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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Textos eticamente difíceis

O avestruz 'cruel' com os filhotes — porque Deus quis assim

Por que Deus fez o avestruz negligente com os próprios filhotes?

As asas da avestruz batem alegremente, mas são suas asas e penas como as da cegonha? Ela deixa seus ovos na terra, e os esquenta no chão, E se esquece de que pés podem os pisar, e os animais do campo podem os esmagar. Age duramente para com seus filhos, como se não fossem seus, sem temer que seu trabalho tenha sido em vão. Porque Deus a privou de sabedoria, e não lhe repartiu entendimento. Porém quando se levanta para correr, zomba do cavalo e do seu cavaleiro.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

Em , Deus descreve o avestruz como uma ave que abandona os próprios ovos na areia, sem cuidado, arriscando que sejam pisoteados ou esmagados, 'esquecendo-se' de que um pé pode espatifá-los. O texto atribui essa aparente negligência diretamente a Deus: 'porque Deus a fez esquecer-se da sabedoria, e não lhe deu entendimento' (v. 17).

É um dos trechos mais desconfortáveis do discurso divino, porque parece descrever crueldade programada de propósito na própria estrutura da criação. O ponto de Deus, porém, não é celebrar a crueldade, mas mostrar que ele governa e sustenta até as criaturas cujo comportamento parece absurdo ou falho aos olhos humanos — e que sua sabedoria administrativa sobre o mundo animal não segue a lógica de conforto ou justiça que Jó gostaria de aplicar ao próprio caso.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

A ligação com Cristo aqui é genuinamente indireta: o texto fala da soberania de Deus sobre criaturas imperfeitas aos olhos humanos, um tema que se conecta apenas de longe à revelação de Cristo como aquele por quem e para quem toda a criação, com suas tensões e imperfeições aparentes, foi feita e será restaurada.

Respaldo no Novo Testamento:

Em palavras simples

Deus mostra a Jó o avestruz como exemplo de um animal que parece não cuidar bem dos próprios filhotes: ela deixa os ovos largados no chão, correndo o risco de serem pisoteados, e trata os filhotes de um jeito duro. O texto diz que foi Deus quem fez o avestruz assim, sem lhe dar aquele tipo de instinto protetor. É uma passagem incômoda, porque parece colocar essa aparente falta de cuidado dentro do plano de Deus para a criação, e não como um simples acidente da natureza.

Contexto histórico

continua a extensa lista de animais que Deus apresenta a Jó como prova de sua soberania sobre a criação — leão, corvo, cabra montesa, jumento selvagem, boi selvagem, avestruz, cavalo de guerra, falcão e águia. O padrão é consistente: Deus escolhe criaturas que, de alguma forma, escapam ao controle e à utilidade humana direta, ao contrário dos animais domésticos com que Jó lidava no cotidiano, reforçando a ideia de que a administração divina do mundo é muito mais ampla do que o âmbito de gestão que qualquer ser humano, mesmo o mais rico e poderoso, poderia supervisionar.

A descrição do avestruz nos versículos 13-18 chama atenção por seu tom quase cômico e ao mesmo tempo perturbador: a ave bate as asas com alegria ('renanim', literalmente 'as que dão gritos alegres'), mas não tem penas com força de voo real como a cegonha; abandona os ovos no chão como se fossem de outra ave; trata os filhotes com dureza 'como se não fossem seus'; e, apesar de tudo isso, quando corre, 'escarnece do cavalo e do cavaleiro' — é rápida e livre demais para ser dominada. A observação sobre a negligência reprodutiva do avestruz tinha base em comportamento real observável no mundo antigo: essas aves de fato constroem ninhos rasos na areia e não exibem o mesmo padrão de proteção contínua dos ovos que outras aves praticam.

O detalhe teologicamente carregado é o versículo 17: o texto não apresenta isso como um defeito acidental da natureza ou um erro evolutivo neutro, mas como algo que Deus mesmo determinou — 'Deus a fez esquecer-se da sabedoria'. Essa atribuição direta é o que torna a passagem eticamente difícil: ela coloca a aparente falha de cuidado parental do avestruz dentro do desenho intencional da criação, e não como uma imperfeição alheia à vontade divina, forçando o leitor a lidar com a ideia de que nem tudo o que parece falho ou cruel na natureza é acidental aos olhos de Deus.

Aprofundamento

O nome hebraico do avestruz nesse trecho é רְנָנִים (renanim, de רָנַן, ranan, 'gritar de alegria', Strong H7442), um nome de sabor irônico: a ave batiza-se por seu grito jubiloso e por bater as asas, mas o texto logo revela que essa alegria aparente não se traduz em cuidado parental. O verbo usado para a negligência com os filhotes em 39:16, הִקְשִׁיחַ (hiqshiach, de קָשָׁה qashah, 'ser duro'), descreve um endurecimento deliberado no tratamento da prole — não apenas descuido casual, mas algo próximo de insensibilidade estrutural.

Norman Habel, no comentário The Book of Job na Old Testament Library, observa que o catálogo de animais em é organizado para desafiar categorias antropocêntricas de valor: Deus se orgulha e sustenta com cuidado criaturas que, por padrões humanos de eficiência e ternura parental, pareceriam fracassadas ou mal desenhadas. John E. Hartley, no comentário NICOT, argumenta que o ponto teológico central não é uma afirmação sobre biologia comparada, mas sobre o alcance da sabedoria administrativa de Deus: ele sustenta e dá liberdade até a criaturas cujo comportamento parece, à primeira vista, contrário à sabedoria — o avestruz é 'tola' com os filhotes, mas velocíssima e livre quando corre, e Deus reivindica autoria sobre esse pacote completo, contraditório aos olhos humanos.

Há debate genuíno sobre até onde essa passagem deveria influenciar a teologia da criação de forma mais ampla. Alguns comentaristas evitam conclusões filosóficas extensas, tratando o texto como retórica pontual do discurso divino para confrontar Jó, não como um tratado sistemático sobre sofrimento animal. Outros, incluindo discussões contemporâneas sobre teodiceia envolvendo o sofrimento não-humano, usam esse texto como evidência bíblica de que a Bíblia já reconhecia, muito antes do debate moderno sobre 'mal natural', que a criação contém elementos que humanos percebem como negativos ou cruéis, sem que isso implique falha na obra divina — a categoria de 'crueldade' aplicada ao avestruz é uma projeção humana sobre um comportamento cuja função dentro do ecossistema mais amplo o texto não detalha, mas também não nega ser real desconforto ético para quem lê. Essa honestidade — o texto não neutraliza o incômodo, apenas o situa dentro da soberania divina — é parte do que torna a passagem genuinamente difícil e não apenas retoricamente resolvida.

Vale ainda observar o contraste deliberado dentro do próprio texto: os versículos que descrevem a negligência do avestruz (13-18) terminam descrevendo sua velocidade extraordinária ao correr, superior à de cavalo e cavaleiro. O discurso divino recusa uma avaliação simples de 'animal falho'; ele apresenta uma criatura simultaneamente deficiente num aspecto e espetacular em outro, como se dissesse a Jó que julgamentos totalizantes sobre o valor ou o desenho de uma criatura — e, por extensão, sobre o sentido de uma vida — são precipitados quando baseados em apenas um ângulo de observação.

O que costumam dizer errado1 afirmação
  • Dizem que:O texto ensina que Deus é indiferente ou cruel por natureza, já que 'programou' a crueldade no avestruz.

    O ponto do discurso divino é a extensão da sabedoria administrativa de Deus sobre toda a criação, incluindo comportamentos que humanos rotulam como cruéis. Não é uma afirmação sobre o caráter moral de Deus, mas sobre o alcance de seu governo sobre criaturas com comportamentos muito diferentes dos humanos.

Como diferentes tradições cristãs leem1 leitura

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Teologia da criação contemporânea

    Alguns teólogos usam esse texto para argumentar que a Bíblia já reconhecia, sem se envergonhar, a existência de elementos desconfortáveis dentro da ordem natural criada por Deus, contra leituras que idealizam a criação original como isenta de qualquer aspereza.

No original1 termo
  • רְנָנִיםrenanimH7442

    Nome hebraico do avestruz, ligado ao verbo 'gritar de alegria'; ironicamente contrasta com a descrição de dureza da ave para com os próprios filhotes.

O que fazer com isso

A passagem confronta a expectativa de que toda a criação deveria funcionar segundo padrões humanos de ternura e eficiência. Há comportamentos na natureza que parecem duros ou sem sentido, e o texto não finge que não sejam desconfortáveis — apenas afirma que estão sob a autoria e o cuidado administrativo de Deus. Isso não resolve toda pergunta sobre sofrimento animal, mas evita simplificações fáceis demais em qualquer direção.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas2 obras
  • Norman C. Habel. The Book of Job (Old Testament Library), 1985.
  • John E. Hartley. The Book of Job (NICOT), 1988.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Deus é responsável pela negligência do avestruz segundo Jó 39?

O texto atribui diretamente a Deus a falta de 'sabedoria' e 'entendimento' dada ao avestruz para o cuidado com os filhotes, usando isso como exemplo da amplitude da soberania divina sobre comportamentos animais que parecem contrários à lógica humana de cuidado parental.

Temas

Publicado em 16/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 2 obras citadas, com autor e ano
  • 1 afirmação popular checada e refutadas
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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