
Assado ou cozido? A aparente contradição na Páscoa de Josias
A Bíblia se contradiz sobre a Páscoa ter sido assada ou cozida?
E assaram a páscoa ao fogo segundo o rito; mas o que havia sido santificado o cozinharam em panelas, em caldeiras, e caldeirões, e repartiram-no o prontamente a todo o povo.
Resposta curta
diz que 'assaram a páscoa ao fogo' e, na mesma frase, que 'as coisas sagradas cozeram em caldeiras, em panelas e em sertãs'. À primeira leitura, parece contradizer , que proíbe comer o cordeiro pascal cozido em água, exigindo que seja assado ao fogo. Mas o texto não descreve a mesma carne sendo preparada dos dois jeitos.
O cordeiro da Páscoa propriamente dito foi assado, como a lei exigia. O que foi cozido em panelas foram 'as coisas sagradas' — outras ofertas e sacrifícios trazidos em grande volume para alimentar a multidão reunida na celebração de Josias, distintas do cordeiro pascal individual de cada família. A frase é compacta demais e por isso confunde, mas descreve dois alimentos diferentes, não uma contradição real na lei.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaO cordeiro pascal assado inteiro, sem ossos quebrados, é uma das tipologias mais claras do Antigo Testamento para o sacrifício de Cristo, o 'Cordeiro de Deus' morto sem ter osso quebrado, conforme João aplica explicitamente à crucificação. A insistência da lei em preservar o método exato de preparo do cordeiro reforça a importância simbólica desse detalhe ritual específico.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Um versículo de 2 Crônicas fala em assar a Páscoa e, na mesma frase, cozer 'as coisas sagradas' em panelas — o que parece contradizer a regra de Êxodo, que manda assar o cordeiro da Páscoa, nunca cozer. Mas o texto fala de duas comidas diferentes: o cordeiro da Páscoa em si foi assado, como a lei pedia; as outras ofertas, trazidas em grande quantidade para alimentar a multidão, eram normalmente cozidas em água, como sempre se fazia com esse tipo de sacrifício.
Contexto histórico
narra a Páscoa celebrada por Josias no décimo oitavo ano de seu reinado, por volta de 622 a.C., logo depois da descoberta do livro da lei durante o reparo do templo (). É apresentada como a maior Páscoa desde os dias de Samuel, com Josias fornecendo pessoalmente trinta mil cordeiros e cabritos e três mil bois para as ofertas, além de contribuições generosas dos príncipes e chefes levíticos. A escala da celebração é parte do ponto teológico do Cronista: uma reforma religiosa autêntica produz culto organizado e generoso, não apenas correção doutrinária.
O relato distingue claramente duas categorias de animais sacrificiais na ocasião. Primeiro, o cordeiro pascal em si, um por família, conforme prescrito em , comido às pressas na noite da celebração, assado inteiro ao fogo. Segundo, um volume muito maior de gado e ovelhas trazido como ofertas adicionais — provavelmente ofertas de paz e outros sacrifícios associados à semana da festa dos pães asmos que segue a Páscoa — destinado a alimentar sacerdotes, levitas e a enorme multidão presente, que incluía peregrinos vindos de todo o antigo território de Israel, não só de Judá.
Esse tipo de oferta comunitária, distinta do cordeiro pascal, era normalmente preparada por cozimento em água, prática atestada também em , onde a carne de sacrifícios de paz é fervida em caldeiras antes de ser distribuída. O Cronista, escrevendo depois do exílio para uma comunidade reconstruindo sua identidade cultual, tinha interesse evidente em mostrar continuidade rigorosa com a lei mosaica; um erro ritual básico sobre o próprio cordeiro pascal seria uma falha teológica grave demais para passar sem comentário, o que reforça a leitura de que o texto distingue as duas categorias de alimento com naturalidade, presumindo que o leitor original já entendia a diferença sem precisar de explicação adicional.
Aprofundamento
O verbo usado para o cordeiro pascal em é צָלוּ (tsalu), de צלה (tsalah), 'assar/torrar ao fogo direto' — exatamente o mesmo verbo de , que proíbe explicitamente cozer o cordeiro 'em água' (מְבֻשָּׁל בַּמָּיִם, mevushal bammayim). Já o verbo para as 'coisas sagradas' (הַקֳּדָשִׁים, haqqodashim) é וַיְבַשְּׁלוּ (vaievashlu), de בשל (bashal), 'cozer/fervescer', o mesmo termo usado para o cozimento de carne sacrificial em e em textos levíticos sobre ofertas de paz. O hebraico, portanto, mantém a distinção lexical exigida pela lei: o cordeiro pascal recebe o verbo de assar, as demais ofertas recebem o verbo de cozer. Não há sobreposição verbal entre as duas categorias no próprio versículo.
A dificuldade que gera confusão é de leitura rápida, não de gramática: como as duas orações aparecem lado a lado na mesma frase, é fácil supor que 'as coisas sagradas' se refere ao próprio cordeiro. Sara Japhet, em seu comentário sobre Crônicas, observa que o Cronista aqui condensa uma logística complexa de grande celebração em poucas linhas, distinguindo implicitamente o sacrifício pascal individual das ofertas coletivas trazidas em abundância para alimentar sacerdotes, levitas e o povo. Raymond Dillard, na Word Biblical Commentary sobre 2 Crônicas, chega à mesma conclusão, notando que o texto pressupõe conhecimento do leitor sobre a diferença entre o cordeiro pascal e as demais ofertas festivas da semana dos pães asmos, que naturalmente eram preparadas por cozimento, método padrão para grandes quantidades de carne sacrificial distribuída a muitas pessoas.
Um segundo ponto de tensão, frequentemente citado, é , que instrui: 'cozerás e comerás' (וּבִשַּׁלְתָּ) o sacrifício pascal — usando o mesmo verbo bashal atribuído em apenas às demais ofertas. Comentaristas como Jacob Milgrom e Peter Craigie, em seus respectivos trabalhos sobre a lei mosaica, argumentam que bashal em Deuteronômio funciona como termo genérico para 'preparar/cozinhar' — sentido amplo já atestado em outras passagens do hebraico bíblico — e não especificamente 'fervescer em água', evitando assim um conflito legal direto entre os dois textos da lei. A discussão mostra que a aparente contradição em se resolve com atenção lexical cuidadosa, mas o problema paralelo em permanece um ponto de debate legítimo entre estudiosos do Pentateuco, sem consenso unânime sobre a extensão exata do verbo bashal nesse contexto específico. Vale notar ainda que a Septuaginta grega traduz os dois verbos hebraicos de sem confundi-los, preservando na tradução a mesma distinção entre assar e cozer presente no texto massorético, o que reforça que os tradutores antigos, muito mais próximos culturalmente do ritual original do que qualquer leitor moderno, não perceberam ali nenhuma contradição a resolver.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:2 Crônicas 35:13 mostra que a Bíblia se contradiz sobre como preparar o cordeiro da Páscoa.
O verbo hebraico para o cordeiro pascal ('assar') é diferente do verbo usado para as demais ofertas ('cozer'); o texto distingue dois alimentos diferentes preparados de formas diferentes, não o mesmo cordeiro de duas maneiras.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo rabínico
A Mishná e discussões talmúdicas posteriores sobre o sacrifício pascal também distinguem cuidadosamente o cordeiro pascal de outras ofertas festivas (chagigah), preparadas por métodos distintos.
Comentário evangélico conservador
Tende a harmonizar o versículo lendo 'coisas sagradas' como referência a ofertas adicionais, preservando a coerência legal entre e sem necessidade de reinterpretar o texto.
No original2 termos
צָלוּtsalu
'assaram [ao fogo]', mesmo verbo de para o cordeiro pascal, confirmando que ele foi preparado conforme a lei exigia.
וַיְבַשְּׁלוּvaievashlu
'e cozeram', verbo diferente aplicado apenas às demais ofertas sagradas, não ao cordeiro pascal, mantendo a distinção legal entre os dois alimentos.
O que fazer com isso
O episódio é um bom exercício de leitura cuidadosa antes de gritar contradição: frases compactas descrevendo logística complexa podem parecer confusas sem prejudicar a coerência do texto. Também mostra que rituais detalhados existiam para servir a um propósito maior — uma celebração nacional de arrependimento e identidade —, não como fim em si mesmos. Regras precisas e generosidade prática conviviam na mesma festa.
Passagens relacionadas4
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Sara Japhet. I & II Chronicles: A Commentary, 1993.
- Raymond B. Dillard. 2 Chronicles (Word Biblical Commentary), 1987.
- Jacob Milgrom. Studies in Cultic Theology and Terminology.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então a Bíblia não se contradiz sobre a Páscoa?
Não nesse ponto: o cordeiro pascal é assado, conforme a lei; as 'coisas sagradas' cozidas são outras ofertas, trazidas em grande volume para alimentar a multidão presente na celebração.
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