
Quem é essa figura com roupas manchadas de sangue de vingança?
Quem é essa figura com roupas manchadas de sangue em Isaías 63?
Quem é este, que vem de Edom, de Bozra, com vestes salpicadas de vermelho, este ornado em sua vestimenta, que marcha com grande força? Eu, o que falo em justiça, poderoso para salvar. Por que tu estás de roupa vermelha, e tuas vestes como de alguém que pisa em uma prensa de uvas? Eu sozinho pisei na prensa de uvas, e ninguém dos povos houve comigo; e os pisei em minha ira, e os esmaguei em meu furor; e o sangue deles salpicou sobre minhas roupas, e sujei toda a minha roupa.
Resposta curta
abre com uma cena de sentinela: alguém avista à distância uma figura imponente vindo de Edom, da cidade de Bozra, com roupas manchadas de vermelho e passo firme e poderoso. A pergunta "Quem é este?" ecoa espanto e cautela diante de alguém que se aproxima com força visível demais para ser ignorada.
A resposta vem da própria figura: "Eu, o que falo em justiça, poderoso para salvar." Questionado sobre o vermelho das vestes, ele explica que pisou sozinho a prensa de uvas — imagem de esmagar povos em julgamento — e o sangue deles espirrou sobre sua roupa. É um retrato do juízo divino contra a opressão: não uma derrota, mas uma vitória sangrenta e solitária.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaApocalipse retoma quase literalmente o vocabulário desta cena — manto tinto de sangue, ato de pisar o lagar — e o aplica a Cristo retornando como juiz e guerreiro no fim dos tempos. A mesma autoidentificação que a figura de faz de si mesma ("o que falo em justiça, poderoso para salvar") é o papel que o Novo Testamento atribui ao Cristo ressuscitado: aquele a quem pertence tanto o juízo quanto a salvação. É importante notar que o sangue em Isaías é o dos inimigos julgados, não um retrato do sacrifício voluntário de Cristo na cruz — a ligação é de continuidade de papel (juiz-salvador), não de identificação direta entre as duas cenas de sangue.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
Este texto integra uma seção maior () situada ao final da segunda parte do livro de Isaías (capítulos 40-66), voltada ao futuro de restauração de Israel. O gênero é uma cena dramática de pergunta e resposta, recurso que Isaías usa em outros lugares (como a sentinela de ) para criar suspense diante de uma figura que se aproxima ao longe. Edom era o território ao sul e sudeste de Judá, habitado pelos descendentes de Esaú (), irmão de Jacó. Ao longo do Antigo Testamento, Edom aparece repetidas vezes como adversário histórico de Israel: recusou passagem ao povo no deserto () e, segundo Obadias e Salmo 137:7, participou ou se alegrou da queda de Jerusalém diante dos babilônios. Bozra era uma das principais cidades edomitas, citada também em e como alvo de julgamento. Por isso, na literatura profética, Edom funciona como representante simbólico dos povos hostis ao povo de Deus, não apenas como referência geográfica isolada.
A imagem central — pisar a "prensa de uvas", o lagar — vem de uma prática agrícola concreta: uvas eram esmagadas com os pés em um tanque de pedra, e o suco vermelho escorria e respingava nas roupas de quem pisava. Isaías usa essa cena cotidiana como metáfora de violência bélica: os inimigos são "pisados" como uvas, e o líquido vermelho que mancha as vestes representa o sangue derramado no combate. A ênfase recai sobre o fato de que ele pisou "sozinho", sem exército ou aliado humano — traço que reaparece em , onde Deus age porque "não havia ninguém" para interceder. Comentaristas como Keil e Delitzsch e John Oswalt observam que essa solidão do guerreiro reforça a ideia de que a vitória e o juízo pertencem exclusivamente a Deus, sem mérito humano compartilhado. O texto não descreve, portanto, um evento histórico específico e datável, mas uma visão profética do caráter de Deus como juiz que finalmente confronta a violência e a opressão sofridas por seu povo.
Aprofundamento
A dificuldade desta passagem está na violência explícita da imagem: um Deus coberto de sangue, esmagando povos com força bruta. O texto não celebra a violência por si mesma, mas apresenta o juízo como resposta a uma injustiça acumulada — a mesma seção, no versículo 4, menciona o "dia da vingança" ao lado do "ano dos redimidos", unindo julgamento e libertação como duas faces de um único ato salvador. Para quem sofreu opressão histórica, a promessa de que o mal será finalmente confrontado não soa como sadismo, mas como justiça.
Um ponto de debate entre comentaristas é se a cena descreve um evento histórico concreto — como uma campanha militar contra Edom em algum período posterior ao exílio — ou se é inteiramente uma visão escatológica, sem referente histórico único e datável. A maioria dos comentaristas modernos, como John Oswalt, tende à segunda leitura: Edom funciona como símbolo literário de toda nação hostil a Deus, e a cena aponta para um juízo final e definitivo, não para um episódio isolado da história de Israel.
O Novo Testamento retoma essa imagem de forma direta. descreve Cristo retornando montado em um cavalo branco, com um manto "tinto de sangue", pisando "o lagar do vinho do furor da ira de Deus Todo-Poderoso" — vocabulário muito próximo ao de . Um detalhe que chama atenção de comentaristas do Apocalipse é o momento do sangue: em Isaías, ele aparece depois da batalha, resultado de pisar os inimigos; em Apocalipse, o manto já parece manchado antes do combate, o que abre espaço para também ecoar o sangue do próprio Cordeiro (). Essa segunda camada é leitura teológica do Novo Testamento, não uma afirmação do texto de Isaías, que fala exclusivamente do sangue dos julgados.
A pergunta "quem é este?" funciona literariamente como um convite à identificação: o leitor é levado a reconhecer, pela resposta da própria figura — "o que falo em justiça, poderoso para salvar" —, que se trata do próprio Deus revelando seu caráter, não um guerreiro estrangeiro anônimo, mas aquele que Israel já conhecia como justo e salvador. Por isso a tradição cristã, lendo o Antigo Testamento à luz do Novo, reconheceu nessa autoidentificação ecos do papel que o Novo Testamento atribui a Cristo. A passagem funciona tanto como advertência quanto como consolo: o mal não ficará impune, e a justiça final pertence a quem também tem poder para salvar.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:As roupas manchadas de sangue nesta passagem representam o sangue do próprio Cristo derramado na cruz, uma imagem do sacrifício expiatório.
O texto diz claramente que o sangue veio de "pisar" os povos na prensa de uvas em juízo — é sangue dos inimigos esmagados, não sangue derramado voluntariamente em sacrifício. É uma imagem de guerra e vingança, não de expiação.
Dizem que:Edom, nesta profecia, é o nome de uma nação específica que ainda existirá nos últimos dias e precisa ser identificada geograficamente hoje.
Nos profetas do Antigo Testamento, incluindo Isaías, Edom funciona como símbolo literário dos povos historicamente hostis ao povo de Deus (compare com Obadias), não como uma peça de um mapa geopolítico a ser localizada no presente.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada/evangélica
Enfatiza o caráter primariamente escatológico da cena: a figura é o Messias-guerreiro (identificado com Deus mesmo) retornando em juízo final contra tudo o que se opõe a ele, cumprido de modo pleno no retorno de Cristo descrito em .
Católica
Reconhece o sentido original de juízo, mas também associa historicamente a imagem das vestes ensanguentadas à Paixão de Cristo — leitura que enxerga no guerreiro solitário que "pisa o lagar sozinho" uma antecipação figurada do Calvário, onde Cristo enfrentou sozinho o peso do pecado.
Ortodoxa
Lê a cena como teofania — manifestação do próprio Deus (para muitos Padres da Igreja, o Logos antes da encarnação) — enfatizando a continuidade entre as aparições de poder e justiça de Deus no Antigo Testamento e a pessoa de Cristo revelada no Novo.
Pentecostal/carismática
Destaca a dimensão de poder e vitória sobre o mal presente no texto, aplicando a imagem à vitória final de Cristo sobre as forças espirituais hostis, com ênfase nas palavras "força" e "poderoso para salvar" como promessa presente de libertação.
No original4 termos
אֱדוֹםEdomH123
nome do território e do povo descendente de Esaú, ao sul/sudeste de Judá, tradicionalmente hostil a Israel
בָּצְרָהBotsrah
cidade principal de Edom, citada como alvo de julgamento também em e
פּוּרָהpurah
lagar ou prensa de uvas, tanque onde as uvas eram pisadas com os pés para extrair o suco
יָשַׁעyasha (na forma לְהוֹשִׁיעַ, lehoshia)H3467
salvar, livrar; raiz da qual vem também o nome Josué/Jesus
O que fazer com isso
Diante de injustiças que parecem ficar impunes, este texto lembra que o mal não terá a palavra final — há um limite para a violência e a opressão, garantido pelo próprio caráter de Deus. Isso não autoriza ninguém a tomar vingança pelas próprias mãos (); ao contrário, liberta da necessidade de "acertar contas" sozinho, permitindo confiar essa tarefa a quem julga com justiça e também tem poder para salvar — o mesmo Deus retratado nesta cena difícil de Isaías.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas4 obras
- John N. Oswalt. The Book of Isaiah, Chapters 40-66 (NICOT), 1998.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: Isaiah, 1877.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- G. K. Beale. The Book of Revelation (NIGTC), 1999.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Essa figura é Deus Pai ou é Jesus?
O texto original de Isaías identifica a figura apenas como "Eu, o que falo em justiça, poderoso para salvar" — uma autorrevelação de Deus como guerreiro-salvador, sem distinção de pessoas. O Novo Testamento () aplica essa mesma imagem a Cristo, mostrando continuidade entre o caráter de Deus revelado no Antigo Testamento e a obra de Cristo.
Por que Deus aparece tão violento nessa passagem?
A imagem representa o juízo final contra o mal e a opressão, não um retrato geral e constante do caráter de Deus. A mesma seção, no versículo seguinte, fala do "ano dos redimidos" ao lado do "dia da vingança", mostrando que julgamento e libertação caminham juntos no texto.
O sangue nas roupas da figura é o sangue de Cristo derramado na cruz?
Não, no texto de Isaías é o sangue dos povos julgados, esmagados como uvas no lagar — uma metáfora de guerra e juízo, não de sacrifício voluntário. A associação com o sangue de Cristo é uma leitura teológica posterior, feita a partir de outros textos do Novo Testamento.
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