Evangelho de Filipe
O que é o Evangelho de Filipe e por que ele fala tanto de Maria Madalena?
Ficha do documento
- Data provável
- Composição grega: século III d.C.; tradução copta: século IV d.C.
- Língua
- grego (original perdido), copta (tradução preservada)
- Autoria atribuída
- Apóstolo Filipe (atribuição do título, não histórica)
- Onde se preserva
- Codex II de Nag Hammadi, Museu Copta do Cairo, Egito
A erudição, no entanto, sustenta: Autor(es) anônimo(s) de tradição valentiniana, possivelmente compilador sírio
Status por tradição
Resposta curta
O Evangelho de Filipe não é um relato narrativo da vida de Jesus, mas uma coletânea de ditos, reflexões teológicas e comentários sacramentais de orientação gnóstica valentiniana, composta em grego provavelmente no século III d.C. e preservada apenas em tradução copta, dentro dos manuscritos de Nag Hammadi descobertos no Egito em 1945. O texto discute cinco 'sacramentos' — batismo, unção, eucaristia, redenção e a chamada 'câmara nupcial' —, entendidos como etapas simbólicas de retorno da alma à plenitude divina (o Pleroma). É famoso, sobretudo entre leitores populares, por passagens que chamam Maria Madalena de 'companheira' de Jesus e mencionam beijos entre eles, o que gerou especulação moderna sobre um suposto casamento, embora estudiosos leiam essas passagens dentro da simbologia sacramental do texto, não como biografia histórica.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
O Evangelho de Filipe não conta a vida de Jesus como os quatro evangelhos da Bíblia; é uma coleção de ensinamentos e reflexões de um grupo cristão chamado gnóstico, escrita por volta do século III e encontrada em 1945 no Egito, escrita em copta. Ele fala de cinco rituais sagrados, sendo o mais importante chamado 'câmara nupcial'. É conhecido por chamar Maria Madalena de companheira de Jesus, o que gerou teorias populares sobre casamento, embora os estudiosos entendam essa linguagem dentro do simbolismo religioso do texto, não como fato histórico.
O que o documento conta
O Evangelho de Filipe foi identificado entre os treze códices coptas descobertos em 1945 por camponeses egípcios perto da cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, um conjunto de manuscritos hoje reconhecido como a mais importante coleção sobrevivente de literatura gnóstica cristã. O texto ocupa a segunda posição do Codex II da coleção, junto com outras obras como o Evangelho de Tomé e o Apócrifo de João, e sua tradução copta, provavelmente feita no século IV, deriva de um original composto em grego que os estudiosos situam, com base em vocabulário e ideias teológicas, em algum momento do século III d.C., possivelmente na Síria, dado o interesse do texto por etimologias e trocadilhos em siríaco e aramaico que não funcionam em copta ou grego. Diferente dos evangelhos canônicos, Filipe não segue uma estrutura narrativa contínua: é uma antologia de mais de cem unidades de pensamento — aforismos, alegorias, argumentos teológicos e comentários sacramentais — reunidas sem ordem cronológica evidente, provavelmente por um compilador que extraiu material de fontes valentinianas anteriores. O manuscrito único que preserva o texto ficou perdido por mais de mil e quinhentos anos até seu redescobrimento moderno, e hoje está conservado no Museu Copta do Cairo, junto com a maior parte dos demais códices de Nag Hammadi. A publicação e tradução da obra ao longo das décadas de 1950 a 1970 revolucionou o estudo acadêmico do gnosticismo cristão, permitindo pela primeira vez o acesso direto a textos valentinianos originais, até então conhecidos apenas indiretamente através das refutações escritas por heresiólogos ortodoxos como Irineu de Lyon, cuja obra 'Contra as Heresias' havia sido, até 1945, a principal fonte disponível sobre o pensamento valentiniano. A descoberta completa da biblioteca de Nag Hammadi só chegou de fato ao conhecimento acadêmico amplo ao longo das décadas seguintes, em parte por causa da instabilidade política do Egito e da dispersão inicial dos códices entre negociantes de antiguidades, colecionadores particulares e instituições, um processo que retardou consideravelmente a publicação e a tradução sistemática de textos como o Evangelho de Filipe.
Aprofundamento
O Evangelho de Filipe organiza seu pensamento em torno de uma sequência de cinco sacramentos — batismo, crisma (unção), eucaristia, resgate (apolytrosis) e a câmara nupcial (numphon) —, apresentados como o mais elevado e definitivo dos ritos, capaz de reunificar a alma dividida com seu par celestial e restaurar sua integridade original perdida na queda para o mundo material. Essa cosmologia reflete a teologia valentiniana clássica, na qual a existência humana resulta de uma separação original dentro do Pleroma divino, e a salvação consiste em conhecimento (gnose) e ritual que reconduzem o crente a essa unidade perdida. É nesse quadro sacramental, e não biográfico, que o texto insere suas menções a Maria Madalena, chamando-a de 'companheira' (koinonos) do Salvador e afirmando que ele a beijava com frequência, para desgosto dos demais discípulos — passagem que se tornou célebre fora dos círculos acadêmicos após ser popularizada por obras de ficção como 'O Código Da Vinci'. O estudioso Wesley W. Isenberg, responsável pela tradução do Evangelho de Filipe na edição de referência da Biblioteca de Nag Hammadi em inglês, observou que o termo copta usado para 'companheira' também aparece descrevendo o relacionamento simbólico entre a alma e seu par celestial em outras passagens do mesmo texto, sugerindo que a linguagem sobre Maria funciona dentro do simbolismo sacramental da câmara nupcial, não como afirmação biográfica sobre casamento no sentido moderno. Outro tema central da obra é sua rejeição, ou ao menos forte relativização, da ressurreição corporal literal: o texto afirma que 'quem diz que primeiro morrerá e depois ressuscitará está errado', propondo que a ressurreição verdadeira já acontece, espiritualmente, ainda em vida, através do conhecimento e dos sacramentos — posição que diverge frontalmente da ênfase paulina na continuidade corporal transformada (). O estudioso Bentley Layton, em sua influente antologia comentada sobre as escrituras gnósticas, situa Filipe dentro da tradição valentiniana oriental e destaca seu estilo aforístico deliberadamente enigmático, que exige do leitor iniciado a capacidade de decifrar múltiplos sentidos simultâneos por trás de cada dito, uma característica retórica comum à literatura sapiencial gnóstica do período helenístico tardio. Estudiosos como Hans-Martin Schenke, autor de um extenso comentário alemão sobre a obra, também chamam atenção para a possível costura editorial de materiais de origens distintas dentro do texto que hoje lemos como unidade, o que ajudaria a explicar tanto suas repetições temáticas quanto certas tensões internas de vocabulário entre diferentes blocos de ditos, sugerindo um processo de compilação em mais de uma etapa antes da forma copta final que chegou até nós.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O Evangelho de Filipe prova que Jesus foi casado com Maria Madalena.
O termo 'companheira' usado no texto tem sentido sacramental-simbólico dentro da teologia valentiniana da câmara nupcial, e nenhum estudioso sério do documento o lê como registro histórico de um casamento.
Dizem que:O Evangelho de Filipe foi escrito pelo apóstolo Filipe.
A atribuição a Filipe é apenas o título dado à obra por seu único manuscrito sobrevivente; o texto é uma compilação anônima do século III, muito posterior à vida do apóstolo.
Como diferentes tradições leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Estudos acadêmicos do gnosticismo
Lido como testemunho primário valioso da teologia sacramental valentiniana, útil para reconstruir um sistema religioso conhecido antes só por fontes hostis.
Cristianismo histórico (patrística)
Rejeitado desde a Antiguidade como heresia gnóstica, condenado por autores como Irineu de Lyon por distorcer o evangelho apostólico.
O que fazer com isso
O Evangelho de Filipe mostra como certos grupos cristãos do século III reinterpretaram radicalmente conceitos centrais do Novo Testamento — ressurreição, sacramento, casamento — dentro de uma cosmologia gnóstica de resgate espiritual, ajudando o leitor a perceber por contraste o que os escritores do Novo Testamento realmente afirmavam e o que a igreja institucional rejeitou como desvio doutrinário nos séculos seguintes à composição dos evangelhos canônicos.
Fontes consultadas2 obras
- Wesley W. Isenberg. The Gospel of Philip, in The Nag Hammadi Library in English, 1988.
- Bentley Layton. The Gnostic Scriptures: A New Translation with Annotations, 1987.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O Evangelho de Filipe está na Bíblia?
Não, em nenhuma tradição cristã; é um texto gnóstico apócrifo, nunca considerado canônico.
O Evangelho de Filipe apresenta Jesus e Maria Madalena como casados?
Ele chama Maria de 'companheira' e menciona beijos, mas a maioria dos estudiosos entende isso como linguagem sacramental simbólica, não como afirmação de casamento histórico.
Documentos próximos
Temas
- #evangelho-de-filipe
- #gnosticismo
- #nag-hammadi
- #valentinianos
- #maria-madalena
- #sacramentos-gnosticos
- #copta
- #apocrifos-do-novo-testamento