
Santo é ele: o refrão que estrutura o Salmo 99
o que significa Deus estar sentado entre os querubins no Salmo 99
O SENHOR reina, tremam as nações; ele é o que se senta entre os querubins, mova-se a terra. O SENHOR é grande em Sião; ele é mais elevado que todos os povos. Louvem o teu grande e temível nome, porque ele é santo;
Resposta curta
O Salmo 99 abre com a fórmula "o SENHOR reina", também usada nos , 96 e 97 para celebrar o governo de Deus sobre a criação. A imagem de que ele "se senta entre os querubins" remete ao trono representado pela arca da aliança, com duas figuras de querubins sobre a tampa. Diante desse governo, "tremam as nações" e "mova-se a terra" — expressões poéticas de reverência diante da majestade divina, não ameaça de violência.
Esses três versículos formam a primeira de três estrofes do salmo, e cada uma termina com a mesma declaração: Deus é santo (v. 3, v. 5, v. 9). O refrão liga aspectos distintos do seu governo — poder sobre as nações, amor à justiça, resposta às orações de Moisés, Arão e Samuel — a um único centro: a santidade do Rei que reina.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO Salmo 99 celebra Deus entronizado, governando as nações a partir do seu trono simbólico entre os querubins. Esse tema — um rei divino, entronizado, diante de quem toda a terra se curva — é um dos fios que atravessam toda a Escritura e desembocam, no Novo Testamento, na entronização de Cristo. O livro de Apocalipse retoma a mesma linguagem de reinado divino diante de seres celestiais (as "quatro criaturas viventes" ao redor do trono, com ecos da imagética dos querubins) e aplica a Deus e ao Cordeiro a mesma soberania universal que o salmo atribui ao SENHOR. Isso não significa que o salmista já pensasse em Cristo ao escrever, mas que a tradição cristã lê a trajetória do reinado de Deus sobre as nações, iniciada em textos como este, como algo que chega ao seu ponto culminante quando o Novo Testamento anuncia que toda autoridade no céu e na terra foi dada a Cristo.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
O Salmo 99 começa dizendo que Deus é rei e governa sobre tudo. A frase "ele se senta entre os querubins" lembra a arca da aliança, onde duas figuras de anjos ficavam sobre a tampa, representando o trono de Deus no meio do povo. Quando o salmo diz que as nações tremem e a terra se move, é uma forma poética de expressar reverência diante de Deus, não uma ameaça real. Esses três versículos são o início de um padrão: três vezes o salmo repete que Deus é santo, cada vez com um motivo diferente.
Contexto histórico
O Salmo 99 fica no quarto livro do Saltério () e integra um pequeno grupo conhecido pela fórmula que os abre ou permeia — "o SENHOR reina" (em hebraico, YHWH malak) — presente também nos , 96, 97 e 47. Comentaristas como Marvin Tate e John Goldingay chamam esse conjunto de "salmos de entronização", por celebrarem o governo universal de Deus sem se referir a um rei humano específico. O texto não traz um título de autoria, diferente de vários outros salmos atribuídos a Davi.
A expressão "ele é o que se senta entre os querubins" descreve o trono simbólico de Deus sobre a arca da aliança, cuja tampa (o "propiciatório") tinha duas figuras de querubins de ouro voltadas uma para a outra (). A arca ficava no lugar santíssimo, primeiro no tabernáculo e depois no templo de Jerusalém, e era entendida como o ponto em que a presença de Deus se manifestava de modo especial ao seu povo — não como se ele estivesse fisicamente contido ali. Textos como e usam a mesma linguagem para se referir à arca.
Já as expressões "tremam as nações" e "mova-se a terra" pertencem a um recurso comum da poesia hebraica de teofania — a linguagem que descreve a reação da criação diante da manifestação de Deus. Salmos como o 97:4 ("a terra vê, e treme") e o 96:9 usam figuras semelhantes. Comentaristas como Derek Kidner observam que esse tipo de imagem é hiperbólica: expressa o temor reverente devido à majestade divina, e não um relato de eventos históricos concretos nem uma ameaça de violência contra povos específicos. A menção a "Sião" no verso seguinte (v. 2) situa esse governo divino em Jerusalém, o centro de culto de Israel, de onde o salmo o estende a "todos os povos".
Aprofundamento
O ângulo mais importante desses três versículos só aparece quando se olha para o salmo inteiro. é a primeira de três estrofes, e cada uma termina com uma variação da mesma frase: "porque ele é santo" (v. 3), "porque ele é santo" (v. 5) e "pois santo é o SENHOR nosso Deus" (v. 9). Comentaristas como Derek Kidner e Marvin Tate identificam esse refrão como o eixo estrutural do poema — um recurso comparável ao refrão de ("por que estás abatida, ó minha alma?"), em que a repetição não é enfeite, mas o fio que amarra partes aparentemente distintas do texto a um único centro.
As três estrofes tratam de temas diferentes. A primeira (vv. 1-3, o trecho desta explicação) fala do governo de Deus sobre as nações e da reverência que ele desperta. A segunda (vv. 4-5) muda de assunto: fala do amor de Deus à justiça e ao juízo reto estabelecido em Jacó. A terceira (vv. 6-9) muda de novo, citando três figuras históricas — Moisés, Arão e Samuel — como exemplos de intercessores que clamaram a Deus e foram respondidos. À primeira vista, são três blocos de conteúdo distinto: poder cósmico, justiça social e história de oração respondida. O refrão da santidade é o que os une, afirmando que a mesma característica de Deus — ele é santo — é o fundamento tanto do seu direito de reinar quanto do seu compromisso com a justiça e da sua fidelidade em responder aos que o buscam.
Vale notar também que o refrão cresce em intensidade a cada repetição: de uma afirmação simples (v. 3) para uma reafirmação (v. 5) até a forma mais plena e solene, com o nome divino por extenso (v. 9: "pois santo é o SENHOR nosso Deus"). Esse crescimento é um traço comum da poesia hebraica, em que a repetição quase nunca é idêntica — cada retomada acrescenta ênfase.
Por isso, ler apenas os versículos 1-3 isoladamente, como um retrato do poder de Deus sobre as nações, é começar bem, mas incompleto. O salmo está construindo, desde a primeira linha, o caso para uma afirmação maior: que a santidade de Deus explica tanto o seu trono quanto a sua justiça e a sua atenção às orações do seu povo. Entender essa arquitetura antes de chegar aos exemplos de Moisés, Arão e Samuel evita tratá-los como anedotas soltas — eles são a terceira prova de uma tese que o salmo vem defendendo desde o início.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Os "querubins" do salmo são anjinhos de rosto de bebê, como os costumam representar quadros e desenhos.
Essa imagem vem de uma tradição artística posterior (os "putti" da arte renascentista), não do texto bíblico. Nas Escrituras, os querubins são seres celestiais poderosos, associados à guarda da presença de Deus e descritos com formas compostas e imponentes ( e 10; ), não crianças aladas.
Dizem que:"Tremam as nações" significa que Deus quer incutir terror ou incentivar violência contra os povos.
É uma expressão poética de teofania, comum em outros salmos (96:9; 97:4), usada para descrever a reverência devida diante da majestade de Deus — não uma descrição de um evento violento nem um chamado à agressão contra nações.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
católica e ortodoxa
Tendem a ler os salmos de entronização, incluindo o 99, em chave litúrgica e messiânica: o trono entre os querubins e a tríplice proclamação da santidade divina ecoam o culto celestial (comparado ao hino do "Santo, Santo, Santo" de ) e são usados na liturgia como antecipação do reinado de Cristo.
reformada e luterana
Enfatizam o salmo como declaração da soberania providencial de Deus sobre a história e as nações, lida principalmente de forma devocional — um fundamento doutrinário do governo divino sobre toda a criação, mais do que um texto litúrgico específico.
pentecostal e arminiana
Destacam a dimensão experiencial do texto: o chamado a tremer, exaltar e prostrar-se (vv. 1, 5, 9) é lido como modelo de adoração reverente e resposta pessoal à santidade de Deus, aplicável à vida de oração do crente hoje.
No original3 termos
מָלַךְmalakH4427
reinar, ser rei, exercer governo real
כְּרוּבkerubH3742
querubim, ser celestial associado ao trono e à presença de Deus
קָדוֹשׁqadoshH6918
santo, separado, consagrado
O que fazer com isso
Ao ler um salmo como este, vale prestar atenção a frases que se repetem — elas costumam marcar o que o autor quer que o leitor não esqueça. Aqui, a repetição de "ele é santo" convida a olhar o poder de Deus, a sua justiça e as respostas às orações do povo como faces de uma mesma realidade, não como assuntos separados. Esse mesmo hábito de leitura — notar refrões e repetições — ajuda a entender melhor outros salmos e textos poéticos da Bíblia.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas4 obras
- Derek Kidner. Psalms 73-150 (Tyndale Old Testament Commentaries), 1975.
- Marvin E. Tate. Psalms 51-100 (Word Biblical Commentary), 1990.
- Franz Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Psalms, 1871.
- John Goldingay. Psalms, Volume 3: Psalms 90-150, 2008.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que o salmo diz que Deus "se senta entre os querubins"?
É uma referência à arca da aliança, cuja tampa tinha duas figuras de querubins de ouro voltadas uma para a outra (). A arca representava o trono simbólico de Deus no meio do seu povo, não um lugar onde ele estivesse fisicamente contido.
As nações realmente tremeram quando esse salmo foi escrito?
Não há registro histórico de um evento assim. "Tremam as nações" é uma expressão poética comum na literatura de teofania do Antigo Testamento, usada para descrever a reverência devida diante da majestade de Deus, e não uma ameaça literal de violência.
Por que o Salmo 99 repete três vezes que Deus é santo?
A repetição funciona como refrão, marcando o fim de cada uma das três estrofes do salmo (vv. 1-3, 4-5 e 6-9). Cada estrofe fala de um assunto diferente — governo sobre as nações, amor à justiça, resposta a orações —, e o refrão os liga a um único centro: a santidade de Deus.
O Salmo 99 fala de um rei humano ou de Deus?
Fala do próprio Deus como rei. Ele pertence a um grupo de salmos que os comentaristas chamam de "salmos de entronização", que celebram o governo universal de Deus e não se referem a nenhum rei humano de Israel.
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