
Zaqueu prometeu devolver ou já devolvia?
O que Zaqueu quis dizer ao falar em restituir quatro vezes?
E Zaqueu, levantando-se, disse ao Senhor: Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres; e se eu consegui algo enganando a alguém, eu o devolvo quatro vezes mais.
Resposta curta
Os verbos gregos estão no presente — "dou" e "devolvo" —, não no futuro. Isso abriu uma leitura minoritária: Zaqueu estaria defendendo uma prática que já mantinha, e não prometendo mudança.
A leitura tradicional entende o presente como declaração de decisão tomada naquele instante, uso comum em grego. É a leitura da maioria, e o versículo seguinte a sustenta: Jesus responde "hoje veio a salvação a esta casa".
Em qualquer das duas, o número quatro é o dado mais interessante — e ele vem da lei.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA cena termina com a declaração de propósito mais direta de Lucas: "o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido". Ela vem depois de três parábolas sobre coisas perdidas no capítulo 15, e depois do jovem rico que se afastou. Zaqueu é a resposta narrativa a "quem pode ser salvo?" — e a resposta é que Deus busca primeiro.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Zaqueu era um cobrador de impostos rico e muito malvisto — o tipo de pessoa que a cidade toda evitava. Baixo de estatura, ele subiu numa árvore só para conseguir ver Jesus passar, e foi Jesus quem parou, olhou para cima e o chamou pelo nome, convidando-se para a casa dele. É só depois disso, sem que ninguém tenha pedido nada, que Zaqueu se oferece para devolver quatro vezes o que tirou de qualquer pessoa por engano ou fraude.
Esse número não é aleatório: é a penalidade máxima prevista na lei da época para quem foi pego roubando — bem mais dura do que a regra mais branda para quem confessa por conta própria. Ele também promete dar metade de tudo o que tem aos pobres. O texto não mostra Jesus exigindo isso; a decisão nasce de ter sido chamado pelo nome e recebido com atenção, antes de qualquer cobrança.
Contexto histórico
Zaqueu é descrito como "chefe dos publicanos", cargo que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia. Ele coordenava a coleta de impostos numa região, e Jericó era um posto importante — cidade rica, entreposto de bálsamo, na rota comercial.
Publicanos arrematavam o direito de cobrar impostos e lucravam com o que excedesse o valor devido a Roma. Eram considerados colaboracionistas e ladrões, e a Mishná os colocava numa categoria em que o testemunho não era aceito.
A cena tem detalhes que humanizam. Ele era baixo, correu à frente e subiu numa figueira brava para ver — comportamento indigno para um homem de posição.
E Jesus para debaixo da árvore, olha para cima e o chama pelo nome. Depois se convida para a casa dele, o que provoca a murmuração da cidade: "entrou para hospedar-se com um homem pecador".
Aprofundamento
O número quatro vem de : quem furtar um boi e o matar ou vender restitui cinco bois; por uma ovelha, quatro ovelhas. É a pena máxima do direito israelita para furto qualificado.
estabelece a regra para quem confessa espontaneamente: restitui o principal mais um quinto — vinte por cento.
Zaqueu não escolhe a regra do arrependido voluntário, que seria bem mais barata. Escolhe a pena máxima do ladrão condenado.
E ainda antecipa: metade dos bens aos pobres, o que não é exigido por lei nenhuma.
A aritmética que alguns comentaristas fazem é reveladora: se metade vai para os pobres, a restituição quádrupla sai da outra metade. Dependendo do volume de fraudes, ele poderia terminar sem quase nada — e é isso que dá peso à cena.
Sobre a leitura do presente grego, ela merece registro honesto. O verbo *didomi* no presente pode expressar tanto ação habitual quanto decisão tomada no momento da fala — o chamado presente futurístico. Quem defende a leitura habitual argumenta que Zaqueu estaria se defendendo da acusação da multidão. A objeção é que Jesus responde falando em salvação chegada "hoje", e conclui com "o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido" — linguagem de resgate, não de defesa de reputação.
O episódio fecha um bloco. Pouco antes, no capítulo 18, o jovem rico se afasta triste, e Jesus diz que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Os discípulos perguntam quem pode então ser salvo, e a resposta é "o que é impossível aos homens é possível a Deus".
Zaqueu é o exemplo dessa resposta, no capítulo seguinte.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Zaqueu foi salvo por ter devolvido o dinheiro.
Jesus se convida para a casa dele antes de qualquer promessa, e a declaração final é "o Filho do homem veio buscar e salvar". A restituição é consequência narrada, não condição enunciada.
Dizem que:A restituição de quatro vezes era arbitrária.
Vem de , a pena máxima para furto qualificado. Zaqueu podia ter usado , que exige o principal mais vinte por cento para quem confessa espontaneamente. Ele escolheu a pena mais alta.
Dizem que:O texto grego está claramente no futuro.
Os verbos estão no presente, e isso abriu uma leitura minoritária de que ele já praticava aquilo. A leitura tradicional entende o presente como decisão tomada na hora, uso comum em grego.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Decisão tomada no momento
O presente grego expressa a resolução assumida ali. Sustentada pela resposta de Jesus — "hoje veio a salvação a esta casa". É a leitura majoritária.
Defesa de prática já existente
Zaqueu estaria se defendendo da acusação da multidão, declarando o que já fazia. Explica o tempo verbal; tem dificuldade com a linguagem de salvação chegada e de "o que se havia perdido".
No original3 termos
ἀρχιτελώνηςarchitelones
"Chefe dos publicanos". Termo que aparece só aqui em toda a Bíblia. Indica coordenação regional da coleta de impostos.
συκοφαντέωsykophanteo
"Extorquir por falsa acusação". O verbo de "se consegui algo enganando a alguém" — daí vem "sicofanta".
ἀποδίδωμιapodidomi
"Devolver, restituir". Verbo técnico da restituição legal, usado em na Septuaginta.
O que fazer com isso
A restituição é a parte da conversão que costuma ficar de fora das conversas sobre arrependimento.
Zaqueu não pede perdão. Ele calcula o que deve e devolve, e devolve pela pena mais alta prevista na lei.
O texto não registra Jesus pedindo isso. A iniciativa é dele, e acontece antes de qualquer instrução — Jesus tinha dito uma coisa só até ali: "desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa".
O que produziu a decisão, na narrativa, foi ser chamado pelo nome e receber uma visita. E o efeito foi contábil.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que publicanos eram tão odiados?
Arrematavam o direito de cobrar impostos para Roma e lucravam com o excedente, o que combinava colaboração com o ocupante e exploração. A Mishná não aceitava o testemunho deles em juízo.
Zaqueu ficou pobre?
O texto não diz. A aritmética é sugestiva: metade aos pobres, e a restituição quádrupla saindo da outra metade. Dependendo do volume, sobraria pouco.
Restituição é exigida de cristãos hoje?
Não há mandamento formal no Novo Testamento, e o episódio é narrativo. O princípio — reparar o dano concreto que se causou — atravessa a Bíblia, de a Filemom, onde Paulo se oferece para pagar a dívida de Onésimo.
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