Cilindro de Nabonido
O que é o Cilindro de Nabonido e o que ele tem a ver com Belsazar da Bíblia?
Ficha do documento
- Data provável
- c. 550–540 a.C. (durante o reinado de Nabonido, 556–539 a.C.)
- Língua
- acadiano (cuneiforme babilônico)
- Autoria atribuída
- Nabonido, rei da Babilônia (r. c. 556–539 a.C.), como autor-locutor da inscrição
- Onde se preserva
- Museu Britânico, em Londres, entre outros repositórios que guardam exemplares do corpus de inscrições de Nabonido
A erudição, no entanto, sustenta: Escribas da corte real neobabilônica, a serviço de Nabonido
Status por tradição
| Tradição judaica | Fora do cânon | Não é texto religioso; é um achado arqueológico babilônico, sem estatuto canônico aplicável. |
| Igreja Católica | Fora do cânon | Não é texto religioso; é um achado arqueológico babilônico, sem estatuto canônico aplicável. |
| Igreja Ortodoxa | Fora do cânon | Não é texto religioso; é um achado arqueológico babilônico, sem estatuto canônico aplicável. |
| Ortodoxa Etíope | Fora do cânon | Não é texto religioso; é um achado arqueológico babilônico, sem estatuto canônico aplicável. |
| Tradições protestantes | Fora do cânon | Não é texto religioso; é um achado arqueológico babilônico, sem estatuto canônico aplicável. |
Resposta curta
O Cilindro de Nabonido é uma inscrição cuneiforme em argila, do período neobabilônico, encontrada nas ruínas do templo do deus-lua Sin, na antiga cidade de Ur, no sul do atual Iraque. Nele, o rei Nabonido, que reinou de 556 a 539 a.C., registra obras de restauração e insere uma oração pedindo proteção para si e para "Belsazar, meu filho primogênito, minha própria descendência".
Antes dessa descoberta, historiadores duvidavam da existência de Belsazar, já que autores clássicos como Heródoto citavam apenas Nabonido como último rei babilônico. Lido ao lado de outros textos do reinado, o cilindro ajudou a situar Belsazar como corregente na capital enquanto o pai ficava ausente na Arábia — dado que esclarece por que o chama de "rei" e lhe dá só o terceiro lugar do reino.
Passagens bíblicas relacionadas
Em palavras simples
É um cilindro de argila com escrita cuneiforme, feito há mais de 2.500 anos por ordem do rei Nabonido, da Babilônia. Nele, Nabonido pede a bênção de um deus para si e para seu filho mais velho, Belsazar. Esse texto ajudou os estudiosos a confirmar que Belsazar realmente existiu e que ele governava a Babilônia no lugar do pai, que estava fora da cidade por muito tempo. Isso explica um detalhe do livro de Daniel: por que Belsazar só podia oferecer o terceiro lugar do reino, e não o segundo.
O que o documento conta
Nabonido subiu ao trono da Babilônia em 556 a.C., no fim da dinastia caldeia iniciada por Nabopolassar e continuada por Nabucodonosor II. Ele não pertencia à linhagem real anterior e, segundo suas próprias inscrições, era filho de um governador e de Adad-guppi, uma sacerdotisa de longa vida dedicada ao culto do deus-lua Sin, cultuado principalmente em Harã. Nabonido promoveu Sin a uma posição de destaque incomum no panteão babilônico, o que gerou atrito com o sacerdócio tradicional de Marduk, o deus principal de Babilônia — tensão que mais tarde seria explorada pela propaganda do conquistador persa Ciro.
Por razões ainda discutidas entre historiadores (devoção religiosa, controle de rotas comerciais, ou ambas), Nabonido passou cerca de uma década residindo no oásis de Tema, no noroeste da Arábia, longe da capital. Durante esse período, o governo efetivo de Babilônia ficou nas mãos de seu filho primogênito, Belsazar, que exerceu autoridade real sem jamais ostentar o título pleno de rei nos documentos oficiais — um arranjo incomum que intrigava os historiadores desde a Antiguidade, já que autores gregos como Heródoto sequer mencionam Belsazar, citando apenas Nabonido como o último rei antes da queda da Babilônia para os persas, em 539 a.C.
O cilindro em questão foi encontrado entre as ruínas do templo do deus-lua Sin, na cidade suméria de Ur, no sul do atual Iraque, depositado nas fundações como parte de um ritual de restauração do santuário — prática comum na Mesopotâmia, em que o construtor deixava um registro escrito para os deuses e para reis futuros. A peça foi recuperada em escavações britânicas do século XIX e hoje integra o acervo do Museu Britânico, junto com outros exemplares do mesmo gênero produzidos durante o reinado de Nabonido em diferentes cidades do império. Sua redescoberta, ao lado de outros textos cuneiformes decifrados a partir de meados do século XIX, permitiu aos historiadores reconstruir com muito mais precisão os últimos anos do Império Neobabilônico e a posição exata de Belsazar dentro dele.
Aprofundamento
O Cilindro de Nabonido pertence a um gênero comum na Mesopotâmia: a inscrição de fundação ou dedicação, gravada em argila e depositada nas fundações de um templo restaurado, registrando a obra do rei e pedindo a bênção divina sobre ele e sua linhagem. O exemplar de Ur, escrito em acadiano cuneiforme, comemora reparos no templo do deus-lua Sin (Nanna, para os sumérios) e termina com uma oração na primeira pessoa: Nabonido pede longa vida para si e, para "Belsazar, o filho primogênito, minha própria descendência", pede que o deus incuta reverência em seu coração e o afaste do pecado — uma súplica de pai, não uma declaração de coroação, mas que nomeia Belsazar (Bel-shar-usur, "que Bel proteja o rei") como figura real e viva da corte babilônica.
Esse texto não está sozinho: pertence a um corpus maior de documentos do reinado de Nabonido, que inclui outros cilindros de dedicação (como o de Sippar), a Crônica de Nabonido (um registro anual de eventos), a chamada "Conta em Verso de Nabonido" (um panfleto hostil, provavelmente produzido sob Ciro, que acusa Nabonido de negligenciar os deuses tradicionais de Babilônia) e as estelas de Harã, nas quais sua mãe, a sacerdotisa Adad-guppi, narra em primeira pessoa uma vida dedicada ao culto de Sin. Cruzando essas fontes, historiadores como Raymond P. Dougherty (1929) e, mais tarde, Paul-Alain Beaulieu (1989) reconstruíram o quadro hoje aceito: Nabonido passou cerca de dez anos residindo no oásis de Tema, na Arábia, entregando o governo efetivo da Babilônia a Belsazar, que atuou como corregente sem jamais receber o título pleno de "rei" (šarru) nos registros oficiais babilônicos — ele aparece como príncipe herdeiro exercendo poder real.
Essa reconstrução ilumina, sem provar cena por cena, um detalhe preciso de : por que Belsazar, chamado de "rei" no relato bíblico, só pode oferecer a Daniel o "terceiro lugar no reino" () — porque o segundo lugar já era seu, sob um pai ausente que ocupava o primeiro. O texto bíblico também chama Belsazar de "filho" de Nabucodonosor (), quando ele era, pelos registros babilônicos, filho de Nabonido; a explicação mais aceita é que "filho" funcionava no hebraico e no aramaico bíblicos como termo amplo para "sucessor" ou "descendente na linhagem real", não necessariamente filiação direta — um uso atestado em outros textos do Antigo Oriente Próximo. O cilindro não resolve quando o livro de Daniel foi composto nem confirma os eventos específicos do banquete narrado no capítulo 5; ele apenas ancora Belsazar, antes tido por alguns como figura duvidosa, como pessoa histórica real, com o papel que a narrativa bíblica pressupõe.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O nome Belsazar foi inventado pelo autor de Daniel, o que provaria que o livro é uma lenda tardia sem base histórica.
Textos cuneiformes do próprio período, como este cilindro, atestam Bel-shar-usur como pessoa histórica real, filho de Nabonido — o nome não foi criado pela tradição bíblica.
Dizem que:O cilindro mostra que Belsazar era rei oficial da Babilônia, com o mesmo status do pai.
Nos documentos babilônicos ele nunca recebe o título pleno de rei (šarru); é tratado como príncipe herdeiro e corregente, exercendo poder real na ausência do pai, não como monarca formalmente entronizado.
Dizem que:Esse achado prova que o livro de Daniel foi escrito no século VI a.C., logo após os eventos que narra.
O cilindro confirma dados históricos usados pelo autor sobre a corte de Nabonido, mas não determina quando o texto bíblico foi redigido ou compilado — essa é uma questão literária distinta, debatida entre os próprios estudiosos cristãos.
Como diferentes tradições leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
judaica
Vê no achado uma confirmação da precisão histórica preservada na tradição sobre a corte babilônica no fim do exílio, sem que isso encerre o debate interno sobre a composição final do livro de Daniel.
catolica
Tende a aceitar, na erudição contemporânea, uma redação final de Daniel mais tardia, reconhecendo ao mesmo tempo que o autor teve acesso a memórias históricas legítimas da corte neobabilônica, como este cilindro ajuda a demonstrar.
ortodoxa
Costuma manter a tradição de uma origem única do livro no século VI a.C. e recebe o cilindro como reforço da fidelidade histórica do relato bíblico sobre os últimos reis da Babilônia.
protestante
Divide-se entre correntes mais conservadoras, que citam o cilindro para defender a datação tradicional de Daniel no século VI a.C., e correntes ligadas à erudição histórico-crítica, que aceitam uma composição mais tardia mas valorizam o achado como prova de que o autor preservou dados históricos reais.
O que fazer com isso
Um achado como este vale por corroboração de contexto, não por prova de cada detalhe de uma narrativa. O Cilindro de Nabonido confirma que Belsazar existiu e ocupava, de fato, uma posição real e distinta da de "rei pleno" — o que dá sentido histórico a um detalhe específico de . Isso não decide, sozinho, quando o livro foi escrito nem garante cada cena do banquete. Ler bem esse tipo de fonte é reconhecer com precisão o que ela sustenta e onde o silêncio dela permanece.
Fontes consultadas4 obras
- Raymond P. Dougherty. Nabonidus and Belshazzar: A Study of the Closing Events of the Neo-Babylonian Empire, 1929.
- Paul-Alain Beaulieu. The Reign of Nabonidus, King of Babylon 556-539 B.C., 1989.
- James B. Pritchard (ed.). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (ANET), 1969.
- Donald J. Wiseman. Nebuchadrezzar and Babylon, 1985.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Belsazar de verdade?
Foi o filho primogênito do rei Nabonido, da Babilônia, e governou a capital como corregente enquanto o pai passou cerca de dez anos morando na Arábia. Ele nunca recebeu, nos registros babilônicos, o título pleno de rei, mas exerceu poder real na prática.
Por que Daniel chama Belsazar de filho de Nabucodonosor, se ele era filho de Nabonido?
Nas línguas bíblicas, 'filho' também podia significar 'sucessor' ou 'descendente na linhagem real', não só filiação biológica direta. É esse uso amplo, atestado em outros textos antigos, que a maioria dos estudiosos usa para explicar a expressão.
O Cilindro de Nabonido prova que a história de Daniel 5 aconteceu exatamente como está escrita?
Não. Ele confirma que Belsazar existiu e ocupava uma posição real distinta da do pai, o que dá sentido histórico a um detalhe específico do capítulo. Ele não confirma nem nega os eventos do banquete narrado ali.
Onde está o cilindro hoje?
Peças desse tipo, encontradas nas escavações do templo de Ur no século XIX, integram hoje o acervo do Museu Britânico, em Londres, junto com outros textos do reinado de Nabonido.
Existe um único Cilindro de Nabonido?
Não. Nabonido mandou produzir várias inscrições de dedicação semelhantes em diferentes cidades do império, incluindo Ur e Sippar; a menção a Belsazar aparece nos exemplares associados ao templo de Ur.
Documentos próximos
Temas
- #nabonido
- #belsazar
- #babilonia
- #arqueologia
- #daniel
- #achado-arqueologico
- #imperio-neobabilonico
- #cuneiforme