Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Ilustração da categoria Textos eticamente difíceis

Paulo endossou um provérbio contra um povo inteiro

Por que Paulo diz que os cretenses são sempre mentirosos?

Um próprio profeta deles disse: Os cretenses sempre são mentirosos, animais malignos, ventres preguiçosos. Este testemunho é verdadeiro; por isso repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O texto é incômodo em duas frentes, e nenhuma delas se resolve com facilidade.

A primeira é o conteúdo: uma generalização sobre um povo inteiro — sempre mentirosos, animais malignos, ventres preguiçosos — seguida da avaliação de Paulo: este testemunho é verdadeiro.

A segunda é lógica. A frase é atribuída a um profeta dos próprios cretenses, e a tradição a identifica com Epimênides, que era de Creta. Um cretense afirmando que todos os cretenses sempre mentem é a formulação clássica do paradoxo do mentiroso.

Há contexto que ajuda a entender por que a citação está ali. Ele não faz o desconforto desaparecer, e é honesto dizer isso antes de apresentá-lo.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

A carta que contém o versículo mais duro sobre um povo contém também, dois capítulos adiante, a lembrança de que "também nós éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados" — e que não foi por obras de justiça que fomos salvos, mas segundo a misericórdia. A estrutura da carta impede que a citação do capítulo 1 funcione como superioridade de quem a lê.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse texto incomoda em duas frentes: generaliza um povo inteiro como mentiroso, e ainda diz que essa afirmação é "verdadeira". Mas a frase não é invenção de Paulo — é um ditado antigo, atribuído a um poeta da própria ilha de Creta, aplicado a um grupo específico de pessoas problemáticas mencionadas pouco antes, com objetivo declarado de corrigi-las.

O restante da carta contraria qualquer leitura de desprezo geral: instrui homens, mulheres e escravos cretenses sem reserva, e lembra que "também nós éramos insensatos" antes. Ainda assim, é honesto dizer que a frase "isto é verdade", aplicada a uma generalização tão ampla, continua sendo um ponto difícil que o contexto explica em parte, mas não resolve por completo.

Contexto histórico

A carta é dirigida a Tito, deixado em Creta para organizar as igrejas da ilha e constituir presbíteros.

O problema declarado nos versículos imediatamente anteriores é específico: há muitos insubordinados, faladores vãos e enganadores, que transtornam casas inteiras ensinando o que não devem, por torpe ganância.

A citação vem logo depois disso, e a instrução que a segue é corretiva: repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé.

Sobre a fama de Creta, ela existia e era vocabulário corrente no mundo grego. Havia um verbo formado a partir do nome da ilha que significava mentir, e autores gregos registram a reputação dos cretenses em matéria de veracidade.

A disputa por trás do provérbio, segundo os antigos, era religiosa: os cretenses afirmavam ter o túmulo de Zeus na ilha, o que para outros gregos era mentira por definição, já que Zeus era imortal.

Paulo cita autores gregos em outros lugares — traz duas citações, e traz um verso de Menandro.

Aprofundamento

A leitura honesta exige separar três coisas: o que a citação é, o que Paulo faz com ela, e o que continua difícil.

Sobre o que ela é: trata-se de um provérbio corrente, atribuído por vários autores antigos a Epimênides, poeta cretense do século VI antes de Cristo. A citação de um provérbio local para descrever um problema local é procedimento retórico comum, e o próprio Paulo chama a fonte de "um profeta deles".

Sobre o que Paulo faz: ele aplica a frase a um grupo específico e nomeado — os insubordinados e enganadores do versículo 10 —, e a finalidade declarada é corretiva. O versículo 13 não termina em condenação: termina em "para que sejam sãos na fé".

O contraste com o restante da carta reforça essa direção. O capítulo 2 dá instruções a homens, mulheres, jovens e servos cretenses sem nenhuma reserva étnica, e o capítulo 3 manda lembrar que também nós éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados.

Sobre o que continua difícil: Paulo escreve "este testemunho é verdadeiro" sobre uma frase que generaliza um povo, e essa formulação não é atenuada em lugar nenhum do texto.

As saídas propostas variam. Alguns leem "verdadeiro" como referindo-se à aplicação ao grupo em questão, e não à generalização; outros observam que o gênero proverbial não é lido literalmente por ninguém, nem na Antiguidade nem hoje — quem diz que num certo lugar todo mundo é assim não está fazendo censo.

Essas saídas são razoáveis e não são completas. Registrar isso é mais útil do que fingir que a passagem é confortável.

Sobre o paradoxo lógico, cabe uma precisão. A formulação estrita do paradoxo do mentiroso exige que a frase se refira a si mesma de modo total; a frase de Epimênides, como ele era cretense, produz uma versão dele — mas há discussão técnica sobre se ela gera contradição real ou apenas uma falsidade simples. Não é necessário resolver a lógica para ler o versículo, e apresentar o paradoxo como um problema fatal para o texto seria exagero.

Por fim, um dado de proporção: Paulo cita autores gregos pelo menos três vezes no Novo Testamento, e nunca como autoridade doutrinária. Aqui, como nos outros casos, a citação serve de apoio retórico a um argumento cujo fundamento é outro.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Paulo estava descrevendo os cretenses em geral.

    A citação vem logo depois da descrição de um grupo específico — insubordinados, faladores vãos e enganadores que transtornam casas por ganância — e a instrução seguinte é repreendê-los para que sejam sãos na fé.

  • Dizem que:A frase é invenção de Paulo.

    É um provérbio corrente no mundo grego, atribuído por vários autores antigos a Epimênides, poeta cretense. Havia inclusive um verbo grego formado a partir do nome da ilha com o sentido de mentir.

  • Dizem que:O paradoxo lógico invalida o versículo.

    A formulação estrita do paradoxo do mentiroso exige autorreferência total, e há discussão técnica sobre se a frase gera contradição real ou apenas falsidade simples. Não é preciso resolver a lógica para ler a passagem.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Provérbio local aplicado a um grupo local

    Lê a citação como recurso retórico dirigido aos enganadores do versículo 10, com finalidade corretiva declarada no versículo 13. É a leitura majoritária.

  • Avaliação geral sobre a cultura local

    Lê "este testemunho é verdadeiro" como endosso da caracterização. Explica a frase literalmente, e enfrenta o capítulo 2, que instrui cretenses sem nenhuma reserva étnica.

No original3 termos
  • ΚρῆτεςKretes

    Cretenses. Havia um verbo grego derivado do nome da ilha com o sentido de mentir, o que indica que a reputação era vocabulário corrente.

  • προφήτηςprophetes

    "Profeta". Paulo usa o termo para um poeta grego, no sentido de porta-voz — e a tradição identifica a fonte com Epimênides, do século VI antes de Cristo.

  • ἀποτόμωςapotomos

    "Severamente", literalmente de modo cortante. Qualifica a repreensão ordenada, cuja finalidade declarada é que sejam sãos na fé.

O que fazer com isso

O texto é um caso de teste para como se lida com passagens difíceis, e há duas maneiras erradas de resolvê-lo.

A primeira é usá-lo. A frase serve, sem esforço nenhum, para justificar generalização sobre qualquer grupo — e o fato de estar na Bíblia é exatamente o que a torna perigosa nesse uso.

A segunda é apagá-lo, seja negando que Paulo tenha escrito a carta, seja tratando o versículo como se dissesse algo mais suave do que diz.

O caminho intermediário é registrar o que o contexto explica — provérbio local, grupo específico, finalidade corretiva, ausência de qualquer reserva étnica no resto da carta — e registrar também o que ele não explica, que é a frase "este testemunho é verdadeiro".

Há também algo aproveitável na finalidade. A repreensão que o texto ordena tem objetivo declarado, e ele não é punir: é que sejam sãos na fé. Uma repreensão sem essa finalidade não é a que o texto manda fazer.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Charles John Ellicott. A New Testament Commentary for English Readers, 1878.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Paulo cita autores pagãos em outros lugares?

Sim, pelo menos três vezes: duas em e uma em , um verso de Menandro. Em nenhum caso a citação funciona como autoridade doutrinária.

De onde vinha a fama dos cretenses?

Segundo autores antigos, a disputa era religiosa: os cretenses afirmavam ter o túmulo de Zeus na ilha, o que para outros gregos era mentira por definição, já que Zeus era imortal.

O versículo justifica generalizar sobre povos?

Nada na carta sustenta isso — o capítulo 2 instrui cretenses sem reserva alguma, e o capítulo 3 lembra que também nós éramos insensatos e desobedientes. Usar a frase assim contraria a própria carta em que ela está.

Temas

  • No grego
  • #tito
  • #preconceito
  • #citacao
  • #novo-testamento

Publicado em 30/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Continue por aqui

Por que Tito também instrui escravos a obedecer sem contestar?

Tito 2:9-10 instrui escravos a se sujeitarem aos senhores em tudo, a agradá-los e a não os contradizerem nem furtar, "para que sejam em tudo ornamento da doutrina de Deus". A instrução repete quase palavra por palavra o que Paulo escreve em Efésios 6:5-8 e Colossenses 3:22-25, o que mostra que não é um comentário isolado, mas parte de um código doméstico padronizado, repetido em três cartas paulinas diferentes com pequenas variações. Isso revela como a igreja primitiva convivia com uma instituição que não aboliu de imediato, mas em cujo interior tentava introduzir dignidade e testemunho cristão, sem confrontar diretamente a estrutura social romana daquele momento.

Ler explicação →

'Para os limpos, todas as coisas são limpas': o que Tito 1:15 quer dizer?

"Para os limpos, todas as coisas são limpas; mas para os corrompidos e incrédulos nada é limpo" soa, isolado, como uma licença para qualquer comportamento — desde que a pessoa se considere pura. Mas o contexto de Tito 1:10-16 mostra que Paulo está denunciando mestres que impunham regras rituais artificiais, provavelmente ligadas a exigências alimentares judaizantes. O eco é direto com o debate de Jesus em Marcos 7 sobre puro e impuro, mas Tito desloca a discussão: o problema não é a comida em si, é a mente e a consciência corrompidas de quem impõe regras vazias enquanto nega a Deus pelas próprias obras. Não é uma frase sobre liberdade moral irrestrita, é sobre a origem real da impureza.

Ler explicação →

Que qualificações Tito deveria usar para escolher líderes em Creta?

Paulo deixou Tito em Creta com uma tarefa concreta: nomear presbíteros em cada cidade onde havia crentes. A lista de requisitos que ele dita — irrepreensível, marido de uma só mulher, com filhos fiéis, não acusado de dissolução ou de insubordinação — mede sobretudo a reputação pública do candidato e de sua casa, não talentos ou dons espirituais. Comparada à lista paralela de 1 Timóteo 3, ela repete itens centrais, mas acrescenta uma ênfase própria sobre o comportamento dos filhos, ausente do outro texto. Isso mostra que a igreja do primeiro século, numa ilha com fama cultural específica, precisava de líderes cuja vida doméstica já fosse prova visível de caráter diante de vizinhos e de outros crentes.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 7:1-2

A Bíblia permite morar junto antes do casamento?

Em 1 Coríntios 7:1-2, Paulo responde a perguntas que os coríntios enviaram por carta. A frase "bom é para o homem não tocar mulher" provavelmente reproduz a opinião de um grupo da igreja que valorizava o celibato até dentro do casamento; muitos estudiosos leem essa linha como uma citação que Paulo cita para em seguida equilibrar. Depois, "por causa dos pecados sexuais", ele orienta que cada homem tenha sua própria mulher e cada mulher seu próprio marido — instrução sobre a estrutura exclusiva do casamento, não sobre convivência informal.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Coríntios 8:4-8

É pecado comer alimento associado a outra religião?

Em Corinto, boa parte da carne vendida no mercado vinha de animais sacrificados nos templos pagãos. Um grupo de cristãos, convencido de que "o ídolo nada é no mundo" e que "não há qualquer outro Deus, a não ser um" (1 Coríntios 8:4), sentia-se livre para comer sem culpa. Paulo concorda: para quem crê, há um só Deus Pai e um só Senhor Jesus Cristo, de quem vêm todas as coisas.

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis1 Tessalonicenses 4:11-12

Viver quieto e trabalhar com as próprias mãos

Paulo termina 1 Tessalonicenses 4 pedindo que os cristãos "procurai viver quietos, trantando dos vossos próprios assuntos, e trabalhando com as vossas próprias mãos". Não é um elogio ao silêncio ou à vida recolhida em si mesma: a palavra grega por trás de "quietos" descreve alguém que parou de se meter na vida alheia e de agitar a comunidade — o oposto de um comportamento agitado e intrometido.

Ler explicação →

Não cuidar da família nega a fé?

Em 1 Timóteo 5, Paulo orienta a igreja de Éfeso sobre como cuidar das viúvas. Antes da comunidade assumir esse sustento, a responsabilidade cabia à família: filhos e netos deveriam "aprender primeiro a exercer piedade com a sua própria família" (v.4). Nesse contexto — quem paga as contas de uma viúva sem recursos — vem a frase mais dura do capítulo: "Porém, se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos de sua própria família, negou a fé, e é pior que um incrédulo" (1 Timóteo 5:8).

Ler explicação →
Textos eticamente difíceis2 Coríntios 1:8-9

"Desesperamos até da vida": o texto que não disfarça o colapso emocional de Paulo

Em 2 Coríntios 1:8-9, Paulo descreve uma tribulação sofrida na Ásia (provavelmente Éfeso) em termos que a maioria das traduções suaviza menos do que deveria: ele diz que foi "agravado além do que podíamos suportar", a ponto de "desesperar até da vida", e que carregava em si mesmo "a sentença de morte". Não é retórica exagerada de quem está simplesmente cansado — é a descrição, em primeira pessoa, de alguém que chegou ao limite entre viver e não querer continuar, um estado de esgotamento total sem clareza de saída.

Ler explicação →