Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

Quem foi Zacarias, filho de Joiada, e por que Jesus citou sua morte séculos depois

Quem foi Zacarias filho de Joiada e por que Jesus fala dele em Mateus 23?

E o espírito de Deus investiu a Zacarias, filho de Joiada o sacerdote, o qual estando sobre o povo, lhes disse: Assim disse Deus: Por que quebrantais os mandamentos do SENHOR? Não vos virá bem disso; porque por haver deixado ao SENHOR, ele também vos deixará. Mas eles fizeram conspiração contra ele, e cobriram-lhe de pedras por mandado do rei, no pátio da casa do SENHOR. Não teve, pois, memória o rei Joás da misericórdia que seu pai Joiada havia feito com ele, antes matou-lhe seu filho; o qual disse ao morrer: o SENHOR o veja, e o exija.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Depois que o sacerdote Joiada morreu, o rei Joás de Judá abandonou o templo do SENHOR e passou a ouvir conselheiros que promoviam a idolatria. Deus enviou profetas para chamá-lo de volta, mas ninguém os escutou. Então o espírito de Deus investiu Zacarias, filho do próprio Joiada, que se levantou diante do povo para denunciar essa rebelião.

A resposta foi brutal: por ordem de Joás, Zacarias foi apedrejado no pátio da casa do SENHOR — filho do homem que havia salvo a vida do rei e o colocado no trono. Séculos depois, Jesus cita esse mesmo episódio em , ao lembrar Jerusalém do sangue inocente derramado do início ao fim das Escrituras hebraicas.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Jesus mesmo estabelece essa ligação em , ao citar o sangue de Zacarias como o último de uma longa lista de mensageiros de Deus mortos por aqueles que deveriam recebê-los — um padrão que atravessa toda a Escritura hebraica, de Abel a Zacarias, e que Jesus reconhece se repetindo, mais uma vez, na cidade que "apedreja os que lhe são enviados" (). A trajetória de rejeição aos porta-vozes de Deus, iniciada com Abel e agravada com o assassinato de um sacerdote dentro do próprio templo, converge na rejeição do próprio Filho de Deus: também morto por autoridades religiosas, também fora do lugar que deveria protegê-lo, já que Jesus é crucificado fora dos muros de Jerusalém () depois de ser entregue pelos mesmos líderes que liam a lei que ele cumpria. Diferente de Zacarias, porém, cujas últimas palavras pedem que o SENHOR veja e exija satisfação pelo sangue derramado, o sangue de Jesus "fala melhor do que o de Abel" () — não clamando por vingança, mas oferecendo perdão.

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

A cena de fecha o reinado de Joás, rei de Judá no século IX a.C., neto da rainha usurpadora Atalia. Quando Atalia exterminou a família real para tomar o trono, Joás, ainda bebê, foi escondido no templo por sua tia Jeoseba e pelo sacerdote Joiada (:21; relato paralelo em ). Aos sete anos, Joiada o coroou num golpe cuidadosamente planejado e passou a orientá-lo por décadas. Enquanto Joiada viveu, Joás reinou bem: restaurou o templo, reorganizou o culto e afastou o país da idolatria promovida por Atalia.

O problema começa depois da morte de Joiada, enterrado com honras entre os reis "porque tinha feito bem em Israel, e para com Deus, e para com sua casa" (). Sem seu mentor, Joás cede à pressão de líderes de Judá, que vêm prestar-lhe reverências e o convencem a abandonar o templo do SENHOR para servir a postes-ídolos e imagens esculpidas. Deus envia profetas para chamar o povo de volta, mas "eles não os escutaram" (v.19) — o padrão que Crônicas repete ao explicar por que Judá chegou ao exílio: não um pecado isolado, mas avisos recusados um após o outro.

É nesse ponto que "o espírito de Deus investiu a Zacarias", filho do próprio Joiada — expressão hebraica próxima da usada em para o Espírito "vestindo-se" de Gideão antes da batalha. Zacarias, posto diante do povo, repete a acusação: o abandono do SENHOR trará abandono divino. A resposta não é arrependimento, mas conspiração: por ordem do próprio rei que Joiada havia salvado e coroado, Zacarias é apedrejado no pátio da casa do SENHOR, dentro do recinto sagrado que seu pai ajudara a proteger. O relato paralelo do reinado de Joás em não menciona esse episódio; ele aparece só em Crônicas, livro com interesse particular na fidelidade do sacerdócio e na pureza do templo.

Aprofundamento

O detalhe mais discutido dessa passagem não está em 2 Crônicas, mas em , onde Jesus, ao condenar os líderes religiosos de seu tempo, fala do "sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar". O problema: em , o pai de Zacarias se chama Joiada, não Baraquias. Esse desencontro de nomes já intrigava leitores antigos e segue discutido hoje.

A leitura mais difundida — sustentada por comentaristas como Matthew Henry e retomada por boa parte da erudição evangélica conservadora — é que Joiada e Baraquias eram nomes da mesma pessoa: nomes duplos eram comuns entre sacerdotes e reis de Israel, e "Baraquias" ("bendito do SENHOR") funcionaria como um segundo nome ou epíteto de Joiada ("reconhecido pelo SENHOR"). Outros estudiosos, incluindo parte da erudição luterana e reformada mais atenta à crítica histórica, consideram mais provável que a citação de Jesus reflita uma tradição oral que já unia, ou confundia, esse Zacarias sacerdote com o profeta Zacarias, filho de Baraquias, autor do livro que leva esse nome () — sem que isso enfraqueça o ponto central da fala de Jesus.

Porque o ponto central não depende da genealogia exata: Jesus resume toda a história de violência religiosa contra os mensageiros de Deus, do primeiro ao último crime narrado no cânon hebraico. Na ordem tradicional das Escrituras judaicas, Gênesis abre e Crônicas fecha o conjunto — não Malaquias, como nas Bíblias cristãs ocidentais. Assim, "desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias" (; também ) funciona como o equivalente hebraico de dizer "de A a Z": do primeiro assassinato do mundo () ao último registrado nas Escrituras que os fariseus liam, ambos cometidos por quem deveria ter acolhido a palavra de Deus, não silenciado.

Esse padrão — o mensageiro morto por quem mais precisava ouvi-lo, dentro do próprio espaço sagrado — é o que Jesus reconhece se repetindo diante dele mesmo. Ele cita Zacarias exatamente antes de lamentar sobre Jerusalém, "que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados" (), discurso que antecipa sua própria rejeição pelas autoridades religiosas da cidade e sua morte fora dela, poucos dias depois. As últimas palavras de Zacarias — "o SENHOR o veja, e o exija" — ecoam o clamor do sangue de Abel "desde a terra" () e reaparecem, séculos mais tarde, no clamor dos mártires "debaixo do altar" em : um fio de sangue inocente que a Escritura recusa deixar sem resposta.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:O Zacarias citado por Jesus em Mateus 23:35 é o profeta Zacarias, autor do livro que leva esse nome.

    O profeta Zacarias () atuou no período pós-exílico, cerca de trezentos anos depois do assassinato narrado em , e não há registro bíblico de que tenha morrido dessa forma. A ligação mais aceita é com o Zacarias sacerdote, filho de Joiada, morto no pátio do templo no reinado de Joás.

  • Dizem que:Joás era um rei perverso desde o início, por isso mandou matar o filho de quem o havia salvo.

    O próprio relato de mostra que Joás reinou bem enquanto seguiu o conselho do sacerdote Joiada; a ordem de apedrejar Zacarias veio depois da morte de Joiada, quando o rei cedeu à pressão de líderes de Judá — uma virada moral posterior, não uma maldade constante desde o começo.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Leitura tradicional (majoritária entre católicos, ortodoxos e evangélicos conservadores)

    Joiada e Baraquias são nomes da mesma pessoa. Nomes duplos eram comuns entre sacerdotes e reis de Israel, e "Baraquias" funcionaria como um segundo nome ou epíteto de Joiada; assim, se refere exatamente ao Zacarias de .

  • Leitura crítico-histórica (presente em setores da erudição luterana e reformada)

    A citação de Jesus preserva uma tradição oral que já unia, ou aproximava, o Zacarias sacerdote de com o profeta Zacarias filho de Baraquias (); a possível imprecisão no nome do pai não compromete a autoridade nem o ponto teológico da fala de Jesus.

  • Leitura simbólico-canônica (comum entre expositores batistas e reformados)

    O essencial da citação não é a genealogia exata, mas a posição estrutural: Zacarias é o último mártir citado na ordem do cânon hebraico, que termina em Crônicas, formando com Abel — o primeiro, em Gênesis — um resumo de toda a Escritura como testemunha do sangue inocente derramado.

No original4 termos
  • רוּחַruachH7307

    espírito, sopro, vento — a força de Deus que investe alguém para uma missão ou mensagem

  • לָבַשׁlabashH3847

    vestir, revestir-se de — usado no sentido figurado de o Espírito 'vestir-se' de uma pessoa, tomando posse dela para falar (mesma expressão em )

  • סָקַלsaqalH5619

    apedrejar — execução coletiva, a mesma pena prevista na Lei para blasfêmia e idolatria, aqui aplicada contra quem denunciava a idolatria

  • דָּרַשׁdarashH1875

    buscar, exigir, requerer — no pedido final de Zacarias, 'que o SENHOR o veja e o exija/requeira'

O que fazer com isso

A cena expõe algo comum: quem denuncia com honestidade um erro raramente é recebido com gratidão, mesmo falando por dever e não por hostilidade. Zacarias não inventou uma acusação — repetiu o que os profetas já haviam dito antes dele, e pagou caro por isso. Vale perguntar, diante de uma correção incômoda vinda de alguém que só quer o nosso bem, se a reação será calar quem fala, como fez Joás, ou ao menos ouvir antes de reagir.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (comentário sobre 2 Crônicas 24), 1710.
  • C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Chronicles, 1872.
  • D. A. Carson. Matthew, in The Expositor's Bible Commentary, 1984.
  • F. F. Bruce. New Testament History, 1969.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que Mateus 23:35 chama Zacarias de "filho de Baraquias" e não "filho de Joiada"?

É uma das cruces mais discutidas do Novo Testamento. A leitura mais comum é que Joiada e Baraquias eram nomes da mesma pessoa; outra corrente considera que a citação de Jesus refletia uma tradição oral que já associava esse episódio ao profeta Zacarias, filho de Baraquias. Nenhuma das duas leituras muda o ponto que Jesus está fazendo.

Esse Zacarias é o mesmo autor do livro do profeta Zacarias?

Não, ao que tudo indica são pessoas diferentes. O profeta Zacarias () atuou no período pós-exílico, cerca de trezentos anos depois do assassinato narrado em , e a Bíblia não registra que ele tenha sido morto dessa forma.

Por que essa história não aparece em 2 Reis, só em 2 Crônicas?

2 Reis narra o reinado de Joás de forma mais política e resumida (); Crônicas tem interesse teológico específico na fidelidade do sacerdócio e na pureza do templo, por isso preserva detalhes que Reis omite.

O que significa "o Espírito de Deus investiu Zacarias"?

É a mesma expressão hebraica usada em para descrever o Espírito "vestindo-se" de Gideão antes da batalha — uma forma de dizer que Deus tomou posse da pessoa para que ela falasse com autoridade profética num momento de crise.

Temas

  • #Zacarias
  • #2 Crônicas 24
  • #Mateus 23
  • #Joás
  • #sangue inocente
  • #profetas perseguidos

Publicado em 21/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Continue por aqui

Contradições aparentes2 Crônicas 32:31

Deus abandonou Ezequias de propósito, só para testá-lo?

Depois de vencer o cerco assírio e se recuperar de uma doença que quase o matou, o rei Ezequias recebeu embaixadores da Babilônia, enviados para perguntar sobre o prodígio ocorrido em Judá. Orgulhoso, ele mostrou a eles todo o seu tesouro. É nesse momento que o cronista interrompe a narrativa para explicar o que estava por trás da cena: "Deus o deixou, para prová-lo, para fazer conhecer tudo o que estava em seu coração."

Ler explicação →
Contradições aparentes2 Crônicas 35:20-24

Por que Josias, o rei mais fiel, morreu em batalha?

Depois de organizar a maior Páscoa já celebrada em Judá, Josias enfrenta o faraó egípcio Neco, que atravessa o território rumo a Carquemis, junto ao Eufrates, para apoiar a Assíria contra o império babilônico em ascensão. Neco manda avisar que não vem lutar contra Judá e que age "da boca de Deus", pedindo que o rei não se intrometa. Josias, mesmo assim, se disfarça e vai enfrentá-lo na planície de Megido.

Ler explicação →
Contradições aparentes2 Crônicas 33:1-13

Manassés, o rei mais perverso da Bíblia, foi perdoado — isso não é injusto?

Manassés tinha doze anos quando começou a reinar em Judá e ficou no trono por cinquenta e cinco anos, o reinado mais longo entre os reis de Israel e Judá. Ele reconstruiu altares pagãos, cultuou o "exército dos céus", queimou os próprios filhos em sacrifício e colocou um ídolo dentro do templo de Jerusalém. O texto diz que ele fez Judá pecar mais do que as nações que o SENHOR havia expulsado da terra.

Ler explicação →
Contradições aparentes2 Crônicas 7:14

Se o meu povo se humilhar: para quem foi essa promessa?

Depois que o fogo desceu do céu e a glória do SENHOR encheu o templo recém-dedicado, Deus aparece a Salomão de noite com uma promessa condicional. Se enviar seca, gafanhotos ou peste como disciplina, e "meu povo, sobre os quais nem nome é invocado" se humilhar, orar, buscar o rosto de Deus e se converter dos maus caminhos, Ele ouvirá do céu, perdoará o pecado e sarará "sua terra" — a terra de Israel, ligada ao templo recém-dedicado.

Ler explicação →
Contradições aparentesGênesis 2:16-17

Por que Adão não morreu no dia em que comeu o fruto?

Em Gênesis 2:16-17, Deus dá a Adão a única restrição do Éden: pode comer de toda árvore, menos da árvore do conhecimento do bem e do mal, "porque no dia que dela comeres, morrerás". O aviso parece uma sentença cumprida em horas, mas Gênesis 5:5 registra que Adão viveu 930 anos depois disso. Essa distância entre a ameaça e o desfecho é o que gera a pergunta.

Ler explicação →

Por que os anciãos choraram, e não comemoraram, ao ver o novo templo?

Depois de lançados os fundamentos do novo templo em Jerusalém, sacerdotes, levitas e o povo se reuniram para celebrar com música e louvor, seguindo o padrão estabelecido por Davi. No meio da festa, os mais velhos — sacerdotes, levitas e chefes de família que ainda se lembravam do templo de Salomão, destruído décadas antes — começaram a chorar em alta voz ao comparar a nova fundação com a antiga.

Ler explicação →

As sete palavras da cruz que nenhum evangelho lista sozinho

Cada evangelho registra ditos diferentes de Jesus na cruz. Mateus e Marcos registram só um: o grito "Eli, Eli, lamá sabactâni" — "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Lucas registra três ditos diferentes, nenhum deles esse grito: o pedido de perdão pelos algozes, a promessa ao criminoso arrependido, e "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". João registra outros três, também sem sobreposição com Lucas: o cuidado com Maria e o discípulo amado, "tenho sede", e "está consumado".

Ler explicação →