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Significado Bíblico
Fora da BíbliaFonte históricaintermediária

Carta de Plínio, o Jovem, ao imperador Trajano

Existe alguma carta romana antiga que fala sobre os cristãos e como eles adoravam Jesus?

Ficha do documento

Data provável
c. 111–113 d.C. (tradicionalmente citada como 112 d.C.)
Língua
latim
Autoria atribuída
Plínio, o Jovem (Gaius Plinius Caecilius Secundus)
Onde se preserva
Livro X da correspondência de Plínio, tradição manuscrita separada dos Livros I–IX; texto latino disponível em edições críticas modernas, como a Loeb Classical Library

A erudição, no entanto, sustenta: Plínio, o Jovem — autoria amplamente aceita pelos historiadores, sem disputa significativa

Status por tradição

Tradição judaicaFora do cânonCorrespondência administrativa romana, sem relação com o cânon judaico.
Igreja CatólicaFora do cânonFonte histórica pagã sobre os cristãos, nunca candidata a Escritura.
Igreja OrtodoxaFora do cânonMesmo status: testemunho histórico externo à Bíblia.
Ortodoxa EtíopeFora do cânonNão integra o cânon amplo etíope nem qualquer outro.
Tradições protestantesFora do cânonDocumento histórico romano, não um texto religioso cristão.

Resposta curta

Por volta de 112 d.C., Plínio, o Jovem — governador romano da província da Bitínia e Ponto — escreveu ao imperador Trajano pedindo orientação sobre como julgar pessoas denunciadas como cristãs. É a carta 96 do décimo livro de sua correspondência oficial, hoje citada como Epistulae X.96, e uma das fontes romanas mais antigas a descrever o cristianismo por dentro.

Sem qualquer interesse em promover a fé que investigava, Plínio relata o que apurou sob interrogatório: os cristãos se reuniam num dia fixo, antes do amanhecer, para cantar um hino a Cristo "como a um deus", comprometiam-se por juramento a não roubar, não cometer adultério nem trair a palavra dada, e depois voltavam a se reunir para uma refeição comum e inofensiva. Ele registra ainda que muitos preferiam a execução a amaldiçoar Cristo.

Passagens bíblicas relacionadas

Em palavras simples

Um governador romano chamado Plínio escreveu ao imperador Trajano perguntando como lidar com cristãos presos em sua província, por volta do ano 112. Na carta, ele conta o que descobriu ao interrogá-los: se encontravam de madrugada para cantar louvores a Cristo como se ele fosse um deus, prometiam não roubar nem enganar ninguém, comiam juntos depois, e muitos preferiam morrer a negar a fé. É um retrato raro dos primeiros cristãos, escrito por alguém de fora e sem simpatia por eles.

O que o documento conta

Plínio, o Jovem (Gaius Plinius Caecilius Secundus, c. 61–113 d.C.) foi advogado, senador e, por volta de 110 a 112 d.C., governador imperial extraordinário da província da Bitínia e Ponto, na costa norte da atual Turquia, enviado por Trajano para reorganizar as finanças e a administração local. Ao longo do cargo, escreveu dezenas de cartas ao imperador pedindo orientação sobre problemas concretos — obras públicas, bombeiros voluntários, escravos fugidos — reunidas depois como o décimo livro de sua correspondência.

Uma dessas cartas, a de número 96, trata de um problema que Plínio nunca havia enfrentado: o que fazer com pessoas denunciadas anonimamente como cristãs. Ele relata que o culto havia crescido a ponto de esvaziar templos e reduzir a venda de carne de sacrifício, sinal de que a fé já alcançava cidades e o campo, homens e mulheres, cidadãos romanos e não cidadãos, de todas as idades e classes sociais. Diante de uma lista anônima com muitos nomes, Plínio interrogou os acusados, perguntando três vezes se eram cristãos e ameaçando pena de morte; os que persistiam eram executados ou, sendo cidadãos romanos, enviados a Roma para julgamento. Para apurar o que realmente acontecia nos encontros, chegou a torturar duas escravas descritas como "ministrae" — um termo que muitos estudiosos associam à função de diaconisa.

Sem precedente claro para seguir, Plínio pediu a Trajano uma diretriz oficial: deveria punir apenas por serem cristãos, mesmo sem outro crime comprovado? Deveria aceitar denúncias anônimas? A resposta de Trajano — preservada na carta seguinte, X.97 — instruiu que os cristãos não deveriam ser caçados ativamente, que denúncias anônimas não deveriam ser aceitas, e que quem negasse a fé e adorasse os deuses romanos deveria ser perdoado. Esse par de cartas tornou-se um dos documentos mais citados sobre a política romana em relação aos cristãos no início do século II.

Aprofundamento

O núcleo histórico da carta está no relato que Plínio extrai dos próprios interrogados e das duas escravas torturadas: os cristãos costumavam se reunir "num dia determinado, antes do amanhecer" (stato die ante lucem) para cantar, em coro, um hino a Cristo "como a um deus" (carmen Christo quasi deo dicere secum invicem). Em seguida, faziam um juramento (sacramentum) — palavra que na época também designava o juramento militar romano — de não cometer furto, roubo, adultério, quebra de palavra ou apropriação indevida de bens confiados a eles. Segundo Plínio, era hábito dos cristãos, depois disso, se dispersar e voltar a se reunir para partilhar uma refeição descrita como "comum e inofensiva" (cibum promiscuum et innoxium); ele acrescenta que abandonaram esse segundo encontro depois que um edito seu, seguindo ordem imperial, proibiu associações organizadas (hetaeriae) na província.

A conclusão pessoal de Plínio é reveladora do olhar romano sobre o fenômeno: ele não encontrou crime algum, apenas o que chama de "superstição depravada e desmedida" (superstitionem pravam et immodicam), e ficou impressionado com a obstinação (pertinacia) dos que preferiam morrer a "amaldiçoar Cristo", oferecer incenso à imagem do imperador ou aos deuses. Como teste de sinceridade, exigia que os acusados repetissem uma fórmula de invocação aos deuses romanos, oferecessem vinho e incenso diante das estátuas de Trajano e dos deuses, e "amaldiçoassem Cristo" — coisas que, segundo ele, nenhum cristão genuíno consentia em fazer. É justamente esse detalhe, um grupo de pessoas comuns dispostas à execução por não negar Cristo, que torna a carta um testemunho externo e involuntário da seriedade da devoção cristã primitiva, décadas antes de qualquer relato cristão sobre martírio ter sido escrito.

O texto sobreviveu por um caminho editorial diferente dos nove primeiros livros de cartas de Plínio, que circulam em outra ramificação manuscrita: o Livro X, reunindo sua correspondência oficial com Trajano, chegou até a Idade Moderna por uma tradição de cópias separada, hoje perdida em sua forma manuscrita original, mas usada nas primeiras edições impressas do início do século XVI, das quais derivam as edições críticas atuais. A autenticidade da carta é aceita pela quase totalidade dos historiadores da Antiguidade — o estilo, o vocabulário administrativo e o formato de pergunta-e-resposta são inteiramente consistentes com o restante do Livro X —, embora, como em qualquer documento antigo copiado à mão por séculos, variantes pontuais de transmissão textual continuem sendo discutidas por filólogos especializados. A carta é lida hoje ao lado de outras menções romanas quase contemporâneas aos cristãos, como as de Tácito, nos Anais, e de Suetônio, na biografia de Nero, formando juntas o conjunto de fontes não cristãs mais antigas que se tem sobre o movimento nascente.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:A carta descreve com detalhes a Ceia do Senhor, com pão e vinho.

    Plínio fala apenas de um "cibum promiscuum et innoxium" (uma refeição comum e inofensiva), sem mencionar pão, vinho, cálice ou qualquer elemento identificável de um rito eucarístico. A associação com a Ceia é uma inferência de estudiosos posteriores, não algo que o texto afirme.

  • Dizem que:Trajano ordenou uma caçada sistemática aos cristãos na província.

    A resposta de Trajano (Epistulae X.97) diz o contrário: os cristãos não deveriam ser "procurados ativamente" (conquirendi non sunt), e denúncias anônimas deveriam ser recusadas por serem "o pior tipo de exemplo". A política era de tolerância reativa, não de perseguição proativa.

  • Dizem que:Essa é a única menção de cristãos por um autor romano da época.

    Contemporâneos próximos de Plínio, como Tácito (Anais 15.44) e Suetônio (Vida de Nero), também mencionam os cristãos, em geral associando-os à perseguição de Nero décadas antes. A carta de Plínio se soma a esse pequeno grupo de fontes romanas, não o inaugura sozinha.

Como diferentes tradições leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Catolicismo

    Vê na refeição comum descrita por Plínio um eco distante da celebração eucarística dominical já estabelecida, e no juramento moral um resumo leigo da vida sacramental e ética exigida dos batizados.

  • Ortodoxia Oriental

    Destaca o hino cantado "a Cristo como a um deus" como testemunho externo da liturgia matinal e da confissão da divindade de Cristo que a Igreja professava desde os primeiros séculos, antes de qualquer definição conciliar formal.

  • Protestantismo Evangélico

    Valoriza a carta sobretudo como evidência histórica independente da devoção a Cristo e da coragem dos primeiros crentes diante da morte, evitando ler nela detalhes sacramentais específicos que o texto romano simplesmente não fornece.

O que fazer com isso

Ler a carta de Plínio com equilíbrio é reconhecer os dois lados do que ela oferece: de um lado, um testemunho independente e hostil de que cristãos comuns cantavam a Cristo como divino e preferiam morrer a negá-lo; de outro, um relatório administrativo romano, não um manual de liturgia — não dá para extrair dele detalhes precisos de rito ou doutrina que o texto simplesmente não descreve.

Fontes consultadas5 obras
  • Plínio, o Jovem. Epistulae, Livro X, cartas 96 e 97, 112.
  • A. N. Sherwin-White. The Letters of Pliny: A Historical and Social Commentary, 1966.
  • Robert Louis Wilken. The Christians as the Romans Saw Them, 1984.
  • Stephen Benko. Pagan Rome and the Early Christians, 1984.
  • Betty Radice (trad.). Pliny the Younger: Letters and Panegyricus (Loeb Classical Library), 1969.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem foi Plínio, o Jovem?

Foi um advogado, senador e administrador romano do fim do século I e início do século II d.C., sobrinho e filho adotivo do naturalista Plínio, o Velho. Entre cerca de 110 e 112 d.C., governou a província da Bitínia e Ponto a mando do imperador Trajano.

Por que Plínio escreveu essa carta específica?

Porque nunca havia participado de julgamentos contra cristãos e não sabia se o simples fato de professar a fé já era crime, se denúncias anônimas valiam, e como tratar quem negasse a acusação. Ele pediu a Trajano uma diretriz oficial.

O que Trajano respondeu?

Que os cristãos não deveriam ser procurados ativamente, que denúncias anônimas não deveriam ser aceitas, e que quem negasse a fé e adorasse os deuses romanos deveria ser perdoado, mesmo tendo sido cristão no passado.

Essa carta prova que o cristianismo é verdadeiro?

Não é esse o tipo de coisa que uma fonte histórica pode provar. O que ela mostra, com peso histórico real, é que por volta de 112 d.C. cristãos comuns já cantavam hinos a Cristo como divino e enfrentavam a morte antes de negá-lo — um dado independente sobre a prática e a convicção dos primeiros cristãos.

Onde posso ler o texto original da carta?

Ela está preservada em latim no Livro X da correspondência de Plínio, geralmente publicada como Epistulae X.96 (a pergunta de Plínio) e X.97 (a resposta de Trajano), disponível em edições acadêmicas como a da Loeb Classical Library, com tradução ao lado do texto latino.

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Publicado em 01/09/2026

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O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 5 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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