
O direito de resgatar a terra da família (o "goel")
O que é o direito de resgate da terra (goel) na Bíblia?
E a terra não se venderá definitivamente, porque a terra minha é; que vós peregrinos e estrangeiros sois para comigo. Portanto, em toda a terra de vossa possessão, outorgareis remissão à terra. Quando teu irmão empobrecer, e vender algo de sua possessão, virá o resgatador, seu próximo, e resgatará o que seu irmão houver vendido. E quando o homem não tiver resgatador, se alcançar sua mão, e achar o que basta para seu resgate; Então contará os anos de sua venda, e pagará o que restar ao homem a quem vendeu, e voltará à sua possessão. Mas se não alcançar sua mão o que basta para que volte a ele, o que vendeu estará em poder do que o comprou até o ano do jubileu; e ao jubileu sairá, e ele voltará à sua possessão.
Resposta curta
estabelece que, se um israelita empobrecido precisar vender sua terra ancestral, essa venda nunca é definitiva. Um parente próximo — o goel, ou "redentor" — tem o direito e o dever de comprar a terra de volta para mantê-la dentro da família. Se não houver parente disponível, a própria pessoa pode resgatá-la depois, caso sua situação melhore; e se nada disso acontecer, a terra retorna automaticamente à família original no ano do Jubileu.
A base teológica é dada no próprio texto: "a terra é minha", diz Deus — o israelita nunca é proprietário absoluto, apenas administrador temporário de uma herança que pertence, em última instância, a Deus e permanece vinculada à sua família por direito.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaBoaz, ao agir como goel para resgatar a terra e a família de Elimeleque na história de Rute, é lido tradicionalmente como um tipo do papel de Cristo como redentor: aquele que, por parentesco assumido voluntariamente com a humanidade, paga o preço necessário para restaurar o que estava perdido. O Novo Testamento retoma diretamente essa linguagem de resgate para descrever a obra de Cristo.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Nessa lei, se uma família israelita ficasse pobre e precisasse vender parte da sua terra, essa venda não era para sempre. Um parente próximo, chamado de goel, tinha o direito de comprar essa terra de volta para manter ela dentro da família. Se nenhum parente pudesse fazer isso, e a própria pessoa também não conseguisse resgatar, a terra voltava automaticamente para a família de origem depois de cinquenta anos, no ano do Jubileu. A ideia por trás disso é que a terra, no fundo, era de Deus, e a família só cuidava dela.
Contexto histórico
Na organização territorial de Israel, a terra não era distribuída por compra livre no mercado, mas por herança tribal e familiar, remontando à divisão original narrada em Josué. Essa terra representava, ao mesmo tempo, meio de subsistência e identidade: perder a terra ancestral de forma permanente significava perder o vínculo econômico e simbólico com a linhagem da família e da tribo. Diante de dívidas, fome ou crises econômicas, um israelita podia se ver obrigado a vender parte de sua terra para sobreviver — mas a lei trata essa venda como uma transferência temporária de uso, não como propriedade definitiva transferida ao comprador.
O papel do go'el (o "redentor", geralmente o parente masculino mais próximo capaz de agir) era justamente intervir nesse processo: comprando de volta a terra vendida, ele restaurava o vínculo familiar com a herança, evitando que ela se perdesse de forma permanente para fora do clã. Esse mesmo papel de redentor se estendia, em , ao resgate de pessoas da própria família que tivessem se vendido em servidão a estrangeiros — o go'el não protegia apenas propriedade, mas também pessoas.
Caso nenhum parente pudesse ou quisesse exercer esse direito, e a própria pessoa que vendeu a terra não conseguisse resgatá-la sozinha, o sistema previa uma rede de segurança final: o ano do Jubileu, a cada cinquenta anos, quando toda terra vendida deveria retornar automaticamente à família original, independentemente de quem a tivesse comprado nesse ínterim. Um leitor do Israel antigo entenderia essa estrutura como garantia de que nenhuma família ficaria permanentemente sem acesso à terra que lhe fora originalmente designada, por mais grave que a crise econômica de uma geração tivesse sido.
O texto também distingue explicitamente o caso de propriedades em cidades muradas (25:29-30), com regras de resgate mais restritas no tempo, do caso da terra agrícola e das casas em aldeias sem muro, tratadas como parte inseparável dos campos ao redor e sujeitas plenamente à lógica do Jubileu — sinal de que o legislador estava atento a diferenças reais entre tipos de propriedade, e não aplicando uma regra única e simplista a toda forma de bem imóvel.
Aprofundamento
O termo central é גֹּאֵל (go'el, "redentor", Strong H1350), participio do verbo גָּאַל (ga'al, "redimir, resgatar, comprar de volta"), e o substantivo relacionado גְּאוּלָה (ge'ulah, "redenção", Strong H1353) descreve tecnicamente o próprio ato e o direito de resgate. O termo carrega, no uso bíblico mais amplo, tanto o sentido jurídico-econômico de recompra quanto uma dimensão relacional forte: o go'el age por obrigação de parentesco, não por transação comercial neutra.
Jacob Milgrom, em seu comentário sobre Levítico (Anchor Bible), argumenta que o fundamento teológico declarado em 25:23 — "a terra é minha" — subordina toda a lógica de propriedade israelita à soberania divina, tornando a venda de terra, em sentido estrito, uma venda apenas do direito de uso pelos anos restantes até o Jubileu, e não uma transferência de título permanente como se entenderia hoje. Gordon Wenham, no comentário do NICOT sobre Levítico, nota que esse sistema criava um mecanismo estrutural contra a formação de grandes latifúndios concentrados ao longo de gerações, redistribuindo periodicamente o acesso à terra entre as famílias originais.
O exemplo narrativo mais conhecido desse direito em ação está no livro de Rute: Boaz age como go'el, primeiro oferecendo a um parente mais próximo a chance de resgatar a terra de Elimeleque, e depois assumindo ele mesmo esse papel quando o outro parente recusa () — o relato pressupõe que o leitor já conhece as regras de sem precisar explicá-las em detalhe. traz outro exemplo concreto: o profeta compra o campo de um parente durante o cerco babilônico, um ato simbólico de esperança que só faz sentido dentro dessa mesma lógica legal de resgate familiar da terra.
O termo go'el também aparece de forma teologicamente carregada fora do contexto legal, como em ("eu sei que o meu redentor vive"), aplicando a mesma linguagem de resgate familiar a uma esperança que transcende a simples recuperação de propriedade — um uso que prepara terreno para a apropriação cristã posterior do vocabulário de redenção.
John Hartley, em seu comentário sobre Levítico (WBC), acrescenta que o preço do resgate não era arbitrário: o texto (25:27) prevê um cálculo proporcional ao número de anos restantes até o próximo Jubileu, de modo que quem resgatava a terra pagava apenas pelo tempo de uso que ainda faltava, não pelo valor pleno da terra como se fosse uma venda definitiva — um detalhe que reforça, na prática econômica concreta, a ideia teológica de que a posse plena nunca deixou de pertencer à família original.
O que costumam dizer errado1 afirmação
Dizem que:Essa lei permitia comprar e vender terra livremente, como qualquer propriedade em um mercado moderno.
O próprio texto declara que a terra pertence a Deus e que a venda é, na prática, apenas uma transferência temporária de uso até o resgate ou o ano do Jubileu — não uma transferência permanente de propriedade como um contrato de compra e venda hoje.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Judaísmo rabínico
Fontes rabínicas e históricas discutem em que medida o Jubileu foi efetivamente praticado como instituição plena ao longo da história de Israel, com evidência de que sua observância consistente é incerta em vários períodos, mesmo permanecendo como ideal legal.
Católica
Documentos de doutrina social, como a encíclica Centesimus Annus, citam explicitamente a lógica do Jubileu e da terra como pertencente a Deus para sustentar o princípio da destinação universal dos bens e da limitação moral à concentração permanente de propriedade.
No original2 termos
גֹּאֵלgo'elH1350
"Redentor"; participio de ga'al, designa o parente próximo com direito e dever de resgatar terra ou pessoas da família em , restaurando o vínculo familiar com a herança.
גְּאוּלָהge'ulahH1353
"Redenção" ou "resgate"; substantivo relacionado ao direito e ao processo de recompra descritos em , aplicado tanto à terra quanto, em outros versículos do capítulo, a pessoas.
O que fazer com isso
Esse sistema trata a posse de terra e recursos como algo que nunca deveria se desconectar completamente de quem precisa dela para viver, mesmo em momentos de crise severa. Aplicado hoje, o princípio desafia estruturas econômicas que permitem concentração permanente de recursos essenciais, sem mecanismo algum de restauração para famílias que perderam acesso à terra ou a outros meios básicos de subsistência por dívida.
Passagens relacionadas4
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Fontes consultadas3 obras
- Jacob Milgrom. Leviticus 23-27 (Anchor Bible), 2001.
- Gordon Wenham. The Book of Leviticus (NICOT), 1979.
- John E. Hartley. Leviticus (WBC), 1992.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que aconteceria se nenhum parente pudesse resgatar a terra?
A terra permaneceria com o comprador até o ano do Jubileu, a cada cinquenta anos, quando deveria retornar automaticamente à família original, independentemente de quem a possuísse naquele momento.
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