os outros digam Amém. Ele prefere cinco palavras com a mente a dez mil em língua desconhecida e imagina um visitante que entra, ouve e conclui que todos estão loucos, ou, ao contrário, ouve algo compreensível e reconhece a presença de Deus. O versículo 26 é raro: cada um traz um salmo, um ensino, uma revelação, uma língua, uma interpretação, e tudo deve servir à edificação. Esse retrato é de um culto com participação ampla, e não de um palco com um só protagonista.
Dois pontos pedem cautela. O primeiro é a frase final do capítulo, de que tudo seja feito com decência e ordem. As tradições discordam sobre quanta estrutura ela exige: uns veem aí base para uma liturgia fixa, outros apenas um princípio que admite várias formas. O segundo é 14:34-35, sobre o silêncio das mulheres na reunião, passagem cuja interpretação é muito disputada, já que 1 Coríntios 11:5 pressupõe mulheres orando e profetizando. Este estudo registra a divergência sem resolvê-la; o tema das mulheres tem estudo próprio.
Para conversar
- Paulo avalia o culto pelo efeito que ele tem sobre a comunidade. Que critérios uma igreja costuma usar para avaliar as suas reuniões?
- O visitante de precisa entender o que acontece. O que, na reunião que vocês conhecem, seria difícil de entender para quem chega pela primeira vez?
- Decência e ordem podem apoiar tanto uma liturgia fixa quanto um culto livre. Como cada lado leria ?
- Onde a participação de muitos, como em 14:26, é possível hoje, e onde ela encontra limites reais?
5.Liturgia formal e culto livre
Se o Novo Testamento não prescreve uma ordem de culto, como as igrejas decidiram o que fazer quando se reúnem? As respostas se espalham entre dois polos, e quase nenhuma igreja está inteiramente em um deles.
O polo da liturgia formal reúne as tradições católica, ortodoxa e anglicana, entre outras, nas quais o culto segue um texto e um calendário recebidos. Na Divina Liturgia ortodoxa, atribuída tradicionalmente a João Crisóstomo, e na missa católica, a Palavra e a Eucaristia ocupam o centro e as orações são em grande parte fixas. O anglicano Livro de Oração Comum, de Thomas Cranmer, surgiu em 1549 e foi revisto depois, e reúne leituras, salmos e orações para o ano inteiro. O argumento a favor é teológico e pastoral: a forma fixa livra o culto do humor de quem dirige, une igrejas distantes no mesmo texto e põe nos lábios do povo palavras que ele não precisaria inventar. Os riscos, que as próprias tradições reconhecem, são a repetição sem atenção e a passividade de quem apenas assiste.
No outro polo está o culto livre, comum entre batistas, pentecostais, igrejas de tradição quacre e muitas comunidades independentes. Aqui a forma depende de quem dirige e da situação da congregação. O argumento é que a espontaneidade deixa espaço para o Espírito e para a necessidade concreta das pessoas; os riscos são a dependência de um líder carismático, a rotina informal tão rígida quanto a formal e a perda da herança que o texto fixo guarda.
Entre os dois fica o debate sobre o que a Escritura autoriza. Uma parte da tradição reformada defende o princípio regulador, segundo o qual só se deve fazer no culto aquilo que a Escritura manda, como na Confissão de Westminster, de 1647. Luteranos e anglicanos costumam aplicar um critério mais brando: mantém-se o que a Escritura não proíbe e que serve à edificação. Quem pratica o culto livre, por sua vez, reconhece que ele também tem hábitos tão estáveis quanto uma liturgia, só que não escritos.
Um bom exercício de grupo é comparar os elementos comuns que aparecem em todas as formas, leitura, oração, canto, pregação e mesa, e notar que a diferença está menos no que se faz e mais em quem decide a ordem e o texto.
Para conversar
- Quais são os pontos fortes que cada polo, o formal e o livre, reconhece no outro? E quais são os riscos que cada um reconhece em si?
- Se toda comunidade acaba tendo hábitos estáveis, qual a diferença prática entre uma liturgia escrita e uma não escrita?
- O princípio regulador e o critério mais brando de luteranos e anglicanos partem de leituras diferentes do silêncio da Bíblia. Qual deles lhe parece mais fiel ao texto, e por quê?
6.Culto e vida: do domingo à segunda-feira
A pergunta final do tema já aparecera antes, nos Salmos e em 1 Coríntios: para que serve a reunião? Dois textos recusam a ideia de que o culto se sustenta por si. Em Amós 5:21-24, Deus diz que odeia e despreza as festas de Israel, que não aceita as ofertas nem quer ouvir o ruído dos cânticos, e pede que o juízo corra como águas e a justiça como um ribeiro perene. O trecho não diz que a liturgia deve acabar. As festas que ele rejeita eram as ordenadas pela Lei. O que o profeta nega é um culto separado de uma vida que oprime. Isaías 1:11-17 e Miqueias 6:6-8 dizem o mesmo em outros termos. O tema da justiça social tem estudo próprio; aqui basta registrar que, na Bíblia, o culto é julgado pela vida que o acompanha.
Romanos 12:1 faz o movimento inverso e amplia a palavra. Paulo exorta a apresentar os corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional. A tradução do adjetivo grego é discutida: aparece como racional, espiritual ou razoável, e cada escolha põe uma ênfase diferente. O substantivo, porém, é o mesmo que o grego usa para o serviço sagrado de Israel, o que sugere que Paulo está dizendo que o corpo todo, e não apenas a hora de domingo, pode ser culto. A leitura não anula a reunião; Hebreus 10 continua pedindo que ela exista. Mas lembra que a reunião é uma parte do culto, e não o culto inteiro.
Apocalipse 4 e 5 dá o horizonte para o conjunto. João vê um trono, quatro seres vivos que dizem santo, santo, santo, e vinte e quatro anciãos que lançam as coroas diante dele. No capítulo 5, o Cordeiro que parece ter sido morto recebe um cântico novo, que diz que ele é digno, e a adoração se estende a toda criatura no céu, na terra e no mar. Muitas tradições leem aí o modelo ou ao menos o eco do culto da igreja; é leitura de tradição, não ordem do texto, que descreve uma visão e não uma prescrição.
O que as seis partes deixam é um conjunto de perguntas mais do que de regras: se o culto é recebido, ouvido, ensinado, cantado, partilhado e vivido, qual dessas dimensões a sua comunidade tem exercitado menos, e o que ela faria se levasse a sério a ligação com a vida de segunda-feira?
Para conversar
- Amós rejeita festas que a própria Lei ordenava. Como evitar que a forma correta se torne um disfarce para uma vida que o texto condena?
- Se chama o corpo inteiro de culto, o que isso muda na ideia de que o culto acontece em um lugar e hora marcados?
- e 5 traz a adoração como resposta a quem Deus é e ao que o Cordeiro fez. Que parte do seu culto parece responder a isso, e qual parece responder a outras coisas?
O que fica
- A Bíblia apresenta o culto como encontro recebido de Deus, com ritmo, resposta coletiva e corpo, e não como invenção de quem adora.
- Leitura da Escritura, explicação, oração, canto e mesa são os elementos que atravessam Neemias, a sinagoga, Atos e Corinto, mesmo sem uma ordem de culto prescrita no Novo Testamento.
- Paulo avalia a reunião pelo que ela faz à comunidade, com o critério da edificação e da compreensão, e não só pela correção da forma.
- Liturgia formal e culto livre respondem de modos diferentes ao silêncio da Bíblia sobre a ordem do culto, e cada um tem forças e riscos que as próprias tradições reconhecem.
- Amós e impedem que o culto se feche em si: a reunião é parte de um culto que inclui o corpo inteiro e a vida de segunda-feira.
Aprofundamento
O ponto central do debate não é se o culto deve ter forma, porque toda reunião tem, mas quem a determina e com que autoridade. Três questões concentram as divergências, e convém separá-las.
A primeira é o peso do silêncio do Novo Testamento. A tradição católica e a ortodoxa entendem que a Escritura foi recebida dentro de uma igreja que já cultuava, e que a prática antiga, como a descrita por Justino em meados do século II, é parte do que a igreja recebeu dos apóstolos. Parte da tradição reformada defende o princípio regulador, que só admite no culto o que a Escritura ordena, e o formulou na Confissão de Westminster, em 1647. Luteranos e anglicanos aplicam, em geral, um critério mais brando: conserva-se o que a Escritura não proíbe e que edifica. Quem prefere o culto livre argumenta que a forma pode variar com a cultura e a necessidade, desde que sirva ao que Paulo pede em .
A segunda é o lugar da pregação e da mesa. As igrejas de tradição litúrgica costumam fazer da celebração da mesa o centro da reunião semanal, ao passo que muitas igrejas da Reforma e das igrejas livres puseram a pregação no centro e celebram a ceia com menos frequência. Ambas apelam ao Novo Testamento, que descreve as duas coisas e não estabelece proporção entre elas.
A terceira é o papel do povo. Na liturgia formal, a participação é dirigida por um texto compartilhado, e o Concílio Vaticano II, na constituição Sacrosanctum Concilium, de 1963, pediu participação plena, consciente e ativa. No culto livre, a participação pode ser mais espontânea, mas em muitas congregações grandes a distância entre palco e plateia cresce. Nos dois casos, a pergunta de Paulo em continua aberta: o que cada um traz para a reunião?
A pergunta sobre a ceia ilustra o ponto. Tanto o Novo Testamento quanto os escritos mais antigos fora dele a associam à reunião, mas nenhum fixa quantas vezes ela deve ocorrer, e é por isso que igrejas igualmente sérias a celebram toda semana, todo mês ou algumas vezes por ano. O tema da ceia tem estudo próprio; aqui o que importa é ver que a mesma lacuna do texto produz práticas diferentes, e que cada tradição apoia a sua em argumentos que merecem ser ouvidos antes de serem julgados.
Há ainda um consenso silencioso. Quase todas as tradições, por caminhos diferentes, concordam com a crítica de Amós e de : o culto que não alcança a vida cotidiana perde o que o Novo Testamento chama de culto.
O que costumam dizer errado
Dizem que:O Novo Testamento define uma ordem de culto que as igrejas deveriam seguir.
O Novo Testamento traz alusões, como , e , mas nenhuma sequência completa. A descrição mais antiga e detalhada de uma reunião é de Justino, no século II, fora do cânon. Quem afirma que há um modelo único costuma estar lendo o próprio costume de volta no texto.
Dizem que:Os profetas condenaram o culto de Israel e pediram que ele acabasse.
Em , Deus rejeita festas que a própria Lei havia ordenado, mas o alvo da crítica é o culto separado da justiça, e não o culto em si. liga a rejeição ao modo como o povo trata o próximo. A crítica é à separação, e não à reunião.
Dizem que:Liturgia formal é sinal de culto sem vida, e culto livre é sinal de culto cheio do Espírito.
Nenhuma das formas garante o que promete. Os Salmos, que são liturgia, expressam fervor profundo, e mostra que um culto espontâneo também pode ser confuso e pouco edificante. Cada forma tem riscos conhecidos: a repetição sem atenção, de um lado, e a dependência de quem dirige, do outro.
Como diferentes tradições cristãs leem
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Católica
A liturgia é ação da igreja inteira, e a missa une a liturgia da Palavra e a da Eucaristia. A forma é recebida da tradição apostólica e regulada pela igreja. O Concílio Vaticano II, em Sacrosanctum Concilium (1963), pediu que o povo participasse de forma plena, consciente e ativa, e permitiu o uso das línguas locais.
Ortodoxa
O culto é entendido como participação na adoração celeste, e a Divina Liturgia, atribuída tradicionalmente a João Crisóstomo, é celebrada com cantos, ícones e incenso. A forma é guardada com grande continuidade, e o ano litúrgico organiza a vida da comunidade. A liturgia é vista menos como um ato de instrução e mais como um encontro com o mistério.
Anglicana e luterana
Mantêm uma liturgia escrita, mas com revisão pela Escritura. O Livro de Oração Comum, de Cranmer (1549), reúne leituras, salmos e orações em língua comum. Lutero conservou muito da missa, retirou o que julgou contrário ao Evangelho e publicou ordens de culto em alemão. Ambos aplicam um critério mais brando que o reformado: conserva-se o que a Escritura não proíbe e que edifica.
Reformada
Parte da tradição defende o princípio regulador: só se faz no culto o que a Escritura ordena. A Confissão de Westminster (1647) o formula. O culto tende a ser centrado na leitura, na pregação, nos salmos e na oração, com sobriedade, e a ceia é celebrada com periodicidade variável conforme a igreja.
Batista, pentecostal e culto livre
A forma do culto é definida pela congregação e por quem a dirige, com espaço para oração espontânea, testemunhos e participação ampla. Insiste na liberdade do Espírito e na adaptação à cultura local. Nas igrejas pentecostais, os dons de a 14 ocupam lugar visível. A tradição quacre leva a lógica ao extremo, com culto em silêncio à espera de que alguém seja movido a falar.
O que fazer com isso
Ao participar de qualquer reunião de culto, pergunte quais dos elementos bíblicos estão presentes: leitura, explicação, oração, canto, mesa e oferta. Depois pergunte, com a pergunta de Paulo em , se o que se faz é compreensível e edifica quem está ali. E leve consigo ao sair: o que foi dito na reunião tem alguma relação com a semana que vai começar?
Perguntas frequentes
- A Bíblia prescreve como deve ser um culto cristão?
- Não de forma completa. O Novo Testamento menciona leitura, ensino, oração, canto, a refeição do Senhor e a oferta, e dá critérios, como a edificação em , mas não traz uma ordem de culto. As tradições completam esse silêncio de maneiras diferentes.
- O que significa a palavra liturgia?
- Vem do grego leitourgía, que no uso comum era um serviço público prestado em favor do povo. O Novo Testamento a usa para o serviço sagrado. Hoje a palavra costuma designar a ordem do culto, fixa ou não.
- A sinagoga já existia no tempo de Jesus?
- Sim. Os evangelhos e Atos mostram Jesus e Paulo lendo e ensinando em sinagogas. Quando e como elas surgiram é debatido: algumas propostas apontam o exílio, outras épocas posteriores, e não há consenso entre os historiadores.
- Hebreus 10:25 obriga a ir ao culto todo domingo?
- O texto pede que os cristãos não deixem de se reunir e liga a reunião ao estímulo mútuo ao amor e às boas obras. Ele não fixa dia nem frequência. As tradições costumam aplicá-lo à reunião semanal, mas o argumento da carta é de cuidado entre os irmãos.
Fontes consultadas
- Justino Mártir. Primeira Apologia.
- Thomas Cranmer. Livro de Oração Comum, 1549.
- João Calvino. Institutas da Religião Cristã, 1559.
- Concílio Vaticano II. Sacrosanctum Concilium, 1963.
- Alexander Schmemann. Pela Vida do Mundo, 1963.
- Lee I. Levine. The Ancient Synagogue: The First Thousand Years, 2000.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.