Tehom: o abismo antes da criação
O que significa tehom, o abismo na Bíblia hebraica?
A palavra no original
תְּהוֹם
tehom
abismo, profundeza, mar profundo
Tudo isto ao mesmo tempo
- águas caóticas primordiais anteriores à ordem da criação
- oceano ou mar profundo em sentido físico
- fontes de água subterrâneas que alimentam rios e nascentes
- símbolo de caos, perigo e proximidade da morte
- matéria criada totalmente sujeita ao domínio de Deus
Resposta curta
Tehom é a palavra hebraica para o abismo, as profundezas ou o mar imenso — a massa de água escura e sem forma que existia antes de Deus organizar o mundo. Ela aparece logo no segundo versículo da Bíblia, quando "trevas cobriam a face do abismo" (), descrevendo não um lugar específico, mas um estado: água caótica, ilimitada, ainda sem ordem.
A palavra volta a aparecer no relato do dilúvio, quando "romperam-se todas as fontes do grande abismo" (), e em textos poéticos que descrevem Deus fixando limites a essas águas com autoridade total. Por isso tehom carrega, ao mesmo tempo, a matéria-prima bruta da criação e a lembrança de uma força que só permanece contida porque Deus a governa.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO tema das águas caóticas contidas apenas pela palavra de Deus atravessa toda a Escritura e chega a um ponto alto nos evangelhos, quando Jesus, em pé numa barca sacudida por uma tempestade no mar da Galileia, ordena: 'Cala-te, aquieta-te' — e o vento e o mar obedecem (). A pergunta dos discípulos, 'quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?', ecoa a mesma autoridade que os salmos atribuem a Deus sobre tehom. Tradições cristãs de diferentes vertentes leem essa cena como continuação daquele domínio: o mesmo poder que fixou limites ao abismo primordial na criação volta a agir em Cristo diante do caos concreto. O ponto final dessa trajetória aparece em , onde a nova criação já não tem mais 'mar' — a imagem do caos original é removida em definitivo.
Respaldo no Novo Testamento: ;
De onde vem a palavra
Tehom pertence a uma família de palavras semíticas antigas ligadas à ideia de oceano profundo ou grande massa de água. Termos aparentados aparecem no ugarítico (thm) e, de forma mais discutida, no acadiano, língua da Babilônia, onde tiamtu (ou tâmtu) significava simplesmente mar ou oceano. Boa parte da divulgação popular afirma que tehom é a mesma palavra que Tiamat, a deusa do mar salgado primordial do poema babilônico Enuma Elish, e que Gênesis apenas copiaria esse mito com o nome trocado. Especialistas como Nahum Sarna e Claus Westermann tratam essa relação com mais cautela: o parentesco linguístico entre os termos é plausível, porque ambos vêm de uma raiz semítica comum para profundo ou mar, mas isso não significa que um texto copiou o outro, nem que tehom seja um nome próprio ou uma figura divina disfarçada.
O que chama atenção, segundo esses comentaristas, é justamente o contraste. Nos mitos da Mesopotâmia, o mar primordial é uma divindade viva, Tiamat, que trava batalha com outro deus, Marduk, antes que o mundo possa existir; a criação nasce da vitória sobre esse ser. Em Gênesis, tehom nunca é um nome próprio, não tem vontade, não luta, não é adorado nem temido como poder rival. Ele é simplesmente matéria à espera da palavra de Deus. Von Rad chamou esse traço de desmitologização: o autor bíblico usa vocabulário que a cultura ao redor associava a deuses do caos, mas esvazia esse vocabulário de qualquer divindade, deixando só a imagem física — água extensa, escura, sem forma.
Dentro da própria Bíblia hebraica, tehom não fica preso ao relato da criação. Ele nomeia tanto as águas do dilúvio quanto o oceano em textos de sabedoria e poesia, e até fontes subterrâneas que alimentam rios e nascentes. Essa amplitude é o motivo de o termo não se traduzir bem por uma única palavra em português: abismo soa a buraco vertical, profundeza soa poético demais, e nenhuma das duas carrega sozinha o peso cosmológico que tehom tinha para o leitor original.
Aprofundamento
O primeiro uso de tehom, em , situa a palavra no momento anterior à ordem: a terra estava sem forma e vazia, e tehom é o nome dessa condição líquida, escura, ainda não repartida em céu, mar e terra seca. No versículo seguinte, o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas — não há luta, apenas preparação para a palavra criadora. Já no segundo dia, Deus separa as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento (), um ato de ordenação que distribui o próprio tehom em compartimentos administráveis.
Essa mesma reserva de água reaparece de forma dramática no dilúvio: no mesmo dia se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas do céu se abriram (). O texto descreve o juízo como uma reversão parcial da criação — as fronteiras que Deus havia fixado em são temporariamente reabertas, e tehom volta a cobrir a terra, até que Deus se lembra de Noé e as fontes se fecham de novo (). A narrativa deixa claro que tehom nunca age por conta própria: ele obedece à ordem de abrir e de fechar.
Nos livros poéticos, tehom se torna imagem de poder divino soberano. Em , a Sabedoria narra ter estado presente quando Deus traçava um círculo sobre a face do abismo — tehom aparece como parte do projeto original da criação, não como ameaça a ser vencida depois. No Salmo 104:6, Deus cobriu a terra com tehom como um vestido, e as águas fugiram à sua repreensão. Já em , o profeta descreve sua quase morte no mar dizendo que o abismo o cercou, usando tehom como metáfora de aflição extrema e proximidade da morte, quase intercambiável com Sheol.
Esse duplo uso — tehom como matéria ordenada da criação e tehom como imagem de caos, juízo e morte — é o que dá à palavra sua força teológica. Comentaristas como Westermann notam que a Bíblia hebraica nunca precisa explicar de onde tehom veio; ele é tratado como dado, parte do mundo pré-formado que só Deus tem autoridade para conter, abrir ou fechar. Não há segundo deus a derrotar, apenas uma palavra de comando. Essa é a razão pela qual textos posteriores, sobretudo os salmos, usam a imagem de Deus dominando as águas profundas como prova máxima de seu poder: se ele controla até tehom, controla tudo o que existe.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Tehom é simplesmente outro nome para Tiamat, a deusa babilônica do mar, o que prova que Gênesis copiou a mitologia da Babilônia.
O parentesco é apenas linguístico: as duas palavras vêm de uma raiz semítica comum para mar profundo, algo como línguas aparentadas compartilharem uma palavra para água. No texto bíblico, tehom nunca é uma divindade, nunca tem nome próprio, nunca luta nem é derrotada; comentaristas como Sarna e von Rad apontam que o texto hebraico faz o oposto de copiar o mito — ele esvazia a imagem de qualquer conteúdo divino.
Dizem que:O abismo de Gênesis é o mesmo lugar chamado de abismo no livro de Apocalipse, onde demônios são presos.
São palavras diferentes em línguas diferentes: tehom é hebraico e descreve água primordial em Gênesis; o abismo de Apocalipse e traduz o grego abyssos, termo usado em contextos apocalípticos posteriores para um lugar de prisão espiritual. Não há ligação lexical direta entre os dois textos; a semelhança existe só na tradução para o português.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/Evangélica
Tehom já é parte da criação de Deus desde , não uma força rival preexistente; a ênfase recai sobre a soberania total de Deus mesmo sobre o que parece caótico, sustentando a doutrina da criação a partir do nada.
Católica (leitura patrística)
Seguindo autores como Agostinho e Basílio, o abismo é matéria informe já criada, que aguarda a ordenação progressiva pela Palavra de Deus — muitos padres liam esse ordenar do caos em chave cristológica, associada ao Verbo que organiza a criação.
Pentecostal/Carismática
As águas profundas de tehom são lidas de forma mais existencial, como figura de forças de caos e opressão que o Espírito de Deus continua a dominar hoje, apoiando-se na mesma cena da tempestade acalmada em como padrão espiritual repetível.
O que fazer com isso
Pensar em tehom ajuda a reler momentos de caos pessoal — perda, ansiedade, uma crise que parece engolir tudo — não como sinal de que Deus perdeu o controle, mas como território que, na própria Bíblia, sempre esteve sob a autoridade dele. A imagem não promete ausência de tempestade; promete que a tempestade tem limite. Isso muda a pergunta de por que isso está acontecendo para quem ainda governa isso, convidando a uma confiança mais realista do que otimismo forçado.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Nahum M. Sarna. Understanding Genesis, 1966.
- Claus Westermann. Genesis 1-11: A Continental Commentary, 1994.
- Gerhard von Rad. Genesis: A Commentary, 1972.
- Ludwig Koehler e Walter Baumgartner. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Tehom é Tiamat, a deusa babilônica?
Não exatamente. As duas palavras compartilham uma raiz semítica antiga ligada à ideia de mar profundo, mas no hebraico tehom nunca é tratado como uma divindade — é apenas a água primordial, sem vontade própria e totalmente sujeita à palavra de Deus.
Deus criou o abismo ou ele já existia antes da criação?
diz que Deus criou os céus e a terra antes de o texto mencionar tehom no versículo seguinte, por isso a leitura mais comum entre comentaristas é que tehom já está incluído nessa criação inicial, e não é uma força independente de Deus.
Tehom aparece só no relato da criação?
Não. A palavra volta no relato do dilúvio, em salmos que descrevem o poder de Deus sobre o mar, em Provérbios e até na oração de Jonas dentro do peixe, sempre relacionada a águas profundas, reais ou metafóricas.
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