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Significado Bíblico
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Cantares de Salomão: o poema do amor na Bíblia

o que a bíblia diz sobre cantares de salomão

Resposta curta

Cantares de Salomão é o único livro da Bíblia inteiramente dedicado ao desejo entre uma mulher e um homem, e o nome de Deus quase não aparece nele. É uma coletânea de poemas de amor, cheia de jardins, vinhas e perfumes, em que a voz principal é feminina e o ponto mais alto é a declaração de que o amor é forte como a morte (Ct 8.6-7). Por isso a pergunta mais antiga sobre ele é por que está no cânon. Este estudo percorre o gênero e as vozes, as imagens de jardim e vinha, o trecho central, as leituras judaica, cristã e moderna, e o debate sobre o lugar do livro nas Escrituras, sem escolher entre tradições que discordam.

Em palavras simples

Cantares é um conjunto de poemas de amor entre uma jovem e seu amado, com um coro chamado 'filhas de Jerusalém'. O nome de Deus quase não aparece. Fala de jardins, vinhas e perfumes, e seu ponto alto diz que o amor é forte como a morte (Ct 8.6-7). Judeus e cristãos o leram por séculos como figura do amor de Deus por Israel ou de Cristo pela Igreja. Hoje muitos o leem como poesia de amor humano, e outros misturam as duas leituras. O livro quase ficou de fora do cânon, mas acabou sendo guardado.

Antes de começar

O título hebraico, shir hashirim, significa 'o cântico dos cânticos', isto é, o melhor deles. A primeira linha o liga a Salomão (Ct 1.1), mas a preposição hebraica pode indicar autoria, dedicatória ou associação, e o texto não decide. Salomão aparece dentro do poema como personagem, e .32 lhe atribui mil e cinco cânticos. A data é debatida: algumas palavras de origem estrangeira levam parte dos estudiosos a pensar em redação tardia, enquanto outros defendem uma composição antiga.

O livro é poesia lírica. Não conta uma história seguida, não traz lei, profecia ou oração, e quase não menciona Deus; a única exceção possível é a palavra shalhevetyah, em 8.6, que pode conter uma forma abreviada do nome divino ou ser apenas um reforço de intensidade. As vozes são três: a mulher, o amado e um coro chamado 'filhas de Jerusalém', com a presença eventual dos irmãos dela. Quem fala em cada trecho se deduz da gramática, porque o texto não traz indicações.

O mundo ao redor conhecia poemas semelhantes. Coletâneas egípcias de poesia amorosa, do segundo milênio antes de Cristo, usam imagens parecidas, como 'irmão' e 'irmã' para os amantes. Isso mostra que o gênero tinha precedentes, sem provar que o sentido seja o mesmo.

No cânon hebraico, o livro está entre os Escritos, no grupo dos cinco rolos lidos em festas, e é lido na Páscoa. Nas Bíblias cristãs, vem depois de Eclesiastes, entre os livros poéticos. Sua inclusão foi discutida entre os mestres judeus, e o rabino Akiva defendeu a santidade do livro. Cantares é, ao mesmo tempo, um dos textos mais lidos e um dos mais difíceis de situar da Bíblia, e quase toda a sua história de interpretação se organiza em torno dessa dificuldade. O hebraico do livro também é desafiador: ele reúne muitas palavras raras, algumas usadas uma única vez em toda a Bíblia, o que explica parte das dúvidas de tradução e de leitura que aparecem nas versões.

As partes do estudo

  1. 1.Um poema de amor no meio da Bíblia

    Cantares é o livro mais estranho do cânon para quem o abre esperando um texto religioso. Não há lei, profecia, oração, genealogia nem relato de uma intervenção divina. Há uma mulher e um homem que se desejam, falando um do outro e um ao outro, em versos cheios de frutas, animais, perfumes e montanhas. O título hebraico, shir hashirim, é uma construção superlativa, parecida com 'santo dos santos': o cântico mais excelente, ou o melhor dos cânticos. O nome português vem da primeira linha: 'Cântico dos Cânticos, que é de Salomão' (Ct 1.1).

    A preposição hebraica dessa linha é ambígua. Pode indicar autoria, dedicatória ou simples associação com o rei, e o texto não decide. Salomão aparece dentro do poema como personagem, em 3.7-11 e em 8.11-12, e a tradição lhe atribui mil e cinco cânticos (1 Rs 4.32), o que tornou natural ligar o livro a ele. A data também é debatida. Alguns estudiosos apontam palavras de origem estrangeira, como pardes ('pomar', em 4.13), para uma redação tardia; outros defendem uma composição antiga. O texto não resolve a questão, e quem afirma uma data com segurança vai além dele.

    Quanto ao gênero, trata-se de poesia lírica de amor, e a Bíblia não tem outro livro igual. O mundo antigo, porém, tinha o gênero. Do Egito chegaram coletâneas de poemas amorosos do segundo milênio antes de Cristo, nas quais os amantes se chamam 'irmão' e 'irmã' e descrevem o corpo um do outro por meio de imagens. Esses paralelos ajudam a ver que Cantares não nasceu isolado, mas semelhança de forma não prova semelhança de sentido, e os estudiosos usam a comparação com cuidado.

    Há ainda um fato que quase todo leitor nota: Deus quase não aparece. Em 8.6, a palavra hebraica shalhevetyah termina num sufixo que pode ser lido como forma abreviada do nome divino ('chama de Yah') ou como simples reforço de intensidade ('chama violentíssima'). As traduções se dividem. Fora esse caso duvidoso, o nome de Deus está ausente. Ester também não o menciona, mas lá a narrativa deixa a presença divina subentendida; em Cantares nem isso há, porque nada é narrado.

    Isso não prova que o livro seja profano nem que seja alegoria. Mostra apenas que a pergunta 'por que isto está na Bíblia?' precisa ser feita, e que as respostas dadas ao longo dos séculos são bem diferentes entre si. Antes de chegar a elas, convém olhar para o que o texto realmente faz.

    Para conversar

    • Se você abrisse Cantares sem saber que ele está na Bíblia, que tipo de livro diria que é? O que muda quando se sabe onde ele está?
    • A ausência quase total do nome de Deus é um problema para o livro, uma característica dele, ou isso depende de como se lê?
    • Existir poesia amorosa parecida em outras culturas antigas diz algo sobre o modo como os textos bíblicos nasceram? O que, em sua opinião, ficaria igual e o que mudaria?
  2. 2.A jovem, o amado e as filhas de Jerusalém

    Cantares não traz indicações de cena, nomes de quem fala nem marcas de mudança de lugar. O leitor identifica as vozes pela gramática hebraica, que distingue masculino e feminino, e pelo conteúdo. Por esse critério, a voz mais frequente é a da mulher. Ela fala primeiro (1.2), pede, convida, procura, descreve o amado e tem a última palavra do livro (8.14). Isso é raro na literatura do mundo antigo e vale a pena notar sem exagerar: o texto dá a ela a iniciativa, o que não equivale a uma tese explícita sobre o assunto.

    Ela se descreve como 'morena, porém formosa' (1.5) e conta que seus irmãos a puseram a cuidar das vinhas (1.6). Em 6.13 (7.1 em algumas versões) é chamada de 'sulamita', palavra cujo sentido é discutido: pode indicar um lugar, ou ser uma forma feminina ligada ao nome de Salomão. O homem é chamado de 'amado' (dodi, no hebraico dela). Ora é pastor (1.7), ora é rei (1.4; 3.9-11), e essa oscilação alimentou boa parte da história da interpretação.

    As 'filhas de Jerusalém' funcionam como um coro. A mulher se dirige a elas no refrão de 2.7, 3.5 e 8.4, pedindo que não despertem o amor antes que ele queira. Em 5.8-9 elas respondem e perguntam em que o amado se distingue dos outros, o que dá à mulher a ocasião de descrevê-lo (5.10-16). Os irmãos reaparecem em 8.8-9 como guardiões da 'irmã pequena'.

    A pergunta que divide os comentaristas é se há enredo. A hipótese dramática, defendida no século XIX por autores como Franz Delitzsch, lê o livro como encenação com duas personagens, Salomão e a sulamita. Outra variante, com três personagens, imagina que um pastor e uma jovem se amam e que o rei tenta conquistá-la sem sucesso. A maior parte dos comentaristas modernos prefere ver uma coletânea de poemas ligados por temas e refrões, sem narrativa contínua. Os textos que sustentam a leitura dramática, como as buscas noturnas de 3.1-5 e 5.2-8, têm aspecto de sonho ou memória, e isso favorece a leitura em blocos poéticos.

    O trecho de 5.7 mostra a dificuldade. Os guardas da cidade a encontram, ferem-na e tomam seu manto. Isso pode ser uma cena real, uma imagem de angústia ou parte de um sonho, e o texto não indica qual. A escolha entre essas hipóteses muda a leitura de passagens inteiras, e por isso ninguém deveria apresentá-la como se fosse dado do texto.

    Para conversar

    • O fato de a mulher ser a voz principal do livro muda a maneira como você imaginava um texto bíblico sobre amor? Em que sentido?
    • Você prefere ler Cantares como um enredo ou como uma coletânea de poemas? O que cada escolha faz com passagens como 3.1-5 e 5.2-8?
    • O que significa ler com honestidade um texto cujas personagens o próprio texto não identifica?
    • As filhas de Jerusalém só escutam, ou participam? O que o coro acrescenta a um poema que seria de dois?
  3. 3.Jardim, vinha e a linguagem das imagens

    Quem lê Cantares procurando descrições literais se frustra. O livro pensa por imagens, e as imagens quase nunca funcionam como retrato. Quando o amado diz que os cabelos dela são como um rebanho de cabras descendo de Gileade (4.1) ou que o pescoço é como a torre de Davi (4.4), o que se comunica é impressão, brilho, movimento, altura e orgulho. Essas descrições do corpo, chamadas de wasf por quem estuda a poesia árabe de casamento, cobrem 4.1-5, 5.10-16 e 7.1-9. Uma boa pergunta de leitura é o que a imagem faz sentir, e não o que ela mostra.

    A imagem do jardim ocupa o centro do livro. Em 4.12 o amado a chama de 'jardim fechado' e 'fonte selada'. Em 4.16 ela responde: 'venha o meu amado ao seu jardim', e em 5.1 ele diz que entrou. A sequência é difícil de ler de outro modo que não seja como metáfora da própria mulher e do consentimento dela: o jardim é fechado até que ela o abre. O hebraico de 'pomar' em 4.13, pardes, é a palavra que depois deu origem a 'paraíso'. Alguns comentaristas, como Phyllis Trible, ouvem aí um eco do Éden de Gênesis 2, com nudez sem vergonha; outros acham a ligação possível, mas não demonstrável.

    A vinha tem usos mais variados. Em 1.6 a mulher diz que cuidou das vinhas dos outros e não guardou a sua, que é ela mesma. Em 2.15 pedem que se apanhem as raposas que estragam as vinhas em flor, versículo cuja leitura é incerta: pode ser uma canção de ofício, uma brincadeira com pretendentes ou uma referência aos obstáculos do namoro. Em 8.11-12 Salomão tem uma vinha de grande renda, confiada a arrendatários, enquanto ela diz que a sua vinha está diante dela. A comparação entre riqueza que se administra e dom que se entrega é uma das raras passagens em que o poema parece argumentar.

    Quem conhece Isaías 5.1-7 reconhece que a vinha também é imagem de Israel na tradição profética. A leitura alegórica de Cantares se apoia nesse fio. Há, porém, uma diferença que não pode ser apagada: em Isaías o texto entrega a chave (a vinha é a casa de Israel, 5.7), enquanto em Cantares a chave nunca é dada. Aplicar uma chave de fora é uma decisão do leitor, e é honesto reconhecê-la como tal.

    Para conversar

    • Qual imagem de Cantares lhe parece mais bonita e qual lhe parece mais estranha? O que faz uma imagem antiga soar estranha hoje?
    • O jardim fechado que só se abre por convite é uma imagem do corpo, do consentimento, de algo mais amplo? Que partes do texto ajudam e quais não resolvem?
    • Quando um símbolo aparece em outros livros da Bíblia, como a vinha em Isaías, ele traz o sentido junto para Cantares? Por que sim ou por que não?
  4. 4.Forte como a morte: Cantares 8.6-7

    O trecho de 8.6-7 é o ponto mais alto do poema e costuma ser lido em casamentos e em funerais. Vale lê-lo devagar. Ele vem depois de uma cena em que a mulher aparece 'subindo do deserto, apoiada no amado' (8.5), e começa com um pedido: 'Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço'. O selo era um objeto de identidade e de posse, usado no pescoço ou no dedo; em Gênesis 38.18, Judá o entrega como garantia. A mulher pede, portanto, para ser a marca de pertença que ele leva consigo.

    A razão vem em seguida: 'o amor é forte como a morte, o ciúme é duro como o Xeol'. A frase não diz que o amor vence a morte, e sim que ele se iguala a ela em força, porque nada o detém, assim como nada detém a morte. A palavra traduzida por 'ciúme' (qin'á) pode ser 'zelo' ou 'paixão que não admite partilha', e o Xeol, a morada dos mortos, é o lugar de onde ninguém volta. O texto está falando de exclusividade e de intensidade, não de promessa de vida depois da morte, assunto sobre o qual Cantares não diz nada.

    As imagens seguintes acumulam fogo e água. As brasas do amor são 'chamas de fogo', e é aqui que entra o shalhevetyah discutido na primeira parte, com sua possível alusão ao nome divino. Depois vêm as 'muitas águas', que não conseguem apagá-lo, nem os rios afogá-lo. Na poesia bíblica, as grandes águas são a imagem do caos e da ameaça (Sl 93.3-4), de modo que o amor aparece como a única coisa que resiste a elas. O último verso trata de dinheiro: quem oferecesse toda a riqueza de sua casa para comprar o amor seria desprezado. Isso responde, por contraste, à vinha de Salomão em 8.11-12.

    Convém não ler a passagem só como elogio. A imagem do Xeol e do ciúme sugere que o amor tem uma face que exige e que pode ferir. O livro já mostrou isso: a mulher está 'doente de amor' (2.5), perde o manto na rua (5.7) e passa a noite procurando alguém que não aparece. Cantares não romantiza o amor como estado tranquilo; descreve algo que domina quem o sente. Se a ligação com o nome divino em 8.6 for aceita, é o único momento em que o poema liga essa força diretamente a Deus, e alguns leem isso como a chave teológica do livro. Outros leem o sufixo apenas como reforço.

    Para conversar

    • O que muda se 'forte como a morte' for lido como a força do amor, e não como a promessa de que ele vence a morte? Qual leitura lhe parece mais fiel ao texto?
    • Por que um texto tão intenso é lido tanto em casamentos quanto em velórios? O que cada uso destaca e o que deixa de lado?
    • Se 'chama de Yah' for a leitura correta de 8.6, isso muda o livro inteiro ou só um verso? Se não for, o livro perde alguma coisa?
    • O trecho afirma que o amor não se compra. De que maneira essa frase ainda é discutível hoje?
  5. 5.Leitura literal, alegórica e moderna

    A história da interpretação de Cantares é, em boa medida, a história de uma disputa sobre o que fazer com o corpo no texto. A tradição judaica antiga leu o livro como diálogo entre Deus e Israel. O Targum, tradução aramaica comentada, conta a história do povo do Êxodo até o fim dos tempos nessa chave, e Rashi, no século XI, a retoma. O apoio vem de outros livros em que o casamento é imagem do pacto (Os 2.14-20; Ez 16.8-14; Is 62.5), mas o próprio Cantares não faz essa ligação. O livro é lido na Páscoa, e isso reforça a leitura.

    No cristianismo, a leitura alegórica ganhou forma com Orígenes, que escreveu um comentário e homilias por volta do ano 240. Para ele, a noiva é a alma, ou a Igreja, e o amado é o Verbo de Deus. Segundo o prólogo do comentário, o livro exigiria maturidade do leitor, para que ele não confundisse o amor espiritual com o corporal. Bernardo de Claraval, no século XII, pregou 86 sermões sobre Cantares ao longo de cerca de dezoito anos e morreu sem passar do capítulo 3. Nele, a mulher é a alma que busca a união com Cristo, e o 'beijo' de 1.2 é descrito como experiência espiritual. A tradição alegórica foi tão dominante que muitos medievais nem consideravam a leitura literal digna de atenção.

    A leitura direta também tem ancestrais. Teodoro de Mopsuéstia, por volta de 400, é lembrado como um dos que viram no livro uma canção humana, ligada ao casamento de Salomão, e a leitura foi rejeitada por parte da tradição. No século XVI, Sebastião Castélio contestou a canonicidade do livro por considerá-lo impróprio, e foi respondido por Calvino. A pesquisa do século XIX e do XX trouxe novas comparações, com os poemas egípcios e com as canções de casamento árabes, e muitos comentaristas passaram a ver em Cantares uma coletânea de poemas amorosos. A leitura feminista de Phyllis Trible, nos anos 1970, destacou o protagonismo da mulher, e comentaristas evangélicos como Tremper Longman leem o livro como celebração do amor humano, com ressonâncias de aliança.

    Essas posições não são sempre excludentes. Muitos antigos aceitavam o sentido literal e depois o ultrapassavam. O risco da alegoria é dissolver o texto em outra coisa e fazer do corpo um disfarce. O risco da leitura puramente literal é esquecer que o livro foi guardado, copiado e lido em comunidades religiosas durante séculos, e que isso também faz parte do que ele é.

    Para conversar

    • Para você, a leitura alegórica enriquece o livro ou o esconde? O que ela ganha e o que ela perde?
    • Se Cantares for apenas poesia de amor humano, isso o torna menos digno de estar na Bíblia? Por quê?
    • Que pergunta você faria a Orígenes, a Bernardo ou a um comentarista moderno sobre o modo como leram o 'beijo' de 1.2?
    • É possível manter o sentido literal e também o figurado sem que um anule o outro? Como seria uma leitura assim?
  6. 6.O lugar do livro no cânon e o que fazer com ele

    Cantares nem sempre teve lugar garantido. A Mishná, no tratado Yadayim, registra uma discussão entre mestres judeus sobre se Cantares e Eclesiastes tornam as mãos impuras, isto é, se são Escritura sagrada. Nessa discussão se atribui ao rabino Akiva, no século II, uma defesa enfática: a de que o livro seria o mais santo dos escritos. Durante muito tempo se ensinou que um concílio em Jâmnia teria fechado o cânon hebraico nessa época; a pesquisa recente duvida de que tenha havido uma decisão formal desse tipo, e o quadro parece ter sido mais gradual. Fragmentos de Cantares aparecem entre os manuscritos de Qumran, o que mostra que o livro circulava.

    Na Bíblia hebraica, ele está entre os Escritos, no grupo dos cinco rolos lidos em festas (Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester e Cantares). Nas Bíblias cristãs, aparece entre os livros poéticos e sapienciais, depois de Eclesiastes. O Novo Testamento não o cita de forma explícita, e a ligação que a tradição cristã faz entre o amado e Cristo se apoia, em geral, em Efésios 5.31-32, onde Paulo fala do casamento como 'mistério' relativo a Cristo e à Igreja, sem mencionar Cantares. Entre os cristãos antigos, a dúvida foi rara, e no século XVI foi respondida pela maior parte dos reformadores com a manutenção do livro.

    Dentro do cânon, Cantares conversa com Provérbios 5.15-19, que fala do amor conjugal com imagens de cisterna e fonte, e também com Eclesiastes, que atravessa o mesmo mundo de prazer, trabalho e fim. É a voz do prazer sem pedido de desculpas, ao lado de outras vozes que tratam da vida com mais sobriedade. O cânon não escolheu uma delas; guardou todas. Isso é, por si só, uma informação sobre como as comunidades que o formaram entendiam a Escritura.

    Resta a pergunta prática de como ler o livro hoje. As tradições respondem de formas distintas, e não cabe escolher por elas. Pode-se lê-lo como celebração do amor humano, como itinerário da alma, como figura de Deus e seu povo, ou como as três coisas em medidas variadas. O refrão de 2.7 e 8.4, que pede que não se desperte o amor antes que ele queira, aparece três vezes e talvez seja a instrução mais direta do livro. O final, em 8.14, é aberto: a mulher chama o amado a fugir como a gazela pelos montes, sem dizer se ele vem. O poema termina em desejo, e não em posse.

    Para conversar

    • O fato de uma discussão sobre a canonicidade de Cantares ter existido enfraquece o livro ou mostra que a comunidade levou a Escritura a sério? O que você acha?
    • Por que o cânon guardou vozes tão diferentes como Cantares, Eclesiastes e Provérbios? O que se perderia se faltasse uma delas?
    • Se você tivesse que explicar o lugar de Cantares na Bíblia a alguém que nunca o leu, o que diria primeiro?
    • O livro termina com um chamado que não sabemos se é atendido. O que esse final aberto diz sobre o tema do poema?

O que fica

  • Cantares é poesia lírica de amor, com três vozes principais (a mulher, o amado e o coro) e sem enredo que o texto confirme.
  • O nome de Deus quase não aparece, e a única exceção possível, em 8.6, é debatida; a pergunta sobre o motivo de o livro estar no cânon é legítima.
  • As imagens de jardim e vinha pedem leitura atenta ao que fazem sentir, e a chave alegórica vem de fora do texto.
  • Cantares 8.6-7 iguala o amor à morte em força e afirma que ele não se compra; não diz que o amor vence a morte.
  • Judeus, cristãos antigos e modernos leram o livro de formas diferentes, e cada leitura preserva algo e deixa algo de lado.

Aprofundamento

A questão central é o que o texto é, e há três famílias de resposta. A primeira é a leitura alegórica, que vê no livro o amor entre Deus e Israel (tradição judaica, com o Targum e Rashi) ou entre Cristo e a Igreja ou a alma (Orígenes, Bernardo de Claraval e boa parte da tradição medieval). O apoio externo vem de passagens em que o pacto é descrito como casamento, como .14-20 e , mas Cantares nunca fornece essa chave. A segunda é a leitura direta, que enxerga canções de amor e de casamento entre pessoas, sem segundo sentido obrigatório; Teodoro de Mopsuéstia é lembrado como antecessor antigo, e a maior parte dos comentaristas modernos a adota. A terceira é uma leitura combinada, comum em autores evangélicos e católicos contemporâneos, que parte do amor humano e admite ressonâncias de aliança.

Dentro das leituras diretas há outra discussão, sobre a forma. A hipótese dramática propõe duas ou três personagens e um enredo, com Salomão ou um pastor como rival do amado. A hipótese da coletânea vê poemas independentes unidos por refrões, o que explica melhor as mudanças de lugar sem aviso e as cenas de sonho em 3.1-5 e 5.2-8. A hipótese cultual, que ligava o livro a ritos de fertilidade, perdeu espaço, porque o texto não traz marcas de culto.

O trecho decisivo é 8.6-7. O amor é 'forte como a morte', o ciúme é 'duro como o Xeol', e nenhuma enchente consegue apagá-lo. A frase iguala o amor à morte em força, sem dizer que o vence, e nada diz sobre vida depois da morte. Se shalhevetyah contiver o nome divino, o amor ganha uma origem divina explícita; se não, a ligação com Deus fica por conta do cânon.

Há também debates de tradução. Palavras como 'rosa de Sarom' (2.1) e 'mandrágoras' (7.13) têm sentidos incertos, e a expressão 'irmã, noiva' (4.9-12) é lida como termo de carinho, coerente com a poesia egípcia, e não como parentesco literal.

Por fim, a leitura não precisa ser exclusiva. Muitos medievais aceitavam o sentido literal e o ultrapassavam. Quem os lê hoje pode concordar com o método sem aderir à conclusão, ou o contrário.

Há, por fim, a questão do uso. O livro foi lido na liturgia judaica da Páscoa e serviu de texto de meditação a monges e místicos cristãos; hoje também aparece em cerimônias de casamento. Cada uso já pressupõe uma leitura, e vale perceber qual, antes de dizer que o texto 'diz' alguma coisa.

O que costumam dizer errado

  • Dizem que:Cantares é só alegoria do amor de Cristo pela Igreja, e a leitura literal é inadequada.

    A leitura alegórica é antiga e importante, mas não é a única nem a primeira. Os mestres judeus a aplicaram a Deus e Israel, Teodoro de Mopsuéstia defendeu a leitura direta já por volta do ano 400, e hoje a maioria dos comentaristas parte do amor humano. O texto não fornece a chave alegórica, ao contrário de .7.

  • Dizem que:Salomão escreveu Cantares e a sulamita era uma de suas esposas.

    A primeira linha liga o livro a Salomão, mas a preposição hebraica admite autoria, dedicatória ou associação, e o rei aparece também como personagem. Quanto à sulamita, o sentido da palavra é discutido, e o livro não diz que seja esposa de ninguém. A hipótese de que ela amasse um pastor e resistisse ao rei é uma reconstrução moderna, não informação do texto.

  • Dizem que:Cantares fala de Deus, porque o nome divino aparece em 8.6.

    Em 8.6 a palavra shalhevetyah pode conter uma forma curta do nome divino ('chama de Yah') ou ser apenas um superlativo ('chama violentíssima'). As traduções se dividem, e nenhum outro verso do livro nomeia Deus.

  • Dizem que:A Bíblia censurou ou escondeu Cantares por causa do seu conteúdo.

    A inclusão foi discutida, mas o livro foi guardado e copiado, e fragmentos aparecem entre os manuscritos de Qumran. A tradição judaica o leu na Páscoa, e o rabino Akiva, segundo a Mishná, o defendeu com ênfase. O que houve foi debate, não ocultação.

Como diferentes tradições cristãs leem

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Judaica (rabínica)

    Lê o livro como diálogo entre Deus e Israel, do Êxodo até o fim dos tempos. O Targum, tradução aramaica comentada, e Rashi, no século XI, seguem essa chave. O livro é lido na Páscoa, o que reforça a ligação com a história do povo. A leitura se apoia em passagens proféticas que descrevem o pacto como casamento, como .14-20.

  • Patrística e medieval (Orígenes e Bernardo de Claraval)

    A amada é a alma ou a Igreja, e o amado é Cristo, o Verbo de Deus. Orígenes escreveu comentário e homilias por volta do ano 240; Bernardo pregou 86 sermões sobre o livro no século XII, sem passar do capítulo 3. A leitura trata o desejo como figura de união espiritual e dominou a Igreja por mais de mil anos.

  • Literal-histórica antiga e moderna

    Vê canções de amor e de casamento entre pessoas, sem segundo sentido obrigatório. Teodoro de Mopsuéstia é lembrado como antecessor antigo; a pesquisa moderna ajudou com os paralelos egípcios e com as canções de casamento árabes. A maior parte dos comentaristas atuais, de várias confissões, parte daqui, e a leitura feminista de Phyllis Trible destaca o papel da mulher.

  • Evangélica contemporânea

    Combina o sentido literal do amor humano com ressonâncias de aliança. Autores como Tremper Longman tratam o livro como celebração do amor entre homem e mulher, que o cânon coloca ao lado de Provérbios e Eclesiastes, e admitem que, no conjunto da Bíblia, esse amor aponta para o amor de Deus.

O que fazer com isso

Ao ler Cantares, comece pelas imagens e pergunte o que cada uma faz sentir, em vez de procurar de imediato o que ela 'representa'. Depois separe, em cada trecho, o que o texto diz do que a tradição acrescentou a ele. Se for usá-lo em casamento, em velório ou em oração, saiba que esse uso já é uma leitura, e que há outras. A pergunta útil não é qual leitura é a certa, mas o que cada uma preserva e o que deixa de lado.

Perguntas frequentes

Cantares de Salomão foi mesmo escrito por Salomão?
Não se sabe. A primeira linha liga o livro a Salomão, mas a preposição hebraica admite autoria, dedicatória ou associação. O rei aparece também como personagem, e a data é debatida. A tradição o associou a ele, e o texto não confirma nem nega.
Por que o nome de Deus quase não aparece em Cantares?
O texto não explica. Só em 8.6 há uma palavra que pode conter uma forma abreviada do nome divino, e as traduções se dividem. Quem lê o livro como alegoria vê Deus em toda parte; quem o lê como poesia de amor humano considera a ausência uma característica do gênero.
Quem são as filhas de Jerusalém?
São um coro a quem a mulher se dirige, em especial no refrão de 2.7, 3.5 e 8.4, e que lhe responde em 5.8-9. O texto não diz quem são. Podem ser mulheres da corte ou da cidade, e sua função é ouvir, perguntar e acompanhar o poema.
Cantares deve ser lido como alegoria ou como poesia de amor?
As tradições divergem. Judeus e cristãos antigos e medievais preferiram a alegoria; a maioria dos comentaristas modernos parte do amor humano; outros combinam as duas leituras. O texto não traz a chave alegórica, e isso mantém a discussão aberta.

Fontes consultadas

  • Orígenes. Comentário e Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, 240.
  • Bernardo de Claraval. Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, 1135.
  • Roland E. Murphy. The Song of Songs (Hermeneia), 1990.
  • Michael V. Fox. The Song of Songs and the Ancient Egyptian Love Songs, 1985.
  • Phyllis Trible. God and the Rhetoric of Sexuality, 1978.
  • Tremper Longman III. Song of Songs (New International Commentary on the Old Testament), 2001.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Temas

Publicado em 13/11/2026

Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 6 obras citadas, com autor e ano
  • 4 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

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