Susana e os Anciãos
Quem foi Susana na Bíblia e por que a história não está no cânone judaico?
Ficha do documento
- Data provável
- Composição grega: século II a.C.
- Língua
- grego (duas versões: Septuaginta antiga e Teodocião)
- Onde se preserva
- Manuscritos gregos da Septuaginta e da revisão de Teodocião, incorporados a códices bíblicos como o Codex Alexandrinus
A erudição, no entanto, sustenta: Autor judeu anônimo de língua grega, provavelmente da diáspora helenística
Status por tradição
Resposta curta
Susana e os Anciãos é uma novela judaica preservada apenas em grego, tradicionalmente lida como o capítulo 13 do livro de Daniel nas Bíblias católicas e ortodoxas, embora esteja ausente do texto aramaico-hebraico usado pelas tradições judaica e protestante. A história conta como dois juízes idosos, desejando Susana, mulher casada e temente a Deus, tentam forçá-la a se deitar com eles; ao serem recusados, acusam-na falsamente de adultério, e ela é condenada à morte. O jovem Daniel intervém, interroga separadamente os dois anciãos e expõe a contradição entre seus depoimentos, salvando Susana e fazendo com que os falsos acusadores sejam executados conforme a lei mosaica sobre falso testemunho. O texto circula em duas versões gregas distintas, a Septuaginta antiga e a revisão de Teodocião, sendo esta última a que prevaleceu na tradição da igreja.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
Susana era uma mulher casada e fiel a Deus. Dois juízes anciãos a desejaram e, quando ela recusou, mentiram dizendo que a viram com outro homem. Susana foi condenada à morte por essa acusação falsa. O jovem Daniel perguntou separadamente a cada um dos anciãos onde o suposto encontro havia ocorrido, e as respostas não coincidiram, provando a mentira. Os anciãos foram então executados, e Susana foi salva. A história só existe em grego e não está nas Bíblias protestantes nem judaicas, mas católicos e ortodoxos a incluem em Daniel.
O que o documento conta
Susana e os Anciãos não aparece no texto massorético hebraico-aramaico de Daniel, sendo conhecida apenas através de duas versões gregas independentes: a chamada Septuaginta antiga, mais curta e menos elaborada, e a revisão atribuída a Teodocião, do século II d.C., que se tornou o texto padrão adotado pelas igrejas cristãs e substituiu quase completamente a versão mais antiga na transmissão manuscrita posterior. A ausência de qualquer testemunho semítico gerou, já na Antiguidade, um debate sobre a língua original da composição. No início do século III, o erudito cristão Sexto Julio Africano escreveu a Orígenes questionando a autenticidade do relato, apontando que os jogos de palavras usados pelos dois anciãos ao nomear a árvore sob a qual teriam visto Susana — 'lentisco' (schinos), ligado ao verbo 'rachar' (schizein), e 'carrasco' (prinos), ligado a 'serrar' (prisai) — só funcionam em grego, o que sugeriria uma composição grega original, não uma tradução de um texto hebraico ou aramaico anterior. Orígenes respondeu defendendo o relato numa carta hoje preservada como importante testemunho inicial do debate cristão sobre os limites do cânone bíblico, e a troca entre os dois se tornou um marco inicial da crítica textual e canônica cristã. A maioria dos estudiosos modernos data a composição do conto de algum momento do século II a.C., no ambiente da diáspora judaica de língua grega, embora alguns proponham um núcleo semítico anterior que teria sido adaptado e expandido em grego. O texto foi anexado ao livro de Daniel de formas diferentes nas diversas tradições de transmissão: nas Bíblias católicas e ortodoxas, Susana aparece como capítulo 13, posicionado depois da visão das quatro bestas, ou, em algumas edições, antes do capítulo 1, como prólogo narrativo à figura do jovem Daniel. As Bíblias protestantes, seguindo o cânone hebraico mais restrito fixado pelos reformadores no século XVI, excluem o relato por completo, agrupando-o entre os apócrifos junto com outros textos de origem semelhante, ainda que muitas edições antigas dessas mesmas Bíblias protestantes tenham continuado a imprimir Susana numa seção separada, dedicada à leitura histórica e devocional.
Aprofundamento
A narrativa de Susana funciona como uma novela judicial completa em miniatura, com estrutura de suspense cuidadosamente construída: a acusação falsa, a condenação sumária baseada no testemunho de duas autoridades respeitadas, o clamor da protagonista por justiça divina e a reviravolta processual promovida por um interrogatório engenhoso. Diferente da maior parte do livro de Daniel, que se concentra em visões apocalípticas e na corte da Babilônia ou da Pérsia, Susana retrata a vida cotidiana de uma família judaica próspera na diáspora, com jardim próprio, servos e uma rotina social que inclui a visita regular de anciãos-juízes à propriedade. A ênfase do relato recai sobre o cumprimento rigoroso da lei de , que exige duas ou três testemunhas para condenação e prevê que a falsa testemunha sofra a pena que pretendia impor à vítima: os dois anciãos, ao serem desmascarados, recebem a mesma sentença de morte que haviam decretado contra Susana. A estudiosa Carey A. Moore, autora do comentário de referência sobre os acréscimos a Daniel na coleção Anchor Bible (1977), argumentou que o conto foi provavelmente composto para reforçar, em tom de entretenimento moralizante, a confiança na justiça divina em meio à corrupção de autoridades judiciais — um tema relevante tanto sob domínio selêucida quanto sob domínio helenístico-romano posterior. Moore também discute a hipótese, hoje minoritária, de uma origem semítica do relato anterior à elaboração dos jogos de palavras gregos, sugerindo que uma versão mais simples poderia ter circulado oralmente antes de sua redação grega definitiva; a maioria dos comentaristas atuais, porém, tende a aceitar a composição grega como texto verdadeiramente original, dado o peso do argumento filológico levantado por Africano. Outro ponto de discussão acadêmica é a relação entre as duas versões gregas: a versão da Septuaginta antiga é significativamente mais curta, com menos diálogo processual e um Daniel apresentado de forma menos heroica, enquanto a versão de Teodocião expande consideravelmente os discursos e dramatiza melhor o julgamento, o que provavelmente explica por que essa segunda versão suplantou a primeira na preferência da igreja antiga. O relato também é lido por estudiosos como parte de um padrão mais amplo de literatura judaica helenística que celebra heróis e heroínas que resistem à corrupção de poderosos por meio da fidelidade à lei e da intervenção divina mediada por um agente humano sábio, padrão que aparece também em Ester, Judite e Tobias. Vale notar ainda que, apesar de sua brevidade, a narrativa concentra em poucas páginas quase todos os elementos clássicos do gênero de novela judicial antiga, o que ajuda a explicar sua popularidade duradoura em pregações e iconografia cristã posterior.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Susana é um livro independente da Bíblia.
É um acréscimo grego ao livro de Daniel, não um livro autônomo; aparece como capítulo 13 de Daniel nas Bíblias católicas e ortodoxas.
Dizem que:A história de Susana existe em hebraico antigo.
Nenhum manuscrito hebraico ou aramaico do relato jamais foi encontrado; ele é conhecido exclusivamente através de duas versões gregas independentes.
Como diferentes tradições leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo e Ortodoxia
Lido como parte canônica (deuterocanônica) de Daniel, valorizado por sua lição moral sobre justiça divina e integridade diante da tentação.
Protestantismo
Classificado como apócrifo; historicamente incluído em algumas edições da Bíblia como material devocional ou histórico, mas sem autoridade doutrinária.
O que fazer com isso
Susana mostra como comunidades judaicas da diáspora helenística refletiam sobre corrupção judicial e fidelidade à lei mosaica num ambiente onde autoridades locais podiam abusar do próprio cargo. A história também ilustra, de forma concreta e narrativa, como a exigência bíblica de duas testemunhas () funcionava como proteção real contra acusações falsas, ajudando o leitor moderno a visualizar essa lei em ação dentro de uma tradição de sabedoria judaica precoce.
Fontes consultadas2 obras
- Carey A. Moore. Daniel, Esther, and Jeremiah: The Additions (Anchor Bible), 1977.
- Sexto Julio Africano e Orígenes. Correspondência sobre a autenticidade de Susana (Epistula ad Origenem / Epistula ad Africanum), 240.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Susana está na Bíblia católica?
Sim, como capítulo 13 do livro de Daniel, classificada como texto deuterocanônico.
Por que Susana não está na Bíblia hebraica?
Porque só existe em grego, sem testemunho hebraico ou aramaico conhecido, e o cânone judaico e protestante seguem o texto semítico de Daniel.
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