
Por que o cordão escarlate na janela de Raabe a salvou, e ele aponta para o sangue de Cristo?
O cordão vermelho de Raabe é símbolo do sangue de Jesus?
Então ela os fez descer com uma corda pela janela; porque sua casa estava à parede do muro, e ela vivia no muro. E disse-lhes: Marchai-vos ao monte, porque os que foram atrás vós não vos encontrem; e estai escondidos ali três dias, até que os que vos seguem tenham voltado; e depois vos ireis vosso caminho. E eles lhe disseram: Nós seremos desobrigados deste juramento com que nos hás conjurado. Eis que, quando nós entrarmos na terra, tu atarás este cordão de escarlate à janela pela qual nos fizeste descer: e tu juntarás em tua casa teu pai e tua mãe, teus irmãos e toda a família de teu pai. Qualquer um que sair fora das portas de tua casa, seu sangue será sobre sua cabeça, e nós sem culpa. Mas qualquer um que estiver em casa contigo, seu sangue será sobre nossa cabeça, se mão o tocar. E se tu denunciares este nosso negócio, nós seremos desobrigados deste teu juramento com que nos fizeste jurar. E ela respondeu: Seja assim como dissestes. Logo os despediu, e se foram: e ela atou o cordão de escarlate à janela.
Resposta curta
Em , Raabe desce os dois espias por uma corda da janela de sua casa, na muralha de Jericó, e eles juram poupar quem estiver na casa se ela atar à janela um cordão de fio escarlate. A leitura tipológica, presente desde os pais da igreja, vê no cordão uma figura do sangue de Cristo, em eco da Páscoa. O texto, porém, não faz essa ligação: o cordão é um sinal combinado entre Raabe e os espias, e o que salva a família é a promessa jurada e a fé de Raabe, elogiada em e . Entender os dois níveis, o que o texto diz e o que a tradição acrescentou, evita tanto o simbolismo exagerado quanto a leitura seca.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textonão menciona Cristo, mas a história de Raabe se liga a ele de forma concreta: o Novo Testamento a inclui na genealogia do Messias (), mostrando que o Deus de Israel acolhe estrangeiros. A tradição cristã também lê o cordão escarlate como figura do sangue de Cristo, em eco da Páscoa; essa leitura tipológica é antiga, mas não aparece no Novo Testamento. O que o texto afirma é a trajetória de uma estrangeira que, pela fé, entra no povo de Deus.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Raabe escondeu dois espias israelitas em Jericó e depois os ajudou a escapar pela janela de sua casa, no muro da cidade. Os espias prometeram salvar a família dela quando Israel conquistasse a cidade, desde que ela prendesse um cordão vermelho na janela. Muitos cristãos veem no cordão uma figura do sangue de Jesus, mas o texto não diz isso. O que o texto mostra é a fé de Raabe e a promessa dos espias que salvou sua família.
Contexto histórico
Depois da morte de Moisés, Josué envia dois homens em segredo de Sitim para espiar a terra, especialmente Jericó (). Eles entram na casa de uma mulher chamada Raabe, descrita como prostituta (zonah), e passam a noite lá. O rei de Jericó é avisado e manda que a entreguem, mas ela os esconde entre os caules de linho no terraço e despista os enviados dizendo que os homens já tinham saído (2:2-7). É uma mentira que o texto narra sem aprovar nem condenar de modo explícito.
Antes de os espias dormirem, Raabe faz uma confissão surpreendente: sabe que o Senhor deu a terra a Israel, o terror de Israel caiu sobre os habitantes, e a notícia da secagem do mar Vermelho e da destruição dos reis amorreus Seom e Ogue os havia derretido de medo (2:8-11). Ela conclui: “o Senhor vosso Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra” (2:11). Pede, em troca do bem que lhes fez, que jurem pelo Senhor poupar sua família: pai, mãe, irmãos, irmãs e todos os seus (2:12-13). Os espias aceitam: “A nossa vida responderá pela vossa” (2:14).
É neste ponto que o texto narra o episódio central. Raabe os faz descer por uma corda pela janela, porque sua casa estava sobre o muro da cidade (2:15). Aconselha que se escondam nos montes por três dias, até os perseguidores desistirem (2:16). Os homens estabelecem as condições do juramento: quando Israel entrar na terra, ela deve atar à janela por onde os desceu um cordão de fio escarlate e reunir em casa toda a família (2:17-18). Quem sair da casa terá o sangue sobre a própria cabeça, e quem permanecer nela será protegido (2:19). Ela concorda e, depois que partem, ata o cordão à janela (2:21).
Em , quando as muralhas caem, os dois espias retiram Raabe e sua família e os põem fora do arraial de Israel (6:22-23), e o texto acrescenta que ela habitou em Israel até o dia em que o livro foi escrito (6:25). A narrativa é, portanto, de um acordo de misericórdia entre uma estrangeira e o povo de Deus no meio da conquista de Canaã, sustentado por uma confissão de fé.
Aprofundamento
A primeira observação é filológica. A corda que Raabe usa para descer os espias (2:15) é um chevel, uma corda comum. O cordão que ela deve atar à janela (2:18, 21) é a tiqvat chut hashani, “cordão de fio escarlate”. A palavra tiqvah também significa “esperança”, e aparece nesse sentido em e Salmo 71:5. Muitos leitores veem aí um jogo de palavras: o cordão é a esperança de Raabe. O texto, porém, não explora o trocadilho, e vale notar que tiqvah como cordão aparece somente em .
A segunda observação é sobre o que salva. Os espias não dizem que o cordão tem poder; é uma marca de identificação para os soldados que entrarão na cidade. A casa será poupada porque os espias juraram por Deus e porque Raabe agiu com fé: diz que ela não pereceu com os desobedientes, por ter acolhido em paz os espias, e destaca suas obras. A fé que a salva é a confissão do versículo 11, não o pedaço de tecido.
A terceira observação é sobre a leitura tipológica. Desde o século I, cristãos viram no cordão escarlate uma figura do sangue de Cristo. Clemente de Roma, em sua carta aos coríntios, afirma que o sinal mostrava que, pelo sangue do Senhor, haveria redenção para todos os que creem e esperam em Deus. Justino Mártir, no Diálogo com Trifão, faz uma leitura parecida. A associação se apoia em dois pontos: a cor vermelha e o paralelo com a Páscoa, em que o sangue nas ombreiras protegia as casas do juízo (), tema reforçado pela formulação de sobre quem fica dentro de casa e quem sai.
Essa leitura é antiga e edificante, mas tem limites. O texto de Josué não diz que o cordão era tingido com sangue, e a cor escarlate não é sangue (o fio escarlate é usado também em ritos de purificação, como em , mas não é o sangue). O Novo Testamento não faz a ligação explícita entre o cordão e Cristo; ele celebra a fé de Raabe e a coloca na genealogia de Jesus (). Por isso, é prudente tratá-la como uma leitura devocional ou tipológica da tradição, e não como o sentido claro do texto.
Há ainda um ponto teológico que a leitura tipológica ajuda a ver sem forçar: a salvação de Raabe, estrangeira e prostituta, mostra que a misericórdia de Deus alcança quem confessa o Senhor, antes mesmo de a nação inteira fazê-lo. Isso se alinha com o evangelho de Cristo sem que o cordão precise ser o sinal. A casa que permanece fechada diante do juízo é imagem do abrigo em Deus; o cordão marca a casa.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:O texto diz que o cordão era de sangue ou que simbolizava o sangue de Cristo.
fala de fio escarlate, e não de sangue. A ligação com a Páscoa e com Cristo é uma leitura da tradição (Clemente de Roma, Justino), não afirmação do texto nem do Novo Testamento.
Dizem que:O cordão da janela é o mesmo usado para descer os espias.
O hebraico usa palavras diferentes: chevel (corda) em 2:15 e tiqvah (cordão) em 2:18 e 21. Muitos leitores os identificam, mas o texto não faz isso de modo explícito.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura histórico-literal
O cordão é um sinal de identificação combinado para que os soldados israelitas reconhecessem a casa a ser poupada; o que salva é o juramento e a fé de Raabe.
Leitura tipológica patrística
Clemente de Roma e Justino Mártir veem no cordão escarlate uma figura do sangue de Cristo, em paralelo com o sangue da Páscoa; é leitura antiga, não afirmada pelo texto.
Leitura teológica da fé de Raabe
e destacam a fé e a ação de Raabe como o centro; ela é exemplo de como um estrangeiro entra no povo de Deus.
No original3 termos
תִּקְוָהtiqvahH8615
Cordão (em ) e também “esperança”; o mesmo vocábulo permite um jogo de sentidos que o texto não explora.
שָׁנִיshaniH8144
Escarlate, carmesim; cor de fio tingido, usada também em ritos de purificação.
זוֹנָהzonahH2181
Prostituta; o termo que descreve Raabe em .
O que fazer com isso
A história de Raabe lembra que a salvação, nos relatos bíblicos, depende da confiança em Deus e da obediência a quem fala em nome dele, e não de fórmulas. Para quem gosta de buscar símbolos no texto, vale a regra de distinguir entre o que a passagem diz e o que a tradição acrescentou: a leitura tipológica do cordão é valiosa, mas o centro do texto é a fé de uma estrangeira e a fidelidade ao juramento. Raabe lembra também que o passado de alguém não decide o futuro.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas5 obras
- Richard S. Hess. Joshua (Tyndale Old Testament Commentaries), 1996.
- Trent C. Butler. Joshua (Word Biblical Commentary), 1983.
- Robert G. Boling e G. Ernest Wright. Joshua (Anchor Bible), 1982.
- Clemente de Roma. Primeira Carta aos Coríntios.
- Justino Mártir. Diálogo com Trifão.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Raabe mentiu e ainda assim foi elogiada?
O texto narra a mentira sem comentário. e elogiam a fé e a ação de acolher os espias, e não o engano. Cristãos discutem se a mentira foi justificada ou apenas registrada.
A Raabe de Josué é a mesma de Mateus 1:5?
A maioria dos intérpretes identifica as duas, e o Novo Testamento a coloca na genealogia de Jesus. O texto de Mateus apenas diz Raabe, sem mais detalhes.
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