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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

A conquista que o próprio livro admite que não terminou

Por que os jebuseus continuaram vivendo em Jerusalém depois da conquista de Israel?

Mas aos jebuseus que habitavam em Jerusalém, os filhos de Judá não os puderam desarraigar; antes restaram os jebuseus em Jerusalém com os filhos de Judá, até hoje.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Depois de capítulos inteiros descrevendo vitórias totais e a divisão da terra prometida entre as tribos, admite, sem rodeios, que os filhos de Judá "não puderam expulsar os jebuseus" que viviam em Jerusalém, e que esse povo cananeu continuou habitando a cidade "até o dia de hoje", ao lado de Judá.

A frase quebra o ritmo triunfalista da narrativa e expõe uma tensão real dentro do próprio livro de Josué: ele afirma, em outros trechos, que a terra foi inteiramente subjugada (:43-45), mas também registra, pontualmente, bolsões de resistência cananeia que sobreviveram à campanha militar. Jerusalém só será efetivamente conquistada séculos depois, por Davi (), o que confirma, na prática, que a presença jebuseia mencionada aqui não foi um detalhe passageiro, mas uma realidade duradoura.

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Jerusalém, ainda sob controle estrangeiro neste momento, se tornará mais tarde a cidade de Davi e o centro simbólico da esperança messiânica — o lugar de onde, segundo a profecia, sairia o governo do descendente de Davi. A trajetória da cidade, de território não conquistado a capital do reino davídico, espelha uma promessa que se cumpre de forma gradual, não instantânea.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Depois de descrever a conquista de Canaã como uma vitória completa, o livro de Josué admite que a tribo de Judá não conseguiu expulsar os jebuseus, o povo que morava na cidade que depois se tornaria Jerusalém. Esse povo continuou vivendo ali, ao lado dos israelitas, por muito tempo. Só séculos depois, o rei Davi conquista de fato essa cidade e a transforma em sua capital. Isso mostra que a conquista de Canaã foi mais lenta e incompleta do que os capítulos mais triunfantes do livro podem sugerir.

Contexto histórico

descreve em detalhe a herança territorial da tribo de Judá, listando cidades e fronteiras com precisão quase cartográfica. O versículo 63 interrompe essa lista administrativa com uma nota que reconhece um fracasso militar específico e localizado: os jebuseus, população cananeia que ocupava a cidade posteriormente conhecida como Jerusalém, resistiram à expulsão e permaneceram na região, convivendo com Judá em vez de serem completamente subjugados ou exterminados.

Esse padrão de conquista incompleta não é exclusivo desse versículo: , capítulo que retoma e detalha o período imediatamente posterior a Josué, lista uma série semelhante de povos não expulsos, incluindo os próprios jebuseus (), numa espécie de balanço mais sóbrio da campanha militar do que a retórica vitoriosa de boa parte de Josué. A cidade de Jerusalém, estrategicamente situada em terreno elevado e bem fortificada, era um alvo particularmente difícil — sua topografia e muralhas antigas, confirmadas por escavações arqueológicas na área da atual Cidade de Davi, explicam parcialmente por que ela resistiu onde outras cidades caíram.

A conquista efetiva de Jerusalém só ocorre décadas depois, já no reinado de Davi, quando ele captura a fortaleza jebuseia por meio de um ataque descrito com detalhe topográfico em , tornando-a sua capital com o nome de Cidade de Davi. Esse desfecho tardio confirma retrospectivamente que a nota de não era retórica exagerada nem detalhe sem importância: os jebuseus realmente controlaram Jerusalém por um período histórico significativo depois da chegada de Israel a Canaã, o que os estudiosos situam entre o século XIII e o início do século X a.C., dependendo da cronologia adotada para o Êxodo e a conquista.

Vale notar que a menção de 15:63 refere-se especificamente à tribo de Judá, enquanto atribui a mesma falha de expulsão à tribo de Benjamim, já que Jerusalém ficava exatamente na fronteira entre os territórios das duas tribos — detalhe geográfico que ajuda a explicar por que nenhuma das duas conseguiu, isoladamente, subjugar uma cidade tão bem fortificada e situada em posição estratégica ambígua entre suas respectivas heranças.

Aprofundamento

A tensão entre a linguagem totalizante de ("tomou, pois, Josué toda esta terra") e 21:43-45 ("não faltou uma só palavra de todas as boas promessas que o Senhor falara") e notas pontuais como 15:63 é discutida extensamente por comentaristas. Richard S. Hess argumenta que a retórica de conquista total em Josué segue convenções literárias do antigo Oriente Próximo, em que anais reais descreviam vitórias em termos hiperbólicos e totalizantes mesmo quando a subjugação efetiva do território permanecia parcial ou gradual — um padrão bem documentado em inscrições egípcias e hititas da época, que também afirmam controle total sobre regiões onde, na prática, bolsões de resistência local persistiam por gerações.

K. Lawson Younger Jr., especialista em retórica de conquista do antigo Oriente Próximo, mostra em seu estudo comparativo que esse tipo de linguagem totalizante e a menção pontual de exceções não eram consideradas contraditórias pelos próprios autores e leitores antigos: a afirmação de vitória total funcionava em nível teológico e ideológico — Deus cumpriu sua promessa de entregar a terra —, enquanto notas específicas sobre resistência local documentavam a realidade militar concreta e incompleta enfrentada geração após geração. Essa leitura ajuda a explicar por que o mesmo livro pode afirmar conquista total e, poucos capítulos depois, admitir fracassos pontuais sem que os editores antigos tenham sentido necessidade de harmonizar as duas afirmações.

A referência cruzada mais direta é , que repete quase literalmente a informação sobre os jebuseus em Jerusalém, mostrando continuidade editorial entre os dois livros na documentação desse fracasso específico. A conquista posterior por Davi em é lida por comentaristas como Robert Alter, em suas notas de tradução da narrativa histórica hebraica, como o ponto culminante de um arco narrativo iniciado ainda em Josué: só sob a monarquia unificada, e não durante o período dos juízes, Jerusalém finalmente passa ao controle israelita — o que também carrega peso teológico, já que a cidade se torna, a partir de Davi, o centro simbólico e cúltico definitivo da fé de Israel.

Vale notar que o próprio nome hebraico da cidade, Yerushalaim, tem etimologia debatida, mas pelo menos parte da tradição associa sua raiz a shalom ("paz"), ironia notável para uma cidade cuja posse foi disputada por séculos entre cananeus e israelitas antes de se tornar, sob Davi e depois sob Salomão, o centro político e religioso mais estável e duradouro de toda a história do Israel bíblico.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:A Bíblia se contradiz de forma irreconciliável ao afirmar conquista total e depois admitir que povos permaneceram.

    A linguagem de conquista total em Josué segue convenções retóricas do antigo Oriente Próximo, que expressavam cumprimento teológico da promessa sem negar, no mesmo corpo literário, exceções militares pontuais documentadas de forma direta pelo próprio texto.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Católica

    Lê a tensão entre conquista total e resistência pontual como parte de uma teologia da história em que a promessa divina se realiza de forma progressiva e não mecânica, com espaço para a resposta humana e suas falhas.

  • Protestante evangélica

    Costuma explicar a tensão apelando à distinção entre a garantia teológica da promessa (cumprida) e a responsabilidade humana na execução militar (parcialmente falha), sem tratar isso como erro no texto.

No original1 termo
  • יְבוּסִיYevusiH3009

    "Jebuseu", gentílico do povo cananeu que ocupava Jerusalém antes da conquista davídica; usado em para identificar o grupo específico que resistiu à expulsão pretendida pela tribo de Judá.

O que fazer com isso

O texto ensina, sem dizer isso explicitamente, que promessas cumpridas por Deus nem sempre se traduzem em vitórias imediatas e completas na experiência histórica concreta do povo. A fidelidade divina e o fracasso humano parcial podem coexistir no mesmo relato sem anular um ao outro — um convite a desconfiar de leituras triunfalistas simplistas da vida de fé, que ignoram lutas reais e inacabadas.

Passagens relacionadas5

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • Richard S. Hess. Joshua: An Introduction and Commentary (TOTC), 1996.
  • K. Lawson Younger Jr.. Ancient Conquest Accounts, 1990.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem finalmente conquistou Jerusalém dos jebuseus?

O rei Davi, vários séculos depois de Josué, conforme relatado em , quando ele toma a fortaleza e a transforma na Cidade de Davi.

Josué 15:63 contradiz Josué 11:23?

É uma tensão real dentro do texto, não necessariamente uma contradição lógica: a linguagem de conquista total em 11:23 segue convenções retóricas antigas de vitória, enquanto 15:63 documenta uma exceção militar concreta e localizada.

Temas

  • Davi
  • #jebuseus
  • #jerusalem
  • #josue
  • #conquista-de-canaa
  • #contradicao-biblica

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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