Revogar
o que significa revogar na bíblia
A palavra no original
שׁוּב
shuv (hifil: hashiv) · Strong H7725
fazer voltar; aplicado a decretos, tornar sem efeito
Tudo isto ao mesmo tempo
- cancelar decreto
- anular voto
- fazer retornar
- desfazer ato oficial
Resposta curta
Revogar é cancelar um ato jurídico, tornar sem efeito o que foi decretado. A palavra sobrevive hoje quase só no vocabulário do direito, e é por isso que ela trava a leitura de Ester — onde é o motor da trama inteira.
O hebraico usa o verbo שׁוּב (shuv), "voltar, fazer voltar", numa forma causativa: fazer o decreto voltar atrás. registra o princípio que organiza o livro: escrito em nome do rei e selado com o anel real, um decreto não pode ser revogado. Sem entender isso, o desfecho do livro parece uma solução torta. Com isso, ele é a única saída possível.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA lei persa é irrevogável porque um mecanismo a trava, e isso prende inclusive quem a promulgou. O Novo Testamento fala de promessas irrevogáveis por motivo oposto: não um mecanismo, mas o caráter de quem promete. O contraste é o que dá relevo à expressão de .
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Revogar é cancelar uma lei ou decisão oficial. Na Pérsia, segundo o livro de Ester, um decreto selado com o anel do rei não podia ser cancelado nem pelo próprio rei. Por isso o problema dos judeus não se resolve apagando o decreto contra eles, e sim criando outro que os autorize a se defender.
De onde vem a palavra
A irrevogabilidade da lei persa aparece três vezes na Bíblia, e sempre como um problema. Em ela é invocada para tornar definitiva a queda da rainha Vasti. Em ela impede o cancelamento do decreto de extermínio dos judeus. E em e 6:15 ela é usada contra o próprio rei Dario, que assinara sem perceber e depois não conseguiu salvar Daniel da cova dos leões.
Esse detalhe cultural, hoje estranho, era o ponto. Uma lei que nem o rei pode desfazer parece garantia de justiça e se revela armadilha: o soberano fica preso ao que assinou, e o mal que aprovou por descuido segue seu curso. Os dois livros exploram isso do mesmo jeito, e é provável que a repetição seja deliberada.
No caso de Ester, o efeito narrativo é preciso. Depois que Hamã cai, o problema não acaba: o decreto que ele redigiu continua válido e com data marcada. O rei não diz "cancelei". Diz a Mordecai e a Ester que escrevam o que quiserem em nome do rei e selem com o anel — porque o que se sela assim não se revoga.
A solução, então, não é apagar o primeiro decreto. É emitir um segundo, igualmente irrevogável, autorizando os judeus a se defenderem. Dois decretos válidos ao mesmo tempo, em rota de colisão. É por isso que o capítulo 9 descreve luta, e não simplesmente alívio.
O verbo shuv, em sua forma comum, é uma das palavras mais frequentes do Antigo Testamento — é o verbo de "voltar", inclusive no sentido de arrepender-se e retornar a Deus. Na forma causativa aplicada a documentos, ele adquire o sentido técnico de fazer retornar, isto é, tornar sem efeito.
Aprofundamento
Vale notar o que a irrevogabilidade produz teologicamente dentro do livro.
Ester é o único livro do Antigo Testamento que não menciona Deus. Nenhuma vez. E é justamente nele que a trama depende de coincidências acumuladas: o rei que não dorme, a crônica lida em voz alta na noite certa, o poste erguido para Mordecai e usado para Hamã. A lei que ninguém pode desfazer é o pano de fundo que torna essas coincidências indispensáveis — se o rei pudesse simplesmente cancelar o decreto, nada disso seria necessário.
Muitos leitores veem aí a proposta do livro: a providência opera sem assinatura visível, e o instrumento humano faz o que está ao seu alcance dentro de um sistema que não controla. O célebre "quem sabe se para tal tempo como este chegaste ao reino", de , é dito por Mordecai exatamente nesse contexto de impotência jurídica.
Há também um contraste que os leitores cristãos costumam observar entre a lei persa e a aliança bíblica. A lei persa é irrevogável e por isso rígida a ponto de aprisionar quem a fez. As promessas de Deus são apresentadas como irrevogáveis por outro motivo: não porque um mecanismo as trave, mas porque quem prometeu não muda. Paulo usa vocabulário parecido em ao dizer que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.
Um segundo uso do mesmo verbo, em outro campo, ajuda a fixar o sentido. Em , o marido pode "fazer voltar" — anular — o voto feito pela esposa. É a mesma ideia de tornar sem efeito um compromisso verbal, num contexto doméstico em vez de imperial.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O rei Assuero cancelou o decreto de Hamã.
O texto diz o contrário, e diz explicitamente: o que se escreve em nome do rei e se sela com o anel real não se pode revogar. O que houve foi um segundo decreto, autorizando os judeus a se defenderem. Os dois permaneceram válidos.
Dizem que:A irrevogabilidade da lei persa é um detalhe curioso sem importância para a história.
É o que torna a história possível. Sem ela, bastaria o rei mudar de ideia e não haveria enredo, nem necessidade de Ester arriscar a vida, nem batalha no capítulo 9. O mesmo mecanismo aparece em com a mesma função.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura providencial
Vê na irrevogabilidade o pano de fundo que torna as coincidências do livro indispensáveis, e lê o silêncio sobre Deus como afirmação de uma providência sem assinatura visível.
Leitura histórico-literária
Trata o detalhe como recurso narrativo característico da literatura da diáspora, que dramatiza a vulnerabilidade de um povo sujeito a leis que não escreve.
O que fazer com isso
Ao ler Ester, marque quem tem poder de decretar e quem não tem poder de desfazer. O livro inteiro se organiza nessa assimetria — e é ela que explica por que o desfecho é uma batalha, e não um perdão real.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas2 obras
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 1906.
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o rei não podia simplesmente desfazer o próprio decreto?
Porque a lei persa, como o livro a apresenta, tornava definitivo o que fosse selado com o anel real. É um sistema em que a estabilidade da lei vale mais que a vontade atual do soberano — e que, por isso, aprisiona quem o criou.
Isso é historicamente exato?
Os textos bíblicos são a principal fonte que descreve a regra nesses termos, e historiadores discutem seu alcance. O que é certo é que os livros de Ester e Daniel a tratam como funcionando assim, e constroem suas tramas sobre ela.
O mesmo verbo aparece em outros contextos?
Sim. Em , é o marido que pode "fazer voltar", isto é, anular, o voto da esposa. É a mesma ideia de tornar sem efeito um compromisso, num contexto doméstico em lugar do imperial.
Palavras próximas
Temas
- #revogar
- #ester
- #decreto
- #lei-persa
- #shuv