
A samaritana era uma mulher promíscua?
O que significam os cinco maridos da mulher samaritana?
A mulher respondeu, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Bem disseste: Marido não tenho. Porque cinco maridos tiveste, e o que agora tens não é teu marido; isto com verdade disseste.
Resposta curta
A leitura difundida é conhecida: ela seria uma mulher de vida desregrada, que ia ao poço ao meio-dia para evitar as outras mulheres.
Nenhuma das duas coisas está no texto. Jesus não a acusa de pecado em momento nenhum da conversa, e o texto não dá motivo para o horário.
O que o texto diz é que ela teve cinco maridos. Numa sociedade em que a mulher não podia iniciar divórcio, cinco casamentos terminados descrevem, com muito mais probabilidade, cinco perdas — por repúdio ou por morte — do que cinco escolhas.
E o desfecho é o oposto do que a leitura moralizante prepara: ela é a primeira pessoa a quem, neste evangelho, Jesus se declara abertamente, e a primeira a levar uma cidade inteira até ele.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoÉ neste diálogo que aparece a primeira declaração explícita de identidade messiânica em João: à menção do Messias, ele responde "eu sou, o que fala contigo". A cena antecipa em miniatura o alcance descrito depois — a fé de samaritanos, que registra acontecendo em escala, e a expressão que a cidade usa no fim, "o Salvador do mundo", que ninguém mais usa nos evangelhos.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A leitura comum diz que ela era uma mulher de vida desregrada, que ia buscar água ao meio-dia para evitar outras mulheres. Nenhuma dessas duas coisas está no texto. Jesus não a acusa de pecado em nenhum momento, e a Bíblia não dá motivo para o horário.
O que o texto diz é que ela teve cinco maridos. Naquela sociedade, a mulher não podia pedir divórcio — cinco casamentos desfeitos indicam, com muito mais chance, cinco perdas por abandono ou morte do que escolhas dela. E o desfecho é o oposto do que a leitura moralista prepara: ela é a primeira pessoa, nesse evangelho, a quem Jesus se declara abertamente, e por causa dela uma cidade inteira vai atrás dele.
Contexto histórico
Samaritanos e judeus estavam separados havia séculos, com disputa sobre o lugar legítimo de culto — o monte Gerizim ou Jerusalém —, e o próprio texto observa que judeus não se comunicavam com samaritanos.
A cena tem três transgressões sociais empilhadas: um homem falando a sós com uma mulher desconhecida, um judeu pedindo água a uma samaritana, e um mestre iniciando conversa teológica com ela. Os discípulos, ao voltarem, se admiram justamente disso.
Sobre o divórcio, o quadro jurídico é assimétrico. No direito judaico da época, o repúdio era prerrogativa do marido, e a mulher não tinha como iniciá-lo. Uma mulher com cinco casamentos desfeitos é, quase por definição, alguém que foi deixada ou enviuvou repetidamente.
Sobre o horário, o texto informa que era cerca da hora sexta. A inferência de que ela evitava as outras mulheres é acréscimo — e João usa marcas de tempo com intenção narrativa: Nicodemos vai a Jesus de noite, ela o encontra em plena luz.
O poço citado é atribuído a Jacó, e o lugar carrega memória patriarcal.
Aprofundamento
Vale examinar o que Jesus faz na cena, porque é o argumento mais forte contra a leitura moralizante.
Ele pede água. Fala de água viva. Pede que ela chame o marido. Constata os cinco casamentos e a situação presente. Responde à pergunta dela sobre o lugar de culto. E declara quem é.
Em nenhum ponto há chamado ao arrependimento, censura ou perdão de pecados — o que contrasta com outras cenas dos evangelhos em que isso aparece explicitamente, como a mulher surpreendida em adultério, em , onde Jesus diz "não peques mais".
A ausência é significativa justamente porque o mesmo evangelho sabe fazer o contrário quando quer.
O detalhe sobre o homem atual — "o que agora tens não é teu marido" — é real e não deve ser apagado. Ele descreve uma situação irregular. O que não se pode fazer é converter esse dado em biografia de promiscuidade, que é a operação que a pregação costuma executar.
Existe ainda uma leitura simbólica antiga que merece ser apresentada com a devida cautela. conta que os assírios instalaram populações de cinco cidades estrangeiras na Samaria, e que cada grupo trouxe seus deuses. Alguns comentaristas leem os cinco maridos como alusão a isso.
A leitura é engenhosa e tem apoio numérico, mas depende de detalhes do relato de 2 Reis que são discutidos, e transforma uma pessoa concreta em alegoria. Convém registrá-la como leitura existente, não como chave.
O desfecho é o dado que mais desequilibra a tradição moralizante. No versículo 26, Jesus responde à menção do Messias com a fórmula "eu sou" — a primeira vez em João que ele se declara assim a alguém. E é a uma samaritana, sozinha, num poço.
Nos versículos 39 a 42, muitos da cidade creem por causa da palavra dela. O texto usa para o que ela faz o mesmo vocabulário de testemunho que usa em outros lugares para os discípulos.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Ela ia ao poço ao meio-dia para evitar as outras mulheres.
O texto informa a hora e não dá motivo. A inferência é acréscimo, e João usa marcas de tempo com intenção narrativa — Nicodemos o procura de noite, ela o encontra em plena luz.
Dizem que:Os cinco maridos indicam vida promíscua.
A mulher não podia iniciar divórcio no direito judaico da época. Cinco casamentos desfeitos descrevem com muito mais probabilidade repúdios e viuvez do que escolhas dela.
Dizem que:Jesus a repreende pelo pecado durante a conversa.
Não há chamado ao arrependimento, censura nem perdão de pecados na cena — o que contrasta com , onde o mesmo evangelho registra "não peques mais". A ausência é significativa porque o autor sabe fazer o contrário quando quer.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Cena histórica de encontro e envio
Lê os cinco maridos como biografia de perdas e destaca o desfecho: a primeira declaração explícita de identidade em João e a fé de uma cidade pelo relato dela.
Leitura simbólica dos cinco povos
Liga os cinco maridos às populações estrangeiras instaladas na Samaria segundo . Tem apoio numérico, mas depende de detalhes discutidos e transforma uma pessoa em alegoria.
No original3 termos
ἐγώ εἰμιego eimi
"Eu sou", no versículo 26. Primeira declaração explícita de identidade messiânica em João, dita a uma samaritana, a sós, num poço.
συγχράομαιsygchraomai
O verbo do versículo 9, sobre judeus não se comunicarem com samaritanos. Indica uso comum de objetos, o que agrava o pedido de água feito por Jesus.
μαρτυρούσηςmartyrouses
"Que testemunhava", no versículo 39. É o mesmo campo de vocabulário que João usa para o testemunho dos discípulos.
O que fazer com isso
Esta é uma cena que costuma ser pregada com um retrato que o texto não fornece, e o efeito recai sempre sobre o mesmo tipo de pessoa.
Quando a leitura acrescenta promiscuidade onde há cinco perdas, ela transforma uma história de alguém que foi deixada muitas vezes numa história sobre a culpa dela. É uma inversão específica, e vale notar em que direção ela sempre corre.
O que o texto de fato oferece é outra coisa: a conversa teológica mais longa registrada nos evangelhos é com uma mulher, de um povo desprezado, e ela não é corrigida por fazer perguntas — a pergunta sobre o lugar de culto recebe resposta séria.
Há também um dado sobre credibilidade que costuma passar. A cidade não vai até Jesus por causa de uma autoridade religiosa. Vai por causa do relato de alguém cuja vida era conhecida por todos ali.
E ela deixa o cântaro. É detalhe pequeno, e é a única coisa da cena que descreve o que aconteceu com ela: veio buscar água e foi embora sem levar.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Brooke Foss Westcott. The Gospel According to St. John, 1881.
- Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Então ela não tinha pecado nenhum?
O texto diz que o homem com quem vivia não era seu marido, e isso descreve uma situação irregular. O que não se sustenta é converter esse dado em biografia de promiscuidade, que é o que a leitura difundida faz.
Por que os discípulos se admiraram ao voltar?
Segundo o versículo 27, por ele estar falando com uma mulher. O texto acrescenta que nenhum deles perguntou o motivo, o que é um detalhe narrativo notável.
Qual era a disputa entre samaritanos e judeus?
Ela envolvia o lugar legítimo de culto — o monte Gerizim ou Jerusalém — e séculos de separação. É exatamente a pergunta que ela faz a Jesus, e ele a responde sem desqualificá-la.
Temas
- Mulheres na Bíblia
- #joao
- #samaria
- #costume
- #novo-testamento