Plínio e o Culto dos Primeiros Cristãos
Existe algum registro romano, fora da Bíblia, de como os primeiros cristãos se reuniam para adorar?
Resposta curta
Por volta de 112 d.C., o governador romano Plínio, o Jovem, escreveu ao imperador Trajano pedindo orientação sobre como julgar cristãos denunciados na Bitínia-Ponto. Ele interrogou ex-cristãos, que descreveram um culto simples: reunião antes do amanhecer, um hino cantado a Cristo "como a um deus", um juramento de não cometer crimes e, depois, um reencontro para tomar uma refeição comum e inofensiva.
descreve essa mesma rotina por dentro, décadas antes e do outro lado do Mediterrâneo: ensino dos apóstolos, oração, o partir do pão e refeições diárias tomadas com alegria. A carta de Plínio não cita Atos nem depende dele — é um relato administrativo, de um funcionário que não professa a fé —, mas confirma de fora que reuniões regulares com refeição comum e louvor a Cristo seguiam no centro da vida cristã décadas depois de Jerusalém.
O que diz Carta de Plínio, o Jovem, ao imperador Trajano
Carta de Plínio a Trajano (Epístolas X.96)
Plínio, o Jovem (c. 61-113 d.C.) foi advogado, senador e alto funcionário romano, sobrinho e filho adotivo de Plínio, o Velho. Por volta de 110 d.C. o imperador Trajano o nomeou governador especial da província da Bitínia-Ponto, na costa norte da atual Turquia, com a missão de reorganizar as finanças e a administração local. Durante o cargo, Plínio manteve correspondência regular com o imperador, consultando-o sobre assuntos que iam de obras públicas a associações voluntárias. Essa troca de cartas foi reunida, depois de sua morte, no décimo livro de suas "Epistulae" (Cartas), e as duas mais conhecidas de toda a coleção são a carta 96, em que Plínio relata seu primeiro contato oficial com cristãos e pede instruções sobre como proceder, e a resposta de Trajano, na carta 97.
Na carta 96, escrita provavelmente entre 111 e 113 d.C., Plínio conta que passou a receber denúncias anônimas contra pessoas acusadas de serem cristãs. Sem certeza se deveria punir apenas o fato de "ser cristão" ou crimes associados a isso, ele interrogou os acusados, executou os que persistiram na confissão (encaminhando a Roma os que eram cidadãos romanos) e libertou os que sacrificaram aos deuses e amaldiçoaram Cristo. Para entender melhor do que se tratava, tomou depoimentos de ex-cristãos e torturou duas escravas chamadas "ministrae" — servidoras, termo próximo de diaconisas. O quadro que emergiu foi o de um grupo que se reunia em dia fixo, antes do amanhecer, cantava um hino a Cristo "como a um deus", fazia um juramento de não cometer furto, roubo, adultério ou quebra de palavra, e voltava a se reunir para uma refeição comum e inofensiva — hábito que, segundo os informantes, tinha sido abandonado depois que Plínio proibiu associações políticas na província.
A carta chegou até hoje pela tradição manuscrita das obras de Plínio, sem qualquer ligação editorial com escritos cristãos; já era citada por autores cristãos antigos, como Tertuliano, no início do século III, sinal de que era conhecida e valorizada cedo como testemunho externo sobre o cristianismo primitivo.
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O que diz a Bíblia
E eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, e nas orações. E houve temor em toda alma; e muitos milagres e sinais foram feitos pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham todas as coisas em comum. E eles vendiam suas propriedades e bens, e as repartiam com todos, conforme a necessidade que cada um tinha. E perseverando a cada dia em concordância no Templo, e partindo o pão de casa em casa, comiam juntos com alegria e sinceridade de coração. Louvando a Deus, e tendo graça, sendo do agrado de todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à igreja aqueles que estavam sendo salvos.
Onde coincidem e onde divergem
Onde coincidem
- Reunião regular e frequente do grupo cristão para culto (Atos 2:46 fala em 'a cada dia'; Plínio, em dia fixo e recorrente)
- Refeição tomada em comum: 'o partir do pão' de Atos 2:42.46 corresponde ao encontro para 'alimento comum e inofensivo' (cibus promiscuus... innoxius) que Plínio descreve
- Louvor dirigido a Cristo: 'louvando a Deus' de Atos 2:47 corresponde ao 'cantar um hino a Cristo como a um deus' (carmen Christo quasi deo dicere) relatado por Plínio
- Persistência e crescimento do grupo com o tempo: o acréscimo diário à igreja (Atos 2:47) tem eco tardio no relato de Plínio de que a 'superstição' se espalhara a ponto de esvaziar templos pagãos na região
Onde divergem
- Plínio descreve um juramento formal (sacramentum) contra furto, adultério e quebra de palavra, detalhe ausente em Atos 2:42-47
- Plínio relata dois encontros distintos (culto antes do amanhecer e refeição à noite), separados após seu próprio edito contra associações; Atos fala de reunião diária contínua no templo e pelas casas, sem essa cisão
- Atos é escrito por um simpatizante da fé, em Jerusalém, cerca de 30-33 d.C.; a carta de Plínio é de um administrador não cristão, décadas depois, na Bitínia-Ponto (Ásia Menor)
- Atos detalha o conteúdo da vida comunitária (doutrina apostólica, comunhão de bens); Plínio nada relata sobre isso, pois seu interesse é apenas classificar juridicamente o grupo
O que só existe fora do cânon
Nada do que segue está em nenhum livro da Bíblia.
- O termo técnico latino 'sacramentum' para o juramento cristão contra furto, adultério e quebra de palavra
- A tortura de duas escravas chamadas 'ministrae' (servidoras/diaconisas) para obter informações sobre o grupo
- A resposta de Trajano (carta 97): não caçar cristãos, ignorar denúncias anônimas, mas punir os formalmente acusados que persistirem
- O relato de que os templos pagãos da região estavam se esvaziando e voltaram a ser frequentados depois das medidas de Plínio, com a venda de forragem para animais de sacrifício se recuperando
- A observação de que o cristianismo já havia se espalhado não só nas cidades, mas também pelas aldeias e pelo campo, atingindo pessoas de toda idade, classe e sexo
Em palavras simples
Cerca de oitenta anos depois de , um governador romano chamado Plínio escreveu ao imperador Trajano contando o que descobrira sobre os cristãos de sua província: eles se reuniam de madrugada, cantavam para Cristo como quem canta para um deus, prometiam não roubar nem trair a palavra, e depois se juntavam de novo para comer. É um relato de fora, feito por alguém que via aquilo como estranho, mas que bate, em vários pontos, com a rotina de oração, refeição e louvor que Atos descreve por dentro.
Aprofundamento
fecha o relato do Pentecostes com um resumo da vida da comunidade recém-formada em Jerusalém: "perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, e nas orações" (v. 42), tinham tudo em comum e vendiam bens para socorrer os necessitados (vv. 44-45), reuniam-se "a cada dia" no templo e "de casa em casa" para partir o pão "com alegria e sinceridade de coração" (v. 46), e louvavam a Deus, sendo bem vistos pelo povo (v. 47). É um retrato de dentro, escrito por um simpatizante — tradicionalmente identificado como Lucas — que vê na rotina diária um sinal do favor de Deus.
A carta de Plínio, escrita entre sessenta e oitenta anos depois e a centenas de quilômetros dali, na Bitínia-Ponto, é o inverso: um relato de fora, feito por um administrador que não professa a fé e busca apenas classificar juridicamente o fenômeno. Ainda assim, boa parte do que ele lista corresponde, ponto a ponto, ao quadro de Atos. Onde Atos fala em "orações" e em louvar a Deus, Plínio registra que os cristãos se reuniam para "cantar um hino a Cristo como a um deus" (carmen Christo quasi deo dicere) — a mesma disposição de culto dirigido a Cristo, agora vista e nomeada por um pagão. Onde Atos descreve o "partir do pão" e as refeições diárias tomadas em conjunto, Plínio relata que o grupo voltava a se reunir, mais tarde, para tomar "alimento comum e inofensivo" (cibus promiscuus... innoxius) — a mesma prática de refeição compartilhada, ainda que sem detalhe litúrgico que permita identificá-la com certeza como a Ceia do Senhor. E onde Atos apresenta uma comunidade coesa, generosa e bem vista pelo povo (v. 47), Plínio relata, décadas depois, que a "superstição" havia se espalhado a ponto de esvaziar os templos pagãos da região — sinal indireto de que o crescimento inicial descrito em ("o Senhor acrescentava à igreja") continuou.
As divergências marcam a distância entre um documento interno de fé e um relatório policial. Plínio menciona um sacramentum — juramento formal contra furto, adultério e quebra de palavra — que Atos não registra nesses termos; pode refletir uma prática já mais formalizada décadas depois, ou apenas a tentativa de Plínio de traduzir o compromisso ético cristão em categoria jurídica romana, já que "sacramentum" era o nome do juramento militar. Ele também descreve dois encontros distintos — um antes do amanhecer, outro à noite, para a refeição —, separados por causa de seu próprio edito contra associações, enquanto Atos fala de reuniões diárias contínuas no templo e pelas casas, sem indicar esse tipo de cisão administrativa. E Plínio nada relata sobre a pregação apostólica, a doutrina ou a vida comunitária de bens (vv. 42-45): seu interesse é jurídico, não uma descrição do conteúdo da fé.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A carta de Plínio descreve em detalhe a Eucaristia cristã e prova sua forma exata desde o início
Plínio menciona apenas um 'alimento comum e inofensivo' (cibus promiscuus, innoxius) tomado em grupo, sem citar pão, vinho, palavras de instituição ou qualquer conteúdo teológico — o detalhe litúrgico simplesmente não está no texto.
Dizem que:Trajano instituiu, por causa dessa carta, uma perseguição sistemática e empire-wide aos cristãos
A resposta de Trajano (carta 97) é reativa e limitada: proíbe caça a cristãos e denúncias anônimas, mandando punir apenas quem for formalmente acusado e persistir; não cria um edital geral de perseguição.
Como diferentes tradições leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Catolicismo
Vê no 'partir do pão' relatado por Plínio um eco externo e independente da antiguidade da celebração eucarística da igreja primitiva, ainda que a carta não descreva conteúdo sacramental algum.
Ortodoxia
Destaca o hino cantado 'a Cristo como a um deus' como testemunho de que o culto dirigido a Cristo já era prática viva e reconhecível de fora décadas antes de qualquer formulação dogmática posterior sobre sua divindade.
Protestantismo/Evangelicalismo
Trata a carta principalmente como corroboração histórica da confiabilidade do relato de Lucas em Atos sobre a vida da igreja primitiva, evitando ler categorias sacramentais tardias no vocabulário ainda genérico de Plínio.
O que fazer com isso
Ler a carta de Plínio ao lado de ensina a valorizar testemunhos externos sem exigir deles o que não podem dar: Plínio confirma que cristãos se reuniam, cantavam a Cristo e comiam juntos, mas não descreve teologia nem liturgia em detalhe. O equilíbrio está em reconhecer a corroboração pontual — o hábito de reunião e refeição comum persistiu por gerações — sem inflar um relato administrativo hostil-neutro em prova de doutrina, nem descartá-lo por vir de fora da fé.
Fontes consultadas4 obras
- Plínio, o Jovem. Epistulae, Livro X, cartas 96-97, 112.
- Betty Radice (trad.). Pliny: Letters and Panegyricus (Loeb Classical Library), 1969.
- Robert L. Wilken. The Christians as the Romans Saw Them, 1984.
- Larry W. Hurtado. At the Origins of Christian Worship: The Context and Character of Earliest Christian Devotion, 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Plínio, o Jovem?
Foi um advogado, senador e administrador do Império Romano, que serviu como governador da província da Bitínia-Ponto sob o imperador Trajano, por volta de 110-113 d.C. Ficou conhecido por sua vasta correspondência, incluindo cartas sobre a erupção do Vesúvio e sobre os cristãos de sua província.
A carta de Plínio prova que os cristãos celebravam a Eucaristia como hoje?
Não. Plínio descreve apenas uma refeição comum e 'inofensiva' tomada em grupo, sem qualquer detalhe litúrgico sobre pão, vinho ou teologia. É um indício externo de que havia uma refeição compartilhada, não uma descrição da Ceia do Senhor em si.
Trajano ordenou perseguir os cristãos por causa dessa carta?
Não exatamente. Na resposta (carta 97), Trajano instrui Plínio a não sair procurando cristãos nem aceitar denúncias anônimas, mas a punir os que forem formalmente acusados e se recusarem a recantar — uma política reativa, não uma campanha organizada de perseguição.
Por que a carta de Plínio é considerada importante para a história do cristianismo?
Porque é um dos primeiros registros não cristãos e independentes sobre a prática de culto cristão, escrito por um funcionário romano sem interesse em promover a fé, o que dá a seus detalhes um peso testemunhal diferente do de um texto interno à comunidade.
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